Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

domingo, 30 de agosto de 2020

Que tal andas de presença de Deus?

Falta-te vida interior, porque não levas à oração as preocupações dos teus e o proselitismo; porque não te esforças por ver claro, por fazer propósitos concretos e por cumpri-los; porque não tens visão sobrenatural no estudo, no trabalho, nas tuas conversas, na tua relação com os outros... – Que tal andas de presença de Deus, consequência e manifestação da tua oração? (Sulco, 447)

Sempre que sentimos no nosso coração desejos de melhorar, de responder mais generosamente ao Senhor, e procuramos um guia, um norte claro para a nossa existência cristã, o Espírito Santo traz à nossa memória as palavras do Evangelho: importa orar sempre e não cessar de o fazer.

A oração é o fundamento de todo o trabalho sobrenatural; com a oração somos omnipotentes; se prescindíssemos deste recurso, nada conseguiríamos.

Eu gostaria que hoje, na nossa meditação, nos persuadíssemos definitivamente da necessidade de nos dispormos a ser almas contemplativas no meio do mundo e do trabalho, com uma conversa contínua com o nosso Deus, a qual não deve esmorecer ao longo do dia. Se pretendemos seguir lealmente os passos do Mestre, este é o único caminho

É muito importante – perdoai a minha insistência – observar os passos do Messias, porque Ele veio mostrar-nos o caminho que nos leva ao Pai: descobriremos, com Ele, como se pode dar relevo sobrenatural às actividades aparentemente mais pequenas; aprenderemos a viver cada instante com vibração de eternidade e compreenderemos com maior profundidade que a criatura precisa desses tempos de conversa íntima com Deus, para privar com Ele na sua intimidade, para invocá-lo, para ouvi-lo ou, simplesmente, para estar com Ele. (Amigos de Deus, 238–239)

São Josemaría Escrivá

Bom Domingo do Senhor!

Depositemos sempre uma total confiança no Senhor e mesmo quando nos pareça mau é certamente muito bom. Os apóstolos e Pedro em particular no Evangelho de hoje (Mt 16, 21-27) duvidaram da palavra do Senhor, por não quererem aceitar o que lhes parecia muito mau.

Senhor é Bom Pastor e nada nos faltará!

QUERER, VER, CRER

Tinham-lhe dito que Ele ia estar ali.
Não sabia muito bem como, mas no fundo do seu coração, queria acreditar que sim, que Ele estaria ali, naquele local e, sobretudo, que ele poderia falar com Ele e pedir-Lhe o que tanto necessitava.

Há muito que andava a pensar na sua vida, na vida que levava, e a conclusão a que chegava é que o abismo se abria inexorável no seu futuro, se não mudasse radicalmente de vida, iria acabar mal, muito mal, e muito, muito sozinho.

Sim, é verdade, que desde a mais tenra idade lhe diziam que Ele estava ali, aliás, que Ele estava em todo o lado, mas muito especialmente, naquele local e naquele preciso sítio.
E durante algum tempo também ele por ali andou, e até acreditou que sim, mas depois tudo se tinha “diluído” numa vida sem sentido, numa vida que, reconhecia agora, a nada levava, não tinha amor, (talvez amores fugazes), não tinha confiança, (embora ele parecesse cheio dela), não tinha esperança, (embora ele colocasse a sua vida numa espécie de sorte).

Entrou no edifício e ficou contente porque estava vazio, sem ninguém.
Já lá tinha entrado com gente, mas os olhares de reprovação que tinha sentido, as palavras murmuradas nas suas costas, pareciam querer impedi-lo de se aproximar dEle.
Curiosamente, tinha parecido ao seu coração, que Ele, lá no sítio onde estava, tinha dito àquela gente para o deixarem passar, para o deixarem chegar “à fala” com Ele, para o chamarem.

Entrou, sentou-se em frente daquela “caixa” resplandecente e reparou numa pequena luz que estava ao lado da “caixa”.
Tinham-lhe dito, quando era menino, que a luz significava que Ele estava ali!
Deixou-se ficar ali, a olhar, a olhar, sem saber o que fazer, sem saber o que dizer.

Ouviu então distintamente, (pelo menos assim lhe pareceu), uma voz que disse: «Que queres que te faça?» Lc 18, 41

Surpreendido, respondeu sem pensar: «Senhor, que eu veja!» Lc 18, 41
E insistiu: «Senhor, que eu Te possa ver!»

Uma calma, uma serenidade, um amor, tomou conta daquele lugar, daquele momento, tomou conta de si mesmo.
No fundo do seu coração nasceu uma certeza, ainda ténue, mas convicta, que tudo ia mudar, que a sua vida não seria mais a mesma, que encontraria sentido nAquele que com ele falava, sem palavras audíveis, mas com amor sensível, isto é, com amor que ele podia sentir verdadeiramente.

Apenas uma frase, tantas vezes ouvida e repetida, veio ao seu pensamento, ao seu coração, e disse-a baixinho, com medo de “estragar” aquele momento: «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!» Mc 9, 24

Sentiu-se profundamente abraçado, num amor indescritível, e ouviu a voz dEle, repassada de ternura: «Vê. A tua fé te salvou.» Lc 18, 43

Monte Real, 30 de Agosto de 2017

Joaquim Mexia Alves

Nota: Esta é uma história que, sem dúvida, retrata a minha vida.

Cultivar a reflexão na era digital

Se até há uns anos atrás a dificuldade de muitas pessoas era a falta de informação, hoje em dia o problema é o seu excesso. Vivemos saturados de notícias por todos os lados.

Podemos ter oitenta canais de televisão, mas isso não nos dá a capacidade de ver de modo ponderado mais do que um por vez. Nem parece ser verdade que o zapping constante torne as pessoas mais bem informadas. A televisão é o reino dos sentimentos, não, em geral, do convite ao pensamento perspicaz.

A abundância de canais de informação também não nos permitem tirar a conclusão de que devemos dedicar mais tempo às novas tecnologias para estarmos verdadeiramente informados.

Isso significa que necessitamos cultivar com empenho uma atitude que, se sempre foi essencial, hoje em dia é imprescindível para não cair no perigo do pensamento único e politicamente correcto: a reflexão.

Foi o pensamento débil que deu à luz o pensamento único. E o pensamento débil germinou devido à falta de reflexão, regada por copiosas chuvas de superficialidade.

Como possuir, então, capacidade de reflexão?

Cultivando uns sábios hábitos que desde sempre facilitaram o seu exercício: a temperança e o estudo pessoal.

Sem temperança, uma pessoa deixa-se arrastar pelo mais prazenteiro e não consegue controlar a sua ânsia de estar informado. É a falta de temperança que explica fenómenos de anseio descontrolado e doentio por saber tudo, estar informado de tudo e não desconectar nunca.

O hábito do estudo possui uma estreita relação com a temperança. Uma pessoa não temperada não consegue estudar, ou seja, dirigir virtuosamente o afã de conhecer. Sem a superação da dispersão e da preguiça intelectual não é possível entender a realidade com um mínimo de profundidade.

Como alguém disse, não pensar torna a vida frívola. No entanto, pensar em tudo com profundidade torna-a completamente angustiante.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

As aparência e os «slogans» que desvirtuam a realidade

“Muitas vezes, deixamo-nos impressionar e condicionar pelas aparências e os ‘slogans’ que desnaturam as coisas. Procuremos ver, para lá do que parece, a centelha de bondade que ali está depositada e que poderá iluminar o nosso juízo

(Bento XVI – Angelus de 11.11.12)

«Siga-Me»

São Cesário de Arles (470-543), monge e bispo
Sermão 159; CCL 104, 650

Ao pecar, o homem enchera o seu caminho de obstáculos, mas este ficou facilitado quando Cristo o pisou com a Sua ressurreição e transformou um carreiro estreito numa avenida digna de um rei. A humildade e a caridade são os dois pés que permitem percorrê-la rapidamente. Todos são atraídos para as alturas da caridade, mas a humildade é o primeiro degrau que é preciso subir. Porque levantas o pé acima de ti? Afinal queres subir ou queres cair? Começa pelo primeiro degrau, ou seja, pela humildade, e ele te permitirá subir.

Eis porque o nosso Senhor e Salvador não Se limitou a dizer: «Renuncie a si mesmo», mas antes acrescentou: «Tome a sua cruz e siga-Me». Que significa: tome a sua cruz? Suporte tudo o que lhe é penoso, pois é assim que caminhará atrás de Mim. Assim que tiver começado a seguir-Me, adaptando-se à Minha vida e aos Meus mandamentos, encontrará no seu caminho muitas pessoas que o contradirão, que procurarão desviá-lo, que não apenas troçarão dele mas o perseguirão. Essas pessoas não se encontram somente entre os pagãos que estão fora da Igreja; encontram-se até entre os que, vistos do exterior, parecem estar na Igreja. [...]

Portanto, se desejas seguir Cristo, toma a tua cruz sem mais demora e suporta os maus sem te deixares abater. [...] «Se alguém quiser vir Comigo, tome a sua cruz e siga-Me.» Se quisermos pôr isto em prática, esforcemo-nos, com a ajuda de Deus, por fazer nossas estas palavras do apóstolo Paulo: «Se tivermos de que nos alimentar e vestir, contentemo-nos com isso». Há o perigo de, ao procurarmos mais bens terrestres do que aqueles de que precisamos, «querendo enriquecer», virmos a «cair na armadilha da tentação, numa quantidade de desejos absurdos e perigosos, que precipitam as pessoas na ruína e na perdição» (1Tm 6,8-9). Que o Senhor Se digne tomar-nos sob a Sua protecção e livrar-nos desta tentação.

sábado, 29 de agosto de 2020

Desculpar a todos

Só serás bom, se souberes ver as coisas boas e as virtudes dos outros. Por isso, quando tiveres de corrigir, fá-lo com caridade, no momento oportuno, sem humilhar... e com intenção de aprender e de melhorar tu próprio, naquilo que corriges. (Forja, 455)

Uma das suas primeiras manifestações concretiza-se em iniciar a alma nos caminhos da humildade. Quando sinceramente nos consideramos nada; quando compreendemos que, se não tivéssemos o auxílio divino, a mais débil e fraca das criaturas seria melhor do que nós; quando nos vemos capazes de todos os erros e de todos os horrores; quando nos reconhecemos pecadores, embora lutemos com empenho por nos afastarmos de tantas infidelidades, como havemos de pensar mal dos outros? Como se poderá alimentar no coração o fanatismo, a intolerância, o orgulho?

A humildade leva-nos pela mão a tratar o próximo da melhor forma: compreender a todos, conviver com todos, desculpar a todos; não criar divisões nem barreiras; comportarmo-nos – sempre! – como instrumentos de unidade. Não é em vão que existe no fundo do homem uma forte aspiração à paz, à união com os seus semelhantes e ao respeito mútuo pelos direitos da pessoa, de modo que tal aspiração se transforme em fraternidade. Isto reflecte uma nota característica do que há de mais valioso na condição humana: se todos somos filhos de Deus, a fraternidade nem se reduz a uma figura de retórica, nem consiste num ideal ilusório, pois surge como meta difícil, mas real.

(…) Na oração, com a ajuda da graça, a soberba pode transformar-se em humildade. E brota da alma a verdadeira alegria, mesmo quando ainda notamos o barro nas asas, o lodo da pobre miséria, que vai secando. Depois, com a mortificação, cairá esse barro e poderemos voar muito alto, porque nos será favorável o vento da misericórdia de Deus. (Amigos de Deus, 233. 249)

São Josemaría Escrivá

O Evangelho de Domingo dia 30 de agosto de 2020

Desde então começou Jesus a manifestar a Seus discípulos que devia ir a Jerusalém e padecer muitas coisas dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia. Tomando-O Pedro à parte, começou a repreendê-l'O, dizendo: «Deus tal não permita, Senhor; não Te sucederá isto». Ele, voltando-Se para Pedro, disse-lhe: «Retira-te de Mim, Satanás! Tu serves-Me de escândalo, porque não tens a sabedoria das coisas de Deus, mas dos homens». Então, Jesus disse aos Seus discípulos: «Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Porque quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por amor de Mim, acha-la-á. Pois, que aproveitará a um homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma? Ou que dará um homem em troca da sua alma? Porque o Filho do Homem há-de vir na glória de Seu Pai com os Seus anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras.

Mt 16, 21-27

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti

Para que não o imites, copio de uma carta este exemplo de covardia: "Antes de mais, agradeço-lhe muito que se lembre de mim, porque necessito de muitas orações. Mas também lhe agradeço que, ao suplicar ao Senhor que me faça “apóstolo”, não se esforce em pedir-Lhe que me exija a entrega da liberdade". (Sulco, 11)

Precisamente por isso, percebo muito bem aquelas palavras do Bispo de Hipona (Santo Agostinho), que soam como um cântico maravilhoso à liberdade: Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti, porque cada um de nós, tu, eu, temos sempre a possibilidade – a triste desventura  de nos levantarmos contra Deus, de rejeitá-lo – talvez só com a nossa conduta  ou de exclamar: não queremos que reine sobre nós . (...)

Queres pensar – pela minha parte também farei o meu exame  se manténs imutável e firme a tua escolha da Vida? Se, ao ouvires essa voz de Deus, amabilíssima, que te estimula à santidade, respondes livremente que sim? Dirijamos o olhar para o nosso Jesus, quando falava às multidões pelas cidades e campos da Palestina. Não pretende impor-se. Se queres ser perfeito..., diz ao jovem rico. Aquele rapaz rejeitou o convite e o Evangelho conta que abiit tristis ,que se retirou entristecido. Por isso, alguma vez lhe chamei a ave triste: perdeu a alegria, porque se negou a entregar a liberdade a Deus. (Amigos de Deus, 23–24)

São Josemaría Escrivá

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

A religião é a maior rebeldia do homem

Hoje, quando o ambiente está cheio de desobediência, de murmuração, de engano, de enredo, temos de amar mais do que nunca a obediência, a sinceridade, a lealdade, a simplicidade: e tudo isto, com sentido sobrenatural, far-nos-á mais humanos. (Forja, 530)

A religião é a maior rebeldia do homem, que não tolera viver como um animal, que não se conforma – não sossega – enquanto não ganha intimidade e conhece o Criador. Quero-os rebeldes, livres de todas os laços, porque os quero – Cristo quer-nos! – filhos de Deus. Escravidão ou filiação divina: eis o dilema da nossa vida. Ou filhos de Deus ou escravos da soberba, da sensualidade, desse egoísmo angustiante em que tantas almas parecem debater-se.

O Amor de Deus marca o caminho da verdade, da justiça, do bem. Quando nos decidimos a responder a Nosso Senhor: a minha liberdade para Ti, encontramo-nos libertos de todas as cadeias que nos atavam a coisas sem importância, a preocupações ridículas, a ambições mesquinhas. E a liberdade – tesouro incalculável, pérola maravilhosa que seria triste lançar aos animais emprega-se inteiramente em aprender a fazer o bem. (Amigos de Deus, 37–38)

São Josemaría Escrivá

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Senhor, tantas almas longe de Ti!

Vejo a tua Cruz, meu Jesus, e alegro-me com a tua graça, porque o prémio do teu Calvário foi para nós o Espírito Santo... E dás-te a mim, cada dia, amoroso – louco! – na Hóstia Santíssima... E fizeste-me filho de Deus e deste-me a tua Mãe! Não me basta a acção de graças; vai-se-me o pensamento: – Senhor, Senhor, tantas almas longe de Ti! Fomenta na tua vida as ânsias de apostolado, para que o conheçam..., e o amem..., e se sintam amados! (Forja, 27)

Que respeito, que veneração, que carinho temos de sentir por uma só alma, ante a realidade de que Deus a ama como algo seu! (Forja, 34)

Ante a aparente esterilidade do apostolado, assaltam-te as cristas de uma onda de desalento, que a tua fé repele com firmeza... Mas reparas que necessitas de mais fé, humilde, viva e operativa.

– Tu, que desejas a salvação das almas, grita como o pai daquele rapaz doente, possesso: "Domine, adiuva incredulitatem meam!" – Senhor, ajuda a minha incredulidade!
Não duvides: o milagre repetir-se-á. (Forja, 257)

São Josemaría Escrivá

Do dia para a noite

Baixa de CharlottesvilleVirginia
A violência vem de trás, mas agudizou-se recentemente quando a câmara de Charlottesville (no Estado de Virginia, EUA) decidiu remover o monumento ao General Robert E. Lee, por ele ter lutado na guerra civil americana pelo lado confederado. Um grupo de nacionalistas brancos saiu à rua a contestar. Foi-lhe ao encontro uma contra-manifestação e, no enfrentamento, morreu mais uma pessoa. Foi este o ponto de partida de outra reacção exaltada à conta da qual já voaram bastantes outras estátuas dos seus pedestais e há planos para retirar mais 720, no conjunto dos EUA.

Duas das estátuas voadoras são de Roger Brooke Taney, primeiro uma em Baltimore e, dois dias depois, outra em Annapolis, ambas no Estado de Maryland. Em ambos os casos, a operação decorreu literalmente do dia para a noite. Em Annapolis, capital do Estado, eram precisamente as 2 horas da madrugada de quinta para sexta-feira (18 de Agosto de 2017). Para não perderem tempo a reunir-se, os membros do executivo estadual votaram por correio electrónico, de modo que foi só chamar o guindaste e esperar pela noite, para evitar perturbações da ordem pública.

Será que alguém aprende a lição?

Retirada da estátua de Roger Brooke Taney, em Annapolis,
capital do Estado do Maryland, às 2 horas da madrugada
de quinta para sexta-feira (18 de Agosto de 2017).
Recordemos quem foi este Roger Brooke Taney, porque é que lhe erigiram estátuas e o que ele fez de mal.

Roger Taney foi um funcionário político e depois um magistrado com prestígio em meados do século XIX. Embora se soubesse que era católico, fez parte do gabinete do Presidente dos EUA, foi Secretário da Guerra e Secretário do Tesouro. Foi o primeiro católico a desempenhar cargos de responsabilidade e, durante muitos anos, o único. Em 1836, bateu um recorde semelhante, como primeiro católico eleito Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça.

Foi nesta função que lhe incumbiu, em 1857, ser o redactor da sentença «Dred Scott», aprovada por 7 dos 9 juízes do Supremo Tribunal. É daqui que vem toda a animosidade contra Roger Taney, ainda que não imediatamente, porque a generalidade dos juristas da época concordava com ele, como se depreende da esmagadora maioria que votou a sentença. Depois da sua morte, Taney teve mais de um século para ser lembrado como ilustre e para lhe erguerem estátuas. Até que passaram 160 anos e as coisas mudaram.

Dred Scott e a mulher eram escravos que reclamavam o direito à liberdade e a sentença do Supremo interpretou a lei em sentido desfavorável. Taney opunha-se pessoalmente à escravatura, que considerava «uma mancha no carácter da América», e no início da carreira tinha libertado todos os seus escravos. Além disso, era pró-unionista, contra os confederados. Contudo, contra a sua convicção pessoal, Roger Taney declarou que a Constituição norte-americana não protegia os negros. O acórdão pergunta-se retoricamente se os negros podem ser cidadãos e responde. «Pensamos que não, porque isso não vem na Constituição e, na altura, a palavra “cidadão” não pretendia incluir os negros. (...) Pelo contrário, na época eles eram considerados subordinados e seres de classe inferior, que tinham sido subjugados pela raça dominante».

Isto foi escrito em meados do século XIX?! É tão parecido com os acórdãos do Tribunal Constitucional de Portugal e de tantos países!

A Constituição defende a absoluta inviolabilidade da vida humana... mas os bebés antes de nascerem não são humanos; ...e as pessoas doentes também não; ...nem os idosos. A Constituição fala do casamento... mas, se a palavra significar outra coisa, mesmo intrinsecamente estéril? A Constituição fala na liberdade de educação e proíbe o Estado de tomar posição a favor de qualquer doutrina ...mas quem duvida que a opinião do Ministério é a única certa?! A Constituição reconhece o direito a conhecer os próprios pais ...mas a PMA proíbe que a criança saiba quem é o pai, para ter o direito a saber que tem duas mães. Além disso, entre o conceito de pai e de mãe há tantos géneros...

Durante algum tempo, as ideologias conseguem impor as coisas mais estapafúrdias. Parece que não há limite, com a ajuda de uns juristas de formação positivista, que vão para além do imaginável, incluindo as próprias convicções morais. Até que chega o momento exaltado em que as lindas estátuas voam, do dia para a noite.
José Maria C.S. André
27-VIII-2017
Spe Deus

Caná: o milagre que nunca devia ter acontecido

Em Caná da Galileia, Jesus e os seus apóstolos, em vez de penitentes ascetas, mais pareciam um grupo de amigos na pândega, a gozar os prazeres da vida!

É São João quem relata o primeiro milagre de Jesus de Nazaré. Tendo sido sua mãe convidada para um casamento em Caná da Galileia, bem como ele e alguns dos seus discípulos, faltou o vinho. Maria comunicou esta carência ao seu filho, que disse que não importava, porque não tinha ainda chegado a hora de se manifestar ao mundo. Sua mãe, contudo, não desistiu: logo disse aos empregados de mesa que obedecessem a Cristo. Por sua indicação, encheram com água uns grandes recipientes e resultou depois que os mesmos estavam, na realidade, repletos de bom vinho (Jo 2, 1-11).

Os outros evangelistas – Mateus, Marcos e Lucas – não referem este acontecimento e a razão é óbvia: este milagre, pura e simplesmente, nunca devia ter acontecido! Ou, tendo-se realizado, deveria ter sido silenciado! Com efeito, este facto pouco ou nada abona a favor de Cristo, por mais que João diga, em jeito de happy end, que foi graças a este prodígio que os seus discípulos acreditaram nele (Jo 2, 11).

Uma primeira objecção deve ser feita à presença de Jesus e dos discípulos naquele banquete. Se os fariseus e João Baptista jejuavam, o mesmo era de esperar de Jesus: a sua participação naquela festa não condiz com a sua condição de mestre espiritual. Não consta que tenha pregado lá, nem feito nenhuma cura, pelo que a sua presença foi, na realidade, desnecessária, senão mesmo fútil. Decerto, não só ele como também os seus seguidores foram, para os fariseus, motivo de escândalo: em vez de se comportarem como uma santa milícia de ascetas, em demanda dos árduos caminhos da salvação, agiram como um grupo de amigos na pândega, a gozar os prazeres da vida!

Aliás, não foi caso único, porque Jesus ia a festas que, não só não eram religiosas, como nelas abundavam os publicanos e os pecadores que, segundo o Evangelho, são os melhores compinchas para a diversão! (O que explica a sua ida para o Céu, onde se dispensa a presença dos chatos e dos ‘beatos’ …). À custa destas más companhias, Cristo não só ganhou a fama de glutão e bebedor (Mt 11, 19), como também provocou o muito puritano escândalo dos fariseus de então e de agora.

Também não se percebe por que razão Maria se intrometeu numa questão que não lhe dizia respeito, não sendo ela mãe de nenhum dos noivos, nem a anfitriã. Diga-se, de passagem, que é de má nota que alguém, faltando o vinho na casa onde é convidado, trate de o arranjar e, pior ainda, o consiga até de melhor qualidade do que o que antes se tinha servido! A advertência de Maria também pecava por moralmente inconveniente: o vinho não era essencial e a sua ausência era mais proveitosa do que prejudicial.

De facto, o milagre religiosamente correcto era o contrário: em vez de converter a água em vinho, transformar o vinho em água! Com efeito, está provado que o excesso de água, excepto no caso dos náufragos, é muito menos pernicioso do que o do vinho. Portanto, o que se esperava de um santo homem de Deus era o milagre inverso: como o fruto da videira, embora produza uma momentânea euforia, é muito nocivo para quem o consome de forma destemperada – como já aconteceu com Noé, a quem a Bíblia atribui a sua invenção – Jesus deveria ter mudado o vinho em água. Naquele caso, vinha até muito a propósito, uma vez que se tratava, precisamente, de um copo-de-água!

O milagre também não se justificava em relação aos apóstolos. É verdade que neles aumentou a fé em Cristo, mas talvez também a ilusão de que poder-se-iam entregar a uma vida ociosa, uma vez que, por virtude daquela extraordinária capacidade do mestre, estavam garantidas todas as suas necessidades: graças a Jesus, não teriam que ganhar a vida com o suor do seu rosto. Mais do que um exército de laboriosos operários da vinha, poder-se-iam converter num conjunto de ociosos parasitas que, à conta desse poder milagroso, se entregassem a uma vida de prazeres. Pior ainda: por via da produção industrial e posterior comercialização daquele excelente vinho, os apóstolos poderiam sucumbir à tentação de trocar a sua missão espiritual por aquele muito mais rentável negócio que, certamente, nenhum judeu digno deste nome desprezaria.

Um último reparo a este primeiro e tão desastroso milagre de Cristo: a viagem de ida e volta de Caná da Galileia foi demorada, bem como a cerimónia religiosa do casamento e o posterior banquete. Também a operação que antecedeu o milagre foi trabalhosa: foi preciso encher de água seis grandes talhas de pedra, cada uma com capacidade para uns cem litros. Só depois o seu conteúdo foi levado ao chefe de mesa, que foi quem provou o bom vinho, felicitando o noivo pela excelente zurrapa. Pergunta-se: mas Jesus não tinha nada mais importante para fazer?! Será que o filho de Deus veio ao mundo para fazer de taberneiro?! Porque não empregou esse tão precioso tempo a curar doentes, a consolar aflitos, a ressuscitar mortos, a pregar a palavra de Deus, a resolver conflitos, a alimentar pobres, a ensinar ignorantes, a perdoar pecados, ou a realizar outras obras de misericórdia?!

Mais do que o esplendor da divindade de Cristo, aos fariseus de todos os tempos exaspera a amabilíssima humanidade de Jesus! Mais do que os rigores da penitência mais exigente ou do dogma mais incompreensível, irrita-os a imensa alegria de viver de Jesus e dos cristãos! Por isso, eram tão azedas e ressabiadas as suas críticas ao nazareno, como agora são as que os novos fariseus fazem aos seus discípulos. Eram capazes de perdoar a Cristo as suas ousadias doutrinais, mas não lhe podiam desculpar aquela tão pura e intensa felicidade, que é, afinal, a grande novidade cristã!

Os fariseus de ontem e de hoje não sabem que a vida é uma festa, porque ignoram a alegria do amor de Deus, a que se acede pelo arrependimento e pelo perdão. São uns tristes, porque não sabem que Deus é amor (1Jo 4, 8), nem que o Pai do céu “não enviou o seu filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3, 17). Jesus não veio à terra para complicar a existência humana com uma infinidade de preceitos e proibições, mas para conceder aos seus fiéis a “liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (Rm 8, 21) e o dom da vida na abundância (Jo 10, 10).

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada in Observador de 26.08.2017

Felicidade e sofrimento

«Sempre fui considerada uma pessoa excessivamente exigente. Procurei exigir-me muito a mim mesmo, sobretudo desde que comecei a minha carreira profissional. Também procurei exigir àqueles que se encontravam à minha volta. Pensava que era essa a minha missão e pensava também — sem admitir outro tipo de raciocínios — que se os outros não conseguiam o mesmo êxito que eu era, simplesmente, porque não se esforçavam tanto».

São palavras de um homem de negócios numa entrevista concedida a uma rádio local. Mais ou menos assim, continuava ele o relato da sua vida: «Custava-me muito compreender que houvesse pessoas que não conseguiam trabalhar ao mesmo ritmo que eu. Tenho de reconhecer que, de algum modo, os maltratava e os desprezava por causa disso. E lá em casa — com a minha mulher e com os meus filhos — era exactamente a mesma coisa. Não admitia falhas de nenhum tipo. As coisas eram para serem feitas custasse o que custasse. O resto eram simples justificações de gente preguiçosa».

«Até que um dia fiquei doente. Uma doença inesperada e totalmente imprevista. E tudo mudou da noite para o dia. Senti-me como um pneu a esvaziar. Comecei a perceber que a vida não era tão simples como eu havia pensado até então. Dei-me conta de que os outros também sofriam. Compreendi que não reparar nessa dor era uma atitude inumana. Assim tinha vivido eu durante tantos anos».

«Antes de ficar doente, eu era exageradamente irascível: tudo me irritava e tudo me fazia ferver em pouca água. Agora, pelo contrário, tornei-me muito mais sereno e compreensivo. O sofrimento temperou-me o carácter. Fez-me compreender que há pessoas neste mundo — à nossa volta — que sofrem muito. Há pessoas que vivem com muitas dificuldades — talvez, em parte, por culpa nossa. Cada um de nós devia aprender a deter-se diante do sofrimento dos outros e fazer o possível por remediá-lo».

«Às vezes, só é possível consolar. Isso não é pouco, nem muito menos algo inútil. Aprendi que, com o simples fluir de palavras que infundem esperança, já se alivia muito o coração de quem sofre. Quantas pessoas necessitadas de compreensão e de consolo neste mundo! Quanta pobreza espiritual! — tantas vezes maior e mais envergonhada que a pobreza material».

É um relato de vida que faz pensar. Como é diferente o modo como as pessoas encaram os sofrimentos nesta vida: a umas, ele parece que as torna mais humanas; a outras, pelo contrário, faz-lhes perder a esperança e a alegria de viver. A uns, cura-os da tendência para o egoísmo que todos temos dentro. A outros, pelo contrário, enche-os de cepticismo e de amargura.

É impossível viver nesta Terra sem algum tipo de sofrimento. Por isso, podemos e devemos ser felizes apesar dessa presença constante que nos acompanhará durante todo o nosso caminho — de um modo especial nos últimos momentos. Para que isso seja possível, um cristão sabe que deve olhar para Jesus pregado na Cruz. À primeira vista — disse Bento XVI aos jovens — a Cruz parece ser a negação da vida. Na realidade, é exactamente o contrário! Ela é o «sim» de Deus ao homem. Ela é a expressão máxima do Seu Amor por nós. Ela é a única nascente da qual brota a vida eterna.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Se te faltar afã apostólico, tornar-te-ás insípido

Como quer o Mestre, tu tens de ser – bem metido neste mundo, que nos coube em sorte, e em todas as actividades dos homens – sal e luz. Luz, que ilumina as inteligências e os corações; sal, que dá sabor e preserva da corrupção. Por isso, se te faltar afã apostólico, tornar-te-ás insípido e inútil, defraudarás os outros e a tua vida será um absurdo. (Forja, 22)

Muitos, com ar de autojustificação, perguntam-se: Eu, porque é que me vou meter na vida dos outros?
– Porque tens obrigação, por seres cristão, de te meteres na vida dos outros, para os servires!
Porque Cristo se meteu na tua vida e na minha! (Forja, 24)

Se fores outro Cristo, se te comportares como filho de Deus, onde estiveres queimarás: Cristo abrasa, não deixa indiferentes os corações. (Forja, 25)

São Josemaría Escrivá

Não há paz sem diálogo

Não se pode construir a paz sem o diálogo, recordou o Papa Francisco recebendo na manhã de 21 de Agosto (2013), no pátio de São Dâmaso no Vaticano, um grupo de estudantes e professores do colégio japonês Seibu Gakuen Bunri Junior High School de Saitama.

Bom dia! Vê-se que entendem o italiano...

Saúdo-vos! Para mim esta visita é um prazer. Espero que esta viagem vos seja muito fecunda, pois conhecer outras pessoas e outras culturas faz -nos sempre bem, faz-nos crescer.

E por quê? Porque se nos isolarmos em nós mesmos, só teremos o que temos, não poderemos crescer culturalmente; mas se formos ao encontro de outras pessoas, culturas, modos de pensar e religiões, sairemos de nós e começaremos a aventura tão bonita chamada "diálogo".

O diálogo é muito importante para a nossa maturidade, pois no confronto com o outro, com as demais culturas, inclusive no confronto sadio com as outras religiões nós crescemos: crescemos e amadurecemos.

Sem dúvida, há um perigo: se no diálogo nos fecharmos e nos irarmos, poderemos contestar; é o perigo da altercação, e isto não está bem, porque dialogamos para nos encontrarmos, não para impugnar.

E qual é a atitude mais profunda que devemos ter para dialogar e não altercar? A mansidão, a capacidade de encontrar as pessoas, de encontrar as culturas com a paz; a capacidade de fazer perguntas inteligentes: "Mas por que pensas assim? Por que esta cultura é assim?". Ouvir o próximo e depois falar. Primeiro ouvir, depois falar. Tudo isto é mansidão. Se tu não pensas como eu - sabes... penso de outro modo, não me convences - mas somos amigos à mesma; ouvi como tu pensas e tu ouviste como eu penso.

E sabeis algo, algo importante? É este diálogo que faz a paz. Não se pode ter paz sem diálogo. Todas as guerras e lutas, todos os problemas insolúveis, com os quais nos confrontamos existem devido à falta de diálogo. Quando existe um problema, dialogo: isto leva à paz. É isto que desejo a vós nesta viagem de diálogo: que saibais dialogar; como pensa esta cultura, como isto é bonito, não gosto disto, mas dialogando. Assim crescemos. Desejo-vos isto, e uma boa viagem em Roma. Desejo o melhor para vós, para a vossa escola, para as vossas famílias. Deus abençoe todos vós. Obrigado!

(© L'Osservatore Romano - 23 de Agosto de 2013)

Oremos pela Paz

As injustiças, as excessivas desigualdades de ordem económica ou social, a inveja, a desconfiança e o orgulho que grassam entre os homens e as nações, são uma constante ameaça à paz e provocam as guerras. Tudo o que se fizer para superar estas desordens contribui para edificar a paz e evitar a guerra:

«Na medida em que os homens são pecadores, o perigo da guerra ameaça-os e continuará a ameaçá-los até à vinda de Cristo: mas, na medida em que, unidos na caridade, superam o pecado, superadas ficam também as violências, até que se realize aquela palavra: "Com as espadas forjarão arados e foices com as lanças. Não mais levantará a espada povo contra povo, nem jamais se exercitarão para a guerra" (Is 2, 4)» (Gaudium et spes 78 – Concílio Vaticano II)

(Catecismo da Igreja Católica § 2317)

A paz

«A paz visa a superação das fronteiras e uma terra renovada através da paz que vem de Deus. No fim, a terra pertence aos ‘mansos’, aos pacíficos: diz-nos o Senhor. (…) A terceira Bem-Aventurança convida-nos a viver nesta perspectiva».

(“Jesus de Nazaré” – Joseph Ratzinger / Bento XVI)

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

É curto o nosso tempo para amar

Um filho de Deus não tem medo da vida nem medo da morte, porque o fundamento da sua vida espiritual é o sentido da filiação divina: Deus é meu Pai, pensa, e é o Autor de todo o bem, é toda a Bondade. – Mas tu e eu procedemos, de verdade, como filhos de Deus? (Forja, 987)

Para nós, cristãos, a fugacidade do caminho terreno deve incitar-nos a aproveitar melhor o tempo, não a temer Nosso Senhor, e muito menos a olhar a morte como um final desastroso. Um ano que termina – já foi dito de mil modos, mais ou menos poéticos – com a graça e a misericórdia de Deus, é mais um passo que nos aproxima do Céu, nossa Pátria definitiva.

Ao pensar nesta realidade, compreendo perfeitamente aquela exclamação que S. Paulo escreve aos de Corinto: tempus breve est!, que breve é a nossa passagem pela terra! Para um cristão coerente, estas palavras soam, no mais íntimo do seu coração, como uma censura à falta de generosidade e como um convite constante a ser leal. Realmente é curto o nosso tempo para amar, para dar, para desagravar. Não é justo, portanto, que o malbaratemos, nem que atiremos irresponsavelmente este tesouro pela janela fora. Não podemos desperdiçar esta etapa do mundo que Deus confia a cada um de nós.

(…)Há-de chegar também para nós esse dia, que será o último e não nos causa medo. Confiando firmemente na graça de Deus, estamos dispostos desde este momento, com generosidade, com fortaleza, pondo amor nas pequenas coisas, a acudir a esse encontro com o Senhor, levando as lâmpadas acesas, porque nos espera a grande festa do Céu. (Amigos de Deus, 39–40)

São Josemaría Escrivá

As pirâmides e a «cloud»

A palavra eternidade tem muitas versões pagãs, porque a ânsia de sobrevivência que palpita no coração humano vem à superfície ao menor aceno, mesmo quando uma ideologia tenta enterrá-la e esquecê-la.

Em 1793, sob o impulso da chamada «Salvação Pública», começou a funcionar o «Terror» em França. Em poucos dias, aproximadamente meio milhão de pessoas foram parar à prisão. Muitas foram mortas e a salvação consistiu em destronar o cristianismo e entronizar simbolicamente uma «miss» na catedral de Notre Dame como deusa Razão. Enquanto os revolucionários das várias facções se matavam, o encanto da deusa Razão foi substituído pela religião do «Ser Supremo», com os seus dois dogmas: «O povo francês reconhece o Ser Supremo e a imortalidade da alma». Enquanto o ritmo da guilhotina acelerava e as guerras civis se sucediam, outro Governo inventou o culto Teofilantrópico, que outro Governo substituiu pelo culto Decadário  (Décadi, em francês). Para eliminar a concorrência, prenderam o Papa da época, Pio VI, e levaram-no para França, onde morreu. A notícia da sua morte dizia: «VI e último». Em contrapartida, aquele Governo, supostamente eterno, durou poucos dias e os Cardeais, reunidos em Veneza, elegeram Pio VII para suceder a Pio VI. Na sequência de outra revolução em França, voltaram a prender o Papa, desta vez Pio VII. No entanto, o Regime francês colapsou em 5 anos e o prisioneiro regressou a Roma.

A história destas religiões sumamente efémeras vem a propósito da eternidade, porque foi essa a justificação de tanta turbulência e de tanta morte. Os protagonistas passavam a vida a falar de eternidade. Seriam eternas as promessas de progresso e felicidade, definitivas as conquistas militares, irrevogáveis as glórias da guerra civil.

Nesta época, as areias do Egipto presenciaram um momento de grande impacto quanto à possibilidade de perdurar eternamente. Napoleão tinha sido mandado conquistar o Egipto, porque o Governo o achava demasiado poderoso para o ter perto. O receio era fundado, mas a campanha no Egipto entreteve-o pouco tempo e, em menos de um ano, ele regressava à pátria para derrubar o Governo. Conta a história que, diante das tropas em parada, no Egipto, Napoleão Bonaparte exclamou: «do alto destas pirâmides, 40 séculos nos contemplam!». Um soldado que espreitasse para o cimo das pirâmides não via ninguém, mas a ideia fez furor nos salões culturais da Europa: 40 séculos eram já um selo de eternidade. As pirâmides eram tão descomunalmente pesadas que sobreviviam a tudo. Um tremor de terra podia abrir rachas, a erosão das águas podia arrastar muita pedra, os construtores de casas podiam ir lá buscar material... as pirâmides aguentavam tudo e duravam indefinidamente.

Este ideal de longevidade galvanizou as hostes jacobinas. Em Paris, construíram um Arco do Triunfo tão grande que, hoje, os aviões de acrobacia passam entre as suas colunas. Numa das faces do arco, letras enormes e imortais recordam os tais triunfos (felizmente desactualizados, tais como a ocupação de Portugal pelo exército napoleónico). Em Roma, capital da elegância, o poder jacobino ergueu um pesadíssimo Palácio da Justiça, destinado a fazer sombra à basílica de S. Pedro. Mas as margens húmidas do Tibre não aguentaram o peso, o edifício começou a inclinar-se e teve de ficar pela parte de baixo, que ainda existe. O arquitecto do  imortal edifício suicidou-se, atirando-se do último andar. Em Lisboa, o exemplo mais característico inspirado nas pirâmides do Egipto é o monumento ao Marquês de Pombal. Ainda hoje lá está, nem sempre respeitado pelas pombas. Da alta coluna, escorrem louvores, o primeiro dos quais se lê mal, por estar tão alto: «expulsão dos jesuítas». Na base, um templo pagão com uma Minerva sentada situa o Marquês num Olimpo intemporal designado como universidade.

A arte e os discursos admitem todas as ficções, mas a realidade tem sempre a última palavra. Por isso, chegados ao limiar da eternidade, o Rei D. José e o seu Primeiro Ministro, Marquês de Pombal, compreenderam que o poder absoluto não seria suficiente na nova fase. Três dias antes de morrer, D. José mandou soltar os religiosos presos e mais de 800 presos políticos que apodreciam nas cadeias do reino. Não pediu desculpa, mas disse que os perdoava. Talvez contasse com que esta cedência fosse suficiente para chegar a acordo com Deus.

Mal o Rei morreu, desterraram o Marquês para Pombal. Cometeu-se algum crime? «Foi El-Rei, meu Senhor! Foi El-Rei, meu Senhor, quem ordenou!» – repetia o Marquês sem cessar. Diz a história que o Marquês sempre manteve a profissão de fé católica e que, no final, recluído no solar de Pombal, mandava alimentar centenas de pobres. Quando o Bispo de Coimbra, libertado das masmorras nas vésperas de D. José morrer, passou por Pombal, o Marquês saiu a prestar-lhe homenagem e a pedir-lhe a bênção.

Visão de Jerusalém Celeste
Agora, bastará digitalizarmos a nossa glória e confiá-la eternamente à «cloud», para seremos eternos pelos séculos sem fim? Atenção! Napoleão enganou-se. Do alto daquelas pirâmides, ninguém os contemplava e na «cloud» também não mora ninguém. A eternidade a sério é outra coisa.

José Maria C.S. André
24-VIII-2018
Spe Deus

domingo, 23 de agosto de 2020

Tens de pensar na tua vida e pedir perdão

Com serenidade, sem escrúpulos, tens de pensar na tua vida e pedir perdão e fazer o propósito firme, concreto e bem determinado, de melhorar neste aspecto e naquele outro: nesse pormenor que te custa e naquele que habitualmente não cumpres como deves, e bem o sabes. (Forja, 115)

Enche-te de bons desejos, que são uma coisa santa e que Deus louva. Mas não fiques apenas nisso! Tens que ser uma alma – homem, mulher – de realidades. Para levar a cabo esses bons desejos, precisas de formular propósitos claros, precisos.

– E, depois, meu filho, luta para pô-los em prática, com a ajuda de Deus! (Forja, 116)

Repara na tua conduta com vagar. Verás que estás cheio de erros, que te prejudicam a ti e talvez também aos que te rodeiam.

– Lembra-te, filho, que não são menos importantes os micróbios do que as feras. E tu cultivas esses erros, esses enganos – como se cultivam os micróbios no laboratório –, com a tua falta de humildade, com a tua falta de oração, com a tua falta de cumprimento do dever, com a tua falta de conhecimento próprio... E, depois, esses focos infectam o ambiente.

Precisas de um bom exame diário de consciência, que te conduza a propósitos concretos de melhora, por sentires verdadeira dor das tuas faltas, das tuas omissões e pecados. (Forja, 481)

São Josemaría Escrivá