Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

sábado, 28 de março de 2020

Frequenta o convívio do Espírito Santo

Frequenta o convívio do Espírito Santo – o Grande Desconhecido – que é Quem te há-de santificar. Não esqueças de que és templo de Deus. – O Paráclito está no centro da tua alma: ouve-O e segue docilmente as Suas inspirações. (Caminho, 57)

A força e o poder de Deus iluminam a face da Terra. O Espírito Santo continua a assistir à Igreja de Cristo, para que ela seja – sempre e em tudo – sinal erguido diante das nações, anunciando à Humanidade a benevolência e o amor de Deus. Por maiores que sejam as nossas limitações, nós, homens, podemos olhar com confiança para os Céus e sentir-nos cheios de alegria: Deus ama-nos e liberta-nos dos nossos pecados. A presença e a acção do Espírito Santo na Igreja são o penhor e a antecipação da felicidade eterna, dessa alegria e dessa paz que Deus nos prepara. (...).

Mas esta nossa fé no Espírito Santo deve ser plena e completa. Não é uma crença vaga na sua presença no mundo; é uma aceitação agradecida dos sinais e realidades a que quis vincular a sua força de um modo especial. Quando vier o Espírito de Verdade – anunciou Jesus – Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. O Espírito Santo é o Espírito enviado por Cristo, para operar em nós a santificação que Ele nos mereceu para nós na Terra.

É por isso que não pode haver fé no Espírito Santo, se não houver fé em Cristo, na doutrina de Cristo, nos sacramentos de Cristo, na Igreja de Cristo. Não é coerente com a fé cristã, não crê verdadeiramente no Espírito Santo, quem não ama a Igreja, quem não tem confiança nela, quem se compraz apenas em mostrar as deficiências e limitações dos que a representam, quem a julga por fora e é incapaz de se sentir seu filho. (Cristo que passa, 128 – 130)

São Josemaría Escrivá

O Evangelho de Domingo dia 29 de março de 2020

Estava doente um homem, chamado Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de Marta, sua irmã. Maria era aquela que ungiu o Senhor com perfume e Lhe enxugou os pés com os seus cabelos, cujo irmão Lázaro estava doente. Mandaram, pois, suas irmãs dizer a Jesus: «Senhor, aquele que amas está doente». Ouvindo isto, Jesus disse: «Esta doença não é de morte, mas é para glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja glorificado por ela». Ora Jesus amava Marta, sua irmã Maria e Lázaro. Tendo, pois, ouvido que Lázaro estava doente, ficou ainda dois dias no lugar onde Se encontrava. Depois disto, disse aos Seus discípulos: «Voltemos para a Judeia». Os discípulos disseram-Lhe: «Mestre, ainda há pouco os judeus Te quiseram apedrejar, e Tu vais novamente para lá?». Jesus respondeu: «Não são doze as horas do dia? Aquele que caminhar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo;1porém, o que andar de noite tropeça, porque lhe falta a luz». Assim falou, e depois disse-lhes: «Nosso amigo Lázaro dorme; mas vou despertá-lo». Os Seus discípulos disseram-Lhe: «Senhor, se ele dorme, também se há-de levantar». Mas Jesus falava da sua morte; e eles julgavam que falava do repouso do sono. Jesus disse-lhes então claramente: «Lázaro morreu, e Eu, por vossa causa, estou contente por não ter estado lá, para que acrediteis; mas vamos ter com ele». Tomé, chamado Dídimo, disse então aos outros discípulos: «Vamos nós também, para morrer com Ele». Chegou Jesus, e encontrou-o já há quatro dias no sepulcro. Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios. Muitos judeus tinham ido ter com Marta e Maria, para as consolarem pela morte de seu irmão. Marta, pois, logo que ouviu que vinha Jesus, saiu-Lhe ao encontro; e Maria ficou sentada em casa. Marta disse então a Jesus: «Senhor, se estivesses cá, meu irmão não teria morrido. Mas também sei agora que tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá».2Jesus disse-lhe: «Teu irmão há de ressuscitar». Marta disse-Lhe: «Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição do último dia». Jesus disse-lhe: «Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá eternamente. Crês isto?». Ela respondeu: «Sim, Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que vieste a este mundo». Dito isto, retirou-se, e foi chamar em segredo sua irmã Maria, dizendo: «O Mestre está cá e chama-te». Ela, logo que ouviu isto, levantou-se rapidamente, e foi ter com Ele. Jesus ainda não tinha entrado na aldeia, mas estava ainda naquele lugar onde Marta saíra ao Seu encontro. Então os judeus, que estavam com ela em casa e a consolavam, vendo que Maria se tinha levantado tão depressa e tinha saído, seguiram-na, julgando que ia chorar ao sepulcro. Maria, porém, tendo chegado onde Jesus estava, logo que O viu, lançou-se aos Seus pés e disse-Lhe: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido». Jesus, vendo-a chorar, a ela e aos judeus que tinham ido com ela, comoveu-Se profundamente e emocionou-Se; depois perguntou: «Onde o pusestes?». Eles responderam: «Senhor, vem ver». Jesus chorou. Os judeus, por isso, disseram: «Vede como Ele o amava». Porém, alguns deles disseram: «Este, que abriu os olhos ao que era cego de nascença, não podia fazer que este não morresse?». Jesus, pois, novamente emocionado no Seu interior, foi ao sepulcro. Era este uma gruta com uma pedra colocada à entrada. Jesus disse: «Tirai a pedra». Marta, irmã do defunto, disse-Lhe: «Senhor, ele já cheira mal, porque está aí há quatro dias». Jesus disse-lhe: «Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?». Tiraram, pois, a pedra. Jesus, levantando os olhos ao céu, disse: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sabia que Me ouves sempre, mas falei assim por causa do povo que está em volta de Mim, para que acreditem que Tu Me enviaste». Tendo dito estas palavras, bradou em voz forte: «Lázaro, sai para fora!». E saiu o que estivera morto, ligado de pés e mãos, com as ataduras, e o seu rosto envolto num sudário. Jesus disse-lhes: «Desligai-o e deixai-o ir». Então, muitos dos judeus que tinham ido visitar Maria e Marta, vendo o que Jesus fizera, acreditaram n'Ele.

Jo 11, 1-45

ESTADO DE EMERGÊNCIA CRISTÃ

Uma proposta diária de oração pessoal e familiar.

10º Dia. Sábado, 28 de Março de 2020.

Meditação da Palavra de Deus (Jo 7, 40-53)

É o Messias!

“Naquele tempo, alguns que tinham ouvido as palavras de Jesus diziam no meio da multidão: ‘Ele é realmente o Profeta’. Outros afirmavam: ‘É o Messias’.”

Na iminência da paixão e morte de Nosso Senhor, agudiza-se a tensão a propósito da sua verdadeira identidade: enquanto uns pensam que é apenas mais um profeta – este foi também o parecer da multidão sondada em Cesareia de Filipe (cf. Mt 16, 13-14) – outros, mais perspicazes, reconhecem que Jesus é verdadeiramente o tão esperado Messias.

A confissão de Pedro foi ainda mais audaz, porque revelação do Pai e, por isso, ele pode testemunhar que Jesus “é o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16, 16). Foi porque o disse, que Jesus de Nazaré foi condenado à morte, por blasfémia, pelo Sinédrio, quando blasfema teria sido a negação desta verdade de fé. Ser cristão é reconhecer, não apenas intelectualmente, nem afectivamente, que Cristo é o Messias.

Ter fé não é apenas concordar com os ensinamentos de Nosso Senhor, nem amar muito Jesus de Nazaré, mas fazer d’Ele o Caminho, a Verdade e a Vida. Por isso, Ele não pediu aos seus primeiros discípulos que assinassem um programa ideológico, nem que sentimentalmente se unissem a Ele, mas que O seguissem, ou seja, fizessem da vida d’Ele a sua própria vida.

Os guardas que o deviam ter detido, não conseguiram fazê-lo, porque “Nunca ninguém falou como esse homem”. Mas “os fariseus replicaram: ‘Também vos deixastes seduzir?’”.

Razão tinham aqueles soldados, pois dois mil anos depois, ninguém consegue ficar indiferente às palavras de Jesus. Queira Deus que cada um de nós, pela diária leitura e meditação da Palavra de Deus, se deixe por elas seduzir, para depois as testemunhar, com obras e palavras.

Intenções para os mistérios gozosos do Santo Rosário de Nossa Senhora:

1º - A anunciação do Anjo a Nossa Senhora. Maria acolheu a mensagem do Anjo, disponibilizando-se de imediato para a missão que lhe foi confiada por Deus. Peçamos a Nossa Senhora que faça suas as petições do Papa Francisco e dos nossos Bispos, e por elas interceda junto de Deus.

2º - A visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel. Que comovedora a oração e a bênção do Papa Francisco, urbi et orbi, para a cidade e para o mundo! Procuremos meditar as palavras do Santo Padre, para melhor as assimilar e transmitir.

3º - O nascimento de Jesus em Belém. A praça de São Pedro deserta e a homónima basílica estranhamente vazia pareciam reproduzir a solidão de Cristo, em Belém e na Cruz. Rezemos para que esta Páscoa seja ocasião para o nascimento de uma nova esperança para toda a humanidade.

4º - A apresentação de Jesus no templo e a purificação de Nossa Senhora. Mais tarde, Jesus voltará ao templo, para dele expulsar os vendilhões. Que este tempo penitencial seja também propício à irradicação da hipocrisia nos nossos corações.

5º - O Menino Jesus perdido e achado no templo. Quantos cristãos, confusos, perplexos, desorientados. Que Maria, Sede da Sabedoria, dê ciência e zelo a todos os pastores da Igreja, para que orientem, na verdade e caridade, as ovelhas que lhes foram confiadas.

Para ler, meditar e partilhar! Obrigado e até amanhã, se Deus quiser!

Com amizade,
P. Gonçalo Portocarrero de Almada

A reconciliação, o perdão e a salvação

«Os pecados que cometemos afastam-nos de Deus, e se não são confessados humildemente confiando na misericórdia divina chegam ao ponto de produzir a morte da alma. Este milagre reveste então – acrescentou o Papa – uma forte valência simbólica. Jesus, como profetizara Isaías é o servo que tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. Na sua paixão, tornar-se-á como um leproso, tornado impuro pelos nossos pecados, separado de Deus: tudo isto fará por amor, para nos obter a reconciliação, o perdão e a salvação.»

(Bento XVI – Angelus 15/02/2009)

Aniversário da Ordenação Sacerdotal de S. Josemaria

No dia 28 de Março de 1925, Josemaria Escrivá foi ordenado sacerdote na capela do Seminário. No dia 30, celebrou a Missa Nova na Basílica do Pilar, em sufrágio pela alma do pai. Só estavam presentes a mãe, os irmãos e alguns amigos. Desde aquele momento a Santa Missa reafirmou-se como verdadeiro centro da sua vida.
Relatos biográficos

O Natal de 1917-18 foi extremamente frio. O termómetro estabilizou nos 14º negativos por vários dias e a cidade ficou quase paralisada. E num desses dias, a seguir a um forte nevão, um facto aparentemente irrelevante transformou o horizonte da sua vida. Foram umas pegadas na neve: As pegadas de um carmelita, que caminhava de pés descalços por amor a Deus.
Com os irmãos Santiago e CarmenCom os irmãos Santiago e Carmen

Ao ver aquelas pegadas, Josemaria experimentou na alma uma profunda inquietação divina, que suscitou nele um forte desejo de entrega. Outros a fazer tantos sacrifícios por Deus e ele - interrogou-se -… não seria capaz de lhe dar nada?
«O Senhor foi-me preparando apesar de mim, com coisas aparentemente inocentes, das quais se valia para meter na minha alma essa inquietação divina. Por isso, entendi muito bem aquele amor, tão humano e tão divino, de Teresa do Menino Jesus, que se comove quando, ao folhear um livro, depara com uma estampa com a mão ferida do Redentor. Também a mim me aconteceram coisas deste género, que me comoveram e me levaram à comunhão diária, à purificação, à confissão... e à penitência».
Pode surpreender que um motivo de tão pouca importância – umas pegadas na neve – baste para que um adolescente tome uma decisão tão grande: dedicar a sua vida inteira a Deus; mas é essa a linguagem com que Deus costuma chamar os homens, e assim são as respostas, os sinais de fé, das almas generosas que procuram a Deus com sinceridade. Não foi uma simples reação, emotiva e passageira. «Comecei a pressentir o Amor, a dar-me conta de que o coração me pedia qualquer coisa de grande e que fosse amor. Eu não sabia o que Deus queria de mim, mas era, evidentemente, uma escolha. O que quer que fosse viria depois».
S. Josemaria seminaristaS. Josemaria seminarista

A partir daquele dia foi crescendo na sua alma, de forma cada vez mais impetuosa, a necessidade de conhecer e ter mais intimidade com Cristo na oração e nos sacramentos, especialmente na Eucaristia. Começou a assistir diariamente à Santa Missa.
Decidiu ser sacerdote: pareceu-lhe que era o melhor caminho para estar inteiramente disponível para essa Vontade de Deus que tinha intuído na sua alma —«algo que estava por cima de mim e em mim»—, e cujo alcance último desconhecia.
E depois? Depois… ... «viria o que teria de vir».
Falou com o pai. A José Escrivá custava-lhe a decisão do filho, e mais ainda naquelas circunstâncias familiares, - com efeito, foi a única vez que Josemaria o viu chorar – mas como bom pai cristão aconselhou-o a que falasse da sua inquietação com um sacerdote da cidade, para se certificar se essa era a vontade de Deus. O sacerdote confirmou a José Escrivá a vocação do filho. E, apesar de aquela decisão fosse para eles, de uma perspetiva puramente humana, o que é costume chamar-se 2Um sacrifício”, os pais de Josemaria secundaram o chamamento de Deus com grande sentido sobrenatural.
«Di-lo por aí, ensinava São Josemaria, não é um sacrifício para os pais, que Deus lhe peça os seus filhos; nem, para aqueles que o Senhor chama, é um sacrifício segui-lo. É, pelo contrário, uma honra imensa, um orgulho grande e santo, que Deus manifestou num momento concreto, mas que estava na sua mente desde toda a eternidade».
Em 1918 começou os estudos eclesiásticos no Seminário de Logronho, como aluno externo, como era costume fazerem os seminaristas que viviam nessa cidade; e dois anos depois, em 1920, entrou para o Seminário de São Carlos, de Saragoça.
O Arcebispo de Saragoça, Cardeal Soldevila, que foi assassinado pouco tempo depois por ódio à fé, apercebeu-se logo do dom de gentes, das qualidades espirituais e morais do jovem Josemaria. Via nele um jovem responsável, alegre, com muito bom humor; e em 1922, deu-lhe o cargo de inspetor do seminário. Em 1923, com autorização dos superiores, conseguiu realizar um velho desejo do seu pai e começou também a fazer o curso de Direito na Universidade Civil de Saragoça.
Basílica do Pilar, onde S. Josemaria celebrou a sua primeira MissaBasílica do Pilar, onde S. Josemaria celebrou a sua primeira Missa

O jovem seminarista ia todos os dias à Basílica do Pilar , muito próxima e confiava a Nossa Senhora os seus anseios e a sua inquietação íntima.«Meio cego, estava sempre à espera do porquê. Porque me faço sacerdote? O Senhor quer qualquer coisa, mas que será? E repetia: Domine, ut videam! Ut sit ! Ut sit! Que seja isso que tu queres e que eu ignoro. Domina, ut sit!»
Passava longos tempos de oração junto do Sacrário na capela do Seminário. Por vezes, durante a noite. «Um dia – contava - pude ficar na igreja depois de fechadas as portas. Dirigi-me à Virgem Maria, com a cumplicidade de um daqueles bons sacerdotes, já falecido, subi os poucos degraus que os meninos de coro conhecem tão bem e, aproximando-me, beijei a imagem da nossa Mãe. Sabia que não era esse o costume, que beijar o manto era permitido apenas às crianças e às autoridades. No entanto tive e tenho a certeza que à minha Mãe do Pilar agradou que, por uma vez, eu fizesse uma exceção aos costumes estabelecidos na sua catedral».
No dia 27 de Novembro de 1924, recebeu uma notícia inesperada: era chamado com urgência a Logronho, pois o pai tinha falecido subitamente. «O meu pai morreu esgotado – recordava anos mais tarde –. Tinha um sorriso nos lábios...». José Escrivá, que tanto o ajudara com a sua generosidade e os seus conselhos, não estaria presente na ordenação sacerdotal do seu filho Josemaria, que guardaria dele, sempre vivo, o exemplo de honradez e de espírito de sacrifício. Após a sua morte, passou a ser cabeça de família, com graves problemas económicos por resolver.
No dia 28 de Março de 1925, Josemaria Escrivá foi ordenado sacerdote na capela do Seminário. No dia 30, celebrou a Missa Nova na Basílica do Pilar, em sufrágio pela alma do pai. Só estavam presentes a mãe, os irmãos e alguns amigos. Desde aquele momento a Santa Missa reafirmou-se como verdadeiro centro da sua vida. Ao longo da sua existência, Deus ir-lhe-ia dando luzes decisivas para a sua missão, durante a celebração da Eucaristia. «Luta por conseguir que o Santo Sacrifício do Altar seja o centro e a raiz da tua vida interior, de maneira que toda a jornada se converta num acto de culto – prolongamento da Missa que ouviste e preparação para a seguinte -, que vai transbordando em jaculatórias, em visitas ao Santíssimo, no oferecimento do teu trabalho profissional e da tua vida familiar...».
Do livro: São Josemaria Escrivá, Miguel Dolz

‘A língua’

«Porque estais a olhar para o céu?», perguntaram os Anjos. «Esse Jesus que vistes subindo ao céu, do céu virá…» (Act 1, 11) Começavam as saudades dos discípulos, mas também certamente o desejo de ir ter com Ele quanto antes. Quando subiriam eles até ao Pai? Quando deixariam os perigos desta vida revolta e chegariam, purificados, à presença eterna de Deus? A que provas haviam ainda de sujeitar-se até ouvirem o que ouvia no fundo da alma Inácio de Antioquia: «Vem ao Pai!»

Quantas vezes, ao longo dos anos de estudo, em vésperas de exame, teremos sonhado com a passagem automática, sem a angústia de submeter-nos às perguntas imprevisíveis do mestre ou do júri académico! Se mal preparados, rogando boa sorte aos nossos santos; se bem preparados, temendo a má disposição dos examinadores ou algum deslize da nossa parte… A só perspectiva de repetir a cadeira, para passar de ano ou obter melhor nota, pode tornar-se um pesadelo.

O que será então aproximar-nos do exame final desta vida, com tantas lacunas na consciência, e sabendo que daremos estreita conta de tudo o que Deus nos confiou para sua glória e para a eterna felicidade nossa e dos nossos irmãos! Como lançaremos mão da sua infinita misericórdia, da confissão contrita das nossas faltas, das indulgências que a Santa Madre Igreja nos proporciona, da intercessão de Maria Santíssima!...

Façamo-lo desde já, mas reparemos que o Evangelho nos revela um segredo capaz de nos tranquilizar, uma espécie de «passagem administrativa»: «Não julgueis, e não sereis julgados»! (Mt 7,1) Não só seremos salvos, mas nem sequer examinados! Teremos muitas fraquezas no nosso currículo, mas o Senhor passá-los-á por alto – prometeu-o! – com essa breve condição: não julgarmos ninguém.

É inevitável julgarmos as suas acções e as suas ideias, pois é impossível suspendermos dentro de nós a distinção entre o bem e o mal, a verdade e o erro. Mas o homem é o seu coração, as suas intenções, um mistério que só Deus conhece e só Ele julga. Só Ele sabe o que há no coração do homem. Mas é tão frequente a nossa insensatez, que, não só julgamos, mas criticamos, acusamos e condenamos o próximo, que chegamos ao ponto de ver más intenções nos mais nobres comportamentos: «pensa mal, e acertarás»…

«A língua é um fogo, um mundo de iniquidade!» (Tgo 3, 6), bem avisava S. Tiago. «Se alguém não peca pela palavra, este é um homem perfeito» (Tgo 3, 2). Não nos esqueçamos de que quem julga os outros, não só terá de sujeitar-se ao julgamento, mas «expõe-se a um juízo mais severo» (Tgo 3, 1).

Não é fácil, de facto, cumprir a condição da nossa «passagem administrativa», a não ser que vejamos sempre o próximo com o olhar de Cristo, com bons olhos, com amor. O amor não é cego; pelo contrário, só com amor se podem conhecer os outros. Por mais defeitos que tenham, «pensa bem, e acertarás»: veremos neles uma profunda (e às vezes desesperada) aspiração ao bem; veremos neles irmãos, que nos fazem falta; veremos neles o próprio Cristo, que Se identificou até com os que estão, pelos seus crimes, na prisão. Quanto mais havemos de respeitar a imensa maioria de gente honrada que nos rodeia na família, no trabalho, na igreja, ou por essas ruas fora!

Vale a pena cortar a nossa língua venenosa. Vale a pena cortar cerce a murmuração, a crítica impiedosa; vale a pena despir-nos dessa atitude superior de juízes do mundo, ainda que nos chamem ingénuos ou disserem que estamos a exagerar a gravidade de um vício tão comum, pois «qualquer palavra inútil que tiverem proferido os homens», diz Cristo, «darão conta dela no dia do juízo», e que há de mais inútil do que acusar e condenar quem não está presente? «Porque pelas suas palavras (o homem) será justificado ou condenado» (Mt 12, 36-37). Vale a pena repudiar a maledicência, essa peste mais estendida, nefasta e cruel do que a luxúria vergonhosa. A promessa é grandiosa: não seremos julgados.

Hugo de Azevedo

(Fonte: celebração litúrgica nº 3 2011/12, www.cliturgica.org)