Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Ajuda-os sem que o notem

O pensamento da morte ajudar-te-á a cultivar a virtude da caridade, porque talvez esse instante concreto de convivência seja o último em que estás com este ou com aquele... Eles, ou tu, ou eu, podemos faltar em qualquer momento. (Sulco, 895)

Dir-me-ás talvez: e porque havia eu de me esforçar? Não sou eu quem te responde, mas S. Paulo: o amor de Cristo urge-nos. Todo o espaço de uma existência é pouco para alargar as fronteiras da tua caridade. Desde os primeiríssimos começos do Opus Dei, manifestei o meu grande empenho em repetir sem cessar, para as almas generosas que se decidam a traduzi-lo em obras, aquele grito de Cristo: nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros. Conhecer-nos-ão precisamente por isso, porque a caridade é o ponto de arranque de qualquer actividade de um cristão. (…)

Queria fazer-vos notar que, após vinte séculos, ainda aparece com toda a pujança de novidade o Mandato do Mestre, que é uma espécie de carta de apresentação do verdadeiro filho de Deus. Ao longo da minha vida sacerdotal, tenho pregado com muitíssima frequência que, desgraçadamente para muitos, continua a ser novo, porque nunca ou quase nunca se esforçaram por praticá-lo. É triste, mas é assim. E não há dúvida nenhuma de que a afirmação do Messias ressalta de modo terminante: nisto vos conhecerão, que vos amais uns aos outros! Por isso, sinto a necessidade de recordar constantemente essas palavras do Senhor. S. Paulo acrescenta: levai os fardos uns dos outros e, desta maneira, cumprireis a lei de Cristo. Momentos perdidos, talvez com a falsa desculpa de que te sobra tempo... Se há tantos irmãos, amigos teus, sobrecarregados de trabalho! Com delicadeza, com cortesia, com um sorriso nos lábios, ajuda-os, de tal maneira que se torne quase impossível que o notem; e que nem se possam mostrar agradecidos, porque a discreta finura da tua caridade fez com que ela passasse inadvertida. (Amigos de Deus, 43–44)

São Josemaría Escrivá

Não se entende um cristão sem Igreja

A homilia do Papa na Missa de 30 de janeiro de 2014 na Casa de Santa Marta partiu da figura do rei David que nos é apresentada pelas leituras do dia como um homem que fala com o Senhor que fala com o Pai e, mesmo quando recebe um não, aceita-o com alegria. David tinha um sentimento forte de pertença ao Povo de Deus – afirmou o Papa Francisco – e esta sua atitude faz-nos pensar sobre o nosso sentido de pertença à Igreja, o nosso sentir com a Igreja e na Igreja – considerou o Santo Padre:
“O cristão não é um batizado que recebe o Batismo e depois segue o seu caminho. O primeiro fruto do Batismo é fazer-te pertencer à Igreja, ao Povo de Deus. Não se entende um cristão sem Igreja. E por isto o grande Paulo VI diz que é uma dicotomia absurda amar Cristo sem a Igreja; escutar Jesus mas não a Igreja. Não se pode. É uma dicotomia absurda.”

Segundo o Papa Francisco há três pilares de pertença à Igreja, de sentir-se Igreja. São eles a humildade, a fidelidade e a oração pela Igreja. Referiu-se em primeiro lugar à humildade, considerando que cada um de nós é uma pequena parte de um grande povo. Depois a fidelidade à Igreja como vínculo aos seus ensinamentos. Finalmente, abordou o pilar da oração pela Igreja:
“Uma pessoa que não é humilde, não pode sentir com a Igreja, sentirá aquilo que lhe agrada. E esta humildade que se vê em David: ‘ Quem sou eu, Senhor Deus, e que coisa é a minha casa?’. Com aquela consciência que a história da salvação não começou comigo e não terminará quando eu morro. Não, é toda uma história da salvação: eu venho, o Senhor pega em ti, faz-te andar para a frente e depois chama-te e a história continua. A história da Igreja começou antes de nós e continuará depois de nós. Humildade: somos uma pequena parte de um grande povo, que vai pelo caminho do Senhor.”

“Fidelidade à Igreja; fidelidade ao seu ensinamento; fidelidade ao Credo; fidelidade à doutrina, conservar esta doutrina. Humildade e fidelidade. Também Paulo VI nos recordava que nós recebemos a mensagem do Evangelho como um dom e devemos transmiti-lo como um dom, mas não como uma coisa nossa: é um dom recebido que damos. E nesta transmissão ser fieis. Porque nós recebemos e devemos dar um Evangelho que não é nosso, que é de Jesus e não devemos – dizia ele – ser donos do Evangelho, donos da doutrina recebida, para utiliza-la ao nosso prazer.”

O Papa Francisco terminou a sua meditação dessa manhã afirmando que o terceiro pilar do sentimento de pertença à Igreja é a oração pela Igreja. Desta forma, o Santo Padre exortou os cristãos a rezarem pela Igreja presente em todas as partes do mundo e pediu ao Senhor que nos ajude a ir por este caminho para aprofundarmos a nossa pertença e o nosso sentir com a Igreja. (RS)

(Fonte: 'news.va')

Alegria

"Alegrai-vos, mais uma vez vos digo: alegrai-vos" (cfr. Fil 4, 4). A alegria é fundamental no cristianismo, que é por essência evangelium, "boa nova". No entanto, é neste ponto que o mundo se engana quando abandona a Igreja em nome da alegria, pretendendo que, com todos os seus preceitos e proibições, o cristianismo a arranca ao homem.

Não há dúvida de que a alegria de Cristo não é tão fácil de enxergar como o prazer banal que nasce de qualquer diversão. Mas seria falso traduzir as palavras Alegrai-vos no Senhor por estas outras: "Alegrai-vos, mas no Senhor", como se na segunda frase se quisesse recortar o que se afirmou na primeira. Significa simplesmente "alegrai-vos no Senhor", já que o Apóstolo evidentemente crê que toda a verdadeira alegria está no Senhor, e que fora dEle não pode haver nenhuma.

Com efeito, não há dúvida de que toda a alegria que se dá fora de Deus ou contra Ele não satisfaz, mas, pelo contrário, arrasta o homem para um redemoinho no qual não consegue experimentar um verdadeiro contentamento. Por isso, com essa expressão o Apóstolo informa-nos que a verdadeira alegria não chegará enquanto Cristo não a trouxer, e que aquilo que interessa na nossa vida é aprender a ver e compreender Cristo, o Deus da graça, a luz e a alegria do mundo. Pois a nossa alegria não será autêntica enquanto não deixar de se apoiar em coisas que possam ser arrebatadas das nossas mãos e destruídas, enquanto não encontrar um firme apoio na mais íntima profundidade da nossa existência, que não nos pode ser arrebatada por força alguma deste mundo. E toda a perda externa deveria fazer-nos avançar um passo para essa intimidade e tornar-nos mais amadurecidos para a nossa vida autêntica.

Cardeal Joseph Ratzinger em Sentido del Adviento’

Evangelho do dia 30 de setembro de 2019

Começaram a discutir entre si sobre qual deles era o maior. Jesus, vendo os pensamentos do seu coração, tomou pela mão uma criança, pô-la junto de Si, e disse-lhes: «Aquele que receber esta criança em Meu nome, a Mim recebe; e quem Me receber, recebe Aquele que Me enviou. Porque quem de entre vós é o menor, esse é o maior». João, tomando a palavra, disse: «Mestre, nós vimos um que expulsava os demónios em Teu nome e lho proibimos, porque não anda connosco». Jesus respondeu-lhe: «Não lho proibais, porque quem não é contra vós é por vós».

Lc 9, 46-50

domingo, 29 de setembro de 2019

Pede a São Rafael

Ris-te porque te digo que tens "vocação matrimonial"? – Pois é verdade: assim mesmo, vocação. Pede a São Rafael que te conduza castamente ao termo do caminho, como a Tobias. (Caminho, 27)

Dizes-me que tens no teu peito fogo e água, frio e calor, paixõezinhas e Deus...; uma vela acesa a São Miguel, e outra ao Diabo.

Tranquiliza-te; enquanto quiseres lutar, não haverá duas velas acesas no teu peito, mas uma só, a do Arcanjo. (Caminho, 724)

Como te rias, nobremente, quando te aconselhei a pores os teus anos moços sob a protecção de S. Rafael!; para que te leve a um matrimónio santo, como ao jovem Tobias, com uma mulher que seja boa e bonita e rica – disse-te, gracejando.

E depois, que pensativo ficaste quando continuei a aconselhar-te que te pusesses também sob o patrocínio daquele Apóstolo adolescente, João, para o caso de o Senhor te pedir mais! (Caminho, 360)

A Virgem Santa Maria, Mestra da entrega sem limites! Lembras-te? Com um louvor dirigido a Ela, Cristo afirmou: "Quem cumpre a vontade de Meu Pai, esse – essa – é Minha mãe!...".

Pede a esta boa Mãe que na tua alma ganhe força – força de amor e de libertação – a sua resposta de generosidade exemplar: "Ecce ancilla Domini!", eis aqui a escrava do Senhor! (Sulco, 33)

São Josemaría Escrivá

São Josemaría Escrivá sobre a Festa dos Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael

Fundação Saxum

A Igreja celebra a festa dos Arcanjos S. Miguel, S. Gabriel e S. Rafael. Referindo-se aos Anjos, S. Josemaría escreve no ponto 339 de Forja: “Não podemos ter a pretensão de que os Anjos nos obedeçam… Mas temos a absoluta segurança de que os Santos Anjos nos ouvem sempre”.

Bom Domingo do Senhor!

Que nunca nos suceda desviar o olhar e não dar a nossa assistência aos Lázaros que se cruzam connosco todos os dias, seja pela sua como pela nossa salvação (cfr. Lc 16, 19-31).

Amando o próximo, aquele que mais precisa material e espiritualmente estaremos a seguir Jesus Cristo. Ámen.

Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael

São Miguel Arcanjo

Neste dia a Igreja universal celebra a festa dos arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael.

"Miguel" que significa: "Quem como Deus?" é o defensor do Povo de Deus no tempo de angústia. É o padroeiro da Igreja universal e aquele que acompanha as almas dos mortos até o céu.

São Gabriel

"Gabriel" - que significa "Deus é forte" ou "aquele que está na presença de Deus" - aparece no assim chamado evangelho da infância como mensageiro da Boa Nova do Reino de Deus, que já está presente na pessoa de Jesus de Nazaré, nascido de Maria.

É ele quem anuncia o nascimento de João Baptista e de Jesus. Anuncia, portanto, o surgimento de uma nova era, um tempo de esperança e de salvação para todos os homens. É ele quem, pela primeira vez, profere aquelas palavras que todas as gerações hão-de repetir para saudar e louvar a Virgem de Nazaré: "Ave, cheia de graça. O Senhor é convosco".

São Rafael

"Rafael"- que quer dizer "medicina dos deuses" ou "Deus cura" - foi o companheiro de viagem de Tobias. É o anjo benfazejo que acompanha o jovem Tobias desde Nínive até à Média; quem o defende dos perigos e patrocina o seu casamento com Sara. É ele quem tira da cegueira o velho Tobias. É aquele que cura, que expulsa os demónios. São Rafael é o companheiro de viagem do homem, seu guia e seu protector nas adversidades.

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

«Deus olha para o coração» (1Sam 16,7)

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África), doutor da Igreja
Discursos sobre os salmos, Sl 85; CCL 39, 1178


Terá o pobre sido recebido pelos anjos unicamente devido ao mérito da sua pobreza? E terá o rico sido enviado para o lugar dos tormentos apenas por culpa da sua riqueza ? Não: é preciso entendermos que foi a humildade que foi premiada no caso do pobre e o orgulho condenado no caso do rico.

Eis a prova de que não foi a riqueza mas o orgulho que levou a que o rico fosse castigado. O pobre foi levado para o seio de Abraão; mas as Escrituras dizem de Abraão que ele tinha muito ouro e prata e que era rico na terra (Gn 13,2). Se todos os ricos são enviados para o lugar dos tormentos, como pôde Abraão receber o pobre no seu seio? Acontece que Abraão, com toda a sua riqueza, era pobre, humilde, respeitador e obedecia a todas as ordens de Deus. Ele tinha a sua riqueza em tão pouca conta que, quando Deus lho pediu, aceitou oferecer em sacrifício o filho a quem destinava essa riqueza (Gn 22,4).

Aprendei, pois, a ser pobres e ter necessidades, quer possuais alguma coisa neste mundo quer não possuais nada. Porque encontramos mendigos cheios de orgulho e ricos que confessam os seus pecados. «Deus resiste aos orgulhosos», estejam eles cobertos de seda ou de trapos, «mas dá a sua graça aos humildes» (Tg 4,6), quer eles possuam, ou não, bens deste mundo. Deus olha para o interior; é aí que avalia, aí que examina.

sábado, 28 de setembro de 2019

Estando Ele connosco nada há a temer

O chamamento do Senhor – a vocação – apresenta-se sempre assim: "Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-Me". Sim, a vocação exige renúncia, sacrifício. Mas que agradável acaba por ser o sacrifício ("gaudium cum pace", alegria e paz), se a renúncia é completa! (Sulco, 8)

Se consentires que Deus seja o senhor da tua nave, que Ele seja o amo, que segurança!..., mesmo quando a tempestade se levanta no meio das trevas mais escuras e parece que Ele se ausenta, que está a dormir, que não se preocupa. S. Marcos relata que os Apóstolos se encontravam nessas circunstâncias; e Jesus, vendo-os cansados de remar (porque o vento lhes era contrário), cerca da quarta vigília da noite foi ter com eles, andando sobre o mar... Tende confiança, sou eu, não temais. E subiu para a barca, para junto deles e cessou o vento.

Meus filhos, acontecem tantas coisas na terra...! Podia pôr-me a falar de penas, de sofrimentos, de maus tratos, de martírios – não tiro nem uma letra –, do heroísmo de muitas almas. Aos nossos olhos, na nossa inteligência, surge às vezes a impressão de que Jesus dorme, de que não nos ouve; mas S. Lucas narra como Nosso Senhor se comporta com os seus: Enquanto iam navegando, Jesus adormeceu e levantou-se uma tempestade de vento sobre o lago e a barca enchia-se de água e estavam em perigo. Aproximando-se dele, despertaram-no dizendo: Mestre, nós perecemos! Ele, levantando-se, increpou o vento e as ondas, que acalmaram e veio a bonança. Então disse-lhes: onde está a vossa fé?

Se nos dermos, Ele dá-se-nos. Temos de confiar plenamente no Mestre, temos de nos abandonar nas suas mãos sem mesquinhez; de lhe manifestar, com as nossas obras, que a barca é dele, que queremos que disponha à vontade de tudo o que nos pertence. (Amigos de Deus, 22)

São Josemaría Escrivá

O Evangelho de Domingo dia 29 de setembro de 2019

«Havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho fino e todos os dias se banqueteava esplêndidamente. Havia também um mendigo, chamado Lázaro, que, coberto de chagas, estava deitado à sua porta, desejando saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico, e até os cães vinham lamber-lhe as chagas. «Sucedeu morrer o mendigo, e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico, e foi sepultado. Quando estava nos tormentos do inferno, levantando os olhos, viu ao longe Abraão e Lázaro no seu seio. Então exclamou: Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nestas chamas. Abraão disse-lhe: Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida, e Lázaro, ao contrário, recebeu males; por isso ele é agora consolado e tu és atormentado. Além disso, há entre nós e vós um grande abismo; de maneira que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os daí podem passar para nós. O rico disse: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à minha casa paterna, pois tenho cinco irmãos, para que os advirta disto, e não suceda virem também eles parar a este lugar de tormentos. Abraão disse-lhe: Têm Moisés e os profetas; oiçam-nos. Ele, porém, disse: Não basta isso, pai Abraão, mas, se alguém do reino dos mortos for ter com eles, farão penitência. Ele disse-lhe: Se não ouvem Moisés e os profetas, também não acreditarão, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos».

Lc 16, 19-31

O mundo, visto do trono papal

Há tempos, ouvi um historiador importante explicar, com eloquência de dados, que o pedido de perdão de João Paulo II durante o Jubileu do ano 2000 não fazia sentido, porque nem ele nem os Papas anteriores tinham a ver com os acontecimentos de que pedia desculpa. Nem sequer a Igreja estava implicada na generalidade daqueles actos, a maior parte passados há muitos séculos. Antes de pedir desculpa, João Paulo II (digo eu) devia ter telefonado para a faculdade: «Está lá? Podia-me passar ao Prof.? Daqui fala o Papa. Não lhe vou tirar muito tempo, é só para me esclarecer...» (evitava-se o tal pedido de perdão inapropriado).

Em Junho passado, o Papa Francisco pediu desculpa aos valdenses pelas violências do século XVI. A Assembleia das Igrejas Metodistas e Valdenses respondeu-lhe há pouco, por carta, que não podiam perdoar: eram outros tempos, outras pessoas, nenhum daqueles antepassados está vivo... apreciavam o gesto, mas não lhes dizia respeito.

Aliás, a carta não toca no assunto, mas é evidente que se passa o mesmo com as culpas dos valdenses do século XVI: nenhum está vivo, nem tem um pai que possa pedir desculpa por ele.

Há uma frase de Paulo VI (cuja festa litúrgica se celebra no dia 26 de Setembro) que ilumina a questão: «o Papa deve olhar o mundo através dos olhos de Cristo». Ora, o olhar de Cristo não tem prazo de validade.

Ser Papa não é comparável a ser líder, é ser pai universal. Compreendo que um historiador não encontre a árvore genealógica que liga um remoto bandido a um Papa que vive vários séculos depois, contudo o Papa reconhece-o imediatamente: é meu filho!

Um Presidente da República não pede desculpa a Deus e ao mundo pelas malfeitorias dos cidadãos nacionais, mas um Papa sente sobre si a culpa de todas as culpas de todos os homens, de todos os continentes, de há 20 séculos para cá. O historiador pode argumentar que essa gente nem sequer ia à Missa: o Papa responde que sente ainda mais culpa, porque eles faltavam à Missa. O historiador pode contrapor que eles até perseguiam os padres e maltratavam os cristãos: o Papa sentirá uma culpa ainda maior. Não conseguem chegar a acordo, porque não é fácil conciliar a objectividade do historiador com a subjectividade do olhar de Cristo.

«Nada do que é humano é alheio à Igreja», eis uma ideia forte do Concílio Vaticano II, afirmando um envolvimento universal que abarca tudo o que há de bom e de mau na vida dos homens. Sobretudo, essa misteriosa preocupação por todos, que converge no coração do Papa. Descobrir a Igreja é também encontrar-se com a dimensão desta paternidade, querida pelo próprio Deus, à medida de Deus.

Há gente muito boa que conhece a doutrina e esperaria uma atitude mais objectiva por parte dos Papas. Um Cristo que come com publicanos e pecadores parece-lhes demasiado ingénuo e voltam à insinuação do Evangelho, «se Ele soubesse quem O está a tocar»... Claro que este Cristo é ingénuo. Pelo menos no sentido etimológico da palavra, inocente, sincero, simples. (Igualmente na acepção brasileira de filho da escrava, se pensarmos que Nossa Senhora se apresentou ao Anjo como a serva de Deus).

O título comum de todos os Papas, desde S. Gregório Magno, no século VI, até hoje é «servus servorum Dei» (o servo dos servos de Deus). Não é só literatura ancestral, enraizada nos séculos; a vulnerabilidade do coração de um Papa é um mistério que merece um imenso respeito.

José Maria C.S. André
Spe Deus
27-IX-2015

Soneto a Cristo Crucificado

Não me move, meu Deus, para querer-Te
O céu que me tens prometido,
Nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de ofender-Te.

Tu me moves, Senhor, move-me ver-Te
Cravado em uma Cruz e escarnecido,
Move-me ver teu Corpo tão ferido,
Movem-me tuas afrontas e tua morte.

Move-me, enfim, o teu amor, e de tal maneira,
Que a não haver céu, ainda Te amara,
E a não haver inferno Te temera.

Nada tens que me dar porque Te queira,
Pois mesmo que eu não esperasse o que espero,
O mesmo que Te quero Te quereria.

(tradução do espanhol para português)

Tem havido tentativas de atribuição deste soneto a um ou outro autor, sem que a crítica tenha comprovado a autoria.

Talvez São João da Cruz ou Santa Teresa de Jesus (Sec.XVI). A atribuição aos dois Carmelitas corresponde ao tema do amor altruísta, muito presente naqueles Santos.

Este soneto, pela sua perfeita execução, aparece como um modelo em todas as grandes antologias, pelo que Don Marcelino Menéndez Pelayo o incluiu na sua obra Cem Melhores Poemas do idioma espanhol.

Nunca o amor de Cristo crucificado havia atingido um tal grau de pureza e intensidade na sensibilidade da expressão poética (...) Este soneto esquece as recompensas e punições para suscitar um amor, que por ser verdadeiro, não necessita do castigo, mas nasce limpo e profundo da contemplação dolorosa do martírio com que Cristo redime o homem. Essa é a única razão eficaz que pode mover a afastar-se da ingratidão do ultraje, a quem vem para nos amar de modo tão excessivo. (…) As duas últimas estrofes (…) reforçam e convencem a amar a Cristo acima de qualquer outra consideração ilegítima e mesquinha.

O estilo é directo, energético, quase penitencial (…). Não é a beleza criativa da linguagem que define este soneto, mas a força de renunciar a tudo o que não seja amar a quem, por amor, deixou massacrar o Seu Corpo.

Renunciando aos adornos da linguagem figurada, harmoniza, em admirável união, a forma forte e vigorosa e a mística nudez do conteúdo.

(Pe. Angel Martin, o.f.m.)

Evangelho do dia 28 de setembro de 2019

E todos se admiravam da grandeza de Deus. Enquanto todos admiravam as coisas que fazia, Jesus disse aos discípulos: «Fixai bem estas palavras: O Filho do Homem está para ser entregue nas mãos dos homens». Eles, porém, não entendiam esta linguagem; era-lhes tão obscura que não a compreendiam; e tinham medo de O interrogar acerca dela.

Lc 9, 43b-45

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Luta contra essa frouxidão

És tíbio se fazes preguiçosamente e de má vontade as coisas que se referem ao Senhor; se procuras com cálculo ou "manha" o modo de diminuir os teus deveres; se não pensas senão em ti e na tua comodidade; se as tuas conversas são ociosas e vãs; se não aborreces o pecado venial; se ages por motivos humanos. (Caminho, 331)

Luta contra essa frouxidão que te faz preguiçoso e desleixado na tua vida espiritual. – Olha que pode ser o princípio da tibieza..., e, na frase da Escritura, os tíbios, Deus os vomitará. (Caminho, 325)

Que pouco Amor de Deus tens quando cedes sem luta porque não é pecado grave! (Caminho, 328)

Como hás-de sair tu desse estado de tibieza, de lamentável languidez, se não empregas os meios? Lutas muito pouco e, quando te esforças, faze-lo como que zangado e com falta de gosto, quase com o desejo de que os teus fracos esforços não produzam efeito, para te justificares: para não te exigires e para que não te exijam mais. (Sulco, 146)

São Josemaría Escrivá

A alegria de uma pequena grande família cristã

Não é todos os dias, nem todos os anos, que uma família membro da Igreja Católica vê um dos seus filhos elevado aos altares, há cinco anos nesta data o Opus Dei estava em festa, festa que foi e é sinónimo de aumento de responsabilidades, pois a fasquia subiu para todos os seus filhos.

Até aqui a mola impulsionadora publicamente conhecida era a santidade do seu fundador, Josemaría Escrivá, a partir de então todos passamos a ser olhados também como filhos do “engenheiro”, D. Álavro del Portillo, bem-aventurado, homem cuja vida é um exemplo de santidade e que foi um fiel servidor do Senhor e do fundador da Obra que ajudou a expandir e crescer.

São múltiplos os testemunhos vivos sobre a sua bondade e fortíssima espiritualidade, que é difícil enaltecer um em particular, permito-me ainda assim, referir a entrega total de si mesmo em total dedicação e serviço a Deus, ao Opus Dei e ao próximo.

Louvar e agradecer a Deus por nos haver doado este exemplo de vida de santidade é nosso dever e nossa obrigação, que jamais devemos deixar esmorecer nos nossos corações.

Obrigado Meu Senhor e Meu Deus!

JPR

Um pobre [...] jazia ao seu portão

Concílio Vaticano II 
Constituição sobre a Igreja no mundo actual, «Gaudium et Spes», § 69


Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos; de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos, segundo a justiça, secundada pela caridade. Sejam quais forem as formas de propriedade, conforme as legítimas instituições dos povos e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias, deve-se sempre atender a este destino universal dos bens. Por esta razão, quem usa desses bens não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si mas também aos outros.

De resto, todos têm o direito de ter uma parte de bens suficiente para si e suas famílias. Assim pensaram os Padres e os Doutores da Igreja, ensinando que os homens têm obrigação de auxiliar os pobres e não apenas com os bens supérfluos. E aquele que se encontra em extrema necessidade tem direito de tomar, dos bens dos outros, o que necessita [Nota: Nesse caso vale o antigo principio: «na necessidade extrema, todas as coisas são comuns, isto é, todas as coisas devem ser tornadas comuns». […] É claro que, para a recta aplicação do princípio, devem ser respeitadas todas as condições moralmente exigidas.]. Sendo tão numerosos os que no mundo padecem fome, o sagrado Concílio insiste com todos, indivíduos e autoridades, para que, recordados daquela palavra dos Padres – «alimenta o que padece fome porque, se o não alimentaste, mataste-o» –, repartam realmente e distribuam os seus bens, procurando sobretudo prover esses indivíduos e povos daqueles auxílios que lhes permitam ajudar-se e desenvolver-se a si mesmos.

Evangelho do dia 27 de setembro de 2019

Aconteceu que, estando a orar só, se encontravam com Ele os Seus discípulos. Jesus interrogou-os: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». Responderam e disseram: «Uns dizem que és João Batista, outros que Elias, outros que ressuscitou um dos antigos profetas». Ele disse-lhes: «E vós quem dizeis que sou Eu?». Pedro, respondendo, disse: «O Cristo de Deus». Mas Ele, em tom severo, mandou que não o dissessem a ninguém, acrescentando: «É necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas, que seja rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, que seja morto e ressuscite ao terceiro dia.

Lc 9, 18-22

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Quem ama a Deus dá-se a si mesmo

O tempo é o nosso tesouro, o "dinheiro" para comprarmos a eternidade. (Sulco 882)

Que pena viver tendo como ocupação matar o tempo, que é um tesouro de Deus! Não há desculpas para justificar essa actuação. Que ninguém diga: só tenho um talento, não posso ganhar nada. Também com um só talento podes agir de modo meritório. Que tristeza não tirar partido, autêntico rendimento de todas as faculdades, poucas ou muitas, que Deus concede ao homem para que se dedique a servir as almas e a sociedade!

Quando o cristão mata o seu tempo na Terra, coloca-se em perigo de matar o seu Céu, se, pelo seu egoísmo, se retrai, se esconde, se despreocupa. Quem ama a Deus, não entrega só o que tem, o que é, ao serviço de Deus: dá-se a si mesmo. Não vê – em perspectiva rasteira – o seu eu na saúde, no nome, na carreira. (Amigos de Deus, 46)

São Josemaría Escrivá

«… hábito da mente pelo qual alcançamos um início de vida eterna, movendo o entendimento para que dê o assentimento às coisas que não vê»

(São Tomás de Aquino - Suma Teológica, II, q.4, a.1)

«A fé cristã é, na sua essência, participação na visão de Jesus, mediada pela Sua palavra, que é a expressão autêntica da Sua visão. A visão de Jesus é o ponto de referência da nossa fé, a sua ancoragem concreta»

(Joseph Ratzinger - Olhar para Cristo)

A Fé

«(…) a fé não é, em primeiro lugar, matéria de experimentação intelectual, mas o fundamento sólido – ‘hypostasis, a garantia’, afirma a carta aos Hebreus (11,1) – sobre o qual podemos viver e morrer. Ora, do mesmo modo que a ciência não é prejudicada pelas certezas adquiridas – bem pelo contrário, as certezas adquiridas é que constituem a condição do seu progresso -, assim também as certezas dadas pela fé nos abrem horizontes sempre novos, ao passo que a reflexão experimental em contínuo torvelinho sobre ela mesma acaba por ser fastidiosa».

(“A Caminho de Jesus Cristo” – Joseph Ratzinger)

Evangelho do dia 26 de setembro de 2019

O tetrarca Herodes ouviu falar de tudo o que se passava, e não sabia que pensar, porque uns diziam: «É João que ressuscitou dos mortos»; outros: «É Elias que apareceu»; outros: «É um dos antigos profetas que ressuscitou». Herodes disse: «Eu mandei degolar João. Quem é, pois, Este de quem ouço tais coisas?». E buscava ocasião de O ver.

Lc 9, 7-9

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Não nos deve sobrar o tempo. Nem um segundo

Consolaste-te com a ideia de que a vida é gastar-se, é queimá-la no serviço de Deus. Assim, gastando-nos integralmente por Ele, virá a libertação da morte, que nos dará a posse da Vida. (Sulco, 883)

Não nos deve sobrar o tempo. Nem um segundo. E não exagero! Trabalho há sempre. O mundo é grande e são milhões as almas que não ouviram ainda falar claramente da doutrina de Cristo. Dirijo-me a cada um de vós. Se te sobra tempo, medita um pouco: é muito possível que vivas no meio da tibieza, ou que, sobrenaturalmente, sejas um paralítico. Não te mexes, estás parado, estéril, sem realizar todo o bem que deverias comunicar aos que se encontram a teu lado, no teu ambiente, no teu trabalho, na tua família.

Pensemos na nossa vida com valentia. Por que é que às vezes não conseguimos os minutos de que precisamos para terminar amorosamente o trabalho que nos diz respeito e que é o meio da nossa santificação? Por que descuidamos as obrigações familiares? Por que é que se nos mete a precipitação no momento de rezar ou de assistir ao Santo Sacrifício da Missa? Por que nos faltará a serenidade e a calma para cumprir os deveres do nosso estado e nos entretemos sem qualquer pressa nos caprichos pessoais? Podeis responder-me: são coisas pequenas. Sim, com efeito, mas essas coisas pequenas são o azeite, o nosso azeite, que mantém viva a chama e acesa a luz. (Amigos de Deus, 41–42)

São Josemaría Escrivá

Falta de coragem e entrega

Sendo certo que um bom exame de consciência e um sincero arrependimento nos ajudam a “sacudir” a sujidade, mas não ficamos completamente limpos.

Estou a imaginar algumas pessoas que conheço e de quem gosto e com quem convivo regularmente a pensarem, “lá está este chato a falar da Confissão, mas eu confesso-me diretamente a Deus”, pois é, desculpar-me-ão a linguagem frontal, mas tudo isso não passa de cobardia e soberba, a verdadeira Confissão, e o Catecismo da Igreja Católica apenas a pede uma vez por ano (§ 1.457), está em recorrermos a quem investido pelo Sacramento da Ordem e como tal sendo o próprio Cristo no ato.

Não vos é fácil de digerir, mas acreditem que faz bem, além de evidentemente de respeitar a Igreja que Jesus Cristo Deus Nosso Senhor fundou e que os homens guiados pelo Espírito Santo foram construindo ao longo dos séculos.

JPR

“...o Espírito Santo traz-nos o perdão de Deus passando através das chagas de Jesus.”

“A Igreja não é a senhora deste poder das chaves, mas é serva do ministério da misericórdia e alegra-se todas as vezes que pode oferecer este dom divino.”

“Às vezes ouve-se dizer que certas pessoas confessam-se diretamente a Deus ... sim, como dizia antes, Deus escuta-te sempre, mas no sacramento da reconciliação manda um irmão para te trazer o perdão em nome da Igreja.”

(Papa Francisco - Audiência geral 20.11.2013)

O pelagianismo dos piedosos

«A outra face do mesmo vício é o pelagianismo dos piedosos. Estes não querem ter perdão algum e, de um modo geral, nenhum verdadeiro dom de Deus. Querem estar em ordem, não querem perdão, mas justa recompensa. Quereriam não esperança, mas segurança. Com um duro rigorismo de exercícios religiosos, com orações e ações, querem ter direito à beatitude. Falta-lhes a humildade essencial para qualquer amor, a humildade de receber dons que ultrapassam a nossa ação e o nosso merecimento. A negação da esperança a favor da segurança, diante da qual nos encontramos agora, baseia-se na incapacidade de viver a tensão do que está para vir e de se abandonar à bondade de Deus. Assim, este pelagianismo é uma apostasia do amor e da esperança e em profundidade também da fé».

(Joseph Ratzinger - “Olhar para Cristo”)

«Entrar na Igreja e honrar as imagens sagradas e as veneradas cruzes, não basta por si só para agradar a Deus, como tão-pouco lavar as mãos é suficiente para estar completamente limpo.

O que verdadeiramente é grato a Deus, é que o homem fuja do pecado e limpe as suas manchas pela confissão e pela penitência. Que quebre as cadeias das suas culpas com humildade do coração.»

(Santo Atanásio Sinaita - Sermo de Sancta Synaxis)

A Madre Teresa e a política

Calcutá é a capital do Bengala Ocidental, um Estado da Índia dominado durante 34 anos pelo Partido Comunista, graças à liderança carismática de , chefe do Governo durante 23 anos. Nestas funções, em que conviveu longamente com a Madre Teresa e as suas freiras, o radicalismo de Jyoti Basu colapsou. Violento e duro com os adversários, rendeu-se sem luta com a Madre Teresa.  «She makes me a bad Marxist since she makes me believe in godliness» (ela faz de mim um mau marxista, porque me faz acreditar na piedade / na divindade). Para quê culpar o grande líder comunista? Quem não tem fraquezas?

Joykrishno Ghosh, secretário de Jyoti Basu desde o início, lembra as instruções que tinha, para nunca fazer a Madre Teresa esperar. Há relatos de que o Conselho de Ministros se interrompeu porque a Madre acabava de chegar.

Ronda Chervin, biógrafo da Madre Teresa, conta que ela também correspondia prontamente aos pedidos de Basu: um dia, em que ele não sabia como lidar com 400 mulheres mantidas na prisão com problemas físicos e mentais, a Madre Teresa tirou-as de lá imediatamente e começou a construir um lar para elas, num terreno cedido pelo Governo. Navin B. Chawla, outro biógrafo da Madre Teresa, refere que ela antepunha sempre as palavras «o meu amigo», antes do nome de Basu. Quando a Madre foi hospitalizada, Basu visitava-a todos os dias; quando Basu esteve doente, ela ia lá todos os dias rezar.

Basu não escondia a sua amizade pelas Irmãs Missionárias da Caridade. Quando a Madre Teresa morreu (1997), sendo ele o Primeiro-ministro do Bengala Ocidental e cabeça do Partido Comunista local, organizou um dos maiores funerais de Estado de que há memória. O realizador Rajeevnath lembra que, quando um jornal noticiou que ele estava a preparar um filme sobre a Madre Teresa, lhe telefonaram directamente do Governo a dizer que todo o Estado de Bengala o apoiava, se fizesse o filme.

Prémio Nobel, Oslo 11 de dezembro de 1979
Temos de reconhecer que não era simples, para um político, conviver com a Madre Teresa. Ainda ecoa por todo o mundo a sua declaração ao receber o prémio Nobel da Paz: «O aborto é hoje a maior ameaça à paz, porque se uma mãe pode matar o próprio filho, ninguém pode impedir de matar». Na homilia da canonização, o Papa Francisco lembrou o empenho incessante da Madre Teresa em defesa da vida. Hillary Clinton descreve esta posição como «absolutamente frontal: a Madre Teresa discordava dos meus pontos de vista... e disse-mo» (Mother Teresa was unerringly direct. She disagreed with my views... and told me so). Num almoço na Casa Branca, Hillary perguntou-se por que é que nenhuma mulher tinha chegado a Presidente dos Estados Unidos; conta-se que a Madre Teresa voltou à carga: «Provavelmente, porque foi abortada». Diz bem da Primeira-Dama que, depois de ouvir uma resposta destas e continuando sem compreender o mal do aborto, tenha viajado à Índia para ver como as Missionárias da Caridade acolhiam as crianças e tenha apoiado iniciativas delas nos Estados Unidos.

O jornalista Andrea Tornielli, do «La Stampa», resume o depoimento do antigo enviado especial da ONU, Staffan de Mistura, num «Meeting di Rimini», organizado pelo movimento Comunhão e Libertação. No ano de 1986, os guerrilheiros cercavam a cidade sudanesa de Juba, de maioria cristã, impedindo a chegada de mantimentos. A população começava a morrer de fome. Os mísseis dos guerrilheiros já tinham abatido dois aviões da ONU, que transportavam comida para Juba. Nisto, aparece na capital do Sudão a Madre Teresa com a Irmã Mirtilla: «Estive ontem com o Papa João Paulo II, que ouviu a BBC e quer salvar a cidade de Juba. Eu ia para o Quénia, mas resolvi passar antes por aqui. Que posso fazer? Explique-me o problema». Tentaram explicar: «Isso é demasiado complicado, ligue-me para o Presidente do Sudão que impede a partida do avião, ou para os guerrilheiros». O Presidente está neste momento nos Estados Unidos. «Não faz mal, falamos com o Ronald. É um bom sujeito». Quem? «O Ronald Reagan e também a mulher dele. Ligue-me já para a Casa Branca».

– Boa tarde, fala do World Food Programme, no Sudão, estou aqui com a Madre Teresa que quer falar...

– Pois pois, também telefonaram para cá o Napoleão e o Júlio César... – responde o telefonista. Foi difícil convencê-lo e depois percorrer um a um os degraus da hierarquia da Casa Branca até conseguir a resposta: «o Presidente vai falar com a Madre Teresa». Reagan mexe-se e no dia seguinte um avião das Nações Unidas, carregado de comida, aterra em Juba sem ser bombardeado. Os guerrilheiros desistiram e levantaram o cerco.

José Maria C.S. André
Spe Deus
25-IX-2016