Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Jesus é descido da cruz e entregue a sua Mãe

xiii estação

Nós Vos adoramos e bendizemos oh Jesus!

Que pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.


O teu rosto é uma máscara de dor e compunção; o teu Filho, o teu Jesus, jaz nos teus braços, inerte, sujo, lívido... morto!

Tu sabes que Ele morreu porque quis, cumprindo os planos divinos de salvação da humanidade.

Uma espada te há-de trespassar a tua própria alma...[1]

Nunca imaginaras que fosse necessária toda a tragédia do julgamento, a flagelação, a coroa de espinhos, a caminhada incrível de sofrimento e dor.

As lágrimas escorrem da tua face adorada sobre o rosto lívido do Teu Filho morto e tu sabes que nada podes fazer, nada te compete fazer.

Foste incumbida da sublime missão de O trazer ao mundo, dando-lhe forma humana no teu seio, Carne da tua carne, Sangue do teu sangue.

Por isso, é também o teu sangue que empapa aquele monte Calvário.

Virgem das Dores, deixa-me partilhar a tua mágoa e chorar contigo a morte do nosso Jesus.

Tu sabes que Ele morreu por mim, para me salvar, deixa-me, portanto, ocupar o meu lugar de filho teu, em que, Ele, na Sua agonia, teve a magnanimidade de me tornar.

Mulher, eis aí o teu filho[2]

Sou eu, Senhora, um deles, dessa legião imensa de filhos teus, em que a bondade do Senhor nos converteu.

Deixa-me que contigo amortalhe o meu Jesus, lave as Suas feridas, componha os Seus cabelos e envolva o Seu Corpo no pano de linho mais puro.

O meu Senhor tem agora um ar mais digno, mais composto e, tu, minha Mãe, num último olhar, abre os teus braços e acolhe-me também no teu regaço.

PN, AVM, GLP.
Senhor: Tem piedade de nós




[1] Lc 2, 35
[2] Jo 19, 27

À hora de Noa, Jesus exclamou com voz forte: Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?

LEITURA BREVE Is 53, 6-7

Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes; cada qual seguia o seu caminho. E o Senhor fez cair sobre Ele as culpas de todos nós. Maltratado, resignou-Se e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, Ele não abriu a boca.

V. Fez-me habitar nas trevas,
R. Como os mortos há muito esquecidos.

Seguir Cristo: é este o segredo

Ao oferecer-te aquela História de Jesus, pus como dedicatória: "Que procures a Cristo. Que encontres a Cristo. Que ames a Cristo". – São três etapas claríssimas. Tentaste, pelo menos, viver a primeira? (Caminho, 382)

Como poderemos superar estes inconvenientes? Como conseguiremos fortalecer-nos nessa decisão que começa a parecer-nos muito pesada? Inspirando-nos no modelo que nos apresenta a Virgem Santíssima, nossa Mãe: uma rota muito ampla, que passa necessariamente através de Jesus.

Neste esforço por nos identificarmos com Cristo, costumo falar de quatro degraus: procurá-lo, encontrá-lo, conhecê-lo, amá-lo. Talvez pareça que estamos na primeira etapa... Procuremo-lo com fome, procuremo-lo dentro de nós com todas as forças! Se o fizermos com este empenho, atrevo-me a garantir que já O encontrámos e que já começámos a conhecê-lo e a amá-lo e a ter a nossa conversa nos céus. 

Rogo a Nosso Senhor que nos decidamos a alimentar nas nossas almas a única ambição nobre, a única que merece a pena: ir ter com Jesus Cristo, como fizeram a sua Bendita Mãe e o Santo Patriarca, com ânsia, com abnegação, sem descuidos. Participaremos na dita da amizade divina – num recolhimento interior, compatível com os nossos deveres profissionais e sociais – e agradecer-Lhe-emos a delicadeza e a caridade com que Ele nos ensina a cumprir a Vontade do Nosso Pai que está nos céus.

Seguir Cristo: é este o segredo. Acompanhá-lo tão de perto, que vivamos com Ele, como os primeiros doze; tão de perto, que com Ele nos identifiquemos. Se não levantarmos obstáculos à graça, não tardaremos a afirmar que nos revestimos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nosso Senhor reflecte-se na nossa conduta como num espelho. Se o espelho for como deve ser, captará o rosto amabilíssimo do nosso Salvador sem o desfigurar, sem caricaturas: e os outros terão a possibilidade de O admirar, de O seguir. (Amigos de Deus, 299–303)

São Josemaría Escrivá

Cadáver de Cristo

Dos altos cargos que ocupam, Nicodemos e José de Arimateia - discípulos ocultos de Cristo - intercedem por Ele. Na hora da solidão, do abandono total e do desprezo..., então expõem-se audacter (Mc XV, 43)... Valentia heróica!

Eu subirei com eles ao pé da Cruz, apertar-me-ei ao Corpo frio, cadáver de Cristo, com o fogo do meu amor..., despregá-Lo-ei com os meus desagravos e mortificações..., envolvê-Lo-ei com o lençol novo da minha vida limpa e enterrá-Lo-ei no meu peito de rocha viva, donde ninguém m'O poderá arrancar. E, aí, Senhor, descansai! Mesmo que todos Vos abandonem e desprezem... Serviam! Servir-Vos-ei, Senhor. (Via Sacra, 14ª estação, n. 1)

Tereis observado como algumas mães, movidas por um legítimo orgulho, se apressam a pôr-se ao lado dos seus filhos quando estes triunfam, quando recebem um reconhecimento público. Outras, pelo contrário, mesmo nesses momentos permanecem em segundo plano, amando em silêncio. Maria era assim e Jesus sabia-o.

Agora, pelo contrário, no escândalo do sacrifício da Cruz, Santa Maria estava presente, ouvindo com tristeza os que passavam por ali e blasfemavam abanando a cabeça e gritando: Tu, que arrasas o templo de Deus e, em três dias o reedificas, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz. Nossa Senhora escutava as palavras de seu Filho, unindo-se à sua dor; Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste? Que podia Ela fazer? Fundir-se com o amor Redentor de seu Filho, oferecer ao Pai a dor imensa - como uma espada afiada - que trespassava o seu Coração puro.

De novo Jesus se sente confortado com essa presença discreta e amorosa de sua Mãe. Maria não grita, não corre de um lado para outro... Stabat: está de pé, junto ao Filho. É então que Jesus olha para Ela, dirigindo depois o olhar para João. E exclama: - Mulher, aí tens o teu filho. Depois diz ao discípulo: Aí tens a tua Mãe. Em João, Cristo confia à sua Mãe todos os homens e especialmente os seus discípulos, os que haviam de acreditar n'Ele.

Felix culpa, canta a Igreja, feliz culpa, porque nos fez ter tal e tão grande Redentor! Feliz culpa, podemos acrescentar também, que nos mereceu receber por Mãe, Santa Maria! Já estamos seguros, já nada nos deve preocupar, porque Nossa Senhora, coroada Rainha dos Céus e da Terra, é a omnipotência suplicante diante de Deus. Jesus não pode negar nada a Maria, nem tão pouco a nós, filhos da sua própria Mãe. (Amigos de Deus, 287-288)

Sexta-feira Santa: A Morte na Cruz

Levaram, pois, Jesus consigo. Este, carregando com a cruz, saiu para o chamado lugar do Crânio, que em hebraico se diz Gólgota. Lá O crucificaram e, com Ele, mais dois: um de cada lado e Jesus no meio. Pilatos escreveu também um letreiro e colocou-o na cruz. Tinha escrito: “Jesus de Nazaré, o Rei dos Judeus” (Jo 19, 16-19).

Não sabem o que fazem
Agora crucificam o Senhor e, junto d’Ele, dois ladrões, um à direita e outro à esquerda. Entretanto, Jesus diz: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem (Lc 23, 34).

Foi o Amor que levou Jesus ao Calvário. E já na Cruz, todos os Seus gestos e todas as Suas palavras são de amor, de amor sereno e forte.

Com gesto de Sacerdote Eterno, sem pai nem mãe, sem genealogia (cfr. Heb 7, 3), abre os Seus braços à humanidade inteira.

Juntamente com as marteladas que cravam Jesus, ressoam as palavras proféticas da Escritura Santa: trespassaram as Minhas mãos e os Meus pés, contaram todos os Meus ossos. E eles mesmos olham para Mim e contemplam (Ps 21, 17-18).

- Ó Meu Povo! Que te fiz Eu, ou em que te contristei? Responde-Me (Miq 6, 3).

E nós, desfeita a alma pela dor, dizemos sinceramente a Jesus: sou Teu e entrego-me a Ti, e cravo-me na Cruz gostosamente, sendo nas encruzilhadas do mundo uma alma entregue a Ti, à Tua glória, à Redenção, à co-redenção da humanidade inteira ».
Via Sacra, XI Estação

Injuriam-nO e troçam d’Ele
Na parte alta da Cruz, está escrita a causa da condenação: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus (Jo 19, 19). E todos os que passam por ali O injuriam e se mofam d’Ele.

- Se é o rei de Israel, desça agora da cruz (Mt 27, 42).
Um dos ladrões vem em Sua defesa:
- Este não fez nenhum mal (Lc 23, 41).

Depois dirige a Jesus uma petição humilde, cheia de fé:
- Senhor, lembra-Te de mim, quando entrares no Teu reino (Lc 23,42).
- Em verdade te digo que hoje mesmo estarás coMigo no paraíso (Lc 23, 43).

Junto da Cruz está Sua Mãe, Maria, com outras santas mulheres. Jesus olha-a e olha, depois, para o discípulo que ama, e diz a Sua Mãe:
- Mulher, aí tens o teu filho.

Depois, diz ao discípulo:
- Aí tens a tua Mãe (Jo 19, 26-27).

Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste?
Apaga-se a luminária do céu e a terra fica mergulhada nas trevas. São cerca das três, quando Jesus exclama:
- Elí, Elí, lamma sabachtani?! Isto é: Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste (Mt 27, 46).

Depois, sabendo que todas as coisas estão prestes a ser consumadas, para que se cumpra a Escritura, diz:
- Tenho sede (Jo 19, 28).

Os soldados empapam uma esponja em vinagre e, atando-a a uma cana de hissope, aproximam-Lha da boca. Jesus sorve o vinagre e exclama:
- Tudo está consumado (Jo 19, 30)

O véu do templo rasga-se e treme a terra, quando brada o Senhor com grande voz:
- Pai, nas Tuas mãos encomendo o Meu espírito (Lc 23, 46).

E expira.

Fonte de vida interior
Ama o sacrifício que é fonte de vida interior. Ama a Cruz que é altar do sacrifício. Ama a dor até beber, como Cristo, as fezes do cálice ».
Via Sacra, XII Estação

Via Sacra - São Josemaría Escrivá

O Senhor é flagelado


ESTADO DE EMERGÊNCIA CRISTÃ

Uma proposta diária de oração pessoal e familiar.

23º Dia. Sexta-feira Santa, 10 de Abril de 2020.

Meditação da Palavra de Deus (Jo 18, 1-40. 19, 1-42)

A quem buscais?

“Sabendo Jesus tudo o que Lhe ia acontecer, adiantou-Se e perguntou-lhes: ‘A quem buscais?’. Eles responderam-Lhe: ‘A Jesus o Nazareno’. Jesus disse-lhes ‘Sou Eu’.”

O que aconteceu há dois mil anos, está sempre a acontecer: de certo modo, todos os homens, de todos os tempos, procuram Jesus.

Procuram-no os que, como os fariseus, de novo, O querem acusar e eliminar, incapazes de se converterem àquele cuja condição divina foi atestada por portentosos milagres.

Procuram-no aqueles que, como Pôncio Pilatos, O querem matar, para se desembaraçarem de alguém que se opõe aos seus mesquinhos calculismos e propósitos de um carreirismo sem escrúpulos.

Procuram-no aqueles que, como Judas, d’Ele se querem servir para conseguir um valioso resgate, comprado pelo preço de uma ignominiosa traição, perpetrada na hipocrisia de um beijo.

Procuram-no aqueles que, como o bom ladrão, desfeita a última esperança humana, sabem que só n’Ele podem encontrar o caminho que conduz ao paraíso.

Procuram-no aqueles que, como a mulher pecadora, beijaram e lavaram com as suas lágrimas os pés do divino Crucificado. Aqueles que muito pecaram, mas mais amaram, foram por isso mais perdoados também.

Procuram-no aqueles seus discípulos que, como João, souberam perseverar até ao fim, junto do seu Senhor.

Procuram-no aqueles que, como Maria, sua Mãe santíssima, souberam desaparecer na hora dos triunfos e dos aplausos, mas aparecem na hora tremenda dos insultos e da humilhação na Cruz.

“Quando Jesus lhes disse: ‘Sou Eu’, recuaram e caíram por terra”. Repetindo, de algum modo, este gesto, os celebrantes da paixão de Cristo, que hoje substitui a celebração eucarística, prostram-se no chão, em sinal de contrição e de adoração.

Senhor Jesus, faz que eu, pecador, também me prostre hoje a teus pés, e nas lágrimas da minha contrição, lave os meus pecados e as ofensas do mundo inteiro, para que, contigo, possa, com todos os meus irmãos, ressuscitar para a vida da graça!

Intenções para os mistérios dolorosos do Santo Rosário de Nossa Senhora:

1º - A oração de Jesus no horto. Naquela sua última oração ao Pai, Jesus reza por si mesmo, reza pelos seus apóstolos, mas reza também por todos aqueles que haviam de crer n’Ele. Neste mistério, façamos nossa a oração de Jesus.
2º - A flagelação de Jesus. Se nós não existíssemos, nem os nossos pecados, a flagelação do Senhor teria sido menos cruel, porque havia menos faltas pelas quais expiar. Que estas dez Avé-Marias sejam em desagravo dos nossos pecados.
3º - A coroação de espinhos. À burla dos soldados que troçaram da realeza de Cristo, devemos responder com a nossa adoração do Rei dos Reis e Senhor dos Senhores.
4º - Jesus com a cruz às costas. Em toda a paixão de Nosso Senhor, não se Lhe ouve uma queixa, um protesto, uma lamúria. Senhor, ensina-me a amar assim!
5º - Jesus morre na Cruz. Se Jesus morreu para nos dar a vida sobrenatural, saibamos também nós morrer para o pecado, para podermos, com Ele, viver na graça e, depois, na glória.

Para ler, meditar e partilhar! Obrigado e até amanhã, se Deus quiser!

Com amizade,
P. Gonçalo Portocarrero de Almada

O testamento de Jesus Cristo

Deixo à Igreja o meu coração (...) que é fonte inesgotável de perdão e graça para quantos, absolvidos dos seus pecados pelo sacramento da penitência, me recebem no santíssimo sacramento da Eucaristia.

Eu, Jesus de Nazaré, também chamado Cristo, filho de Maria, casada com José, da casa e família de David (Lc 1, 27), na iminência da minha morte, em voluntário sacrifício de obediência a meu Pai Deus, pela redenção da humanidade, determino ser minha última vontade dispor de mim mesmo e dos meus bens da forma que aqui determino.

Deixo, aos que foram traídos pelos seus familiares e amigos, o beijo que recebi de Judas Iscariotes (Mt 26, 47-56; Mc 14, 43-52; Lc 22, 47-53; Jo 18, 3-11), para que, do mesmo modo como eu, sabendo-o traidor, lhe lavei os pés, os saibam perdoar e amar.

Deixo aos juízes e advogados a minha inocência, para que a justiça triunfe sobre a iniquidade, nenhum inocente seja condenado e a todos, também os que foram justamente punidos, seja reconhecida a dignidade de quem é imagem e semelhança de Deus.

Deixo a troça de que fui alvo pela multidão (Mt 27, 39-44; Mc 15, 29-32; Lc 23, 35-37) a todos os que têm vergonha de ser meus discípulos e, por respeitos humanos, ocultam a sua condição de cristãos, para que compreendam que o escárnio dos ímpios é a homenagem que o vício presta à virtude.

Deixo a todos os que são injustiçados a mansidão com que acatei a iníqua sentença de Pôncio Pilatos que, sabendo-me inocente, me condenou à morte na Cruz.

Deixo o indulto de que beneficiou Barrabás, e que me era devido (Mt 27, 15-26; Mc 15, 6-15; Lc 23, 13-25; Jo 18, 39-40), a todos os que praticam a violência, para que se convertam à paz, que é condição para a felicidade terrena e eterna.

Deixo aos frívolos o silêncio com que respondi a Herodes, quando me pediu sinais que satisfizessem a sua vã curiosidade (Lc 23, 6-12), mas a que não acedi porque o seu desejo não era de uma sincera conversão, único caminho de salvação.

Deixo aos ricos a minha pobreza porque, sendo rico, me fiz pobre por amor dos pobres, para que todos os pobres fossem ricos pela minha pobreza (2Cor 8, 9).

Deixo aos doentes as minhas dores, para que se alegrem nos seus sofrimentos e, pela sua união à minha paixão e morte na Cruz, completem na sua carne o que falta aos meus padecimentos, pelo meu corpo místico, que é a Igreja (Cl 1, 24).

Deixo a minha santa face impressa nos corações dos que socorrem os aflitos, como a deixei gravada no véu da Verónica, que enxugou, no caminho do Calvário, o meu rosto de sangue, suor e lágrimas.

Deixo aos trabalhadores o santo lenho da minha Cruz (Mt 27, 32-44; Mc 15, 21-32; Lc 23, 33-43; Jo 19, 24), memorial do meu labor como artesão na oficina de José, para que o exercício da sua profissão, com perfeição e espírito de serviço, seja um meio de santificação pessoal em ordem a uma sociedade mais justa e mais solidária.

Deixo às vítimas dos abusos de menores por membros do clero da minha Igreja o ultraje das bofetadas e escarros que recebi dos sacerdotes do meu povo (Mt 26, 67; Mc 14, 65), para que sirva de reparação pelas ofensas que sofreram, comparáveis às dores que padeci na paixão, e para que não desesperem, nem se afastem da Igreja.

Deixo aos indigentes as minhas vestes, de que fui despojado pelos soldados, que as sortearam entre si (Jo 19, 23-24; Mt 33-35; Lc 23, 34), para que também os meus fiéis, cristãos militantes, se despojem do que lhes sobra, em benefício dos que nada têm.

Deixo aos meus sacerdotes a ignomínia de ser crucificado entre dois ladrões, para que, como disse aos filhos de Zebedeu, não queiram outra honra ou glória que não seja a de beber o meu cálice (Mt 20, 20-28; Mc 10, 35-45; Lc 22, 24-27; Jo 13, 1-17).

Deixo a minha última prece – “Eloí, Eloí, lemá sabachtáni” (Sl 22, 2; Mc 15, 34; Mt 27, 46) – a todos os religiosos, sobretudo aos que, na solidão dos mosteiros e no silêncio dos conventos, vivem no desprezo do mundo o consolo do abandono em Deus, pela sua voluntária e humilde oblação, em oração e expiação pela salvação do mundo.

Deixo aos agonizantes e aos moribundos o vinagre que, na iminência da minha morte, me foi oferecido como narcótico (Jo 19, 29; Mt 27, 48; Mc 15, 36; Lc 23, 36), para que ninguém, na hora da morte, experimente a solidão, careça dos cuidados médicos e familiares, ou esmoreça por falta de esperança na vida eterna.

Deixo à Igreja o meu coração, trespassado pela lança do soldado, de que jorra uma água viva, que salta para a vida eterna (Jo 19, 34; 4, 14) e é fonte inesgotável de perdão e graça para quantos, absolvidos dos seus pecados pelo sacramento da reconciliação e penitência, me recebem depois no santíssimo sacramento da Eucaristia.

Deixo o dom da fé a todos os homens de boa vontade, que me procuram com rectidão de intenção e se compadecem do sofrimento dos seus irmãos, como o centurião, cuja razão iluminada pela sobrenatural revelação da minha condição divina, valorosamente me confessou diante dos homens (Mt 27, 54; Mc 15, 39; Lc 23, 47).

Deixo aos desalentados a esperança, na promessa que fiz, do alto da Cruz, ao bom ladrão (Lc 23, 43) pois, por grandes que sejam os seus crimes, estão sempre a tempo de ganhar, pela infinita misericórdia de Deus, o perdão que lhes abre as portas do paraíso.

Deixo a minha caridade aos jovens que, como João, o meu discípulo amado, permanecem junto à Cruz, aos quais entrego também a minha Mãe (Jo 19, 25-27), para que nunca desanimem e o coração imaculado de Maria seja o seu refúgio e o caminho que os conduza até mim, na comunhão com o Pai e o Espírito Santo.

E deixo ao mundo inteiro a alegria, pela vitória da vida sobre a morte, na minha gloriosa ressurreição e ascensão aos Céus, na jubilosa certeza da minha próxima vinda!

P.S. O incêndio da catedral parisiense de Notre Dame é uma tragédia, não apenas para a Igreja francesa, mas para a cultura europeia e para toda a humanidade. Foi comovedor ver os católicos franceses a rezar junto à sua catedral em chamas: foram as suas orações e lágrimas que, junto ao trabalho dos bombeiros, salvaram a sé da capital francesa. Graças a Deus e a um heroico sacerdote, foi possível resgatar o Santíssimo Sacramento. Felizmente, não há vítimas humanas a lamentar e a relíquia da coroa de espinhos e a túnica de São Luís, que aí se veneram, foram salvas. A generosa resposta, das entidades públicas e privadas francesas e da comunidade internacional, bem como de muitas pessoas, permitirá que a Notre Dame seja totalmente reconstruída em breve. Que assim seja e que das cinzas da catedral de Paris renasça o catolicismo em França, a filha primogénita da Igreja.

(Padre Gonçalo Portocarrero de Almada in Observador)

«A Sexta-Feira Santa é o dia da esperança maior, a esperança que maturou na Cruz»

O amor que Deus nos tem - e nos deu sobre a Cruz - é a única força capaz de transformar o mundo. Sabemos que é precisamente na Cruz do Senhor, no amor sem limites, que está a nascente da graça, da libertação, da paz, da salvação.

Desde quando Jesus desceu ao sepulcro, o túmulo e a morte já não são um lugar sem esperança, onde a história se conclui na falência total, onde o homem toca o extremo limite da sua impotência.

Jesus é o grão de trigo que cai na terra, se rompe, morre e por isso pode dar fruto. Desde o dia em que Cristo aí foi elevado, a Cruz, que aparece como o sinal do abandono, da solidão, da falência – tornou-se um novo início: da profundidade da morte se eleva a promessa da vida eterna. Na Cruz brilha já o esplendor vitorioso da alva do dia de Páscoa.

(Bento XVI - Sexta-Feira Santa, de 2010 na conclusão da Via Sacra do Coliseu de Roma)

SEXTA FEIRA DA PAIXÃO

Colocam-Te a Cruz sobre os ombros, Senhor. É pesada a Cruz!

Não, não é a madeira que a faz pesada, são os meus pecados, são os nossos pecados que pesam sobre os Teus ombros.
Mas Tu carrega-la, cheio de amor, porque sabes que ao carregares os nossos pecados, nos vais libertando da escravidão do pecado e da morte.
Parece-me, Senhor, que cada vez que me reconheço pecador, cada vez que me confesso e Tu me absolves pelo Teu sacerdote, diminui o peso da Tua Cruz, parece-me que de algum modo sou um pouco Cireneu.
Mas logo volto a pecar e o alívio que Te dou é efémero e muito pouco!

Por vezes, Senhor, o meu pecado, os nossos pecados são tão grandes que o peso da Cruz Te faz cair por terra.
Mas logo Te levantas, para nos mostrares que também eu, também nós, apesar de cairmos no pecado, sempre nos podemos levantar, por Tua graça, Senhor.

Chegas finalmente ao Teu Calvário, que deveria ser o nosso calvário, mas Tu, no Teu infinito amor, decidiste vivê-lo por nós.
E eu nem estou lá para Te fazer companhia, porque também sou um daqueles que Te abandona de quando em vez.
Quisera eu ser João e estar ali, aos pés da Cruz, fazendo companhia a Tua Mãe.
Ou pelo menos ser o Centurião que Te reconheceu Filho de Deus, naquele momento que vai chegar.

Os cravos rasgam a Tua carne, e Tu vais repetindo interiormente, no meio das dores: É por ti, Joaquim, é por todos vós!
Quero pedir-Te as Tuas dores, quero sofrê-las, para que não sejas Tu a sofreres as dores das minhas culpas, mas fraco que sou, rapidamente as esqueço e me deixo envolver na rotina da vida diária.

Levantam-Te ao Céu, cravado naquela Cruz, e a única coisa que mitiga a Tua dor é saber que fazes a vontade do Pai, a vontade de salvar a humanidade que criaste no Teu amor.
Nas derradeiras forças ainda pedes, mais uma vez, por nós: Perdoa-lhes, Pai!

Por fim, exalas o último suspiro, a cabeça pende-Te para a terra, como a quereres fixar cada um de nós definitivamente no Teu olhar, (guardados que estamos no Teu coração), e o Céu e a Terra abrem-se para Te receber.
Quisera eu que fosse o meu coração a abrir-se, sem barreiras, sem dúvidas, sem fraquezas, para Te receber para sempre, e que, em cada momento que a tentação o tentasse, imediatamente se lembrasse de todos estes momentos que sofreste por mim, que sofreste por nós, e as repudiasse de imediato.

O silêncio toma agora conta da natureza e eu quero que tome conta do meu coração.
Que ao menos agora, no silêncio, eu Te contemple, eu Te louve, eu Te adore e Te dê graças sem fim, e para sempre me entregue a Ti, pelos outros, pelo amor.

Mergulhado na esperança, que me vem da confiança de saber que as Tuas promessas são sempre cumpridas, aguardo, ansioso, a Tua Ressurreição.

Glória a Ti, Senhor, agora e para sempre pelos séculos sem fim!

Marinha Grande, 25 de Março de 2016

Joaquim Mexia Alves