Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

sábado, 31 de julho de 2021

Exercícios Espirituais de Santo Ignacio de Loyola (1491-1556)

Santo Inácio de Loyola

Santo Inácio nasceu em Loyola em Espanha, no ano de 1491, e pertenceu a uma nobre e numerosa família religiosa (era o mais novo de doze irmãos), ao ponto de receber com 14 anos a tonsura, mas preferiu a carreira militar e assim como jovem valente entregou-se às ambições e às aventuras das armas e dos amores. Aconteceu que, durante a defesa do castelo de Pamplona, Inácio quebrou uma perna, precisando assim ficar imobilizado por um tempo; desse mal Deus tirou o bem da sua conversão, já que depois de ler a vida de Jesus e alguns livros da vida dos santos concluiu: "São Francisco fez isso, pois eu tenho de fazer o mesmo. São Domingos isso, pois eu tenho também de o fazer".

Realmente fê-lo, como os santos o fizeram, e levou muitos a fazerem "tudo para a maior glória de Deus", pois pendurou sua espada aos pés da imagem de Nossa Senhora de Montserrat, entregou-se à vida eremítica, na qual viveu seus "famosos" Exercícios Espirituais, e logo depois de estudar Filosofia e Teologia lançou os fundamentos da Companhia de Jesus. A instituição de Inácio iniciada em 1534 era algo novo e original, além de providencial para os tempos da Contra-Reforma. Ele mesmo esclarece: "O fim desta Companhia não é somente ocupar-se com a graça divina, da salvação e perfeição da alma própria, mas, com a mesma graça, esforçar-se intensamente por ajudar a salvação e perfeição da alma do próximo".

Com Deus, Santo Inácio de Loyola conseguiu testemunhar sua paixão convertida, pois sua ambição única tornou-se a aventura do salvar almas e o seu amor a Jesus. Foi para o céu com 65 anos e lá intercede para que nós façamos o mesmo agora "com todo o coração, com toda a alma, com toda a vontade", repetia.

Santo Inácio de Loyola foi sobretudo um homem de Deus

Santo Inácio de Loiola foi antes de tudo um homem de Deus, que colocou no primeiro lugar da sua vida Deus, para sua maior glória e serviço; foi um homem de oração profunda, que tinha o seu centro e o seu ápice na Celebração eucarística quotidiana. Desta forma ele deixou aos seus seguidores uma herança espiritual preciosa que não deve ser perdida nem esquecida. Precisamente porque foi um homem de Deus, Santo Inácio foi servidor fiel da Igreja, na qual viu e venerou a esposa do Senhor e a mãe dos cristãos. E do desejo de servir a Igreja do modo mais útil e eficaz surgiu o voto de especial obediência ao Papa, por ele mesmo qualificado como "o nosso princípio e principal fundamento" (MI, Série III, I, pág. 162). Este carácter eclesial, tão específico da Companhia de Jesus, continue a estar presente nas vossas pessoas e na vossa atividade apostólica, queridos Jesuítas, para que possais ir fielmente ao encontro das atuais necessidades urgentes da Igreja. Entre elas parece-me importante assinalar o compromisso cultural nos campos da teologia e da filosofia, tradicionais âmbitos de presença apostólica da Companhia de Jesus, assim como o diálogo com a cultura moderna, que se por um lado se orgulha pelos maravilhosos progressos no campo científico, permanece fortemente marcada pelo cientismo positivista e materialista. Sem dúvida, o esforço de promover em cordial colaboração com as outras realidades eclesiais, uma cultura inspirada nos valores do Evangelho, exige uma intensa preparação espiritual e cultural. Precisamente por isto, Santo Inácio quis que os jovens jesuítas fossem formados durante longos anos na vida espiritual e nos estudos. É bom que esta tradição seja mantida e fortalecida, considerando também a crescente complexidade e vastidão da cultura moderna. Outra grande preocupação para ele foram a educação cristã e a formação cultural dos jovens: para isso procurou incrementar a instrução dos "colégios", os quais, depois da sua morte, se difundiram na Europa e no mundo. Continuai, queridos Jesuítas, este importante apostolado mantendo inalterado o espírito do vosso Fundador.

(Bento XVI no encontro com os participantes de uma Peregrinação organizada pela Companhia de Jesus em 22.06.2006)

Santo Inácio de Loyola - Fundador da Companhia de Jesus

«Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, minha memória, minha inteligência e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo. De vós recebi; a vós, Senhor o restituo. Tudo é vosso; disponde de tudo inteiramente, segundo a vossa vontade. Dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta».

(S. Inácio de Loyola - “Exercícios Espirituais”)

«sem equívocos nem hesitações, o seu caminho específico para Deus, como Santo Inácio traçou na ‘Formula instituti’: a fidelidade amorosa ao vosso carisma será uma fonte segura de fecundidade renovada»

(São João Paulo II - “Insegnamenti”, vol. XVIII/1, 1995, pág. 26)

«(…) a proposta de Santo Inácio de Loyola, dos retiros espirituais em casa, sem ser preciso sair de casa para se retirar para um convento ou para um mosteiro. Basta ir uma hora e meia por semana à Igreja para receber meditação e reflexão e depois leva-se trabalho para casa, para se fazer os retiros espirituais em casa. Nós temos coisas belíssimas e preciosas da nossa tradição, somos chamados como o escriba do Evangelho ‘a tirar coisas novas dos tesouros antigos’».

(D. António Marto, ao tempo Bispo de Viseu, hoje Bispo de Leiria-Fátima em 15-XI-2003)

sexta-feira, 30 de julho de 2021

S. Pedro Crisólogo, bispo, Doutor da Igreja, †450

São Pedro Crisólogo nasceu em Ímola no ano 380 e mereceu o apelido de Crisólogo, isto é, "Palavra de Ouro", por ser autor de estupendos sermões, ricos de doutrina, que lhe deram também o título de doutor da Igreja, decretado no ano 1729 pelo Papa Bento XIII. Dele se conservam cerca de 200 sermões. Numa homilia define o avarento como "escravo do dinheiro, mas o dinheiro - acrescenta - é o escravo do misericordioso. " É fácil entender o significado desta prédica. Sua pregação colocava insistentemente em evidência o amor paternal de Deus: "Deus prefere ser amado a ser temido". Humildes e poderosos escutava-os ele com igual condescendência e caridade. A imperatriz Gala Placídia teve-o como conselheiro e amigo.

Eleito Bispo de Ravena no ano 424, Pedro Crisólogo mostrou-se bom pastor, prudente e sem ambiguidades doutrinais. Sua autoridade era reconhecida em largo raio da Igreja. São Pedro Crisólogo disse certa vez: "Os que passaram, viveram para nós; nós, para os vindouros; ninguém para si" (op.cit.p.407).

São Pedro Crisólogo morreu no dia 31 de Julho do ano 451, em Ímola. 

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Santa Marta, amiga de Jesus

Marta, personagem bíblica do Novo Testamento, residia em Betânia (nas proximidades de Jerusalém) e era irmã de Maria e de Lázaro (Jo 11-12; Lc 10,38-42). Jesus era seu amigo e de seus irmãos e frequentava a sua casa (Jo 11,3; 12,3). Primogénita e dona de casa, Marta representa a vida activa, ao passo que a irmã Maria simboliza a contemplativa. Em várias lendas cristãs, Marta, juntamente com Maria e Lázaro, aparecem como missionários no sul da França.

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

Santa Maria e São Lázaro, hospedeiros e amigos do Senhor

Contam os Evangelhos que Jesus era amigo de Lázaro e de suas irmãs Marta e Maria.  Os três viviam em Betânia, cidade próxima a Jerusalém e era costume receber o Mestre em sua casa.  Talvez o episódio mais marcante dessa amizade seja a ressurreição de Lázaro, de onde se extrai um dos momentos mais contundentes da vida de Jesus de Nazaré: sabedor da morte do amigo, Jesus se comove e chora, demonstrando a afeição e a dor que sentia.  Inteiramente homem, sofre pela perda; inteiramente Deus, ressuscita o amigo para manifestar, assim, a glória do Pai (Jo 11, 1-45).

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

quarta-feira, 28 de julho de 2021

A Encíclica escandalosa

A Igreja comemorou nestes dias (2018) os 50 anos da Encíclica «Humanae Vitae», publicada a 25 de Julho de 1968 pelo Papa Paulo VI. O desastre que se seguiu estava anunciado, ninguém tinha ilusões, muito menos o Papa.

Paulo VI publicara Encíclicas ao ritmo de mais de uma por ano, desde o início do pontificado: «Ecclesiam Suam» (1964), «Mense Maio» e «Mysterium Fidei» (1965), «Christi Matri Rosarii» (1966), «Populorum Progressio» e «Sacerdotalis Caelibatus» (1967), até à «Humanae Vitae» (25 de Julho de 1968). A partir desse momento, a contestação e a crise foram de tal ordem, que Paulo VI não voltou a publicar nenhuma outra Encíclica até ao fim do pontificado, 10 anos depois.

É normal os Papas pedirem ajuda para a redacção das Encíclicas, aproveitando livremente os contributos que lhes chegam. No final, trata-se de um documento papal e não importa quem sugeriu esta ou aquela frase, nem é costume os colaboradores darem-se a conhecer. No caso da «Humanae vitae», foi bem diferente: em vez de ajuda, Paulo VI recebeu traições.

O fogo de barragem da comunicação social assustou muitos e mostrou como a voz da Igreja era pequenina face ao poder dos seus opositores. Pior ainda, um grande número de padres e de bispos não entenderam o que estava em causa. Aparentemente, a biologia, a bioquímica prometiam à humanidade novos caminhos de felicidade, mais cómodos e seguros. Quem os poderia rejeitar?

Paulo VI não se deixou enganar: «a sociedade tecnológica consegue multiplicar as ocasiões de prazer, mas tem grande dificuldade em gerar alegria» («Gaudete in Domino», 1975). A indústria química fabricava prazer, mas estava a vendê-lo com publicidade enganosa. «Porque a alegria tem outra origem. É espiritual. O dinheiro, o conforto, a higiene, a segurança material não faltam com frequência; contudo o tédio, a aflição, a tristeza formam infelizmente parte da vida de muitos. Atinge-se às vezes a angústia e o desespero, que nem a aparente despreocupação nem o frenesim do gozo presente ou os paraísos artificiais conseguem evitar» (ibid.).

Paulo VI não tinha ilusões, como escreveu na própria introdução: «É de prever que estes ensinamentos não sejam acolhidos facilmente por todos». E comenta que sempre foi assim na história da Igreja, que é, «à semelhança do seu divino Fundador, “sinal de contradição”», como dizia o profeta Simeão no Evangelho. Só que, desta vez, Paulo VI sabia que ia ser muito mais grave que habitualmente.

A razão para, apesar disso, afrontar a opinião dominante num ponto tão sensível foi simultaneamente clarividência e generosidade. Como ele próprio escreveu na Encíclica, «ao defender a moral conjugal na sua integridade, a Igreja sabe que está a contribuir para a instauração de uma civilização verdadeiramente humana; ela compromete o homem para que este não abdique da própria responsabilidade, para se submeter aos meios da técnica; mais, ela defende com isso a dignidade dos cônjuges».

Aos poucos, a Igreja e sociedade começaram a compreender o mal profundo que os métodos anticonceptivos causam ao amor. A diferença, que alguns tardaram em captar, entre os métodos anticonceptivos e uma vida de casal que tem em conta os períodos inférteis não está em opor métodos «artificiais» e métodos «naturais». Paulo VI era declaradamente a favor dos benefícios da técnica e dos progressos dos medicamentos e dos aparelhos artificiais. O oposto de «natural» é «antinatural»; em princípio, o «artificial» corresponde à natureza racional do homem; o perigo está no que é «antinatural».

Paulo VI percebeu que a sua missão de Papa o obrigava a avisar o mundo da diferença entre os métodos anticonceptivos, que são antinaturais por contradizerem o amor, e o sentido de oportunidade, que faz parte do amor. Muitos, só passados 50 anos começaram a perceber a diferença.

Quase isolado, Paulo VI teve a generosidade de cumprir, mesmo com grande sacrifício, o seu próprio lema de Papa: «In nomine Domini» – em nome do Senhor. E, contra os ventos da época, foi fiel a Deus e aos homens.

Foi a generosidade de Paulo VI (e o milagre realizado por sua intercessão) que levou Francisco a decidir canonizá-lo no próximo dia 14 de Outubro de 2018, em Roma.

José Maria C.S. André
28-VII-2018
Spe Deus

O sim vencedor

«A fé é comunhão com Jesus, e deste modo libertação da repressão que se opõe à verdade, libertação do meu eu do seu fechamento em si mesmo para dele fazer uma resposta ao Pai, ao sim do amor, ao sim para o ser, àquele sim que é a nossa redenção e que vence o “mundo”».

(Joseph Ratzinger - “Olhar para Cristo”)

Beata Maria Teresa Kowalska, virgem e mártir, †1941

Beatificada por João Paulo II em 13 de Junho de 1999 conjuntamente com mais 107 mártires do nazismo

Nasceu em Varsóvia em 1902. Desconhece-se o nome e a profissão dos seus pais. Recebeu a sua primeira Comunhão no dia 21 de Junho de 1915, e o sacramento da Confirmação no dia 21 de Maio de 1920. O seu pai, simpatizante socialista, foi para a União Soviética na década de 1920 com grande parte da família.

Aos 21 anos, recebe a graça da vocação religiosa. Ingressou no Mosteiro das Clarissas Capuchinhas de Przasnysz no dia 23 de Janeiro de 1923. Tomou o hábito no dia 12 de Agosto de 1923 e recebeu o nome de Maria Teresa do Menino Jesus. Emitiu a sua primeira profissão no dia 15 de Agosto de 1924 e a profissão perpétua no dia 26 de Julho de 1928.

Era uma pessoa delicada e doente, mas disponível para todos e para tudo. No Mosteiro servia a Deus com devoção e piedade. Com o seu modo de ser conquistava o carinho de todos, diz uma das irmãs. Gozava de grande respeito e consideração por parte das superioras e das outras irmãs. Exerceu vários ofícios: porteira, sacristã, bibliotecária; Mestra de noviças e Conselheira. Maria Teresa vive a sua vida religiosa em silêncio, totalmente dedicada a Deus, com grande entusiasmo. Um dia este serviço a Deus foi posto a dura prova.

No dia 2 de Abril de 1941, os alemães irromperam no Mosteiro e prenderam todas as irmãs, levando-as para o Campo de concentração de Dzialdowo. Entre elas estava a Irmã Maria Teresa, doente com tuberculose. As 36 irmãs ficaram presas no mesmo local e suportaram umas condições de vida que ofendiam a dignidade humana: ambiente sujo, fome terrível, terror contínuo. As irmãs observavam com horror a tortura a que eram submetidas outras pessoas ao mesmo tempo, entre as quais se encontravam o Bispo de Plock, A. Nowowiejski e L. Wetmanski, e muitos outros sacerdotes. Depois de passar um mês naquelas condições de vida, a saúde das irmãs debilitou-se. A Irmã Maria Teresa foi uma das que mais se ressentiu, que pelo menos se mantinha de pé.

Sobreveio-lhe uma hemorragia pulmonar. Faltava não só o serviço médico mas também a água para matar a sede e para a higiene. Suportou o sofrimento com coragem e, até onde lhe foi possível, rezou junto com as restantes irmãs. Outras vezes rezava ela sozinha. Durante a prova, e consciente da proximidade da morte, dizia: “Eu, daqui, não sairei; entrego a minha vida para que as irmãs possam regressar ao Mosteiro”. Isso mesmo dizia à abadessa: “Madre, ainda falta muito?”. Morreu na noite de 25 de Julho de 1941. Desconhece-se o paradeiro dos seus restos mortais.

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

terça-feira, 27 de julho de 2021

Ecologia e cristianismo

Parece-me claro que, de facto, é o homem que ameaça retirar o sopro vital à natureza. E que a poluição do ambiente exterior que observamos é o espelho e o resultado da poluição do ambiente interior, à qual não prestamos suficiente atenção. Julgo que é também o que falta aos movimentos ecológicos.

Combatem com uma paixão compreensível e justificada a poluição do ambiente; mas a poluição espiritual que o homem provoca em si mesmo continua a ser tratada como um dos direitos da liberdade. Há aqui uma incoerência. Queremos afastar a poluição mensurável, mas não tomamos em consideração a poluição espiritual do homem e a figura da Criação que nele se encontra [...]; muito pelo contrário, defendemos tudo o que a arbitrariedade humana produz, com base num conceito completamente falso de liberdade.

Enquanto sustentarmos essa caricatura de liberdade, quer dizer, a liberdade de uma destruição espiritual interior, continuarão inexoravelmente os seus efeitos exteriores.

Julgo que devemos refletir sobre isto. Não é apenas a natureza, que tem as suas regras e as suas formas de vida, que temos de respeitar, se quisermos viver dela e nela, mas também o homem, que é interiormente uma criatura e está sujeito à ordem da Criação: não pode fazer de si mesmo tudo o que quiser, como lhe apetecer. Para que o homem possa viver a partir do interior, tem de aprender a reconhecer-se como criatura e tem de tomar consciência de que nele deve existir, por assim dizer, a pureza interior devida ao facto de ser criatura: a ecologia espiritual. Se este elemento fundamental da ecologia não for compreendido, tudo o mais se desenvolverá num sentido negativo.

A Epístola aos Romanos diz isso muito claramente no capítulo oitavo. Diz que Adão, ou seja, o homem interiormente poluído, trata a criação como um escravo, a espezinha; a criação geme sob ele, por causa dele, através dele. E hoje ouvimos o gemido da criação como nunca antes o tínhamos ouvido. São Paulo acrescenta que a criação espera a manifestação dos filhos de Deus e que respirará aliviada quando surgirem pessoas nas quais transpareça a luz de Deus. Só então a criação poderá voltar a respirar.

(Cardeal Joseph Ratzinger in ‘O sal da terra’ – págs. 183-184)

Não hesitar em corrigir

«Se descobres algum defeito no amigo, corrige-o a sós: se não te escuta repreende-o abertamente. As correcções, com efeito, fazem bem e são de mais proveito que uma amizade muda».

(Santo Ambrósio - De officiis ministrorum, III, cap. XII, 127)


A correção fraterna nem sempre é fácil de concretizar, pois frequentemente corremos, entre outros, o risco da incompreensão ou de ofendermos quem amamos, mas a nossa obrigação perante Deus e a nossa consciência cristã, deverá levar-nos a pedir-Lhe ajuda para encontrarmos as palavras exactas e estarmos seguros que o fazemos por Ele e não por qualquer ato de soberba para com o próximo.

JPR

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Dia dos avós - Um tesouro do qual a Igreja não pode privar os netos

No dia 26 de Julho, a Igreja Católica celebra a memória de São Joaquim e Santa Ana, pais de Nossa Senhora e avós de Jesus, motivo pelo qual a Conferência Episcopal Argentina, através da Área de Idosos do Secretariado Nacional, promove o costume de comemorar e homenagear neste dia os avôs e avós.

O organismo episcopal motiva este esforço no magistério do Papa, que vê nos avós um tesouro do qual os netos não podem ser privados, assim como na pastoral que o Conselho Pontifício para a Família vem impulsionando nestes últimos anos.

Este organismo do Vaticano dedicou precisamente o ano de 2008 aos avós, na sua 18ª Assembleia Plenária, com o tema: “Avós: seu testemunho e presença na família”.

O encontro pretendeu sublinhar o papel de coesão, de apoio e sustento aos netos, de mediação nas relações entre cônjuges e nas relações entre pais e filhos, desempenhado pela geração mais idosa dentro do núcleo familiar.

No discurso que Bento XVI dirigiu aos participantes da assembleia, no dia 5 de Abril desse ano, pediu que se promovesse o acolhimento dos avós, definindo-os como “um tesouro que não podemos tirar às novas gerações, sobretudo quando dão testemunho de fé”.

O então Papa recordou que “a Igreja sempre teve em relação aos avós uma atenção particular, reconhecendo-lhes uma grande riqueza sob o perfil humano e social, assim como sob o religioso e espiritual”.

Por isso, pediu que “os avós voltem a ser presença viva na família, na Igreja e na sociedade. No que diz respeito à família, os avós continuem a ser testemunhas de unidade, de valores originais sobre a fidelidade a um único amor que gera a fé e a alegria de viver”.

Por estes motivos, o organismo episcopal argentino sugere que se promova nas dioceses a comemoração do Dia dos Avós, tanto nas famílias como nas paróquias, escolas e instituições; e para este fim, deixou-se à criatividade das comunidades as formas de realizar a celebração.

(Fonte: ‘Zenit’ com adaptação de JPR)

Santos Joaquim e Ana, pais de Nossa Senhora

Uma tradição do segundo século afirma que os pais de Nossa Senhora, e avós de Jesus, chamavam-se Joaquim e Ana. Conforme uma lenda da Idade Média, Joaquim e Ana viviam humilhados porque não tinham filhos. Eram estéreis. Joaquim dirigiu-se então para o deserto, e ali passou, 40 dias em jejum e oração. Ao terminar os 40 dias, apareceu-lhe um anjo anunciando que teriam um filho. De facto, nasceu-lhes uma filha, à qual deram o nome de Maria.

A devoção de Santa Ana ou Sant'Ana remonta ao século VI, no Oriente. No Ocidente data de século X. A devoção a São Joaquim é mais recente.

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

domingo, 25 de julho de 2021

Botafumeiro - Santiago de Compostela (hoje é dia de São Tiago Maior)

São Tiago Maior

Tiago (o Maior), filho de Zebedeu e de Salomé, era irmão do evangelista São João. Seu pai estava presente quando os dois irmãos, dentro de em um barco no lago de Genesaré, receberam o pedido de Jesus para O acompanharem: “eles, abandonaram o barco e seu pai e seguiram-nO,” demonstrando vontade decidida e índole forte. Talvez por isso, receberam de Jesus o apelido de “filhos do trovão”.

Como os outros discípulos, Tiago foi perseguido pelas autoridades judaicas e preso. No seu cárcere, sofreu todo tipo de tortura e flagelo. Mesmo assim, sentia muito orgulho de estar sendo torturado por amor a Jesus.

Segundo uma tradição, o apóstolo Tiago teria sido o primeiro evangelizador da Espanha e as suas relíquias teriam sido levadas para Compostela, uma das metas mais procuradas pelos peregrinos na Europa.

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

S. Tiago Apóstolo, filho de Zebedeu

[…] Comecemos com o Santo de amanhã, o apóstolo São Tiago, irmão de João, que foi o primeiro mártir entre os apóstolos. Era um dos três mais próximos do Senhor e participou tanto na Transfiguração no Monte Tabor com a sua beleza, na qual sobressaía o esplendor da divindade do Senhor como na angústia, na ansiedade do Senhor no Monte das Oliveiras, e assim viu também que o Filho de Deus, para carregar o peso do mundo, experimentou todo o nosso sofrimento e é solidário connosco. Sabeis que as relíquias de São Tiago se veneram no célebre santuário de Compostela, na Galiza, meta de numerosas peregrinações de todas as partes da Europa. A 11 de Julho passado celebrou-se São Bento, outro grande Padroeiro do "velho continente", e como sabeis, meu padroeiro desde quando fui eleito para o ministério de Pedro. Olhando para estes Santos, torna-se espontâneo deter-se a reflectir, precisamente neste momento histórico com todos os seus problemas, sobre a contribuição que o cristianismo deu e continua a oferecer à construção da Europa.

Bento XVI – excerto Angelus do dia 24 de Julho de 2005 em Le Combres

sábado, 24 de julho de 2021

Verdade e arrogância

Não seria uma arrogância falar de verdade em matéria de religião e chegar a afirmar que se encontrou na própria religião a verdade, a única verdade? [...] Hoje converteu-se num slogan de enorme repercussão rejeitar como simultaneamente simplistas e arrogantes todos aqueles a quem se pode acusar de crer que "possuem" a verdade.

Essas pessoas - dizem-nos -, ao que parece, não são capazes de dialogar e por conseguinte não podem ser levadas a sério, pois ninguém "possui" a verdade; só podemos "buscar" a verdade. Mas é preciso objectar a esta última frase: que busca é essa que nunca pode chegar à meta? Será que realmente busca, ou antes não quer encontrar a verdade, porque o que vai encontrar não deve existir? Naturalmente, a verdade não pode consistir numa posse; diante dela, devo sempre ter uma atitude de humilde aceitação, [...] recebendo o conhecimento como um presente do qual não sou digno, do qual não posso vangloriar-me como se fosse uma descoberta minha. Se me foi concedida a verdade, devo considerá-la como uma responsabilidade, o que significa também um serviço aos outros. [...]

Mas não será antes uma arrogância dizer que Deus não nos pode dar o presente da verdade? Não será desprezar a Deus afirmar que nascemos cegos e que a verdade não se coaduna connosco? [.„] A verdadeira arrogância consiste em querer ocupar o posto de Deus e querer determinar quem somos, que fazemos, que queremos fazer de nós e do mundo. [...]

A única coisa que podemos fazer é reconhecer com humildade que somos mensageiros indignos que não se anunciam a si mesmos, mas que falam com santa timidez daquilo que não lhes pertence, mas provém de Deus. Só assim se torna inteligível a tarefa missionária, que não significa um colonialismo espiritual, uma submissão dos outros à minha cultura e às minhas ideias. A missão exige, em primeiro lugar, uma preparação para o martírio, a disposição de perder-se a si mesmo por amor à verdade e ao próximo.

Só assim a missão merece crédito. A verdade não pode nem deve ter nenhuma outra arma que não ela mesma.

(Cardeal Joseph Ratzinger in ‘El relativismo, nuevo rostro de la intolerancia’)

sexta-feira, 23 de julho de 2021

A Teresa

Numa fotografia dos finalistas
do colégio, com os seus olhos
turquesa e doces, mais aptos
a perscrutar o mundo interior
que o exterior.
Este texto sintetiza o artigo «Obrigada, Teresa» publicado pela Maria Zarco na coluna «Vai um Gin do Peter’s?» do blogue «Adeus até ao meu Regresso» (https://adeus-ate-ao-meu-regresso.blogspot.com/2021/07/vai-um-gin-do-peters_075102758.html).


Meses antes de concluir os estudos liceais, a Teresa foi convidada a falar aos colegas da sua experiência com uma síndrome diagnosticada aos 3 anos de idade, que lhe retira quase toda a visão e se agrava em crises cíclicas, irreversíveis. Antes de transcrever alguns apontamentos do testemunho da Teresa na «Assembleia do seu Liceu», vale a pena dar o contexto.


Apesar da parca visão, aquela «teenager», gira e despachada, não se priva de levar um dia-a-dia animado, próprio dos 18 anos. Monta a cavalo, emprestado pela GNR; sai-se bastante bem no «sky», com a ajuda do guia que a orienta nas pistas; diverte-se com os amigos e tem por disciplina preferida a educação física. Diz a mãe, com humor e lealdade, que a proeza desportiva se deve ao desvelo dos professores, que sempre lhe garantiram as condições de segurança para fazer ginástica sem riscos... e sem ver. Só a sentir. É também a sentir, cheia de precauções e truques, que consegue cumprir tarefas banais como descer escadas. Completou o liceu com notas razoáveis, sem nunca ter chumbado.


Na tal «Assembleia do Liceu», em Abril, a Teresa deu a conhecer um pouco da sua condição particular, com uma simplicidade tocante:


— «Quando o Professor José Feitor me deu a ideia de criar um “site”, (...) sugeri à Beatriz fazer sobre a minha doença, porque já sabia tudo e era só escrever.


Mas, enganei-me… Pergunto-me como é possível ter durante 15 anos uma doença e não saber quase nada acerca dela, a não ser o facto de não ver bem. (...) Em minha casa sempre fui habituada a ser tratada como uma pessoa normal e tenho sempre muita ajuda (...), por isso, nunca tive necessidade de pesquisar (...) acerca da “uveíte pars planitis anterior”.


(...) Uma das curiosidades que descobri enquanto estudava a doença é que ela atinge maioritariamente homens e pessoas acima dos 60 anos. Como podem verificar, isso não acontece comigo.



A “uveíte pars planitis anterior” é uma das doenças auto-imunes que está, normalmente, associada à arterite reumatóide. Está entre as 20 doenças raras do mundo.


Desde a descoberta da minha doença, que eu tomo medicamentos muito agressivos (...) e fui submetida a muitos tratamentos e experiências. Sublinho apenas os dois últimos, as duas injecções periódicas (...) que a minha mãe teve de aprender a dar. Eu não confiava em mais ninguém.


Esta doença foi-me diagnosticada aos 3 anos de idade. (...) Manifesta-se em “crises” e, de cada vez que há uma “crise,” há uma colagem da retina, de onde resulta uma perda de visão irreversível. A retina não volta a descolar. (...) Mas não é impedimento nem desculpa para não fazer, ou fazer mal, o que tenho para fazer. E muito menos, é um impedimento para ser feliz.


Se Deus permite que eu exista com esta doença é porque faço falta. E também por isso me deu a família que tenho e todos os amigos com quem me tenho cruzado.


Estou certa, até porque experimento isso, que há um desígnio bom nesta doença.


A maior parte de vocês já reparou que eu entro todos os dias no colégio com um “trambolho”, como diz a Professora Joana. Esse “trambolho” chama-se telelupa, que é só o Ferrari das lupas. Consegue focar a 1 km de distância. (...) Todos estes instrumentos, que me facilitam a vida quotidiana, mostram a velocidade a que os cientistas trabalham para servir pessoas como eu».


Não cabe neste resumo apertado toda a intervenção da Teresa nem os comentários interessantes da Maria Zarco. Ficam só as últimas palavras do artigo: «Muito obrigada Teresa por saberes ser quem és. Começa aí a tua excepcionalidade maravilhosa».

José Maria C.S. André

As 15 Orações de Santa Brígida a Jesus

Santa Brígida da Suécia, co-Padroeira da Europa

1. "Eu renovo todas as coisas... estas palavras são fiéis e verdadeiras" (Ap 21, 5).

Cristo renova todas as coisas. Santa Brígida, ilustre filha da terra da Suécia, acreditou muito e com profundo amor em Cristo. Adornou com o seu cântico de fé e as suas boas obras a Igreja, na qual reconhecia a comunidade dos crentes, habitada pelo Espírito de Deus.

Hoje recordamos esta singular figura de Santa e sinto-me particularmente feliz por que nesta celebração estejam ao meu lado os mais altos representantes das Igrejas luteranas da Suécia e da Finlândia, juntamente com os meus venerados Irmãos no Episcopado de Estocolmo e de Copenhaga. Saúdo-os a todos e cada um com grande afeto.

Com deferência saúdo também o Rei e a Rainha da Suécia, que quiseram honrar esta celebração com a sua presença. A minha saudação estende-se, além disso, às Personalidades políticas que estão aqui connosco. Saúdo por fim todas vós, queridas Irmãs do Santíssimo Salvador de Santa Brígida, aqui guiadas pela vossa Superiora-Geral.

2. Estamos mais uma vez reunidos para renovar diante do Senhor o empenho pela unidade da fé e da Igreja, que Santa Brígida, com convicção, fez próprio em tempos difíceis. A paixão pela unidade dos cristãos foi o alimento de toda a sua existência. E este empenho, graças ao seu testemunho e ao da Madre Isabel Hesselblad, chegou até nós através da corrente misteriosa da Graça que ultrapassa os confins do tempo e do espaço.

A celebração hodierna impele-nos a meditar sobre a mensagem de Santa Brígida, que eu quis recentemente proclamar co-Padroeira da Europa, juntamente com Santa Catarina de Sena e Santa Teresa Benedita da Cruz. O seu amor ativo pela Igreja de Cristo e o testemunho que deu da Cruz constituem um símbolo e uma inspiração para todos nós, que nos preparamos para cruzar o limiar de um novo milénio.

É-me muito grato inaugurar e benzer nesta tarde, no termo da presente celebração, uma estátua que tornará mais viva, aqui no Vaticano, a memória desta grande testemunha da fé. Colocada no exterior desta Basílica e precisamente ao lado da Porta chamada "da oração", a efígie em mármore de Santa Brígida constituirá para todos um constante convite a orar e a trabalhar sempre pela unidade dos cristãos.

3. O meu pensamento dirige-se agora para o dia 5 de Outubro de 1991, quando, nesta mesma Basílica, teve lugar uma solene celebração ecuménica no sexto centenário da canonização de Santa Brígida. Naquela circunstância pude dizer: "Já há vinte e cinco anos luteranos e católicos se esforçam por encontrar de novo o caminho comum... O diálogo teológico tornou evidente o vasto património de fé que nos une... Ninguém ignora que da doutrina da justificação teve início a Reforma protestante e que ela rompeu a unidade dos cristãos do Ocidente. Uma sua comum compreensão... ajudar-nos-á, disto estamos certos, a resolver as outras controvérsias que, directa ou indirectamente, a ela estão ligadas" (cf. L'Osserv. Rom. ed. port. de 13/X/1991, pág. 2).

Aquela "comum compreensão" a que eu almejava há nove anos, hoje, graças ao Senhor, tornou-se realidade animadora. No dia 31 de Outubro passado, na cidade de Ausburgo, foi assinada solenemente uma Declaração conjunta, na qual luteranos e católicos amadureceram um consenso sobre verdades fundamentais da doutrina da justificação. Esta aquisição do diálogo ecuménico, marco miliário no caminho rumo à unidade plena e visível, é o resultado de um intenso trabalho de pesquisa, encontros e oração.

Contudo, permanece diante de nós um longo caminho a percorrer: "grandis resta nobis via". Devemos fazer ainda mais, conscientes das responsabilidades que nos competem no limiar de um novo milénio. Devemos continuar a comunhão juntos, sustentados por Cristo, que no Cenáculo, na vigília da sua morte, pediu ao Pai para que todos os seus discípulos "fossem um só" (Jo 17, 21).

4. Como mais do que nunca necessário, no texto da Declaração conjunta está escrito que o consenso obtido pelos católicos e luteranos "sobre verdades fundamentais da doutrina da justificação, deve ter efeitos e encontrar uma verificação na vida e no ensino das Igrejas" (n. 43).

Neste caminho, confiamo-nos à ação incessante do Espírito Santo. Além disso, temos confiança também em quem, antes de nós, amou tanto Cristo e a sua Cruz e orou, como Santa Brígida, pela característica irrenunciável da Igreja, a da sua unidade.

Não conhecemos o dia do encontro com o Senhor. Por isto o Evangelho convida-nos a vigiar, tendo acesas as nossas lâmpadas para que, quando o Esposo chegar, possamos estar prontos a acolhê-l'O. Nesta expectativa vigilante, ressoa no coração de cada crente a invocação do divino Mestre: "Ut unum sint".

Santa Brígida nos sirva de exemplo e interceda por nós. A vós, suas caríssimas filhas espirituais da Ordem do Santíssimo Salvador, peço de modo especial que prossigais com fidelidade no vosso precioso apostolado ao serviço da unidade.

O novo milénio já está às portas: "Cristo ontem, hoje e sempre" seja o centro e a meta de todas as nossas aspirações. É Ele que renova todas as coisas e traça para nós um itinerário de jubilosa esperança. Oremos sem cessar para que Ele nos conceda a sabedoria e a força do seu Espírito; invoquemo-l'O para que todos os cristãos cheguem quanto antes à unidade. Nada é impossível a Deus!

João Paulo II – Homilia proferida em 13 de Setembro de 1999

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Amar a Cristo...

Querido Jesus, ensina-nos a ter um amor por Ti simples e puro, enfim como se crianças fossemos. Com a idade vamos construindo baias que limitam a nossa franqueza e nos condicionam em tudo até na simplicidade e pureza da fé e do amor, por isso, Senhor, este nosso rogo para que nos sentes no Teu colo e nos façais crianças hoje e sempre.

Mesmos nas suas brincadeiras mais frequentes, elas são quase sempre admiravelmente puras e frontais, eis porque ambicionamos a ser de novo crianças, e como bem sabes, não é por qualquer dificuldade em aceitar o envelhecimento físico, mas tão somente porque com uma mente pura e simples Te amaremos todavia mais e melhor.

Que saibamos Te amar, glorificar e proclamar hoje e sempre!

JPR

Quantas lágrimas se derramam em cada instante no mundo, cada uma diferente das outras…

O recurso seguro para evitar a tristeza ou sair da sua opressão é abrir o coração com Jesus diante do Sacrário, e com quem, como Seu instrumento, orienta a alma entre os meandros da vida espiritual. Lembremo-nos sempre, levando-o à prática, o conselho que S. Josemaria dava: Levantai o coração a Deus, quando chegar o momento duro do dia, quando a tristeza quiser meter-se na nossa alma, quando sentirmos o peso destas lides da vida, dizendo: Miserere mei Domine, quoniam ad te clamavi tota die: laetifica animam servi tui, quoniam ad te Domine, animam meam levavi (Sl 85, 3-4), Senhor, tem misericórdia de mim, porque Te invoquei o dia todo: alegra o Teu servo, pois a Ti, Senhor, elevei a minha alma [9].
Que bela tarefa realizam os cristãos ao consolar os que se veem aflitos por uma contrariedade, grande ou pequena, que lhes rouba a paz! Além de rezar por eles, é preciso fomentar um acolhimento afetuoso, pois muitas almas só procuram alguém que ouça com paciência as suas penas. Quantas caras tristes encontramos nos nossos caminhos terrenos porque ninguém lhes ensinou a abandonar-se no Senhor, e com que consolo fraterno os devemos acolher! Quantas lágrimas se derramam em cada instante no mundo, cada uma diferente das outras… E juntas formam como que um oceano de desolação, a implorar misericórdia, compaixão, consolo. As mais amargas são as lágrimas causadas pela maldade humana: as lágrimas de quem viu arrancar-lhe violentamente uma pessoa querida, lágrimas de avós, de mães e pais, de crianças... (...). Precisamos da misericórdia, da consolação que vem do Senhor. Todos nós precisamos dela. É a nossa pobreza, mas também a nossa grandeza: invocar a consolação de Deus que, com a Sua ternura, vem enxugar as lágrimas do nosso rosto [10].
Assim fez o Mestre durante a Sua passagem entre os homens. Levado pela Sua misericórdia, deteve-se no caminho, para consolar a viúva de Naim que chorava a morte do seu único filho; reagiu de forma semelhante com Marta e Maria em Betânia, desoladas pela morte do seu irmão Lázaro. Chorou também pelo destino que a cidade Jerusalém iria ter [11]. Ao iniciar a Sua Paixão, já no Jardim das Oliveiras, sofreu até ao ponto de suar sangue, e permitiu que um anjo, uma criatura, O consolasse (cfr. Lc 22, 39-46). Pode haver maior sinal de humanidade do que admitir o consolo, o reforço que outro nos dá para nos levantar do nosso abatimento, da nossa fraqueza, do nosso desânimo? [12]
Seguindo os passos do Mestre, consolemos quem precisa. É isso que está nas entranhas do espírito cristão. Assim se dirigia S. Francisco ao Senhor, numa oração também repetida por muitas gerações: «Senhor, fazei de mim um instrumento da Vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão; onde houver dúvida, que eu leve a fé; onde houver tristeza, que eu leve a alegria; onde houver desespero, que eu leve a esperança; onde houver trevas, que eu leve a Tua luz» [13].
[9]. S. Josemaria, Carta 9-I-1932, n. 15.
[10]. Papa Francisco, Vigília de oração para "enxugar" as lágrimas, 5-V-2016.
[11]. Cfr. Lc 7: 11-13;. Jo 11, 17 ss; Lc 19, 41 -44.
[12]. S. Josemaria, Carta 29-IX-1957, n. 34.
[13]. Oração atribuída a S. Francisco de Assis.


(D. Javier Echevarría excerto da carta do mês de julho de 2016)
© Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei

Maria Madalena: a apóstola dos apóstolos

Todas as mulheres cristãs, sem necessidade do sacramento da Ordem, podem e devem ser, sejam leigas ou consagradas, solteiras ou casadas, apóstolas de apóstolos, como Maria Madalena.

Com data de 3 de Junho de 2016, o Papa Francisco, através de um dos seus mais próximos e valiosos colaboradores, o Cardeal Robert Sarah, prefeito para a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, decretou que a celebração litúrgica de Santa Maria Madalena passasse a ser festa, a realizar todos os anos no dia 22 de Julho, que era já o da sua memória.

Esta promoção litúrgica da santa de Magdala ocorre por exigência de vários critérios pastorais que, no referido decreto, sumariamente se referem: “Na actualidade, quando a Igreja é chamada a reflectir mais profundamente sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina, pareceu conveniente que o exemplo de Santa Maria Madalena fosse também proposto aos fiéis de uma forma mais adequada. Com efeito, esta mulher conhecida por ter amado Cristo e por ter sido muito amada por Cristo, chamada por São Gregório Magno ‘testemunha da divina misericórdia’ e por São Tomás de Aquino ‘a apóstola dos apóstolos’, pode ser hoje proposta aos fiéis como paradigma do serviço das mulheres na Igreja”.

A este propósito, o secretário da Congregação para o Culto Divino, arcebispo Arthur Roche, muito justamente recordou que “foi João Paulo II quem dedicou uma grande atenção, não só à importância das mulheres na missão do próprio Cristo e da Igreja, mas também, em particular, ao especial papel de Maria de Magdala, como sendo a primeira testemunha que viu o ressuscitado, e a primeira mensageira que anunciou a ressurreição do Senhor aos apóstolos (cfr. Mulieris dignitatem, n. 16)”.

Questão mais difícil é a de apurar quem foi, de facto, Maria Madalena. No passado, houve quem a identificasse com a pecadora que derramou o perfume em casa de Simão, o fariseu; mas a moderna exegese desmente essa identificação. Talvez essa confusão tenha originado a má fama que, desde então, persegue esta santa. Com efeito, a tradição popular imputa-lhe um passado luxurioso, que a Bíblia, contudo, não corrobora.

Sempre foram muito pouco indulgentes os homens para com os pecados desta natureza, que ainda hoje são considerados dos mais vergonhosos. No entanto, aos olhos de Deus, pode ser mais grave o orgulho ou a ira de um coração que, embora inocente de qualquer pecado carnal é, afinal, mais impuro. Por isso, Jesus não deixa de reprovar a soberba dos que, como os fariseus, se consideravam a si mesmos justos e desprezavam as pecadoras públicas que, no entanto, os iriam preceder no reino dos Céus. Mas, mesmo inocente desses pecados, Maria Madalena também teria as suas culpas, pois dela se diz que “tinham saído sete demónios” (Lc 8, 2).

Mais importante do que averiguar o passado, mais ou menos pecaminoso, de Maria Madalena, interessa a sua virtude, o seu amor a Cristo, porque também ela, como aliás todos nós, só pôde ser perdoada no amor, como Jesus ensinou ao farisaico Simão: “Estão perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou” (Lc 7, 47).

Os santos não foram, ao contrário do que uma certa mentalidade puritana tende a crer, os que nunca pecaram, ou os que pecaram pouco, mas os que muito amaram, mesmo tendo pecado, alguns até muito. A santidade cristã não é a suprema sublimação do impoluto, mas a perfeição da caridade, sem a qual a fé, a pobreza, e mesmo a mais pura castidade nada valem (cfr. 1Cor 13, 1-3).

Maria Madalena foi uma grande santa porque amou muito e foi também muito amada por Cristo. Não ao jeito que certos ignaros gostam agora de romancear, em novelas de cordel que talvez sejam best-sellers comerciais, mas que nada têm de verídico, nem de verosímil. Desmente-os a reverência da boa mulher de Magdala para com o seu Mestre e Senhor, a quem trata com indiscutível amor, mas também com o respeito devido pela criatura ao Criador. Por isso, quando finalmente o descobre naquele que antes julgara ser o hortelão, não o trata familiarmente pelo seu nome próprio, como seria de esperar entre cônjuges ou amantes, mas com a deferência que a discípula deve ao seu Mestre (Jo 20, 16). Também as palavras que Jesus opõe ao ímpeto da sua esfusiante alegria quando, por fim, o reconhece (Jo 20, 17), assinala, sem lugar para dúvidas, a distância sempre observada entre a humilde serva e o seu divino Senhor.

A sua fé afirma-se sobretudo na gloriosa ressurreição do seu Mestre, de que ela será, por especialíssima graça, primeira testemunha. Como escreveu Arthur Roche, “precisamente porque foi testemunha ocular de Cristo ressuscitado, foi também, por outro lado, a primeira em dar testemunho d’Ele aos apóstolos”. Deste modo converteu-se em evangelista, ou seja, em mensageira que anuncia a boa nova da ressurreição do Senhor.

A elevação a festa da comemoração litúrgica de Maria Madalena expressa, em termos litúrgicos, o reconhecimento da sua qualidade de apóstola: “por isso – como disse o secretário da Congregação para o Culto Divino – é justo que a celebração litúrgica desta mulher adquira o mesmo grau de festa dado às celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral e que se destaque a especial missão desta mulher, que é exemplo e modelo para todas as mulheres na Igreja”.

Os que pretendem a promoção das mulheres na Igreja por via da sua clericalização, talvez pensem que esta reforma litúrgica prenuncia a sua admissão ao sacerdócio ministerial, mas é mais lógico que queira dizer exactamente o contrário. Com efeito, se Maria Madalena, sem ter nunca recebido o diaconado, nem o presbiterado ou o episcopado, pôde ser e de facto foi apóstola, também todas as mulheres cristãs, sem necessidade do sacramento da Ordem em nenhum dos seus três graus, podem e devem ser, sejam leigas ou consagradas, solteiras ou casadas, não só apóstolas, mas apóstolas de apóstolos, como Santa Maria Madalena!

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada in Observador de 22.07.2017

(seleção de imagem 'Spe Deus')