Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!
Mostrar mensagens com a etiqueta Opus Dei. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Opus Dei. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

Por ocasião desta solenidade, convido-vos a meditar e a pôr em prática, seguindo os ensinamentos do Santo Padre (Bento XVI) e à luz do exemplo de S. Josemaria, algumas consequências que podemos descobrir ao contemplar esta cena.

O autor da epístola aos Hebreus recorda que o local mais importante do antigo templo de Jerusalém, o Santo dos Santos, continha um altar de incenso, de oiro, e a arca da Aliança, coberta de oiro por todos os lados, na qual estava uma ânfora de oiro com o maná, a vara de Aarão, que germinou, e as tábuas da Aliança [4]. Detenhamo-nos na figura da arca, símbolo de Maria. O facto de se encontrar no lugar mais sagrado do templo fala­‑nos já da especial proximidade e intimidade da Virgem com Deus: mais do que tu, só Deus![5], exclamamos gozosamente e sentindo essa necessidade, unidos a S. Josemaria. As tábuas da lei, que Deus entregou a Moisés, manifestavam a vontade divina de manter a aliança com o seu povo, se este permanecesse fiel ao seu pacto. A Sagrada Escritura narra como, apesar dos cuidados do Senhor, Israel foi repetidamente infiel. A Santíssima Virgem não foi assim, pois como o Papa recalca, Maria é a arca da aliança, porque acolheu em si mesma Jesus; recebeu em si a Palavra viva, todo o conteúdo da vontade de Deus, da verdade de Deus; acolheu em si Aquele que constitui a nova e eterna aliança, culminada com a oferenda do seu corpo e do seu sangue: corpo e sangue recebidos de Maria [6].

Aqui descobrimos uma primeira lição da nossa Mãe, que desejamos assimilar mais profundamente para a praticar o convite a procurar diariamente a união mais plena possível com a Vontade santa de Deus, nos momentos agradáveis e especialmente nos que são incómodos e exigem sacrifício. A fidelidade ao querer divino nas circunstâncias custosas será a prova mais clara da retidão das nossas intenções e da firmeza dos nossos desejos de seguir Jesus de perto. Não vos vêm à memória aquelas palavras de S. Josemaria numa oração ao Espírito Santo? : quero o que quiseres, quero porque queres, quero como quiseres, quero quando quiseres... [7].

[4]. Hb 9, 4.
[5]. S. Josemaria, Caminho, n. 496.
[6]. Bento XVI, Homilia na Solenidade da Assunção, 15-VIII-2011.
[7]. S. Josemaria, Manuscrito autógrafo, abril de 1934.

(D. Javier Echevarría na carta de mês de agosto de 2012)

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

A Igreja Templo do Espírito Santo onde Deus age

A Igreja não é um enredo de coisas e de interesses, mas é o Templo do Espírito Santo, o Templo onde Deus age, o Templo onde cada um de nós, com o dom do Batismo, é uma pedra viva. Isto diz-nos que na Igreja ninguém é inútil (…). Ninguém é secundário [15].

Enquanto membros do mesmo Corpo místico, os cristãos podem e devem ajudar-se entre si para chegar à santidade, mediante a Comunhão dos santos, que confessamos no Símbolo apostólico. Para além de se referir a que todos os fiéis participam das magnalia Dei, das riquezas de Deus (a fé, os sacramentos, os vários dons espirituais), «a expressão “Comunhão dos santos” designa também a comunhão entre as pessoas santas (sancti), isto é, entre aqueles que estão unidos pela graça a Cristo morto e ressuscitado» [16]: os santos do paraíso, as almas que se purificam no Purgatório, os que ainda travam na terra as batalhas da luta interior. Formamos uma só família, a família dos filhos de Deus, em louvor da Santíssima Trindade: com que probidade cuidamos dela?

S. Josemaria enchia-se de consolação com a meditação desta verdade de fé, pela qual nenhum batizado se pode sentir só: nem na sua luta espiritual, nem nas suas dificuldades materiais. Vemos esta convicção no Caminho: Comunhão dos Santos. - Como to hei de dizer? - Sabes o que são as transfusões de sangue para o corpo? Pois assim vem a ser a Comunhão dos Santos para a alma [17]. Pouco depois, acrescenta: Terás mais facilidade em cumprir o teu dever, se pensares na ajuda que te prestam os teus irmãos e na que lhes deixas de prestar se não fores fiel [18].

[15]. Papa Francisco, Discurso na Audiência geral, 26-VI-2013.
[16]. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, n. 195.
[17]. S. Josemaria, Caminho, n. 544.
[18]. S. Josemaria, Caminho,n. 549.

(D. Javier Echevarría na carta do mês de agosto de 2013)
© Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Lutar por alcançar a santidade com os olhos em Maria

Enchamo-nos sempre de um grande ânimo, minhas filhas e meus filhos. Mesmo que tropeçássemos grandemente, mesmo que nalgumas ocasiões nos sintamos moles e sem forças na luta espiritual, é sempre possível, com a graça de Deus, retomar o caminho para a santidade. Estamos rodeados de uma multidão de santos, de pessoas fiéis a Nosso Senhor, que começam e recomeçam constantemente na sua vida interior.

Basta, por outro lado, levantar os olhos para o Céu. E a esta certeza nos convida também a solenidade que celebraremos no dia 15: a Assunção da Santíssima Virgem Maria. Fundados na intercessão de Jesus, que roga constantemente por todos nós a Deus Pai [19]. Que grande consolo, que mais pleno amparo nos traz a contemplação da nossa Mãe, sempre interessada na salvação dos cristãos e de todos os homens! Na Santíssima Virgem Maria a Igreja chegou já à perfeição, em virtude da qual não tem nem mancha nem ruga [20]. Nós, todos os fiéis, esforçamo-nos ainda por vencer nesta nobre tarefa da santidade, afastando¬ nos totalmente do pecado e, por isso, erguemos os olhos para Maria, que resplandece como modelo de virtudes para toda a comunidade dos eleitos [21]. Recorramos, pois, a Ela em todas as vicissitudes da Igreja e nas pessoais de cada um. Mãe! - Chama-a bem alto. - Ela, a tua Mãe Santa Maria, escuta-te, vê-te em perigo talvez, e oferece-te, com a graça do seu Filho, o consolo do seu regaço, a ternura das suas carícias. E encontrar-te-ás reconfortado para a nova luta [22]

Que este clamor de oração suba ao Céu com muita força, de toda a terra, ao renovar a Consagração do Opus Dei ao dulcíssimo e imaculado Coração de Maria, no próximo dia 15. Unidos fortemente na oração, peçamos à bondade divina todos as graças de que o mundo, a Igreja e cada um de nós precisam.

[19]. Cfr. Heb 7, 25.
[20]. Cfr. Ef 5, 27.
[21]. Cfr. Concílio Vaticano II, Const. dogm. Lumen géntium, n. 65.
[22]. S. Josemaria, Caminho, n. 516.

(D. Javier Echevarría na carta do mês de agosto de 2013)
© Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Quantas lágrimas se derramam em cada instante no mundo, cada uma diferente das outras…

O recurso seguro para evitar a tristeza ou sair da sua opressão é abrir o coração com Jesus diante do Sacrário, e com quem, como Seu instrumento, orienta a alma entre os meandros da vida espiritual. Lembremo-nos sempre, levando-o à prática, o conselho que S. Josemaria dava: Levantai o coração a Deus, quando chegar o momento duro do dia, quando a tristeza quiser meter-se na nossa alma, quando sentirmos o peso destas lides da vida, dizendo: Miserere mei Domine, quoniam ad te clamavi tota die: laetifica animam servi tui, quoniam ad te Domine, animam meam levavi (Sl 85, 3-4), Senhor, tem misericórdia de mim, porque Te invoquei o dia todo: alegra o Teu servo, pois a Ti, Senhor, elevei a minha alma [9].
Que bela tarefa realizam os cristãos ao consolar os que se veem aflitos por uma contrariedade, grande ou pequena, que lhes rouba a paz! Além de rezar por eles, é preciso fomentar um acolhimento afetuoso, pois muitas almas só procuram alguém que ouça com paciência as suas penas. Quantas caras tristes encontramos nos nossos caminhos terrenos porque ninguém lhes ensinou a abandonar-se no Senhor, e com que consolo fraterno os devemos acolher! Quantas lágrimas se derramam em cada instante no mundo, cada uma diferente das outras… E juntas formam como que um oceano de desolação, a implorar misericórdia, compaixão, consolo. As mais amargas são as lágrimas causadas pela maldade humana: as lágrimas de quem viu arrancar-lhe violentamente uma pessoa querida, lágrimas de avós, de mães e pais, de crianças... (...). Precisamos da misericórdia, da consolação que vem do Senhor. Todos nós precisamos dela. É a nossa pobreza, mas também a nossa grandeza: invocar a consolação de Deus que, com a Sua ternura, vem enxugar as lágrimas do nosso rosto [10].
Assim fez o Mestre durante a Sua passagem entre os homens. Levado pela Sua misericórdia, deteve-se no caminho, para consolar a viúva de Naim que chorava a morte do seu único filho; reagiu de forma semelhante com Marta e Maria em Betânia, desoladas pela morte do seu irmão Lázaro. Chorou também pelo destino que a cidade Jerusalém iria ter [11]. Ao iniciar a Sua Paixão, já no Jardim das Oliveiras, sofreu até ao ponto de suar sangue, e permitiu que um anjo, uma criatura, O consolasse (cfr. Lc 22, 39-46). Pode haver maior sinal de humanidade do que admitir o consolo, o reforço que outro nos dá para nos levantar do nosso abatimento, da nossa fraqueza, do nosso desânimo? [12]
Seguindo os passos do Mestre, consolemos quem precisa. É isso que está nas entranhas do espírito cristão. Assim se dirigia S. Francisco ao Senhor, numa oração também repetida por muitas gerações: «Senhor, fazei de mim um instrumento da Vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão; onde houver dúvida, que eu leve a fé; onde houver tristeza, que eu leve a alegria; onde houver desespero, que eu leve a esperança; onde houver trevas, que eu leve a Tua luz» [13].
[9]. S. Josemaria, Carta 9-I-1932, n. 15.
[10]. Papa Francisco, Vigília de oração para "enxugar" as lágrimas, 5-V-2016.
[11]. Cfr. Lc 7: 11-13;. Jo 11, 17 ss; Lc 19, 41 -44.
[12]. S. Josemaria, Carta 29-IX-1957, n. 34.
[13]. Oração atribuída a S. Francisco de Assis.


(D. Javier Echevarría excerto da carta do mês de julho de 2016)
© Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei

Maria Madalena: a apóstola dos apóstolos

Todas as mulheres cristãs, sem necessidade do sacramento da Ordem, podem e devem ser, sejam leigas ou consagradas, solteiras ou casadas, apóstolas de apóstolos, como Maria Madalena.

Com data de 3 de Junho de 2016, o Papa Francisco, através de um dos seus mais próximos e valiosos colaboradores, o Cardeal Robert Sarah, prefeito para a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, decretou que a celebração litúrgica de Santa Maria Madalena passasse a ser festa, a realizar todos os anos no dia 22 de Julho, que era já o da sua memória.

Esta promoção litúrgica da santa de Magdala ocorre por exigência de vários critérios pastorais que, no referido decreto, sumariamente se referem: “Na actualidade, quando a Igreja é chamada a reflectir mais profundamente sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina, pareceu conveniente que o exemplo de Santa Maria Madalena fosse também proposto aos fiéis de uma forma mais adequada. Com efeito, esta mulher conhecida por ter amado Cristo e por ter sido muito amada por Cristo, chamada por São Gregório Magno ‘testemunha da divina misericórdia’ e por São Tomás de Aquino ‘a apóstola dos apóstolos’, pode ser hoje proposta aos fiéis como paradigma do serviço das mulheres na Igreja”.

A este propósito, o secretário da Congregação para o Culto Divino, arcebispo Arthur Roche, muito justamente recordou que “foi João Paulo II quem dedicou uma grande atenção, não só à importância das mulheres na missão do próprio Cristo e da Igreja, mas também, em particular, ao especial papel de Maria de Magdala, como sendo a primeira testemunha que viu o ressuscitado, e a primeira mensageira que anunciou a ressurreição do Senhor aos apóstolos (cfr. Mulieris dignitatem, n. 16)”.

Questão mais difícil é a de apurar quem foi, de facto, Maria Madalena. No passado, houve quem a identificasse com a pecadora que derramou o perfume em casa de Simão, o fariseu; mas a moderna exegese desmente essa identificação. Talvez essa confusão tenha originado a má fama que, desde então, persegue esta santa. Com efeito, a tradição popular imputa-lhe um passado luxurioso, que a Bíblia, contudo, não corrobora.

Sempre foram muito pouco indulgentes os homens para com os pecados desta natureza, que ainda hoje são considerados dos mais vergonhosos. No entanto, aos olhos de Deus, pode ser mais grave o orgulho ou a ira de um coração que, embora inocente de qualquer pecado carnal é, afinal, mais impuro. Por isso, Jesus não deixa de reprovar a soberba dos que, como os fariseus, se consideravam a si mesmos justos e desprezavam as pecadoras públicas que, no entanto, os iriam preceder no reino dos Céus. Mas, mesmo inocente desses pecados, Maria Madalena também teria as suas culpas, pois dela se diz que “tinham saído sete demónios” (Lc 8, 2).

Mais importante do que averiguar o passado, mais ou menos pecaminoso, de Maria Madalena, interessa a sua virtude, o seu amor a Cristo, porque também ela, como aliás todos nós, só pôde ser perdoada no amor, como Jesus ensinou ao farisaico Simão: “Estão perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou” (Lc 7, 47).

Os santos não foram, ao contrário do que uma certa mentalidade puritana tende a crer, os que nunca pecaram, ou os que pecaram pouco, mas os que muito amaram, mesmo tendo pecado, alguns até muito. A santidade cristã não é a suprema sublimação do impoluto, mas a perfeição da caridade, sem a qual a fé, a pobreza, e mesmo a mais pura castidade nada valem (cfr. 1Cor 13, 1-3).

Maria Madalena foi uma grande santa porque amou muito e foi também muito amada por Cristo. Não ao jeito que certos ignaros gostam agora de romancear, em novelas de cordel que talvez sejam best-sellers comerciais, mas que nada têm de verídico, nem de verosímil. Desmente-os a reverência da boa mulher de Magdala para com o seu Mestre e Senhor, a quem trata com indiscutível amor, mas também com o respeito devido pela criatura ao Criador. Por isso, quando finalmente o descobre naquele que antes julgara ser o hortelão, não o trata familiarmente pelo seu nome próprio, como seria de esperar entre cônjuges ou amantes, mas com a deferência que a discípula deve ao seu Mestre (Jo 20, 16). Também as palavras que Jesus opõe ao ímpeto da sua esfusiante alegria quando, por fim, o reconhece (Jo 20, 17), assinala, sem lugar para dúvidas, a distância sempre observada entre a humilde serva e o seu divino Senhor.

A sua fé afirma-se sobretudo na gloriosa ressurreição do seu Mestre, de que ela será, por especialíssima graça, primeira testemunha. Como escreveu Arthur Roche, “precisamente porque foi testemunha ocular de Cristo ressuscitado, foi também, por outro lado, a primeira em dar testemunho d’Ele aos apóstolos”. Deste modo converteu-se em evangelista, ou seja, em mensageira que anuncia a boa nova da ressurreição do Senhor.

A elevação a festa da comemoração litúrgica de Maria Madalena expressa, em termos litúrgicos, o reconhecimento da sua qualidade de apóstola: “por isso – como disse o secretário da Congregação para o Culto Divino – é justo que a celebração litúrgica desta mulher adquira o mesmo grau de festa dado às celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral e que se destaque a especial missão desta mulher, que é exemplo e modelo para todas as mulheres na Igreja”.

Os que pretendem a promoção das mulheres na Igreja por via da sua clericalização, talvez pensem que esta reforma litúrgica prenuncia a sua admissão ao sacerdócio ministerial, mas é mais lógico que queira dizer exactamente o contrário. Com efeito, se Maria Madalena, sem ter nunca recebido o diaconado, nem o presbiterado ou o episcopado, pôde ser e de facto foi apóstola, também todas as mulheres cristãs, sem necessidade do sacramento da Ordem em nenhum dos seus três graus, podem e devem ser, sejam leigas ou consagradas, solteiras ou casadas, não só apóstolas, mas apóstolas de apóstolos, como Santa Maria Madalena!

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada in Observador de 22.07.2017

(seleção de imagem 'Spe Deus')

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Palavras que nos ajudam a viver melhor

Nos dias de hoje, a sociedade oferece entretenimento sem interrupções. Basta pensar nas plataformas digitais e na quantidade enorme de conteúdos que temos disponíveis a qualquer hora do dia.


No entanto, não parece que isso nos tenha feito mais felizes.


Há uma sensação de vazio em muitas pessoas, e não é por falta de entretenimento: parece que é por excesso.


O mundo digital está a transformar tudo à nossa volta e, se não estivermos atentos, também pode transformar cada um de nós a partir de dentro.


Penso que um caminho (não o único, nem o mais importante) para pôr remédio a esta situação está relacionado com a revalorização da literatura e da poesia.


A literatura, se o é de verdade, é sempre um convite a parar e a contemplar a vida com olhos novos. Neste ambiente que nos circunda, penso que não é exagerado dizer que a palavra escrita, a poesia simples, possui maravilhosas propriedades terapêuticas.


É um verdadeiro remédio sem data de caducidade.


As palavras ajudam-nos a viver melhor, de um modo mais sereno, a procurar entender a condição humana e as suas diversas contradições existenciais. A literatura transforma a partir de dentro o ser do leitor.


Como alguém dizia, muitas vezes “é a palavra que nos faz ver, não os olhos”. Quando alguém nos explica o sentido de uma obra de arte, conseguimos vê-la com olhos novos. Antes era possível olhar para a obra de arte, agora conseguimos contemplá-la.


A contemplação da beleza faz-nos melhores. Se não, não é beleza.


A nossa vida é semelhante a uma obra de arte, e a boa literatura ajuda-nos a contemplá-la de um modo novo. A descobrir facetas que nos estavam ocultas pelo trabalho rotineiro do dia a dia e pela procura de entretenimento fácil no mundo digital.

 

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Transmitir a fé aos filhos

O maior tesouro que os pais podem transmitir aos seus filhos é a fé. A fé dá um sentido para a vida. A vida cristã sincera liberta da amargura de uma existência sem Deus.

«Que atitudes da parte dos pais ajudam a transmitir a fé aos filhos?». Eis uma pergunta frequente sobre a qual vale a pena reflectir.

Cristian Smith sugere num artigo publicado em First Things algumas ideias muito interessantes sobre este assunto. Smith é sociólogo e professor na Universidade de Notre Dame e há vários anos que se dedica a estudar a transmissão da fé nas famílias norte-americanas.

A grande notícia, explica Smith, é que entre todos os factores que exercem alguma influência na vida religiosa dos filhos o maior de todos são sem dúvida nenhuma os próprios pais.

Não é que ir à catequese à paróquia ou estudar num colégio católico não ajude e tenha grande importância. No entanto, essa importância só pode reforçar a dos pais e nunca a pode substituir.

Isso não significa que praticar a fé na família garanta totalmente uma transmissão com êxito. Viver a fé é sempre uma decisão pessoal que ninguém pode tomar por nós.

No entanto, fora os casos excepcionais, o que é seguro é que se os pais estão comprometidos com a fé é muitíssimo mais provável que o mesmo aconteça com os seus filhos.

Em qualquer caso, o melhor modo de conseguir que no dia de amanhã os filhos não se afastem da religião é, segundo Smith, que os pais «sejam sinceros, que acreditem e pratiquem a fé de modo comprometido e fiel».

As crianças não se deixam enganar pelas aparências: veem a realidade! E quando a realidade é autêntica e vivificante sentem-se atraídas por ela.

Ser um bom cristão pode ser exigente, mas nunca é opressivo; é sempre libertador. E é, além disso, profundamente atraente!

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Consolar os cristãos nas suas mágoas

Ao longo destes meses, estamos a esforçar-nos por dar maior relevo à prática das obras de misericórdia. Consideremos agora uma a que Jesus Cristo se refere expressamente, ao traçar o programa do caminho cristão: as bem-aventuranças. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados [1].
Trata-se de uma obra de misericórdia que, tal como o perdão das ofensas, nos permite parecer-nos mais com Deus, imitá-Lo. Já no Antigo Testamento, o Senhor tinha dito: como alguém a quem a sua mãe consola, assim Eu vos consolarei [2]. E Jesus, na Última Ceia, manifesta esse consolo da forma mais perfeita possível, pois promete enviar o Espírito Santo, a Pessoa divina a Quem se atribui – por ser o Amor subsistente – a missão de consolar os cristãos nas suas mágoas e, em geral, de fortalecer os aflitos para superarem toda a espécie de males.
Meus filhos, observando a situação do mundo, percebemos que muitas pessoas choram, sofrem. Os dramas provocados pelas guerras causam grandes tragédias, que não nos podem deixar indiferentes: a emergência dos imigrantes ou as situações de injustiça que bradam aos céus causam muitas lágrimas. Penso, em particular, nos que estão a sofrer por defenderem a sua fé, arriscando mesmo as suas vidas.

[1]. Mt 5, 4.
[2]. Is 66, 13.

(D. Javier Echevarría excerto da carta do mês de julho de 2016)
© Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei

domingo, 26 de junho de 2022

Todos podemos ser santos – Biografia animada de São Josemaria

A passagem de São Josemaria para o Céu, a 26 de junho de 1975

Todo o mês de junho está cheio de festas com grande significado, também para a história do Opus Dei (…) E, particularmente, a passagem de S. Josemaria para o Céu, a 26 de junho de 1975. Posso-vos garantir que o nosso Fundador, até no seu último dia no mundo, quis e soube fazer a genuflexão diante do Sacrário com especial recolhimento. Naquele dia 26 de junho, não podia com o seu corpo e, apesar de tudo, rendeu-se em completa adoração à Sagrada Eucaristia, ao regressar de Castelgandolfo. Fazemos nós assim? Temos consciência de estar a adorar a Deus nesses momentos? Sentimos a necessidade de cumprimentar o Santíssimo Sacramento ao entrar e sair da igreja ou oratório onde Ele Se encontra reservado?

Ao celebrar a festa litúrgica de S. Josemaria, supliquemos, por sua intercessão, um grande aumento dos desejos de santidade e de apostolado em todos os fiéis da Obra – sacerdotes e leigos –, e também nos amigos e Cooperadores que beneficiam do seu espírito. Peçamos pela expansão do trabalho apostólico em tantos sítios que nos esperam. Para isso, roguemos ao Senhor que conceda a muitos homens e a muitas mulheres a graça de responder com generosidade ao chamamento que Ele lhes faz para O seguirem de perto, abrindo os caminhos divinos da Terra.

(D. Javier Echevarría, Prelado do Opus Dei na carta de mês de junho de 2012)

quinta-feira, 2 de junho de 2022

O vazio existencial

«Um vício, em geral, é um sintoma de um profundo vazio existencial». Não sei ao certo quem disse esta frase, mas parece-me profundamente verdadeira.


Porquê?


Porque os vícios, sejam eles quais forem, são sempre uma certa fuga da realidade, que se experimenta como demasiado dura ou difícil de enfrentar. O problema é que, quanto mais a pessoa se afasta da realidade, menos forças tem para a enfrentar. Isso gera um verdadeiro círculo vicioso.


As condutas viciadas são como um analgésico para uma certa fadiga de viver. Procurar o prazer pelo prazer (isto costuma estar presente em toda a conduta viciada) demonstra uma falta de horizonte vital, de um projecto de vida que vá mais além do imediato.


A pessoa sente que se perdeu a si mesma, e isso é o que caracteriza o vazio existencial. Por isso, o vício é muitas vezes um sintoma de um problema mais profundo, mas não é o problema em si, como no caso da febre.


Sem combater o vazio existencial torna-se muito difícil superar condutas viciadas.


Um cristão sabe que a sua vida tem um sentido. Sabe de onde vem, para onde vai e porque é que está por aqui. Através da oração (encontro pessoal com Jesus Cristo) está chamado a manter vivo esse sentido e, assim, ajudar aqueles que convivem com ele a descobrir na prática que “vale a pena viver”.


«Não vos entristeçais como os outros, que não têm Esperança» (1 Tes 4, 13), diz São Paulo aos tessalonicenses.


Nós, cristãos, temos um futuro. Não é que conheçamos em pormenor tudo aquilo que nos espera, mas sabemos que a nossa vida não termina no vazio. Somente quando o futuro é certo como uma realidade positiva é que se torna possível viver o presente sem se deixar arrastar por condutas viciadas, sejam elas quais forem.


Quem tem Esperança, vive de um modo diverso, porque lhe foi dada uma vida nova, que é o contrário do vazio existencial.


Pe. Rodrigo Lynce de Faria

domingo, 29 de maio de 2022

Ascenção

Prosseguindo com a exposição dos artigos do Credo, aprofundemos no mistério da Ascensão do Senhor. Cremos, com efeito, que Jesus Cristo, depois da Ressurreição, subiu ao Céu onde está sentado à direita do Pai [1]. Esta solenidade que celebraremos neste mês – na quinta-feira, dia 9, ou no domingo, dia 12, nos países onde foi transferida – deve ser para to­dos uma paragem, recordando-nos o fim ditoso a que estamos chamados. Esta verdade recor­da-nos ao mesmo tempo um facto histórico e um acontecimento de salvação. Como facto histórico, a Ascensão «marca a entrada definitiva da humanidade de Jesus no domínio celeste de Deus, de onde há de voltar, mas que, entretanto, O oculta aos olhos dos homens» [2]. Agora, está presente na Eucaristia de modo sacramental, mas, no seu ser natural, encontra-se apenas no Céu, de onde virá no fim dos tempos, cheio de glória e majestade, para julgar a todos.

O Evangelista que relata com mais pormenor este acontecimento é S. Lucas. No início dos Atos dos Apóstolos, escreve que o Senhor, depois da Sua Paixão, lhes apareceu vivo [aos Apóstolos e aos outros discípulos], e deu-lhes disso numerosas provas, com as Suas aparições, durante quarenta dias, falando-lhes também a respeito do Reino de Deus [3]. Narra ainda que, durante uma das aparições aos Apóstolos, o Senhor lhes abriu o entendimento para que compreendessem as Escrituras. E disse-lhes: Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia, e que se anuncie, em Seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas [4].


S. Josemaria considerou muitas vezes estas cenas, nas reuniões familiares que costu­mava ter com numerosas pessoas. Numa ocasião, por exemplo, convidava os que o ouviam a pensar no Senhor depois da Ressurreição, quando falava de muitas coisas, de tudo o que os Seus discípulos Lhe perguntavam. Aqui estamos a imitá-Lo um pouco, porque vós e eu somos discípulos do Senhor e queremos trocar impressões [5]. E noutra altura, acrescen­tava: falava com eles, como falamos nós agora, aqui, assim! Isso é a contemplação: convívio com Deus. E a contemplação e o convívio com Deus levam-nos a cuidar das almas, a ter sede de trazer para Cristo os que se afastaram [6].

[1]. Missal Romano, Símbolo Niceno-Constantinopolitano.
[2]. Catecismo da Igreja Católica, n. 665.
[3]. At 1, 3.
[4]. Lc 24, 46-48.
[5]. S. Josemaria, Notas de uma reunião familiar, 29-X-1972.
[6]. S. Josemaria, Notas de uma reunião familiar, 3-XI-1972.

(D. Javier Echevarría, Prelado do Opus Dei na carta do mês de maio de 2013)

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Visitar um Santuário Mariano

«Como dizia Bento XVI num santuário mariano: para o homem em busca, este convite transforma-se sempre de novo num pedido espontâneo, um pedido que se dirige em particular a Maria, que nos deu Cristo como seu Filho: “Mostra-nos Jesus!”. Assim rezamos hoje com todo o coração. E assim rezamos também, para além deste momento, interiormente, em busca do Rosto do Redentor. “Mostra-nos Jesus!”. Maria responde, apresentando-O diante de nós, antes de mais, como Menino. Deus fez-se pequenino para nós. (Homilia no Santuário de Mariazell, 8-IX-2007).

Excerto carta de Maio 2009 de D. Javier Echevarría

quinta-feira, 12 de maio de 2022

A festa de Nossa Senhora de Fátima

A meados do mês, vamos celebrar a festa de Nossa Senhora de Fátima, e também o aniversário da novena de S. Josemaria à Virgem de Guadalupe, em 1970: duas recordações que nos hão de levar a cuidar com esmero os tempos de oração mental e as orações vocais, especialmente o Terço, tão recomendado por Nossa Senhora aos Três Pastorinhos. Sejamos santamente ambiciosos nas nossas intenções apostólicas, suplicando a Maria pela Igreja e pelo Papa, pelos frutos do Ano da fé para o qual nos estamos a preparar, pela renovação da vida cristã em todo o mundo.

(D. Javier Echevarría na carta de mês de Maio de 2012)

Bem-aventurado Alvaro del Portillo, bispo, †1994

Nasceu em Madrid, a 11 de março de 1914. Era o terceiro de oito filhos. Foram seus pais Ramón del Portillo Pardo e Clementina Diez de Solano Portillo. Pediu admissão no Opus Dei em 7 de julho de 1935, rapidamente converteu-se no mais firme e valioso auxiliar e apoio de São Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei, de quem foi confessor e diretor espiritual desde o dia em que foi ordenado sacerdote em 25 de junho de 1944, e o acompanhou até o dia de seu falecimento em 26 de junho de 1975. Foi um dos três primeiros sacerdotes do Opus Dei, ordenado por D. Leopoldo Eijo y Garay, bispo de Madrid-Alcalá..

A 15 de setembro de 1975 foi eleito primeiro sucessor de S. Josemaria frente ao Opus Dei, foi Secretário Geral do Opus Dei (1940 - 1947 e 1956 - 1975) e era membro do seu Conselho Geral desde 1940 até 1975. Entre outros órgãos do Vaticano foi consultor da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos, da Congregação para o Clero e do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais. Trabalhou no Concílio Vaticano II, primeiro como presidente da Comissão ante-preparatória para os Leigos e depois como secretário da Comissão para a Disciplina do Clero e como consultor de outras Comissões. Foi membro da Comissão de Revisão do Código de Direito Canónico que se encontra em vigor, promulgado por João Paulo II.

O Papa João Paulo II ao erigir o Opus Dei em Prelazia pessoal, em 28 de novembro de 1982, fê-lo seu Prelado e, em 6 de janeiro de 1991, sagrou-o bispo titular de Vita. Escolheu como lema do seu escudo episcopal: Regnare Christum volumus!. Não pensava em si mas em servir a Igreja: "único motivo da nossa existência e da existência da nossa Prelatura", repetia.

Em 1985 fundou em Roma o Centro Académico Romano da Santa Cruz que mais tarde foi se tornar na Pontifícia Universidade da Santa Cruz. Durante o seu governo o trabalho da prelazia estendeu-se por vinte novos países.

Faleceu no dia 23 de março de 1994. Encontra-se sepultado na Igreja Prelatícia de Santa Maria da Paz, em Roma. Sobre ele afirmou João Paulo II, por ocasião do seu falecimento: "Foi um exemplo de fortaleza, de confiança na providência divina e de fidelidade à sede de Pedro."

Foi beatificado em Madrid a 27 de Setembro de 2014.

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

terça-feira, 3 de maio de 2022

A maturidade intelectual

Com muita frequência, o debate sobre os saberes humanísticos centra-se na pergunta sobre a sua utilidade: são proveitosos para encontrar um emprego?


Se a resposta for negativa, a conclusão é que não são úteis e, por isso, podem ser deixados de lado pela maioria das pessoas. Tornam-se matérias que facilmente desaparecem dos currículos para dar lugar a outras mais práticas e vantajosas.


Mas, atenção: não há riqueza interior sem saberes humanísticos, sem a leitura pausada de bons livros acompanhada de uma reflexão pessoal sobre as grandes questões que a nossa existência obrigatoriamente nos coloca.


O conhecimento que adquirimos não pode ser somente técnico (saber fazer): tem de ser também sapiencial (que sentido tem a minha vida e aquilo que faço). Caso contrário, o ser humano fica desequilibrado: pode saber muito de como fabricar algo, mas a sua humanidade fica embrutecida, e isso dificulta o relacionamento consigo mesmo, com os outros e com a realidade que o circula.


A vida intelectual de uma pessoa (todos estamos chamados a tê-la, uma vez que somos seres inteligentes) possui uma estreita relação com a sua maturidade. E a maturidade, além de emotiva e social, é, antes de mais nada, intelectual.


Sinceridade consigo mesmo, metas e fins claros na vida, valores “inegociáveis”, saber ético, reflexão, criatividade e um “são” realismo: tudo isto faz parte da maturidade intelectual que, sem saberes humanísticos, não é possível alcançar.


Tanto aquele que só lê textos superficiais como aquele que lê pouco se tornam especialmente vulneráveis diante do erro e, por isso, facilmente manipuláveis.


Como alguém dizia, os livros são os objectos mais estranhos deste mundo porque são matéria abarrotada de espírito. Se calculamos quantos livros leremos na vida, veremos a necessidade absoluta da selecção. É preciso ler o melhor daquilo que recomendam os melhores. 

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

domingo, 1 de maio de 2022

Sejamos bons imitadores de São José

A festa de S. José Operário convida-nos a não esquecer o valor transcendente de uma tarefa profissional honrada, bem feita, como a que o santo Patriarca realizou durante muitos anos. Condição indispensável é realizá-la com perfeição sobrenatural e humana, ou seja, com o desejo de dar glória a Deus e de servir o próximo, independentemente do valor social que se lhe atribua. Quantas vezes ouvi S. Josemaria comentar que o valor divino do trabalho humano depende do amor a Deus com que se realiza, do espírito de serviço com que se começa e se acaba!

(D. Javier Echevarría, Prelado do Opus Dei na carta de mês de Maio de 2012)

domingo, 17 de abril de 2022

A NOSSA RESSURREIÇÃO

Porque não havemos de pensar na nossa ressurreição, se vamos ressuscitar? Como será? S. Paulo não estranha a pergunta; e até lhe responde: seremos tão diferentes como é a planta do seu germe (cf. 1 Cor 35-53). Tão diferentes como o homem é do seu feto. Os mesmos, mas desenvolvidos até à perfeição definitiva; e mais do que isso: glorificados. A partir daqui a imaginação já é totalmente incapaz de seguir a Revelação, sabendo nós embora, pela fé, que seremos dotados de tão altas capacidades como é superior o espírito à matéria. 
Sabemos, porém, que não mudará a nossa natureza nem a nossa identidade. Nem sequer o nome, que «é nome de eternidade»; assim o diz o Catecismo (2159). Cada homem é ele mesmo para sempre, distinto de todos os demais e com nome individual; senão, como poderia amar e ser amado?

A pergunta sobre a nossa ressurreição não é fútil; é inevitável. E ao mesmo tempo excessivamente ambiciosa. Mas desistir dela, não podemos. Quem não sonhará com o seu futuro?

E que será da Terra, dos astros, do mundo, da matéria, dos animais, das plantas? Se o corpo ressuscita, por certo a matéria não será aniquilada, como o não foram o Santíssimo Corpo de Jesus nem o Imaculado Corpo de Maria. Temos confirmação expressa na Sagrada Escritura: haverá «um novo Céu e uma nova Terra», garante-nos S. Pedro (2 Ped 3, 13). Aliás, o homem é corpo e alma. Sem corpo, a alma, que tudo recebeu - conhecimentos e paixões – através dos sentidos, se agora é feliz no Céu, é-o também pela esperança da sua futura integridade, a reunião definitiva com o seu corpo. Ou somos capazes sequer de desejar, por toda a eternidade, uma pura felicidade espiritual? Nesse caso, seríamos mesmo «nós»? Quando no Credo confessamos crer na «ressurreição da carne», queremos dizer «do homem inteiro».

O feto não seria capaz de imaginar a vida fora do ventre materno, nem desejaria sair dele, tal como nos repugna a nós a morte; e, no entanto, aspiramos intensamente à paz que o mundo não dá (cf. Jo 14, 27). Aspiramos à felicidade autêntica e sabemos perfeitamente que não a conseguiremos aqui. Quem se contenta com o seu «sucesso na vida», mente. Mente a si mesmo. Chama felicidade a miúdas satisfações e a comparações ridículas com outros menos miseráveis, e projecta-se apenas na mera lembrança que dele retiverem os próximos defuntos. Vaidade pueril. Aqui só é feliz quem sabe, e porque sabe, que o vai ser; não quem se considera tal. Todas as bem-aventuranças o dizem: é bem-aventurado aquele que o há-de ser no Reino de Deus; não aquele que renuncia ao que o coração lhe pede e só anseia ficar por algum tempo na vaga memória de pobres mortais. Quem não espera a sua ressurreição não sabe porque vive nem para que vive.

H.A.
(Celebração Litúrgica 2 / 2018)


Nota 'Spe Deus': texto do Mons. Hugo de Azevedo publicado no seu mural do Facebook e imagem selecionada por este blogue

Alegria suprema

Via Lucis - Fátima
Quanta alegria interior não sentimos por saber que Cristo ressuscitou verdadeiramente. Temos a sorte de conhecermos bem o que se passou sob o ponto de vista histórico, graças aos quatro Evangelhos, que narram este acontecimento de uma forma tão simples e veraz. Não há nada neles que seja artificial, difuso ou estranho. Com a mesma singeleza com que se conta o nascimento do Messias num presépio, assim se diz que Ele ressuscitou e apareceu aos apóstolos, a sua Mãe e a muitos discípulos, que depois transmitiram essa experiência inesquecível e sempre marcante na sua vida de fé.

Mais uma vez – como em todas as outras ocasiões – o Senhor Jesus cumpriu aquilo que havia prometido. Mesmo assim, os seus seguidores mais directos e privilegiados, os Apóstolos, têm dificuldade em aceitar tão extraordinária aparição. Sentem medo de errar e é o próprio Cristo que lhes tem de dizer que é Ele mesmo, O que os tinha ensinado, O que os amava de um modo tão forte e que lhes tinha afiançado que havia de ressuscitar ao fim de três dias, depois de ser tão maltratado e condenado à morte.

Às vezes somos teimosos como Tomé. O testemunho unânime dos outros não nos convence. Suspeitamos, apesar de tudo, que pode haver um erro, uma ilusão. Por isso, ou somos testemunhos directos do que nos anunciam, ou não cremos.

E o paciente e grande Amigo Jesus, lá tem de lhe aparecer e o recriminar, à frente de todos os apóstolos, censurando-o com vigor: “Tomé, Tu acreditaste porque me viste; bem-aventurados os que acreditaram sem terem visto” (Jo 20, 29).

Se ao apóstolo temos de agradecer a sua confissão sobre a divindade de Cristo: “Meu Senhor e meu Deus!” (ibidem), a Jesus deveremos manifestar a nossa gratidão por sermos daqueles que O não viram mas acreditaram. A fé é uma virtude essencial e dela devemos viver, sabendo que Cristo é Deus feito homem, pelo que todas as suas palavras e acções, ao terem a marca da perfeição total da divindade, são mais credíveis do que os nossos juízos ou os juízos daqueles que se sentem na necessidade de pôr em causa a palavra de Deus, sem encontrarem jamais soluções alternativas, porque sempre pecam por imperfeição e por caducidade.

A Ressurreição não é apenas mais uma certeza de que o que Cristo diz é verdade. É a confirmação de que Ele é Senhor da vida e da morte. Esta, se O afectou, não O fez desaparecer. Serviu de teste ao seu poder omnipotente, capaz de realizar em Si mesmo – a sua divindade não o podia trair – a Ressurreição do seu Corpo, ao voltar a sua alma humana a animá-lo e a dar unidade a todos os seus membros.

Acreditemos em Cristo. Neste aspecto, devemos não proceder como os Apóstolos, pelo menos antes de O verem com os seus próprios olhos no meio deles, comendo e conversando com a afabilidade que O caracterizava e os enchia de gozo e de confiança.

Imitemos a Fé de Maria Santíssima, talvez a única criatura que nunca pôs em causa a Ressurreição do seu Filho tão amado. Maria é mestra de fé, pois é também mestra de oração. E foi nela e por ela que encontrou a fé de que necessitava para crer em Jesus e nas suas promessas. A oração, diálogo com Deus possível em todas as circunstâncias da nossa vida, é o instrumento da nossa intimidade com Deus. Sem oração, desconhecemos Deus e os seus desígnios. Mais: haverá uma distância constante entre nós e Ele, que nunca nos permitirá conhecê-Lo bem, nem amá-lo sobre todas as coisas.

Diz o povo sabiamente que “é a falar que a gente se entende”. Se não dialogamos com Deus assiduamente, se Ele não é para nós o ponto de referência de todos os aspectos da nossa vida, se não nos acompanha nas nossas tarefas profissionais, se não preside às nossas relações familiares e sociais, Deus e Jesus serão sempre seres distantes. Pior: seres mais ou menos desconhecidos, aos quais não prestaremos atenção nem entenderemos os seus projectos de Amor para connosco.

(Pe. Rui Rosas da Silva – Prior da Paróquia de Nossa Senhora da Porta Céu em Lisboa in Boletim Paroquial de Abril de 2010, seleção do título e imagem da responsabilidade do blogue)

sábado, 16 de abril de 2022

Ser cristão é ser feliz. Quem não é feliz não é cristão

Como Deus repousou da Criação no sétimo dia, também descansou da Redenção no Sábado.

Que significa o repouso do Criador, se Deus não se fatiga? Há o repouso do cansaço, e há o repouso da confiança. Deus descansou no homem, confiando-lhe a Criação, como um pai descansa nos filhos quando os vê preparados para a vida, mas continua sendo pai, amparando-os sempre nas suas necessidades e dificuldades. Na Redenção, Deus também descansou no Homem, no seu Filho, o Verbo encarnado, confiando-lhe a salvação do mundo.

Descansou na sua Morte por nós, que lhe mereceu a sua Ressurreição e a nossa, para toda a eternidade.

Para nós, o Sábado Santo foi um dia de grande tristeza, mas Nosso Senhor já tinha prometido aos Apóstolos que depois se alegrariam, e que a sua alegria permaneceria para sempre, porque O haviam de ver novamente, e nunca nos deixaria órfãos, desamparados.

E assim sucedeu: após um dia de profunda pena, angústia e perplexidade, veio o Domingo, e a sua alegria foi imensa, tão grande, que nem queriam acreditar em tanta felicidade.

Ser cristão é ser feliz. Quem não é feliz não é cristão.

Mas então deixamos de ser cristãos quando estamos tristes? Depende. Depende de quê? Da esperança. A tristeza sem esperança é uma infelicidade; a felicidade está na esperança, como o Santo Padre nos recordou na última encíclica. Sem esperança, até as alegrias são penas; com esperança, até o martírio é uma alegria.

Tu és cristão porque foste baptizado, porque crês em Cristo, porque amas Cristo, porque queres seguir Cristo. É verdade. Daqui a pouco vais dizê-lo solenemente: - Sim, creio! Sim, renuncio ao pecado!

Mas crês em Cristo vivo ou em Cristo morto?

Porque há muitos cristãos que continuam a viver no Sábado, no dia da tristeza. Crêem em Cristo, amam-no, querem segui-lo, mas não crêem no Ressuscitado, que vive, e vive junto deles, que os acompanha com imenso carinho fraterno, paterno e materno; que os espera no Sacrário; que lhes dá toda a força do seu Espírito; que habita neles; que se lhes entrega todos os dias; que transforma em bem tudo o que lhes acontece, até quando fraquejam nas tentações; que gosta de cada um como filho único; que lhes fala na Sagrada Escritura, na Igreja, na oração, na consciência, em cada instante da vida; e os compreende, e perdoa quantas vezes for preciso; e os anima; e os ilumina; e os torna luz, a luz do mundo...

Há muitos cristãos que não chegaram ao Domingo, e por isso andam tristes, desanimados, sem esperança, sem alegria.

Que veio dizer Nosso Senhor a S. Josemaria? Que ser cristão é ser feliz. Que ser feliz é ser santo, e ser santo é ser feliz. «Queres ser feliz? Sê santo. Queres ser mais feliz? Sê mais santo. Queres ser muito feliz? Sê muito santo», dizia. E vice-versa, podemos acrescentar: Se queres ser santo, sê feliz. «Alegrai-vos sempre no Senhor!», exorta-nos S. Paulo. «Que a tua alegria seja a nossa fortaleza», pedimos nós, os sacerdotes, no Ofício divino.

Peçamos isso para todos os nossos irmãos: que nunca se conformem com a tristeza; que saibam ver em tudo a mão de Deus; que descubram o que há de divino e providencial em qualquer circunstância da vida, como insistia com tanta força o Fundador do Opus Dei. E nas horas de perplexidade, que Deus sabe mais, e tem direito a que confiemos n’Ele.

Peçamos que todos os cristãos passem do Sábado, descubram o Domingo, e sejam tão felizes como os Apóstolos e as santas mulheres ao descobrirem o Ressuscitado.

(Mons. Hugo de Azevedo – Homilia da Vigília Pascal de 2008 no Oratório São Josemaría em Lisboa)

Imagem: foto quadro de Rafael Sanzio (1483-1520) - reprodução oferecida aos participantes na Vigília Pascal de 11-IV-2009 no Oratório São Josemaría