Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Senhor, tantas almas longe de Ti!

Vejo a tua Cruz, meu Jesus, e alegro-me com a tua graça, porque o prémio do teu Calvário foi para nós o Espírito Santo... E dás-te a mim, cada dia, amoroso – louco! – na Hóstia Santíssima... E fizeste-me filho de Deus e deste-me a tua Mãe! Não me basta a acção de graças; vai-se-me o pensamento: – Senhor, Senhor, tantas almas longe de Ti! Fomenta na tua vida as ânsias de apostolado, para que o conheçam..., e o amem..., e se sintam amados! (Forja, 27)

Que respeito, que veneração, que carinho temos de sentir por uma só alma, ante a realidade de que Deus a ama como algo seu! (Forja, 34)

Ante a aparente esterilidade do apostolado, assaltam-te as cristas de uma onda de desalento, que a tua fé repele com firmeza... Mas reparas que necessitas de mais fé, humilde, viva e operativa.

– Tu, que desejas a salvação das almas, grita como o pai daquele rapaz doente, possesso: "Domine, adiuva incredulitatem meam!" – Senhor, ajuda a minha incredulidade!
Não duvides: o milagre repetir-se-á. (Forja, 257)

São Josemaría Escrivá

Do dia para a noite

Baixa de CharlottesvilleVirginia
A violência vem de trás, mas agudizou-se recentemente quando a câmara de Charlottesville (no Estado de Virginia, EUA) decidiu remover o monumento ao General Robert E. Lee, por ele ter lutado na guerra civil americana pelo lado confederado. Um grupo de nacionalistas brancos saiu à rua a contestar. Foi-lhe ao encontro uma contra-manifestação e, no enfrentamento, morreu mais uma pessoa. Foi este o ponto de partida de outra reacção exaltada à conta da qual já voaram bastantes outras estátuas dos seus pedestais e há planos para retirar mais 720, no conjunto dos EUA.

Duas das estátuas voadoras são de Roger Brooke Taney, primeiro uma em Baltimore e, dois dias depois, outra em Annapolis, ambas no Estado de Maryland. Em ambos os casos, a operação decorreu literalmente do dia para a noite. Em Annapolis, capital do Estado, eram precisamente as 2 horas da madrugada de quinta para sexta-feira (18 de Agosto de 2017). Para não perderem tempo a reunir-se, os membros do executivo estadual votaram por correio electrónico, de modo que foi só chamar o guindaste e esperar pela noite, para evitar perturbações da ordem pública.

Será que alguém aprende a lição?

Retirada da estátua de Roger Brooke Taney, em Annapolis,
capital do Estado do Maryland, às 2 horas da madrugada
de quinta para sexta-feira (18 de Agosto de 2017).
Recordemos quem foi este Roger Brooke Taney, porque é que lhe erigiram estátuas e o que ele fez de mal.

Roger Taney foi um funcionário político e depois um magistrado com prestígio em meados do século XIX. Embora se soubesse que era católico, fez parte do gabinete do Presidente dos EUA, foi Secretário da Guerra e Secretário do Tesouro. Foi o primeiro católico a desempenhar cargos de responsabilidade e, durante muitos anos, o único. Em 1836, bateu um recorde semelhante, como primeiro católico eleito Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça.

Foi nesta função que lhe incumbiu, em 1857, ser o redactor da sentença «Dred Scott», aprovada por 7 dos 9 juízes do Supremo Tribunal. É daqui que vem toda a animosidade contra Roger Taney, ainda que não imediatamente, porque a generalidade dos juristas da época concordava com ele, como se depreende da esmagadora maioria que votou a sentença. Depois da sua morte, Taney teve mais de um século para ser lembrado como ilustre e para lhe erguerem estátuas. Até que passaram 160 anos e as coisas mudaram.

Dred Scott e a mulher eram escravos que reclamavam o direito à liberdade e a sentença do Supremo interpretou a lei em sentido desfavorável. Taney opunha-se pessoalmente à escravatura, que considerava «uma mancha no carácter da América», e no início da carreira tinha libertado todos os seus escravos. Além disso, era pró-unionista, contra os confederados. Contudo, contra a sua convicção pessoal, Roger Taney declarou que a Constituição norte-americana não protegia os negros. O acórdão pergunta-se retoricamente se os negros podem ser cidadãos e responde. «Pensamos que não, porque isso não vem na Constituição e, na altura, a palavra “cidadão” não pretendia incluir os negros. (...) Pelo contrário, na época eles eram considerados subordinados e seres de classe inferior, que tinham sido subjugados pela raça dominante».

Isto foi escrito em meados do século XIX?! É tão parecido com os acórdãos do Tribunal Constitucional de Portugal e de tantos países!

A Constituição defende a absoluta inviolabilidade da vida humana... mas os bebés antes de nascerem não são humanos; ...e as pessoas doentes também não; ...nem os idosos. A Constituição fala do casamento... mas, se a palavra significar outra coisa, mesmo intrinsecamente estéril? A Constituição fala na liberdade de educação e proíbe o Estado de tomar posição a favor de qualquer doutrina ...mas quem duvida que a opinião do Ministério é a única certa?! A Constituição reconhece o direito a conhecer os próprios pais ...mas a PMA proíbe que a criança saiba quem é o pai, para ter o direito a saber que tem duas mães. Além disso, entre o conceito de pai e de mãe há tantos géneros...

Durante algum tempo, as ideologias conseguem impor as coisas mais estapafúrdias. Parece que não há limite, com a ajuda de uns juristas de formação positivista, que vão para além do imaginável, incluindo as próprias convicções morais. Até que chega o momento exaltado em que as lindas estátuas voam, do dia para a noite.
José Maria C.S. André
27-VIII-2017
Spe Deus

Caná: o milagre que nunca devia ter acontecido

Em Caná da Galileia, Jesus e os seus apóstolos, em vez de penitentes ascetas, mais pareciam um grupo de amigos na pândega, a gozar os prazeres da vida!

É São João quem relata o primeiro milagre de Jesus de Nazaré. Tendo sido sua mãe convidada para um casamento em Caná da Galileia, bem como ele e alguns dos seus discípulos, faltou o vinho. Maria comunicou esta carência ao seu filho, que disse que não importava, porque não tinha ainda chegado a hora de se manifestar ao mundo. Sua mãe, contudo, não desistiu: logo disse aos empregados de mesa que obedecessem a Cristo. Por sua indicação, encheram com água uns grandes recipientes e resultou depois que os mesmos estavam, na realidade, repletos de bom vinho (Jo 2, 1-11).

Os outros evangelistas – Mateus, Marcos e Lucas – não referem este acontecimento e a razão é óbvia: este milagre, pura e simplesmente, nunca devia ter acontecido! Ou, tendo-se realizado, deveria ter sido silenciado! Com efeito, este facto pouco ou nada abona a favor de Cristo, por mais que João diga, em jeito de happy end, que foi graças a este prodígio que os seus discípulos acreditaram nele (Jo 2, 11).

Uma primeira objecção deve ser feita à presença de Jesus e dos discípulos naquele banquete. Se os fariseus e João Baptista jejuavam, o mesmo era de esperar de Jesus: a sua participação naquela festa não condiz com a sua condição de mestre espiritual. Não consta que tenha pregado lá, nem feito nenhuma cura, pelo que a sua presença foi, na realidade, desnecessária, senão mesmo fútil. Decerto, não só ele como também os seus seguidores foram, para os fariseus, motivo de escândalo: em vez de se comportarem como uma santa milícia de ascetas, em demanda dos árduos caminhos da salvação, agiram como um grupo de amigos na pândega, a gozar os prazeres da vida!

Aliás, não foi caso único, porque Jesus ia a festas que, não só não eram religiosas, como nelas abundavam os publicanos e os pecadores que, segundo o Evangelho, são os melhores compinchas para a diversão! (O que explica a sua ida para o Céu, onde se dispensa a presença dos chatos e dos ‘beatos’ …). À custa destas más companhias, Cristo não só ganhou a fama de glutão e bebedor (Mt 11, 19), como também provocou o muito puritano escândalo dos fariseus de então e de agora.

Também não se percebe por que razão Maria se intrometeu numa questão que não lhe dizia respeito, não sendo ela mãe de nenhum dos noivos, nem a anfitriã. Diga-se, de passagem, que é de má nota que alguém, faltando o vinho na casa onde é convidado, trate de o arranjar e, pior ainda, o consiga até de melhor qualidade do que o que antes se tinha servido! A advertência de Maria também pecava por moralmente inconveniente: o vinho não era essencial e a sua ausência era mais proveitosa do que prejudicial.

De facto, o milagre religiosamente correcto era o contrário: em vez de converter a água em vinho, transformar o vinho em água! Com efeito, está provado que o excesso de água, excepto no caso dos náufragos, é muito menos pernicioso do que o do vinho. Portanto, o que se esperava de um santo homem de Deus era o milagre inverso: como o fruto da videira, embora produza uma momentânea euforia, é muito nocivo para quem o consome de forma destemperada – como já aconteceu com Noé, a quem a Bíblia atribui a sua invenção – Jesus deveria ter mudado o vinho em água. Naquele caso, vinha até muito a propósito, uma vez que se tratava, precisamente, de um copo-de-água!

O milagre também não se justificava em relação aos apóstolos. É verdade que neles aumentou a fé em Cristo, mas talvez também a ilusão de que poder-se-iam entregar a uma vida ociosa, uma vez que, por virtude daquela extraordinária capacidade do mestre, estavam garantidas todas as suas necessidades: graças a Jesus, não teriam que ganhar a vida com o suor do seu rosto. Mais do que um exército de laboriosos operários da vinha, poder-se-iam converter num conjunto de ociosos parasitas que, à conta desse poder milagroso, se entregassem a uma vida de prazeres. Pior ainda: por via da produção industrial e posterior comercialização daquele excelente vinho, os apóstolos poderiam sucumbir à tentação de trocar a sua missão espiritual por aquele muito mais rentável negócio que, certamente, nenhum judeu digno deste nome desprezaria.

Um último reparo a este primeiro e tão desastroso milagre de Cristo: a viagem de ida e volta de Caná da Galileia foi demorada, bem como a cerimónia religiosa do casamento e o posterior banquete. Também a operação que antecedeu o milagre foi trabalhosa: foi preciso encher de água seis grandes talhas de pedra, cada uma com capacidade para uns cem litros. Só depois o seu conteúdo foi levado ao chefe de mesa, que foi quem provou o bom vinho, felicitando o noivo pela excelente zurrapa. Pergunta-se: mas Jesus não tinha nada mais importante para fazer?! Será que o filho de Deus veio ao mundo para fazer de taberneiro?! Porque não empregou esse tão precioso tempo a curar doentes, a consolar aflitos, a ressuscitar mortos, a pregar a palavra de Deus, a resolver conflitos, a alimentar pobres, a ensinar ignorantes, a perdoar pecados, ou a realizar outras obras de misericórdia?!

Mais do que o esplendor da divindade de Cristo, aos fariseus de todos os tempos exaspera a amabilíssima humanidade de Jesus! Mais do que os rigores da penitência mais exigente ou do dogma mais incompreensível, irrita-os a imensa alegria de viver de Jesus e dos cristãos! Por isso, eram tão azedas e ressabiadas as suas críticas ao nazareno, como agora são as que os novos fariseus fazem aos seus discípulos. Eram capazes de perdoar a Cristo as suas ousadias doutrinais, mas não lhe podiam desculpar aquela tão pura e intensa felicidade, que é, afinal, a grande novidade cristã!

Os fariseus de ontem e de hoje não sabem que a vida é uma festa, porque ignoram a alegria do amor de Deus, a que se acede pelo arrependimento e pelo perdão. São uns tristes, porque não sabem que Deus é amor (1Jo 4, 8), nem que o Pai do céu “não enviou o seu filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3, 17). Jesus não veio à terra para complicar a existência humana com uma infinidade de preceitos e proibições, mas para conceder aos seus fiéis a “liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (Rm 8, 21) e o dom da vida na abundância (Jo 10, 10).

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada in Observador de 26.08.2017

Felicidade e sofrimento

«Sempre fui considerada uma pessoa excessivamente exigente. Procurei exigir-me muito a mim mesmo, sobretudo desde que comecei a minha carreira profissional. Também procurei exigir àqueles que se encontravam à minha volta. Pensava que era essa a minha missão e pensava também — sem admitir outro tipo de raciocínios — que se os outros não conseguiam o mesmo êxito que eu era, simplesmente, porque não se esforçavam tanto».

São palavras de um homem de negócios numa entrevista concedida a uma rádio local. Mais ou menos assim, continuava ele o relato da sua vida: «Custava-me muito compreender que houvesse pessoas que não conseguiam trabalhar ao mesmo ritmo que eu. Tenho de reconhecer que, de algum modo, os maltratava e os desprezava por causa disso. E lá em casa — com a minha mulher e com os meus filhos — era exactamente a mesma coisa. Não admitia falhas de nenhum tipo. As coisas eram para serem feitas custasse o que custasse. O resto eram simples justificações de gente preguiçosa».

«Até que um dia fiquei doente. Uma doença inesperada e totalmente imprevista. E tudo mudou da noite para o dia. Senti-me como um pneu a esvaziar. Comecei a perceber que a vida não era tão simples como eu havia pensado até então. Dei-me conta de que os outros também sofriam. Compreendi que não reparar nessa dor era uma atitude inumana. Assim tinha vivido eu durante tantos anos».

«Antes de ficar doente, eu era exageradamente irascível: tudo me irritava e tudo me fazia ferver em pouca água. Agora, pelo contrário, tornei-me muito mais sereno e compreensivo. O sofrimento temperou-me o carácter. Fez-me compreender que há pessoas neste mundo — à nossa volta — que sofrem muito. Há pessoas que vivem com muitas dificuldades — talvez, em parte, por culpa nossa. Cada um de nós devia aprender a deter-se diante do sofrimento dos outros e fazer o possível por remediá-lo».

«Às vezes, só é possível consolar. Isso não é pouco, nem muito menos algo inútil. Aprendi que, com o simples fluir de palavras que infundem esperança, já se alivia muito o coração de quem sofre. Quantas pessoas necessitadas de compreensão e de consolo neste mundo! Quanta pobreza espiritual! — tantas vezes maior e mais envergonhada que a pobreza material».

É um relato de vida que faz pensar. Como é diferente o modo como as pessoas encaram os sofrimentos nesta vida: a umas, ele parece que as torna mais humanas; a outras, pelo contrário, faz-lhes perder a esperança e a alegria de viver. A uns, cura-os da tendência para o egoísmo que todos temos dentro. A outros, pelo contrário, enche-os de cepticismo e de amargura.

É impossível viver nesta Terra sem algum tipo de sofrimento. Por isso, podemos e devemos ser felizes apesar dessa presença constante que nos acompanhará durante todo o nosso caminho — de um modo especial nos últimos momentos. Para que isso seja possível, um cristão sabe que deve olhar para Jesus pregado na Cruz. À primeira vista — disse Bento XVI aos jovens — a Cruz parece ser a negação da vida. Na realidade, é exactamente o contrário! Ela é o «sim» de Deus ao homem. Ela é a expressão máxima do Seu Amor por nós. Ela é a única nascente da qual brota a vida eterna.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria