Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Respirar?

O Papa Francisco tem dedicado as últimas audiências a falar da oração. Vai na trigésima primeira intervenção temática e prometeu continuar. Tem abordado o tema sob muitos pontos de vista, alguns originais.


— «Meditar é uma necessidade de todos. Meditar, por assim dizer, assemelha-se a parar e a dar um respiro à vida» (28-IV-2021).


Todos concordarão que respirar é importante. O que faz pensar é o que o Papa se distancie um pouco deste objectivo tão consensual:


— «No entanto, quando é aceite no contexto cristão, a palavra meditação assume uma especificidade que não deve ser posta de parte».


Alguns destes aspectos peculiares da oração cristã são de tal maneira próprios que não são partilhados por mais nenhuma religião. Na última quarta-feira, o Papa referiu um destes elementos centrais:


— «O cristão entra na meditação pela porta de Jesus Cristo».


Quem participa na Eucaristia ou assiste a alguma cerimónia litúrgica terá reparado que todas as orações ditas pelo celebrante se dirigem a Deus Pai ou ao Espírito Santo. E todas são ditas em nome de Jesus Cristo. Isto significa que o cristão que reza toma o lugar de Cristo ao falar com Deus Pai ou com o Espírito Santo e é por essa identificação que se atreve a interpelar Deus com toda a confiança.


O primeiro passo para rezar de maneira cristã é tomar consciência daquilo que a Igreja chama a nossa «filiação divina», que não é uma dignidade comum a todas as criaturas. O Baptismo transforma-nos em Jesus Cristo e, portanto, em filhos de Deus, tal como Cristo é Filho de Deus Pai. Há uma diferença, claro, mas há sobretudo uma verdade que ultrapassa tudo o que a humanidade poderia alguma vez imaginar: pelo Baptismo, participamos realmente da divindade de Cristo. Não da divindade de Deus Pai ou do Espírito Santo: somos configurados com Cristo, levantados acima da nossa natureza de meras criaturas e tornamo-nos participantes da filiação divina de Jesus.


É este o sentido, por exemplo, deste texto de S. Pedro: «O divino poder [de Cristo] (...) alcançou-nos os preciosos e maiores bens prometidos, para que chegásseis a ser participantes da natureza divina» (II Pe 1, 3-4).


A partir da consciência da nossa filiação divina, a tarefa muda completamente de feição, porque meditar já não é introspecção, mas encontrar-se com Cristo:


— «Quando o cristão reza, não aspira à plena transparência de si, não procura o núcleo mais profundo do seu eu. (...) A oração do cristão é, antes de mais, um encontro com o Outro, com “O” maiúsculo, o encontro transcendente com Deus».


O Papa citou diversas vezes o Catecismo para insistir neste ponto. «o importante é avançar, com o Espírito Santo, no caminho único da oração: Cristo Jesus» (Catecismo da Igreja Católica, 2707).


Outro elemento específico da oração cristã consiste na intensidade do empenho, porque «é um acto total da pessoa: não reza apenas a mente, reza o homem todo, a totalidade da pessoa, assim como não reza só o sentimento. O Catecismo especifica: “A meditação põe em acção o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo”» — diz o Papa.


Afinal, há aqui um paradoxo porque, quando desistimos de nos buscar a nós próprios e procuramos Deus com todas as forças, descobrimos quem somos. Disse-o o Papa nesta quarta-feira: «Para nós cristãos, meditar é um modo de encontrar Jesus. E assim, só assim, de nos encontrarmos a nós mesmos. (...) Nele, encontramo-nos a nós mesmos».

José Maria C.S. André

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Santa Catarina de Sena, virgem, Doutora da Igreja, Padroeira da Europa,+1380

Santa Catarina nasceu em Sena, no dia 25 de Março de 1347. Na Europa, a peste negra e as guerras semeavam o pânico e a morte. A Igreja sofria por suas divisões internas e pela existência de "antipapas" (chegaram a existir três papas, simultaneamente).

Desejando seguir o caminho da perfeição, aos 15 anos Catarina ingressou na Ordem Terceira de São Domingos. Viveu um amor apaixonado e apaixonante por Deus e pelo próximo. Lutou ardorosamente pela restauração da paz política e pela harmonia entre os seus concidadãos. Contribuiu para a solução da crise religiosa provocada pelos antipapas, fazendo com que Gregório XI voltasse a Roma. Embora analfabeta, ditava as suas cartas endereçadas aos papas, aos reis e líderes, como também ao povo humilde. Foi, enfim, uma mulher empenhada social e politicamente e exerceu grande influência religiosa na Igreja de seu tempo. 

As suas atitudes não deixaram de causar perplexidade nos seus contemporâneos. Adiantou-se séculos aos padrões de sua época, quando a participação da mulher na Igreja era quase nula ou inexistente. Deixou-nos o "Diálogo sobre a Divina Providência", uma exposição clara das suas ideias teológicas e da sua mística, o que coloca Santa Catarina de Sena entre os Doutores da Igreja. 

Morreu aos 33 anos de idade, no dia 29 de Abril de 1380.

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

terça-feira, 27 de abril de 2021

S. Pedro Canísio, presbítero, doutor da Igreja, †1597

Pedro Canísio (1521-1597) é conhecido como o segundo apóstolo da Alemanha. É Doutor da Igreja. Seu nome original é Pieter Kanijs. Foi um teólogo jesuíta nascido nos Países Baixos.

Foi chamado de "Martelo dos hereges" pela clareza e eloquência com que atacava a posição dos protestantes; está entre os iniciadores da imprensa católica. Ainda na luta pela defesa da Igreja Católica aconselhava: não firam, não humilhem, mas defendam a religião com toda a alma.

São Pedro Canísio foi o segundo importante apostólo a levar a fé católica à Alemanha, sendo o primeiro S. Bonifácio. É considerado o iniciador da imprensa católica e foi o primeiro a formar parte do "exército" dos jesuítas.

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

São Pedro Canísio, modelo de pregador e testemunha cristã

O anúncio cristão, e o ministério dos padres e fiéis, “é incisivo e produz nos corações frutos de salvação, só se o pregador for testemunha pessoal de Jesus e souber ser instrumento de vida moral, através da oração incessante e do amor; isto vale para qualquer cristão que queira viver com empenho e fidelidade a sua adesão a Cristo”. Considerações de Bento XVI, na audiência geral dedicada a São Pedro Canísio (1521-1597), “doutor da Igreja”, jesuíta holandês que actuou sobretudo na Alemanha, nos tempos da Reforma protestante. 

“A vida cristã não cresce – sublinhou o Papa – se não for alimentada pela participação na liturgia e pela oração pessoal quotidiana, pelo contacto pessoal com Deus: no meio das mil actividades e dos múltiplos estímulos do dia a dia, é necessário encontrar cada dia momentos de recolhimento perante o Senhor, para O escutar e falar com Ele” – recomendou.

Bento XVI explicou as características de pregador de São Pedro Canísio, cujos catecismos formaram gerações e gerações de católicos, ao longo de séculos. “Em tempos de fortes contrastes confessionais (observou), ele evitava asperezas e a retórica da ira”, expondo a doutrina o mais possível numa linguagem bíblica e sem tons polémicos. Revelando um amplo e penetrante conhecimento da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, as obras de São Pedro Canísio, de uma austera espiritualidade, visavam propor simplesmente os conteúdos da fé católica, revitalizando a fé da Igreja.

(Bento XVI - Audiência geral de 09-II-2011)

domingo, 25 de abril de 2021

São Marcos Evangelista

Admite-se que o autor do Segundo Evangelho e o Marco - primo de Barnabé, de que se fala nos Atos e nas Epístolas - sejam uma só e a mesma pessoa. Marcos e Maria viviam em Jerusalém. A sua casa servia de local de reunião dos primeiros cristãos. Discípulo de São Paulo, esteve ao seu lado quando este ficou preso em Roma. Foi também discípulo de São Pedro: "a que (Igreja) está em Babilónia, eleita como vós, vos saúda, como também Marcos, o meu filho" (1 Pedro 5,13s.).

Santo Irineu, Tertuliano e Clemente de Alexandria atribuem decididamente a Marcos, discípulo e intérprete de São Pedro, o segundo Evangelho. E segundo os críticos modernos, o evangelho de Marcos foi escrito por volta dos anos 60/70 e dirigido aos cristãos de Roma.


(Fonte: Evangelho Quotidiano)

segunda-feira, 19 de abril de 2021

O Grande Catequista

Bento XVI a um ritmo, quase que diário e avassalador durante quase oito anos proporcionou-nos permanente matéria de leitura e reflexão, revelando uma extraordinária capacidade de catequese que procurámos absorver no limite das nossas capacidades, mas sempre certos que na sua génese estava a solidez inexpugnável da doutrina e da fé católica, ou seja, de Jesus Cristo Nosso Senhor.

A sua condição de Papa Emérito não nos isenta à disponibilidade intelectual e de tempo para ler e mastigar devidamente os riquíssimos conteúdos, encíclicas, homilias, mensagens, discursos e intervenções que se encontra disponíveis no site da Santa Sé AQUI e que são comparáveis ao melhor e mais rico legado que nos foi deixado ao longo dos séculos por Santos, Padres e Doutores da Igreja.

É óbvio, que as Sagradas Escrituras são a fonte Divina de toda a nossa Fé, mas o contributo para a sua melhor compreensão e vivência dado por inúmeros Santos e Papas, tem sido ao longo da história de grande relevância. Ora sucede, que Deus Nosso Senhor nos quis oferecer entre 2005 e 2013 um teólogo de excepção, e devemos estar-Lhe gratos por tal e não deixarmos escapar esta extraordinária circunstância.

Gostaria de terminar, agradecendo ao Senhor o extraordinário pontífice, amigo e bom pastor que nos ofereceu durante quase oito anos, pedindo-Lhe que o proteja e abençoe na atual etapa da sua vida terrena.

JPR

«Creio para compreender e compreendo para crer melhor» (Santo Agostinho)

Um “Doutor da Igreja” vivo, que privilégio!

Temos por amor humano, para além daquele que nos é próprio e devido em relação ao que foi Vigário de Cristo na Terra e sucessor de Pedro, hoje Papa emérito, uma enormíssima gratidão a Deus pelo Papa que nos ofereceu há dezasseis anos e cuja data da eleição em 2005 se celebra hoje.

Confessamo-vos a nossa enorme ignorância in illo tempore sobre Joseph Ratzinger, mas graças a bons, diríamos mesmo ótimos conselhos, começámos a “devorar” tudo o que havia publicado em português do então Cardeal Ratzinger, e sem exagero de estilo, podemos afirmar, que cada parágrafo sabia-nos a mel, alguns chegámos a lê-los quatro a cinco vezes de seguida para o saborear na sua plenitude.

Biblioteca Joseph Ratzinger - Roma
Esta paixão, que graças a Deus nos arrebatou, e sem pretender antecipar-nos aos tempos próprios da Igreja, leva-nos a considerar o atual Papa Emérito um “Doutor da Igreja” vivo que se dedicou a divulgar a Palavra e o Amor do Senhor e que hoje pede por nós em oração.

O privilégio que Deus Nosso Senhor nos concedeu a todos, de vermos e ouvirmos Bento XVI durante o seu pontificado, para os como nós só nessa altura o aprenderam a conhecer, é inquestionavelmente uma grande graça, face à descristianização, secularização e relativismo que grassa na sociedade contemporaneamente, com particular incidência na europeia.

Hoje em particular, mas na verdade diariamente, devemos ter presente esta enorme graça e juntarmo-nos à sua oração, pedindo ao Senhor que por intercessão de Nossa Senhora, Mãe de Jesus Cristo e nossa Mãe, a sua proteção na saúde agora que se encontra no Inverno da vida.

Ouvi-nos Senhor!

JPR

“A união com o Papa é união com Pedro”

Ama, venera, reza, mortifica-te – cada dia com mais amor – pelo Romano Pontífice, pedra basilar da Igreja, que prolonga entre todos os homens, ao longo dos séculos e até ao fim dos tempos, aquele trabalho de santificação e governo que Jesus confiou a Pedro. (S. Josemaria Escrivá - Forja, 134)

A suprema potestade do Romano Pontífice e a sua infalibilidade, quando fala ex cathedra, não são uma invenção humana, pois baseiam-se na explícita vontade fundacional de Cristo. Que pouco sentido tem enfrentar o governo do Papa com o dos bispos, ou reduzir a validade do Magistério pontifício ao consentimento dos fiéis! Nada mais alheio à Igreja do que o equilíbrio de poderes; não nos servem esquemas humanos, por mais atrativos ou funcionais que sejam. Ninguém na Igreja goza por si mesmo de potestade absoluta, enquanto homem; na Igreja não há outro chefe além de Cristo; e Cristo quis constituir um Vigário seu – o Romano Pontífice – para a sua Esposa peregrina nesta terra. (…)

Contribuímos para tornar mais evidente essa apostolicidade aos olhos de todos, manifestando com requintada fidelidade a união com o Papa, que é união com Pedro. O amor ao Romano Pontífice há de ser em nós uma formosa paixão, porque nele vemos a Cristo. Se tivermos intimidade com o Senhor na nossa oração, caminharemos com um olhar desanuviado que nos permitirá distinguir, mesmo nos acontecimentos que às vezes não compreendemos ou que nos causam pranto ou dor, a ação do Espírito Santo. (S. Josemaria Escrivá - Amar a Igreja; n 13)

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Haverá fé sobre a terra?...

Na última quarta-feira, 14 de Abril, o Papa retomou na audiência aos peregrinos «aquela pergunta dramática de Jesus, que nos faz sempre reflectir: “Quando vier o Filho do Homem, encontrará acaso fé sobre a terra?” (Lc 18, 8), ou só encontrará organizações, um grupo de “empresários da fé”, todos bem organizados, fazendo beneficência, muitas coisas...?».


O panorama mundial empresta realismo a esta pergunta dramática. É verdade que nunca houve tantas conversões e tantas vocações em muitas partes do mundo, mas todos os dias recebemos notícias de crises graves e, sobretudo na Europa, de cristãos que se afastam.


De um ponto de vista sociológico, o maior detonador desta desagregação é o divórcio. Um sujeito abandona a mulher; continua a ser católico mas começa a faltar à Eucaristia dominical; pergunta-se se este ou aquele ponto da doutrina fazem sentido mas não pede ajuda a quem sabe, vai acumulando dúvidas por esclarecer. Até que, como não está disposto a corrigir a situação, deixa suavemente de se sentir ligado à Igreja. Conserva uma noção vaga de Deus, mas já não é um Deus pessoal, é uma hipótese longínqua com quem é impossível falar. A seguir, talvez sem o próprio se dar conta, afunda-se numa derrocada completa e cada vez se convence mais de que não há solução. Nalguns casos, a certo ponto o desvario colectivo alavanca o vazio individual e brota um desejo agressivo e intolerante de refundar a Igreja em bases novas.


Este itinerário sociológico de quem se afasta tem uma certa sequência lógica, porque qualquer queda, sobretudo se é um resvalar gradual, tem uma dinâmica compreensível. Descer é fácil de explicar, especialmente porque a acção perseverante do Demónio empurra a debilidade humana. A mãozinha maléfica do Demónio sabe perfeitamente onde tem de actuar. O Papa Francisco tem-se referido muitas vezes às estratégias do Demónio, mas nesta quarta-feira foi particularmente explícito em relação a um ponto central:


— «Quando o Inimigo, o Maligno, quer combater a Igreja, fá-lo primeiro procurando secar as suas fontes, impedindo-a de rezar».


O Demónio até aceita a Igreja, desde que seja uma Igreja sem Deus, sem oração. Sobretudo nos países economicamente mais desenvolvidos, a sensação de superioridade intelectual alimenta o orgulho de refundar a Igreja sem importar como Cristo a instituiu. Quanto mais a pessoa está longe de Deus, tanto mais o atrevimento com que brotam estas propostas. Quanto mais descristianizado o país, tanto mais ousadas as propostas que de lá vêm.


— «Por exemplo, vemos isto em certos grupos que se põem de acordo para levar a cabo reformas eclesiais, mudanças na vida da Igreja... Têm muitas organizações, meios de comunicação que informam todos... Mas a oração não se vê. Não se reza. “Devemos mudar isto, temos de tomar esta decisão que é um pouco forte...”. (...) Apenas com debate, apenas com os meios de comunicação. Mas onde está a oração? A oração é que abre a porta ao Espírito Santo, que inspira a avançar. Sem oração, as mudanças na Igreja não são mudanças da Igreja, são mudanças de grupo. E quando o Inimigo —como já disse— quer lutar contra a Igreja, primeiro procura secar as suas fontes, impedindo-as de rezar e incitando-as a fazer este tipo de propostas».


O processo é quase sempre gradual. O Demónio prefere amolecer progressivamente a vontade e alimentar o orgulho. Perde pouco tempo a defender os vícios, infiltra-se. Prefere louvar a ignorância de quem se afasta de Deus: quanta ciência! Que inteligência fulgurante! Aqui está a luz do mundo!


Aos poucos, quase sem forçar, deixa-se a oração, essa relação forte e vital com Deus.


Diz o Papa:


— «Por algum tempo parece que tudo pode continuar como habitualmente —por inércia— mas depois de pouco tempo a Igreja compreende que se torna como que um invólucro vazio, que perdeu o seu eixo central, que já não possui a nascente do calor e do amor».


«Sem fé, tudo se desmorona; e, sem a oração, a fé extingue-se. Fé e oração, juntas. Não há outro caminho. Por isso a Igreja, que é casa e escola de comunhão, é casa e escola de fé e de oração».


José Maria C.S. André

Feliz aniversário Bento XVI, a oração mantem-nos undios


Pedir ao Senhor pelo Papa Emérito

Façamo-lo hoje, data do seu nonagésimo quarto aniversário, com redobrada intenção, mesmo aqueles entre vós que por uma razão ou outra possam não nutrir a maior das simpatias pela personalidade e pelo seu magistério,  não nos esqueçamos que foi escolhido em 2005 como sucessor de Pedro e que só pode ter sido o Divino Espírito Santo a iluminar o Conclave de então, facto que por si só é condição mais do que suficiente para que cheios de visão sobrenatural o respeitarmos profundamente.

Pessoalmente, dir-vos-ei, que não só o respeito como o amo com todo o meu entendimento e coração, pois ele guiou-nos na firmeza da fé, na alegria da esperança e na doçura da caridade neste mundo conturbado e onde o relativismo parece predominar.

JPR

Porquê tanta fragilidade?

«Porque é que actualmente parece que as crianças são mais frágeis?». Quem se faz esta pergunta é Leonard Sax no seu livro “The Collapse of Parenting”. Dedica todo um capítulo a responder a esta questão com muitos dados que procedem da sua experiência como médico e psicólogo.

Uma das causas mais importantes dessa fragilidade, diz ele, é a debilidade da relação entre pais e filhos. Se a relação que os pais têm com os seus filhos não se distingue daquela que eles têm com os seus amigos na escola, as crianças ficam frágeis.

Porquê?

Porque uma boa relação pai-filho é sólida e incondicional. Pelo contrário, as relações entre iguais, nessas idades, são frágeis por natureza.

As crianças agora necessitam do amor e aceitação incondicional dos seus pais tanto como há 30 anos. Mas, atenção: não podem obter isto nem dos seus iguais, nem do boletim de notas da escola, nem dos “likes” nas redes sociais.

Sem uma relação sólida com os pais, diz Sax, surge o culto pelo êxito, o meio mais rápido e eficaz para “impressionar” os outros e “triunfar” na vida.

Mas é precisamente este culto que põe os alicerces para que o edifício da autoestima se desmorone inexoravelmente quando aparece um fracasso. E o fracasso – não nos enganemos, nem enganemos os mais novos – chega sempre, mais tarde ou mais cedo.

E a disposição para o superar é uma demonstração de um carácter bem formado. Porque a aceitação do fracasso e o esforço por recomeçar são precisamente o contrário da fragilidade.

Quando as crianças estão seguras da aceitação incondicional dos seus pais, encontram a firmeza que os permite tentar, fracassar e recomeçar.

Pelo contrário, defende Sax, quando valorizam a opinião dos amigos por cima da estima incondicional dos pais, não são capazes de “digerir” um fracasso e, logicamente, tornam-se frágeis.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

domingo, 11 de abril de 2021

As três parábolas da misericórdia

Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja

Não é por acaso que São Lucas apresenta uma sequência de três parábolas – a da ovelha que se perdera e foi reencontrada, a da dracma que tinha desaparecido e que foi achada, a do filho pródigo que se tinha perdido e que retornou à vida –, de modo que, instigados por este triplo remédio, tratemos as nossas feridas. […] Quem são este pai, este pastor, esta mulher? Não serão Deus Pai, Cristo e a Igreja? Cristo, que tomou sobre Si os teus pecados, carrega-te no seu corpo; a Igreja procura-te; o Pai acolhe-te. Como pastor, traz-te de novo ao rebanho; como mãe, procura-te; como Pai, torna a vestir-te. Primeiro a misericórdia, seguidamente o socorro, por último a reconciliação.

Cada narrativa se ajusta a cada um de nós: o Redentor auxilia, a Igreja socorre, o Pai reconcilia. A misericórdia da obra divina é a mesma, mas a graça varia de acordo com os nossos méritos. A ovelha cansada é trazida pelo pastor, a dracma perdida é encontrada, o filho regressa pelo seu pé para junto do pai, e retorna plenamente, arrependendo-se do seu desvario. […]

Congratulemo-nos pois porque esta ovelha, que se deixou extraviar em Adão, foi erguida em Cristo. Os ombros de Cristo são os braços da cruz: aí depositei os meus pecados e sobre o generoso pescoço deste cadafalso descansei.

Domingo da Divina Misericórdia


Hoje a Igreja celebra a Festa da Divina Misericórdia, certos dela entreguemo-nos totalmente na mão de Deus e renovemos os nossos propósitos de ser bons filhos Seus e imitadores dos Santos e Santas.


No Evangelho de hoje (Jo 20, 19-31) o Senhor, na sua infinita misericórdia, através do Espírito Santo conferiu aos apóstolos o dom de perdoar os pecados, saibamos pois nós ser dignos dela e fujamos a qualquer tentação de não acreditar n'Ele, como fez Tomé, que precisou de ver para crer.

Glória e gratidão a Jesus Cristo Nosso Senhor pelos séculos dos séculos!

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Tradições de Páscoa no Alentejo


No Alentejo, a tradição de Páscoa está muito ligada à Segunda-feira de Páscoa, na qual, de uma maneira geral, os alentejanos vão para o campo desfrutar da beleza primaveril que nos inunda de cores e cheiros, abrindo o apetite para a gastronomia tradicional neste dia: o borrego e o folar.

Na Arquidiocese de Évora, em algumas localidades, essa tradição de ir para o campo ganhou contornos de Romaria, com um programa organizado em que o sagrado e o profano convivem, sendo momentos de devoção religiosa e de saudável convívio entre familiares e amigos.

Junto à fronteira, há décadas que, no fim-de-semana da Páscoa, a vila de Campo Maior fica praticamente deserta porque a maioria da população, incluindo famílias inteiras, se mudam literalmente para as margens do rio Xévora, junto do Santuário de Nossa Senhora da Enxara, a poucos quilómetros da aldeia de Ouguela e de Alburquerque.

Apesar das celebrações religiosas acontecerem apenas no Domingo de Páscoa, com a celebração de uma Eucaristia, e na segunda-feira de Páscoa, com a tradicional Procissão com a imagem de Nossa Senhora da Enxara, os campomaiorenses vão para ali acampar dias antes. Este ano não será excepção, sendo que os terrenos para os acampamentos já estão marcados há muito tempo para aquelas bandas.

No dia mais importante da Festa, Segunda-feira de Páscoa, feriado municipal, realiza-se, pelas 15h30, uma Missa seguida de procissão em honra de Nossa Senhora da Enxara, terminando as festas, como é tradicional com o sorteio de uma bezerra, um borrego, um Leitão e um Presunto.

Mais a oeste da Arquidiocese, decorre a Romaria em honra de Nossa Senhora do Carmo, que acontece na Serra de São Miguel, concelho de Sousel. Trata-se de uma romaria secular que se realiza anualmente, na segunda-feira de Páscoa. Segundo a imprensa local, as gentes da vila de Sousel, numa azáfama, preparam de véspera o cabrito assado, o ensopado de borrego, as “costas” e o pão que são feitos no forno de lenha. Na Segunda-feira de Páscoa invadem a Serra de S. Miguel, em busca de uma sobra das oliveiras que a povoam, para estenderem as suas toalhas e fazerem o piquenique. Durante a Páscoa, a imagem de Nossa Senhora do Carmo é levada para a Capela, no alto daquela Serra. E na próxima Segunda-feira, cumprindo a tradição, está marcada a Missa seguida de Procissão, para o meio-dia. Finalizadas as cerimónias religiosas, acontece o almoço e depois, o tradicional rebola. Para outros, depois do almoço vem a “sesta”, enquanto esperam pelo início da tourada, marcada para as 17h.

A Sul na Arquidiocese, nomeadamente, por Mourão, na Segunda-feira de Páscoa realizar-se-á a Romaria de S. Pedro dos Olivais. O dia começará pelas 10h com o cortejo, em volta do Jardim Municipal. Às 11h30, Missa Solene campal, na ermida de S. Pedro, seguida de Procissão em volta da ermida. Após a confraternização, pelas 15h, iniciar-se-á o Arraial, com o leilão das fogaças ofertadas.

Pelo Alentejo fora existem ainda outras festas e romarias tradicionais com maior ou menor organização, que marcam a segunda-feira de Páscoa e os dias seguintes, como acontece no concelho de Alandroal, onde na segunda-feira de Pascoela, oitavo dia depois da Páscoa, acontece a Romaria da Senhora da Boa Nova, para a qual muitos ainda guardam o borrego e o foral para degustarem por esses dias.

No vizinho concelho de Borba também se assinala a segunda-feira de Páscoa, com a Festa de Santa Bárbara, e na segunda-feira a seguir, com a Feira da Pascoela.

Em Redondo, a tradição na segunda-feira de Páscoa continua também a cumprir-se com a romaria à Ermida de Nossa Senhora da Piedade. Ao meio dia haverá Eucaristia, seguindo-se uma tarde de convívio.

Na cidade de Elvas a tradição de ir comer o borrego para o campo é também cumprida, sendo que neste caso, na segunda-feira de Páscoa, os elvenses rumam para a Ajuda, nas margens do Rio Guadiana, onde comem o borrego assado.

Pedro Miguel Conceição, jornalista de “a defesa”

Dossier A Defesa 12/04/2009 23:45 3943 Caracteres 76 Páscoa

(Fonte: site Agência Ecclesia)

NOTA: no Baixo Alentejo, Diocese de Beja, as tradições são idênticas sendo que o almoço no campo tradicionalmente é um Ensopado de Borrego com ervilhas e batatas novas.

Boa Pascoela!

domingo, 4 de abril de 2021

A NOSSA RESSURREIÇÃO

Porque não havemos de pensar na nossa ressurreição, se vamos ressuscitar? Como será? S. Paulo não estranha a pergunta; e até lhe responde: seremos tão diferentes como é a planta do seu germe (cf. 1 Cor 35-53). Tão diferentes como o homem é do seu feto. Os mesmos, mas desenvolvidos até à perfeição definitiva; e mais do que isso: glorificados. A partir daqui a imaginação já é totalmente incapaz de seguir a Revelação, sabendo nós embora, pela fé, que seremos dotados de tão altas capacidades como é superior o espírito à matéria. 
Sabemos, porém, que não mudará a nossa natureza nem a nossa identidade. Nem sequer o nome, que «é nome de eternidade»; assim o diz o Catecismo (2159). Cada homem é ele mesmo para sempre, distinto de todos os demais e com nome individual; senão, como poderia amar e ser amado?

A pergunta sobre a nossa ressurreição não é fútil; é inevitável. E ao mesmo tempo excessivamente ambiciosa. Mas desistir dela, não podemos. Quem não sonhará com o seu futuro?

E que será da Terra, dos astros, do mundo, da matéria, dos animais, das plantas? Se o corpo ressuscita, por certo a matéria não será aniquilada, como o não foram o Santíssimo Corpo de Jesus nem o Imaculado Corpo de Maria. Temos confirmação expressa na Sagrada Escritura: haverá «um novo Céu e uma nova Terra», garante-nos S. Pedro (2 Ped 3, 13). Aliás, o homem é corpo e alma. Sem corpo, a alma, que tudo recebeu - conhecimentos e paixões – através dos sentidos, se agora é feliz no Céu, é-o também pela esperança da sua futura integridade, a reunião definitiva com o seu corpo. Ou somos capazes sequer de desejar, por toda a eternidade, uma pura felicidade espiritual? Nesse caso, seríamos mesmo «nós»? Quando no Credo confessamos crer na «ressurreição da carne», queremos dizer «do homem inteiro».

O feto não seria capaz de imaginar a vida fora do ventre materno, nem desejaria sair dele, tal como nos repugna a nós a morte; e, no entanto, aspiramos intensamente à paz que o mundo não dá (cf. Jo 14, 27). Aspiramos à felicidade autêntica e sabemos perfeitamente que não a conseguiremos aqui. Quem se contenta com o seu «sucesso na vida», mente. Mente a si mesmo. Chama felicidade a miúdas satisfações e a comparações ridículas com outros menos miseráveis, e projecta-se apenas na mera lembrança que dele retiverem os próximos defuntos. Vaidade pueril. Aqui só é feliz quem sabe, e porque sabe, que o vai ser; não quem se considera tal. Todas as bem-aventuranças o dizem: é bem-aventurado aquele que o há-de ser no Reino de Deus; não aquele que renuncia ao que o coração lhe pede e só anseia ficar por algum tempo na vaga memória de pobres mortais. Quem não espera a sua ressurreição não sabe porque vive nem para que vive.

H.A.
(Celebração Litúrgica 2 / 2018)


Nota 'Spe Deus': texto do Mons. Hugo de Azevedo publicado no seu mural do Facebook e imagem selecionada por este blogue

Sermão de Páscoa de São João Crisóstomo (Arcebispo de Constantinopla)

Ícona mostra S. João Crisóstomo a ser inspirado por S. Paulo
Que todo o homem pio e amante de Deus goze desta esplendorosa e bela festa! Que todo o servo fiel entre jubiloso no gáudio de seu Senhor!  Que aquele que se afadigou a jejuar goze agora o seu estipêndio! Que o que trabalhou desde a primeira hora receba agora o salário prometido! Que o que veio após a terceira festeje agradecido! Que o que chegou após a sexta em nada hesite: não sofrerá qualquer dano! Que o que tardou até à nona se aproxime, de nada duvidando! Que o que apenas chegou à undécima não tema pela tardança! É generoso o Patrão, e acolhe o último como o primeiro! Dá descanso ao obreiro da undécima como ao que laborou desde a primeira! Apieda-se do derradeiro e ocupa-se do primeiro: a este dá, àquele perdoa! Tanto recebe a obra como aceita o julgamento! Tanto honra a ação como aprova a intenção! Entrai portanto todos na graça de nosso Senhor! Primeiros e segundos, gozai de vosso salário! Ricos e pobres, cantai juntamente em coro! Observantes ou indolentes, honrai esta jornada! Que tenhais jejuado ou não, rejubilai no dia de hoje! Está repleta a mesa, deliciai-vos todos! O vitelo é pingue, ninguém sairá com fome. Inebriai-vos todos no beberete da fé! Gozai todos da riqueza da bondade. Ninguém chore sua pobreza, pois chegou a hora de em comum reinar. Que ninguém deplore as suas quedas, pois do sepulcro jorrou perdão. Que ninguém receie a morte, pois libertou-nos a morte do Salvador! Extinguiu-a Aquele que ela abraçara! Espoliou os Infernos O que aos Infernos desceu. Tornou-se-lhe amargo Aquele de quem provou a carne. Predissera-o Isaías ao clamar: "O Inferno, disse, encheu-se de amargor, quando lá em baixo se encontrou conTigo". Encheu-se de amargor pois foi abolido; encheu-se de amargor pois foi iludido; encheu-se de amargor pois foi morto; encheu-se de amargor, pois foi abatido; encheu-se de amargor pois foi aprisionado. Tomou um corpo e coube-lhe em sorte um Deus; tomou terra e achou céu; tomou o que via e caiu no que não via. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? onde está, inferno, o teu triunfo?". Ressurgiu Cristo, e tu és precipitado; ressurgiu Cristo e caíram os demónios; ressurgiu Cristo e alegram-se os anjos; ressurgiu Cristo e reina a vida; ressurgiu Cristo e nem mais um morto nos sepulcros. Ressurgiu dos mortos Cristo, primícias dos adormecidos: a Ele a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amen

(Tradução de Luís Filipe Thomaz)

sábado, 3 de abril de 2021

Ser cristão é ser feliz. Quem não é feliz não é cristão

Como Deus repousou da Criação no sétimo dia, também descansou da Redenção no Sábado.

Que significa o repouso do Criador, se Deus não se fatiga? Há o repouso do cansaço, e há o repouso da confiança. Deus descansou no homem, confiando-lhe a Criação, como um pai descansa nos filhos quando os vê preparados para a vida, mas continua sendo pai, amparando-os sempre nas suas necessidades e dificuldades. Na Redenção, Deus também descansou no Homem, no seu Filho, o Verbo encarnado, confiando-lhe a salvação do mundo.

Descansou na sua Morte por nós, que lhe mereceu a sua Ressurreição e a nossa, para toda a eternidade.

Para nós, o Sábado Santo foi um dia de grande tristeza, mas Nosso Senhor já tinha prometido aos Apóstolos que depois se alegrariam, e que a sua alegria permaneceria para sempre, porque O haviam de ver novamente, e nunca nos deixaria órfãos, desamparados.

E assim sucedeu: após um dia de profunda pena, angústia e perplexidade, veio o Domingo, e a sua alegria foi imensa, tão grande, que nem queriam acreditar em tanta felicidade.

Ser cristão é ser feliz. Quem não é feliz não é cristão.

Mas então deixamos de ser cristãos quando estamos tristes? Depende. Depende de quê? Da esperança. A tristeza sem esperança é uma infelicidade; a felicidade está na esperança, como o Santo Padre nos recordou na última encíclica. Sem esperança, até as alegrias são penas; com esperança, até o martírio é uma alegria.

Tu és cristão porque foste baptizado, porque crês em Cristo, porque amas Cristo, porque queres seguir Cristo. É verdade. Daqui a pouco vais dizê-lo solenemente: - Sim, creio! Sim, renuncio ao pecado!

Mas crês em Cristo vivo ou em Cristo morto?

Porque há muitos cristãos que continuam a viver no Sábado, no dia da tristeza. Crêem em Cristo, amam-no, querem segui-lo, mas não crêem no Ressuscitado, que vive, e vive junto deles, que os acompanha com imenso carinho fraterno, paterno e materno; que os espera no Sacrário; que lhes dá toda a força do seu Espírito; que habita neles; que se lhes entrega todos os dias; que transforma em bem tudo o que lhes acontece, até quando fraquejam nas tentações; que gosta de cada um como filho único; que lhes fala na Sagrada Escritura, na Igreja, na oração, na consciência, em cada instante da vida; e os compreende, e perdoa quantas vezes for preciso; e os anima; e os ilumina; e os torna luz, a luz do mundo...

Há muitos cristãos que não chegaram ao Domingo, e por isso andam tristes, desanimados, sem esperança, sem alegria.

Que veio dizer Nosso Senhor a S. Josemaria? Que ser cristão é ser feliz. Que ser feliz é ser santo, e ser santo é ser feliz. «Queres ser feliz? Sê santo. Queres ser mais feliz? Sê mais santo. Queres ser muito feliz? Sê muito santo», dizia. E vice-versa, podemos acrescentar: Se queres ser santo, sê feliz. «Alegrai-vos sempre no Senhor!», exorta-nos S. Paulo. «Que a tua alegria seja a nossa fortaleza», pedimos nós, os sacerdotes, no Ofício divino.

Peçamos isso para todos os nossos irmãos: que nunca se conformem com a tristeza; que saibam ver em tudo a mão de Deus; que descubram o que há de divino e providencial em qualquer circunstância da vida, como insistia com tanta força o Fundador do Opus Dei. E nas horas de perplexidade, que Deus sabe mais, e tem direito a que confiemos n’Ele.

Peçamos que todos os cristãos passem do Sábado, descubram o Domingo, e sejam tão felizes como os Apóstolos e as santas mulheres ao descobrirem o Ressuscitado.

(Mons. Hugo de Azevedo – Homilia da Vigília Pascal de 2008 no Oratório São Josemaría em Lisboa)

Imagem: foto quadro de Rafael Sanzio (1483-1520) - reprodução oferecida aos participantes na Vigília Pascal de 11-IV-2009 no Oratório São Josemaría

Meditação de D. Javier Echevarría - Sábado Santo: Silêncio e Conversão

Hoje é dia de silêncio na Igreja: Cristo jaz no sepulcro e a Igreja medita, admirada, o que fez por nós este Senhor nosso. Guarda silêncio para aprender do Mestre, ao contemplar o Seu corpo destroçado.

Cada um de nós pode e deve unir-se ao silêncio da Igreja. E ao considerar que somos responsáveis por essa morte, esforçamo-nos para que guardem silêncio as nossas paixões, as nossas rebeldias, tudo o que nos afaste de Deus. Mas sem estarmos meramente passivos; é uma graça que Deus nos concede quando lha pedimos diante do Corpo morto do Seu Filho, quando nos empenhamos em tirar da nossa vida tudo o que nos afaste d’Ele.

O Sábado Santo não é um dia triste. O Senhor venceu o demónio e o pecado e dentro de poucas horas vencerá também a morte com a Sua gloriosa Ressurreição. Reconciliou-nos com o Pai celestial; já somos filhos de Deus! É necessário que façamos propósitos de agradecimento, que tenhamos a segurança de que superaremos todos os obstáculos, sejam do tipo que forem, se nos mantemos bem unidos a Jesus pela oração e os sacramentos.

O mundo tem fome de Deus, embora muitas vezes não o saiba. As pessoas desejam que se lhes fale desta realidade gozosa — o encontro com o Senhor — e para isso estão os cristãos. Tenhamos a valentia daqueles dois homens — Nicodemos e José de Arimateia — que durante a vida de Jesus Cristo mostravam respeitos humanos, mas que no momento definitivo se atrevem a pedir a Pilatos o corpo morto de Jesus, para lhe dar sepultura. Ou a daquelas mulheres santas que, quando Cristo é já um cadáver, compram aromas e vão embalsamá-lo, sem terem medo dos soldados que guardam o sepulcro.

À hora da debandada geral, quando toda a gente se sentiu com direito a insultar, a rir-se e a zombar de Jesus, eles vão dizer: dá-nos esse Corpo, que nos pertence. Com que cuidado o desceriam da Cruz e iriam olhando para as Suas Chagas! Peçamos perdão e digamos, com palavras de São Josemaría Escrivá: subirei com eles ao pé da Cruz, apertarei o Corpo frio, cadáver de Cristo, com o fogo do meu amor..., retirar-lhe-ei os cravos com os meus desagravos e mortificações..., envolvê-Lo-ei com o pano novo da minha vida limpa e enterrá-Lo-ei no meu peito de rocha viva, donde ninguém m’O poderá arrancar, e aí, Senhor, descansai!

Compreende-se que colocassem o corpo morto do Filho nos braços da Mãe, antes de lhe dar sepultura. Maria era a única criatura capaz de Lhe dizer que entende perfeitamente o Seu Amor pelos homens, pois não foi Ela a causa dessas dores. A Virgem Puríssima fala por nós; mas fala para nos fazer reagir, para que experimentemos a Sua dor, feita uma só coisa com a dor de Cristo.

Retiremos propósitos de conversão e de apostolado, de nos identificarmos mais com Cristo, de estar totalmente pendentes das almas. Peçamos ao Senhor que nos transmita a eficácia salvadora da Sua Paixão e Morte. Consideremos o panorama que se nos apresenta pela frente. As pessoas que nos rodeiam, esperam que os cristãos lhes descubram as maravilhas do encontro com Deus. É necessário que esta Semana Santa — e depois todos os dias — sejam para nós um salto de qualidade, pedir ao Senhor que se meta totalmente nas nossas vidas. É preciso transmitir a muitas pessoas a Vida nova que Jesus Cristo nos conseguiu com a Redenção.

Socorramo-nos de Santa Maria: Virgem da Soledade, Mãe de Deus e Mãe nossa, ajuda-nos a compreender — como escreve São Josemaría — que é preciso fazer da nossa vida a vida e a morte de Cristo. Morrer pela mortificação e penitência, para que Cristo viva em nós pelo Amor. E seguir então os passos de Cristo, com afã de corredimir todas as almas. Dar a vida pelos outros. Só assim se vive a vida de Jesus Cristo e nos fazemos uma só coisa com Ele.

(Fonte: site do Opus Dei / Portugal em http://www.opusdei.pt/art.php?p=33158)

O Alvorecer da Luz

No silêncio que envolve o Sábado Santo tocados pelo amor ilimitado de Deus, vivemos na expectativa do amanhecer do terceiro dia, a alva da vitória do Amor de Deus, o alvorecer da luz que permite aos olhos do coração ver de modo novo a vida, as dificuldades, o sofrimento.

Os nossos insucessos, as nossas desilusões, as nossas amarguras, que parecem marcar o desabar de tudo, estão iluminados pela esperança. O Pai confirma o ato de amor da Cruz, e a luz resplandecente da Ressurreição tudo envolve e transforma: da traição pode nascer a amizade; da negação, o perdão; do ódio, o amor.

(Bento XVI - Sexta-Feira Santa, de 2010 na conclusão da Via Sacra do Coliseu de Roma)

Cristo sepultado - Giuseppe Sanmartino


Sábado Santo, textos de S. Josemaría Escrivá - Jesus é descido da Cruz e entregue a sua Mãe

Chegada já a tarde, como era a parasceve, isto é, a véspera do sábado, José de Arimateia, responsável membro do Sinédrio, que também esperava o reino de Deus, foi corajosamente procurar Pilatos e pediulhe o corpo de Jesus. Pilatos admirou-se d’Ele já estar morto e, mandando chamar o centurião, preguntou-lhe se já tinha morrido. Informado pelo centurião, ordenou que o corpo fosse entregue a José. Este, depois de comprar um lençol; tirou Jesus da cruz e envolveu-O nele. Em seguida, depositou-O num sepulcro cavado na rocha e rolou uma pedra contra a porta do sepulcro (Mc 15, 42-46).

Situados agora no Calvário, quando Jesus já morreu e não se manifestou ainda a glória do seu triunfo, temos uma boa ocasião para examinar os nossos desejos de vida cristã, de santidade para reagir com um acto de fé perante as nossas debilidades e, confiando no poder de Deus, fazer o propósito de pôr amor nas coisas do nosso dia-a-dia. A experiência do pecado tem de nos conduzir à dor, a uma decisão mais madura e mais profunda de sermos fiéis, de nos identificarmos deveras com Cristo, de perseverarmos, custe o que custar, nessa missão sacerdotal que Ele encomendou a todos os seus discípulos sem excepção, que nos impele a sermos sal e luz do mundo.
Cristo que passa, 96

É a hora de recorreres à tua Mãe bendita do Céu, para que te acolha nos seus braços e te consiga do seu Filho um olhar de misericórdia. E procura depois fazer propósitos concretos: corta de uma vez, ainda que custe, esse pormenor que estorva e que é bem conhecido de Deus e de ti. A soberba, a sensualidade, a falta de sentido sobrenatural aliar-se-ão para te sussurrarem: isso? Mas se se trata de uma circunstância tonta, insignificante! Tu responde, sem dialogar mais com a tentação: entregar-me-ei também nessa exigência divina! E não te faltará razão: o amor demonstra-se especialmente em coisas pequenas. Normalmente, os sacrifícios que o Senhor nos pede, os mais árduos, são minúsculos, mas tão contínuos e valiosos como o bater do coração.
Amigos de Deus, 134

(Fonte: site de S. Josemaría Escrivá http://www.pt.josemariaescriva.info/)

sexta-feira, 2 de abril de 2021

A hora de Maria


A partir das 17h00 de Sábado Santo (fuso horário de Itália), algumas cadeias de televisão vão expor a imagem do Sudário de Turim, para acompanharmos Nossa Senhora enquanto esperava a Ressurreição de Jesus. Tradicionalmente, a Igreja dedica os sábados a Maria, em recordação desse sábado em que ela foi a única pessoa na Terra que teve fé na Ressurreição. Em face da violência da tortura e Morte de Jesus, os primeiros cristãos resistiam a pensar na Ressurreição, parecia-lhes que tudo tinha acabado. Só Maria manteve a serenidade suficiente para recordar o que Jesus tinha dito e repetido tantas vezes: que tinha de padecer muito, que tinha de morrer e que, ao terceiro dia, ressuscitaria.


O Sudário de Turim que vai ser mostrado na televisão é um lençol absolutamente único, com uma imagem extraordinária pelas características técnicas e, sobretudo, pela expressividade. No ano passado, o Papa escreveu no «Twitter»: «Este Rosto desfigurado pelas feridas comunica-nos uma grande paz. O seu olhar não busca os nossos olhos mas o nosso coração».


A imagem do Sudário é um conjunto de manchas ténues, que representa o cadáver deitado de Cristo, pela frente e por trás. Além disso, tem marcas de sangue e outras resultantes de acidentes. Ao fim de muitos séculos, esta imagem, de leitura difícil, quase imperceptível, foi revelada em 1898. Literalmente: foi «revelada» como uma película fotográfica, quando a fotografaram pela primeira vez em 1898.


Quando incide sobre uma película fotográfica, a luz escurece-a, enquanto as partes escuras se mantêm brancas ou transparentes. Isto é, o preto fica branco e o branco fica a preto. Assim, por causa desta inversão de luz, a fotografia com película exige duas etapas. Primeiro, capta-se a imagem «em negativo», isto é, a película fica com a iluminação invertida. A seguir, imprime-se o «negativo do negativo», ou seja, inverte-se o negativo, para a imagem ficar normal, com a luz a branco e a escuridão a preto. Esta imagem final chama-se o «positivo».



O curioso do Sudário de Turim é que, ao fim da primeira etapa fotográfica, que deveria ser o passo intermédio, se obteve uma imagem nítida e fácil de compreender, como se o lençol de Turim fosse uma pintura «em negativo».


Não podia ser uma pintura em negativo, porque ninguém fazia a inversão da luz antes de se inventar a química fotográfica. E, para maior surpresa, a imagem de Turim nem sequer é uma pintura. O lençol tem manchas, mas não há tinta, nem há desenho, é a própria superfície do tecido de linho que dá o tom às manchas. As manchas não impregnam os fios, nem se nota sobre eles qualquer pintura, por isso, as manchas não têm um carácter direccional, como as marcas do pincel numa pintura.


À medida que se estuda o Sudário de Turim, descobrem-se cada vez mais singularidades. Talvez por não estar pintada com tinta, a imagem não é afectada pela água, nem por reagentes químicos, nem sequer pelo calor.


O mais estranho, parece-me a mim, é que a imagem não só é um «negativo», como contém informação tridimensional: as tonalidades da cor dão a medida do relevo, de modo que se pode reconstruir a três dimensões a forma do cadáver representado no lençol. É que a imagem não é uma simples imagem visual, com zonas claras do lado da luz incidente e sombras do lado oposto: a cor é proporcional à distância do cadáver ao lençol, independentemente de estar do lado da luz ou do lado da sombra. Com um computador, fazem-se imagens deste tipo, mas como é que ela aparece num lençol com tantos séculos?


Os grãos microscópicos de pólen são fáceis de compreender. A polícia judiciária faz essas observações da roupa para determinar onde é que os sujeitos estiveram. No caso do lençol de Turim, dezenas de grãos de pólen remetem para a Terra Santa e alguns outros são de Turim ou de outros sítios onde o lençol esteve.


O Sudário de Turim impressiona por este tipo de pormenores difíceis de explicar e alguns deles impossíveis até de reproduzir com os meios técnicos actuais. A tradição garante que este lençol envolveu o Corpo morto de Cristo, «embrulhado num lençol com perfumes, à maneira dos judeus», como diz o Evangelho de S. João, e a palavra «sudário» por que é conhecido designa este tipo de lençol.



É bom continuar a investigar, mas podemos ir mais longe e, como diz o Papa no «Twitter», podemos pensar que o olhar de Jesus morto por nós na Cruz não busca os nossos olhos mas o nosso coração. O propósito da transmissão televisiva deste Sábado Santo é aprender a olhar Jesus com o olhar de fé de Maria, por isso o evento se chama a hora de Maria.

José Maria C.S. André