Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

sexta-feira, 14 de maio de 2021

17:17 há 40 anos

Quando os relógios mecânicos eram máquinas complexas, que precisavam de um maquinista para acompanhar o seu funcionamento, ao lado do relógio mecânico instalava-se um relógio de sol, para acertar a hora todos os dias. Na torre sul da sé de Lisboa ainda existe um grande relógio mecânico desses, com o seu relógio de sol ao lado. Além do salário do maquinista, indispensável para manter o relógio em funcionamento, o desengonçado mecanismo consumia uma enorme quantidade de azeite, que era a lubrificação disponível na época.


Nalguns casos —por exemplo no palácio da Pena, em Sintra—, havia um pequeno canhão ao lado do relógio de sol, para anunciar as horas ao longe, com um disparo. O pequeno canhão do palácio da Pena ainda lá está, como memória silenciosa daqueles estrondos que faziam esvoaçar os pássaros à hora certa.


Esta forma de marcar as horas aos ritmos da artilharia é coisa do passado, mas há 40 anos, as 17 horas e 17 minutos de 13 de Maio de 1981 ficaram marcadas com exactidão por quatro disparos, que ecoaram uma e outra vez na praça de S. Pedro, levantando revoadas de pássaros. É difícil assinalar o momento de forma mais inesquecível.


A cidade de Roma sufocava sob uma vaga de calor inusual, a ponto de que a audiência do Papa aos peregrinos não pôde ter lugar ao meio-dia, como habitualmente. Teve que se esperar pelo relativo fresco da tarde. Finalmente, João Paulo II saiu pelo portão da guarda, em pé no papamóvel descapotável, cumprimentando a multidão. Como muitos outros, os pais de uma bebé passam-lha para as mãos (esse bebé é hoje a senhora Sara Bartoli, com quarenta anos) e o Papa inclina-se para a receber. Há quem diga que estes movimentos inesperados do Papa, correspondendo ao entusiasmo do povo, desconcertaram Mehmet Ali Ağca. O certo é que este assassino profissional, atirador de elite, calejado no crime, falhou a pontaria de quatro disparos de uma pistola de guerra, uma Browning Hi-Power de 9 mm de calibre. Uma bala deste calibre não dá hipóteses de sobrevivência e quatro balas a curta distância deveriam eliminar qualquer dúvida.


O que aconteceu às 17:17 daquele dia ainda hoje não se percebe. As balas atravessaram o corpo do Papa de lado a lado num trajecto sinuoso, fazendo inflexões misteriosas como se quisessem respeitar os órgãos vitais. Roçaram neles, um por um, mas sem os atingir.


Rasgaram sulcos profundos de que jorrou abundantemente sangue e caíram à volta da vítima ou perto do automóvel. A quinta bala não partiu porque a Browning encravou. Uma pistola profissional com uma falha mecânica?! Segundo os jornais, a pistola custara £10,000 à época (dezenas de milhar de euros a preços de hoje).


Desconcertado, o atirador supostamente infalível, com 23 anos, no auge da sua forma física, teve uma hesitação de segundos e foi agarrado por um elemento das forças de segurança, com a ajuda de vários populares, incluindo uma freira. As reportagens dos vídeos captam os rostos imóveis da multidão, pesados, calados, de olhos fixos no infinito, como se fossem personagens de cenas diferentes, cada um a olhar na sua direcção, como se não houvesse nada para ver no espaço sem fim.


Uma das balas está hoje em Fátima, como jóia da coroa da imagem de Nossa Senhora. A temível Browning está exposta em Wadowice, na Polónia. Ambas testemunham que Deus não desiste de ter a última palavra.


No dia 27 de Dezembro de 1983, às 17h20, João Paulo II entrou na prisão de alta segurança para falar a sós com Ali Ağca. O Papa tinha-lhe perdoado desde o primeiro momento e foi talvez esse o mistério mais difícil de decifrar para Ali Ağca, pelo contraste entre a violência das balas e a delicadeza comovente do Papa. Em 1987, João Paulo II recebeu a mãe de Ali Ağca e em 1997 é o irmão de Ali Ağca que o visita no Vaticano. No ano 2000 João Paulo II intercedeu junto do Governo italiano para que o libertassem e, depois de o prenderem novamente na Turquia, para cumprir uma pena antiga, por homicídios anteriores, Ali Ağca por lá vive pacatamente. Em entrevistas que deu aos jornais, reconhece que aquela conversa íntima de 22 minutos na prisão foi absolutamente especial e não tenciona revelar nada. No seu livro «Memória e Identidade», ao referir esse encontro, o Papa só diz que não pode contar nada.


Depois de sair da prisão na Turquia, Ali Ağca já viajou pela Europa e já esteve novamente na praça de S. Pedro, sozinho, em homenagem ao Papa. Em entrevistas a jornais ocidentais disse que deixou um ramo de flores no local do atentado e que está contente por João Paulo II ter sobrevivido. Eram 17h17 de há 40 anos.

José Maria C.S. André

São Matias, testemunha da Ressurreição, escolhido por Deus

São João Crisóstomo (c.345-407), presbítero em Antioquia, depois bispo de Constantinopla, doutor da Igreja 
3.ª Homilia sobre os Atos dos Apóstolos (trad. do breviário)

«Naqueles dias, levantando-se Pedro no meio dos discípulos» (At 1,15ss.), Pedro, a quem Cristo tinha confiado o rebanho, movido pelo fervor do seu zelo e dado que era o primeiro dentro do grupo, foi o primeiro a tomar a palavra [e] «disse: Irmãos, é necessário escolher de entre [...] os homens que andaram connosco». Reparai como se empenha em que tenham sido testemunhas oculares; embora o Espírito Santo houvesse de vir depois sobre eles, dá a isso grande importância. «De entre os homens que andaram connosco, todo o tempo que o Senhor Jesus passou no meio de nós». Refere-se àqueles que viveram com Jesus e não aos que eram apenas discípulos. De facto, eram muitos os que O seguiam desde o princípio [...] «até ao dia em que nos foi levado para o alto; é necessário, pois, que um deles se torne connosco testemunha da Sua Ressurreição».

Não disse: testemunha de tudo o mais; mas só: «testemunha da Ressurreição». Na verdade, seria mais digno de fé quem pudesse testemunhar: Aquele que vimos comer e beber e que foi crucificado, foi Esse que ressuscitou. Não interessava ser testemunha do tempo anterior nem do seguinte, nem dos milagres, mas simplesmente da Ressurreição. Porque todos os outros factos eram manifestos e públicos; só a Ressurreição se tinha realizado secretamente e só eles a conheciam.