Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

domingo, 10 de janeiro de 2021

«No Qual pus todo o Meu agrado»

Homilia atribuída a Santo Hipólito de Roma (?-c. 235), presbítero e mártir 
Homilia do século IV para a Epifania, A Santa Epifania PG 10, 852

Cristo, o Criador de todas as coisas, desceu do céu como o orvalho, deu-Se a conhecer como uma fonte, expandiu-Se como um rio (Os 6, 3; Jo 4, 14; 7, 38) e foi baptizado no Jordão. [...] A fonte inalcançável, da qual brota a vida para todos os homens e que não tem fim, foi oculta por águas pobres e efémeras. Aquele que está presente em toda a parte, que de parte alguma Se encontra ausente, Aquele que é inalcançável pelos anjos e que é invisível aos homens, recebe o baptismo por Sua vontade. [...] 

«E eis que se rasgaram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. E uma voz vinda do Céu dizia: 'Este é o Meu Filho muito amado, no Qal pus todo o Meu agrado'.» O bem-amado gera amor, a luz imaterial gera «a luz inacessível» (1Tim 6, 16). «Este é o Meu Filho muito amado». [...] Na arca de Noé, a pomba manifestou o amor de Deus pelos homens (Gn 8, 11). Nesta altura, o Espírito desceu sob a mesma forma, uma forma semelhante àquela que trouxe um ramo de oliveira, e deteve-Se sobre Aquele de Quem deu testemunho. Por quê? Para que se compreendesse com certeza que se tratava efectivamente da voz do Pai [...]: «A voz do Senhor sobre as águas, o Deus da glória desencadeou o trovão, o Senhor sobre a massa das águas» (Sl 28, 3). O que diz esta voz? «Este é o Meu Filho muito amado, no Qual pus todo o Meu agrado». É Aquele a quem chamam o Filho de José, e é o Meu Filho único segundo a divindade. «Este é o Meu Filho muito amado»: tem fome e alimentou numerosas multidões, sofre e consola aqueles que sofrem; não teve onde repousar a cabeça, mas tem o universo na Sua mão, sofre e cura as dores. Dão-Lhe bofetadas, mas Ele concede a liberdade ao mundo, trespassam-Lhe o lado, mas Ele reparou o lado de Adão.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Abaixo «um-homens»!

Esta semana, Emanuel Cleaver abriu a nova legislatura do Congresso dos Estados Unidos com uma espécie de oração terminando com «a-men and a-woman». Se o ridículo matasse, o homem teria caído fulminado.


Embora este político seja pastor metodista, não sabia que «ámen» vem do hebraico «confirmo» e que, por isso, em todas as línguas, os cristãos terminam as orações com «ámen».


Como Cleaver tem dificuldades na ortografia, confundiu «amen» com «a man», que significa em inglês «um homem», e deduziu que as orações cristãs terminavam com o apelo machista: «um homem»!


A confusão ainda é mais divertida por causa da mistura do singular com o plural. Em inglês, «a-men» significa «um-homens». Se é «um», não devia ser «homens», no plural; mas isso é o de menos.


Convencido de que os cristãos de todo o mundo (incluídos os pastores protestantes, como ele), terminavam as orações com uma exclamação machista, Cleaver resolveu ser inclusivo e inventar aquele «um-“homens” e uma-mulher» («a-“men” and a-woman»).


A risada alastrou pelo mundo. O vídeo tornou-se viral. As redes sociais de língua inglesa começaram a descobrir elementos masculinos e femininos em todas as palavras, acrescentando erros ortográficos divertidos. Por exemplo, como em inglês ele e ela se dizem «he» e «she»:


– «“Amen” is indeed a Hebrew word, but we must acknowledge that “Awoman” is a Shebrew word». (É facto que «um-homens» é uma palavra «he»braica, mas temos de concordar que «uma-mulher» é uma palavra «she»braica).


Outros, adaptaram frases românticas:


– «When Amen loves Awomen!» (Quando «um-homens» ama «uma-mulheres»!).


Em inglês, os possessivos dele e dela são «his» e «her» e, forçando um bocadinho a pronúncia de «hys»:


– «I’m laughing hersterically». (Estou a rir «dela»-estericamente).


Outros protestaram em nome da ideologia do género, porque Cleaver só se lembrou dos homens e das mulheres:


– «They mustn’t say Amen and Awoman and then end there. They should continue to say Agay, Alesbian, A-lgbtq+». (Não deviam dizer apenas «um-“homens” e uma-mulher» e mais nada, deviam continuar: «um-homossexual», «uma-lésbica», um «sabe-se lá o quê»).


Quando o politicamente correcto invade tudo e a arrogância se mistura com a ignorância, o resultado é esta amostra de ridículo. Na versão benigna, faz rir; nas formas agressivas, é impertinente e chega a ser cruel.


Nos antípodas culturais de «um-“homens” e uma-mulher», a agenda da Biblioteca Apostólica Vaticana de 2021 celebra a mulher e o livro. Na introdução da agenda, o Cardeal Tolentino conta que Santo Ambrósio, Bispo de Milão no século IV, estava convencido de que a leitura do profeta Isaías tinha sido útil a Nossa Senhora como preparação para a Anunciação do Anjo e essa opinião inspirou muitos artistas a representarem Nossa Senhora com um livro nas mãos. Divulgou-se assim uma imagem de Maria culta, atarefada com a lide da casa mas não dispensando uma biblioteca em pano de fundo.


Encontramos dezenas de livros diferentes nos vários quadros da Virgem, porque ninguém sabe o que Nossa Senhora lia naquele momento, o importante é que o livro se tornou indissociável da vida espiritual.


O Cardeal explica ainda que a história da Biblioteca dos Papas está ligada ao contributo de muitas mulheres, escritoras, artistas, teólogas, protagonistas da vida da Igreja, mecenas, mulheres de ciência e de cultura... e termina com uma estatística interessante. Ámen!

José Maria C.S. André


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Distrações e perda de tempo

«Não há modo de evitarmos completamente as distrações, no entanto, somos responsáveis por aquilo que fazemos com elas». Quem o diz é Nir Eyal no último livro que publicou chamado “Indistractable”. Livro que aborda um tema tão essencial como atual: como voltar a valorizar a importância da atenção na nossa vida?

Como se explica essa repugnância que cada um de nós experimenta por manter a atenção numa atividade intelectual?

Segundo Eyal, a procura de distrações é, em geral, uma fuga a algo que custa, mais do que a procura de um bem. Fugimos sobretudo daquilo que nos incomoda. O perverso desta atitude é que essa fuga nos faz perder o tempo, o que ativa o sentimento de culpa por não ter feito aquilo que deveríamos e aumenta a dor da qual estávamos precisamente a fugir.

Quando uma distração é eficaz para nos afastar de algo que nos custa, é muito mais fácil que ela se converta numa adição. E não é preciso ler um livro como este para nos darmos conta de que o mundo atual está cheio de possíveis adições que “facilitam” a fuga daquilo que nos exige esforço.

As palavras do escritor alemão Hebbel (parafraseando uma conhecida frase dos gladiadores romanos) «o que sou saúda tristemente aquele que poderia ser» resumem poeticamente a insatisfação que se experimenta diante da perda de tempo. Porque deixamos de ver no tempo algo essencial: aquilo que nos permite chegar a ser precisamente o que estamos chamados a ser.

Já o dizia Victor Frankl: «quem se convenceu de que é insubstituível naquilo que faz e dedica a isso o seu tempo (sem se preocupar se é valorizado ou não socialmente) enche a sua vida de sentido e pode considerá-la consumada».

Por tudo isto, Eyel aconselha-nos: «Procura quem estás chamado a ser e dedica a isso a tua vida, o teu tempo. O resto será entretido, mas deixar-te-á vazio».

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

«Let us dream» (Vamos sonhar)



«Let us dream: the path to a better future» (Vamos sonhar: o caminho para um futuro melhor) é o título de um livro de entrevistas de Austen Ivereigh ao Papa Francisco, que vai estar disponível nas livrarias do mundo a partir do próximo dia 1 de Dezembro.


Austen Ivereigh é um jornalista muito conhecido na área da informação religiosa. Foi também porta-voz do Cardeal inglês Murphy-O’Connor, que promoveu com outros cardeais a eleição do Papa Francisco. Ivereigh fundou, com algumas pessoas do Opus Dei, um projecto de evangelização baseado no testemunho público da gente jovem intitulado «Catholic Voices», que teve grande eco no Reino Unido e se estendeu a uma dúzia de países. Na sequência desta iniciativa, publicou o livro «How to defend the faith without raising your voice» (Como defender a fé sem levantar a voz). Em 2014, publicou uma das biografias mais completas de Francisco, editada em português pela 20|20 Editora com o título de «Francisco, o grande reformador – os caminhos de um Papa radical».


É este mesmo autor que publica agora o resultado de várias conversas com o Papa durante o último Verão, em boa parte autobiográficas, de que antecipamos alguns apontamentos.


Uma das ideias-força refere-se à importância de evangelizar o mundo e de tomar a sério o cuidado dos outros. Francisco expressa-se muito por «slogans» e um deles é «ninguém se salva sozinho». Repete-o a propósito de muitos temas, por exemplo, como lição a tirar da Covid: um país que queira manter-se livre da infecção, enquanto o vírus se espalha no resto do mundo, acaba por ser contagiado. O mesmo se diga de quem se preocupa com os efeitos da poluição só no seu território, ou queira ser próspero economicamente sem se importar com os outros.


A preocupação com os outros reflecte-se especialmente no anúncio da boa-nova do Evangelho, que o Papa considera dever e missão de toda a Igreja.



O livro relata muito sofrimento pessoal na vida do Papa, e mesmo ocasiões de perigo iminente de morte. Estas experiências difíceis levaram-no a Deus e ensinaram-lhe «que quem sofre muito, mas se deixa mudar, sai melhorado; se, pelo contrário a pessoa levanta barricadas, sai pior». A chave é sempre encontrar Deus.


A urgência de evangelizar traduz-se também noutro «slogan»: «chegou a hora da verdade». A hora de abandonar os falsos ídolos, a mentalidade tecnocrática que promete a felicidade pela via do consumismo, o ídolo do egoísmo que desrespeita os outros.


Outro chavão parecido, que remonta a João Paulo II, é o de «ecologia integral»: encontrar Deus na obra da criação, respeitá-la como dom de Deus à humanidade, «amar cada ser humano, criado por Deus, que nos ama a todos». O adjectivo «integral» refere-se a que não se trata de nos prendermos a coisas, mas a pessoas. «Quem aceita o aborto, a eutanásia, a pena de morte, tem dificuldade em se preocupar sinceramente com a poluição dos rios e a destruição das florestas. E vice-versa». O Papa insiste que verdadeira ecologia é uma atitude coerente, «integral». É também esse o sentido da «hora da verdade»: «é hora de sermos coerentes, é preciso desmascarar a moralidade selectiva das ideologias e assumir em plenitude a consequência de sermos filhos de Deus».


Outra vertente do «ninguém se salva sozinho» é o dever de se opor o mais possível ao aborto e aos outros atentados contra a vida humana. Diz Francisco: Deus «pede-nos uma cultura do serviço, não uma cultura do descarte». Por exemplo, «não nos podemos calar em relação aos mais de 30 ou 40 milhões de vidas não nascidas que são descartadas por ano por meio do aborto».


O livro recolhe muitas histórias pessoais do Papa, que o amadureceram e nos deixam a pensar. Por exemplo, o contacto com os «cartoneros» de Buenos Aires, que percorrem as ruas de noite à procura de papel e de outros produtos que possam reciclar. Uma noite, viu uma carroça de cavalos e, quando se aproximou, percebeu que, em vez de um cavalo, era puxada por duas crianças de menos de 12 anos. Este mundo do trabalho mal recompensado, carregado de sofrimento e desprezado por certas pessoas bem instaladas, ensinou-lhe muitas coisas. Para Francisco, «os “cartoneros” são o paradigma de um movimento verdadeiramente popular, de uma gente que se organiza na periferia da sociedade para sobreviver e defender a dignidade. Quando os “descartados” não se associam atrás de uma ideologia ou para conquistarem poder, mas para terem acesso às três realidades que caracterizam uma vida digna –terra, casa, trabalho– podemos dizer que são um sinal, uma promessa, uma profecia».

José Maria C.S. André

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Acabar bem as tarefas

A santidade compõe-se de heroísmos. Por isso, no trabalho pede-se-nos o heroísmo de rematar bem as tarefas que nos cabem, dia após dia, embora se repitam as mesmas ocupações. Se não, não queremos ser santos! (Sulco, 529)

Perguntaste-me o que podes oferecer ao Senhor. Não necessito de pensar na resposta: as mesmas coisas de sempre, mas mais bem acabadas, com um remate de amor, que te leve a pensar mais n'Ele e menos em ti. (Sulco, 495)

Ao retomar as tuas ocupações normais, escapou-te uma espécie de grito de protesto: sempre a mesma coisa!

E eu disse-te: – Sim, sempre a mesma coisa. Mas essa actividade vulgar, igual à dos teus companheiros de profissão, há-de ser para ti uma oração contínua, com as mesmas palavras íntimas, mas cada dia com música diferente.

É missão muito nossa transformar a prosa desta vida em decassílabos, em poesia heróica. (Sulco, 500)

Coloca na tua mesa de trabalho, no teu quarto, na tua carteira... uma imagem de Nossa Senhora, e dirige-Lhe o olhar ao começar as tuas tarefas, enquanto as realizas, e ao terminá-las. Ela te alcançará – eu to garanto – a força necessária para fazeres da tua ocupação um diálogo amoroso com Deus. (Sulco, 531)

São Josemaría Escrivá