Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

domingo, 21 de junho de 2015

«Qualquer coisa de grande, de imaterial»

Mais de 30 esculturas de Canto da Maia podem ser admiradas até 31 de Dezembro de 2015 no Museu Carlos Machado, de Ponta Delgada. Ernesto Canto da Maia foi um dos nossos mais originais escultores de meados do século XX, o que diz muito, porque nessa época Portugal teve várias figuras de nível verdadeiramente mundial.

Na minha opinião, o período artístico mais fecundo de Canto da Maia foram os seus longos anos de Paris, mas não me esqueço de que ele nasceu e morreu nos Açores, além de que é evidente que ele colheu inspirações na cultura açoriana. O Museu Carlos Machado está de parabéns por hospedar, até finais de Dezembro, esta exposição.

Para quem acompanha as preocupações pastorais do Papa Francisco, o legado artístico de Canto da Maia cobra uma oportunidade singular, porque ele soube esculpir, de forma magistral, o amor na família. Não vou reduzir a riqueza multifacetada do seu trabalho a uma só perspectiva, mas qualquer admirador reconhece que ele foi particularmente brilhante e original a tratar este tema. É só visitar a exposição, salta à vista...

A obra de Canto da Maia inclui painéis de grande escala, figuras de heróis, estátuas comemorativas, que se podem admirar em várias cidades do país, e um conjunto singular de peças mais pequenas. As grandes esculturas foram geralmente feitas por encomenda, mas o melhor que ele deixou para a posteridade é o tal conjunto de peças não monumentais, que ninguém lhe pediu, mas ele sentiu necessidade de realizar. O mistério do amor conjugal e o vínculo familiar foram a inspiração central destas esculturas. Pegando no tema sob vários ângulos, ele enfrentou o desafio de dizer, com a força da imagem, o que há de mais espiritual e subtil na vida humana.

Canto da Maia tinha a consciência de que há mistérios tão sublimes que não cabem em palavras. Em 1913, ele escrevia aos pais que «a escultura devia realizar qualquer coisa de grande, de imaterial, na via para atingir a intensa verdade do infinito».
Esta espécie de milagre que lhe inspirou a vida, cumpriu-se. Modelada pela sua arte, a terracota foi capaz de exprimir qualquer coisa de grande, de imaterial. Transfigurou-se. Até atingir uma eloquência sublime. Contempla-se cada uma daquelas peças e percebe-se. Tentamos explicar e não somos capazes.

Repare-se em peças como «Adão e Eva» ou «Hino do Amor», «Bendito seja o Fruto do Teu Ventre», «Baiser», ou a «Virgem com Menino», ou qualquer das outras, sobretudo do período de Paris. Por exemplo, a primeira, «Adão e Eva» ou «Hino do Amor», que tem várias versões em Ponta Delgada e uma no Museu de Arte Contemporânea em Lisboa: um homem e uma mulher estão frente a frente, nus. A composição sugere simetria, igual dignidade e, ao mesmo tempo, uma diferença patente, sem estereótipo. A distinção joga-se em curvas imperceptíveis, em proporções levemente diferentes. É evidente quem é o homem e quem é a mulher. Assim como é evidente que a harmonia da conjunção só é possível porque a simetria acontece num plano de igualdade em que os papéis são diferentes. As esculturas encaixam-se idealmente, mas não se tocam. Há um gesto de respeito, de pudor, que exclui a mera exuberância da carne. A forma estilizada dos dois corpos sugere que não se expõe tudo, mas também não se esconde. A carne está presente, mas elevada num amor pausado, cheio de cerimónia, que sabe apreciar e honrar o outro. Os olhos cerrados de ambos parece que vêem (como é que o escultor conseguiu esta proeza?). Os dois admiram-se, para além até dos corpos, de olhos fechados a fitarem um horizonte que nós não vemos, mas eles sim. A boca parece que vai abrir-se, mas é como se os lábios não chegassem a dizer nada, como quem adora em silêncio, ou como quem reza.

Há oferta e acolhimento naquelas figuras, no entanto, a iniciativa generosa do homem é diferente da dádiva da mulher. Complementam-se, oferecem-se, não se copiam. Não nos passa pela cabeça separar o grupo escultórico em duas partes, apesar de as duas esculturas serem, de facto, peças totalmente soltas. Nem nos imaginamos a rodar as figuras, de modo que deixassem de estar uma diante da outra, frente a frente. À medida que a atenção se prende aos pormenores, começamos a perceber que, para além de uma tonalidade idêntica e de serem constituídos por um mesmo material, não há verdadeiramente duplicação entre o homem e a mulher. Cada figura requer a outra e a simetria consiste nessa correspondência, mais do que na exactidão da forma.

É igualmente interessante apreciar o espaço que se cria entre os corpos: os dois braços do homem e o braço direito da mulher definem um recinto protegido. O movimento de cada um dirige-se primariamente ao outro, mas esse mesmo gesto de amor (espiritual, à distância) cria o lugar em que a mulher coloca, com a outra mão, o fruto simbólico do amor. Por isso o escultor chamou à composição «Hino do Amor».

Mas também chamou à escultura «Adão e Eva», sugerindo a responsabilidade do ser humano. Quando não se vigia, mesmo no Paraíso ideal, o mal pode infiltrar-se e ferir o amor.

Não tenho culpa. Estas esculturas não são para descrever. Quem quiser ver Canto da Maia e não puder ir proximamente a Ponta Delgada, pode ir à Gulbenkian, ou ao Museu Soares dos Reis no Porto, ou ao Museu de Arte Contemporânea em Lisboa. Mas o melhor é mesmo fazer uma viagem aos Açores.
José Maria C.S. André
«Correio dos Açores»,  «Verdadeiro Olhar»,  «ABC Portuguese Canadian Newspaper»,  «Spe Deus»
21-VI-2015

Bom Domingo do Senhor!

Nunca hesitemos em recorrer à ajuda do Senhor como fizeram os apóstolos conforme nos narra o Evangelho de hoje (Mc 4, 35-41) mesmo que tal seja sinónimo de fraqueza, porque Ele entende-nos e está sempre pronta a ajudar-nos.


Louvor e glória a vós Jesus Cristo Rei e Senhor de toda a humanidade!

«Porque sois tão medrosos?»

Santa Faustina Kowalska (1905-1938), religiosa
Diário (Fátima, 2003), 1322


Vagueia, da minha vida, a barca,
Entre as sombras da noite e escuridão
E de terra não vejo marca,
Encontro-me num mar de imensidão.

A menor procela me pode afundar,
Mergulhando meu barco no turbilhão;
Se, ó Deus, por mim não estivésseis a velar,
A cada instante da vida, a cada ocasião.

Entre o estrondo da sondas, ululante
Navego tranquila e como quem confia,
E olho, infantil para o mais distante,
Porque vós, ó Jesus, sois o meu Guia.

À minha volta o terror do mar e o pavor
Mais que horror da minh’alma, a serenidade.
Porque quem convosco está não perecerá, Senhor,
Disso me assegura a divina caridade.

Cercam-me perigos, muitos em voragem,
Mas não temo, olho para o céu estrelado
E navego com alegria e coragem,
Como convém a um coração purificado.

Se a barca da minha vida vai em serenidade,
É, acima de tudo, por uma razão:
Por serdes vós, ó Deus, o meu guardião.
Eis meu testemunho de inteira humildade.

sábado, 20 de junho de 2015

LAUDATO SI'

«Desencadeou-se, então, um grande turbilhão de vento, e as ondas arrojavam-se contra o barco»

Santo Agostinho (354-430), Bispo de Hipona (África do Norte) e Doutor da Igreja
Discursos sobre os salmos, Salmo 25, n.° 2

Também nós navegamos num lago onde não falta vento nem tempestades; as tentações quotidianas deste mundo quase submergem a nossa barca. Donde vem tudo isso, senão do facto de Jesus estar a dormir? Se Jesus não estivesse adormecido dentro de ti, não sofrerias tais tempestades, mas fruiriras de uma grande tranquilidade interior, porque Jesus velaria contigo.

Que quer isto dizer: «Jesus está adormecido»? Significa que a tua fé em Jesus está caída no sono. As tempestades do lago levantam-se: vês os maus a prosperar e os bons sofrer ; é uma tentação, um entrechocar de ondas. E, na tua alma, dizes: «Ó meu Deus, é isto a Tua justiça, prosperarem os maus e ficarem os bons abandonados ao sofrimento?» Sim, dizes tu Deus: «É esta a Tua justiça?» E Deus responde: «É isso a tua fé? O que te prometi de facto? Fizeste-te cristão para singrares neste mundo? Atormentas-te com o destino dos maus, aqui, quando não conheces o seu destino no outro mundo?»

Qual o motivo de falares assim e de seres sacudido pelas ondas do lago e pela tempestade? É porque em ti Jesus dorme; quero com isto dizer que a tua fé em Jesus adormeceu no teu coração. Que farás para seres libertado? Acorda Jesus e diz-Lhe: «Mestre, estamos perdidos». As incertezas da travessia do lago atribulam-nos; estamos perdidos. Mas Ele depertará, quer dizer, a tua fé voltará; e, com a ajuda de Jesus, refletirás no teu coração e notarás que os bens concedidos hoje aos maus não durarão. São bens que se lhes escaparão durante a vida ou que terão de abandonar no momento da morte. A ti, pelo contrário, o que te for prometido ficar-te-á para a eternidade [...]. Vira pois as costas àquilo que cai em ruína, e volta o teu rosto para o que permanece perene. Quando Cristo acordar, a tempestade já não te sacudirá o coração, as ondas não afundarão a tua barca, porque o vento e as ondas ficarão sob o comando da tua fé, e então o perigo desaparecerá.