Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

O preço da santidade


No dia 21 de Janeiro, com o decreto de reconhecimento das virtudes heróicas, o Papa Francisco deu um passo decisivo para a canonização do Prof. Jérôme Lejeune, o mais importante geneticista do século XX.


O elemento essencial de um processo de canonização é este reconhecimento de que a pessoa é santa, no sentido mais forte da expressão. Para o averiguar, equipas de especialistas da diocese e da Santa Sé levam a cabo uma investigação histórica muito completa. Se a pessoa tem grandes qualidades, mas não se distinguiu por uma santidade «heróica», como lhe chama a Santa Sé, o processo termina logo. Se a investigação evidencia uma dedicação verdadeiramente extraordinária, a Deus e aos outros, o Papa, apoiado no parecer de várias equipas de consultores, manda publicar o decreto das virtudes heróicas e o processo de canonização segue para a fase final.


Embora Jérôme Lejeune tenha sido um dos cientistas mais brilhantes do século XX e o mais destacado no campo da genética médica, esse aspecto não foi directamente tido em conta na análise das suas virtudes. Por exemplo, a sua inteligência extraordinária não o ajudou e teria sido um obstáculo para concluir positivamente o processo se ele tivesse sido preguiçoso e não a tivesse feito render devidamente. Igualmente, essa capacidade intelectual seria um obstáculo se o tivesse levado ao orgulho.


O processo histórico que analisou as virtudes heróicas de Jérôme Lejeune também não se apoia no facto de ele ter sido duramente perseguido e prejudicado na sua carreira profissional pelos interesses ligados ao aborto. O facto de alguém ser vítima de grandes injustiças não implica santidade e pode até deixar nela algum rancor. Neste caso, ficou demonstrado que os atropelos de que este cientista extraordinário foi vítima não o transformaram numa pessoa amarga ou ressentida.


Depois dos mártires do nazismo e do comunismo, a indústria do aborto foi talvez a maior causa de injustiças e de obstáculos ao progresso da ciência em todo o século XX. Também em Portugal, os abortistas fanáticos conseguiram expulsar dos hospitais do Estado vários médicos que se recusaram a colaborar com o aborto e, noutros países, cientistas de grande categoria foram igualmente perseguidos.


Causar a morte deveria repugnar, por isso muitas pessoas pensam que há qualquer coisa de demoníaco nesta atracção pelo aborto, pela tortura e, mais recentemente, pela eutanásia. Independentemente do papel que o demónio possa ter nesta atracção depravada, não podemos esquecer que o aborto junta o interesse económico dos capitalistas sem escrúpulos com a cultura do sexo promovida pelas correntes políticas decadentes: o resultado é a catástrofe ética a que assistimos nalgumas sociedades ocidentais.



O Papa escolheu o dia 21 de Janeiro para ordenar a publicação do decreto das virtudes heróicas do Prof. Jérôme Lejeune por ser o aniversário da descoberta do mistério da Trissomia 21 (também conhecida como síndrome de Down, ou mongolismo), um dos mais extraordinários êxitos científicos de Lejeune.

Num primeiro momento, as descobertas científicas do Prof. Lejeune geraram entusiasmo por todo o mundo mas, quando se soube que ele rejeitava a morte de crianças e de adultos, o «lobby» abortista entrou em acção. Perseguido pelos Governos de direita e por interesses capitalistas corruptos, ameaçado de morte pelos revolucionários que pretendiam generalizar o aborto, Jérôme Lejeune não cedeu.


No seu caso, a santidade teve um preço muito elevado, mas Lejeune nunca cedeu.


Por contraste, a sua vida deixou um fruto imenso. Tratou milhares de doentes, chegados à sua consulta vindos de todo o mundo. Ficaram para a posteridade as suas descobertas científicas notáveis. Deixou uma inspiração forte a todos aqueles que têm de defrontar os interesses obscuros da cultura da morte. E, melhor que tudo isso (é essa a opinião do Papa Francisco) Lejeune reza intensamente por todos nós junto de Deus.

José Maria C.S. André

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

S. Tomás de Aquino (1225-1274) – Dominicano e grande figura da teologia

Conta-se que, quando criança e com apenas cinco anos, Tomás, ao ouvir os monges cantando louvores a Deus, cheio de admiração perguntou: "Quem é Deus?".

A vida de santidade de Santo Tomás foi caracterizada pelo esforço em responder, inspiradamente para si, para os gentios e a todos sobre os Mistérios de Deus. Nasceu em 1225 duma família nobre, a qual lhe proporcionou óptima formação, porém visando a honra e a riqueza do inteligente jovem, e não a Ordem Dominicana, que pobre e mendicante atraía o coração de Aquino.

Perante a oposição familiar, principalmente da mãe condessa, Tomás chegou a viajar às escondidas para Roma com dezanove anos, para um mosteiro dominicano, porém, ao ser enviado para Paris, foi preso pelos irmãos servidores do Império. Levado ao lar paterno ficou, castigado pela mãe, por um tempo detido, tudo isto com a finalidade de fazê-lo desistir da vocação, mas nada adiantou.

Livre e obediente à voz do Senhor, prosseguiu nos estudos sendo discípulo do mestre Alberto Magno. A vida de Santo Tomás de Aquino foi tomada por uma forte espiritualidade Eucarística, na arte de pesquisar, elaborar, aprender e ensinar pela Filosofia e Teologia os Mistérios do Amor de Deus.

Pregador oficial, professor e consultor da Ordem, Santo Tomás escreveu, dentre várias obras, a Suma Teológica e a Suma contra os gentios. Chamado Doutor Angélico, Tomás faleceu em 1274, deixando à Igreja o testemunho e, o que muitos consideram, a síntese do pensamento católico.

Frei Tomás: o "boi mudo"

S. Tomás de Aquino
Para evitar atrair a estima pública e os louvores que recebera em Nápoles por seu saber Tomás, fechou-se num mutismo mal interpretado pelos seus condiscípulos. Ao que se acresce, "um grande corpo, lento e pesado, e uma placidez um pouco bovina servem-lhe de espesso envoltório para uma alma benigna e generosa, mas retraída; ele é tímido para além da humildade, e distraído para além da  contemplação" (G.K.Chesterton, Saint Thomas d'Aquin, versão francesa de Maximilien Vox, Librairie Plon, Paris, p. 20). Isso tudo leva a que o chamem de "boi mudo" ou "grande boi siciliano".

Sucedeu um dia que um condiscípulo, tomando a concentração de Tomás como sinal de que não entendera o que dissera o mestre, começou caridosamente a lhe explicar a matéria. Mas em determinado momento embaralha-se todo e não consegue ir adiante. Calmamente o "boi mudo" começou então a desenvolver a tese obscura, com muito mais clareza do que o fizera o próprio mestre. Os papéis então inverteram-se, e o condiscípulo suplicou a Tomás que sempre o ajudasse em suas dúvidas. Daí para frente não foi mais possível esconder aquele talento superior e fabulosa memória.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

'Gens' Cornelia


Desde há muitos séculos, a Igreja continua a celebrar no dia 26 de Janeiro (próxima terça-feira) a memória de uma mulher que morreu nessa data em Belém no ano 404. Chamava-se Paula, nascida em Roma 57 anos antes (5 de Maio de 347), da estirpe dos Cornelia, uma família da mais alta nobreza romana, que deu ao Império romano mais homens de Estado que qualquer outra na história de Roma. Com 16 anos, Paula casou-se com Toxotius, um senador ilustre, com quem teve cinco filhos: quatro filhas (Blesila, Paulina, Eustóquia, Rufina) e um filho, Toxotius, com o mesmo nome do pai.


Paula e o marido possuíam uma cultura invulgar. Ele descendia de gerações de jurisconsultos célebres e ela, no meio do luxo em que foi educada, teve oportunidade de estudar. Sabemos da história com algum pormenor porque S. Jerónimo, que a conheceu bem, escreveu a sua biografia («Epitaphium sanctae Paulae»).


O palácio onde viviam, no centro de Roma, situava-se onde existem hoje a igreja e os edifícios de San Girolamo della Carità. No antigo palácio se hospedou S. Jerónimo quando esteve em Roma e, na construção actual, viveu S. Filipe de Neri no século XVI, funcionaram durante vários séculos uma obra assistencial e um importante centro cultural (célebre sobretudo no âmbito da música) e encontram-se hoje a igreja de S. Jerónimo da Caridade e a biblioteca central da Universidade Pontifícia da Santa Cruz, confiadas ao Opus Dei.


No seu enorme palácio, por onde passava meia Roma, Paula conheceu alguns cristãos e ainda mais nas suas viagens, refastelada num trono carregado em ombros por uma comitiva de escravos. Em particular, conheceu Marcela, também de ascendência nobre, uma mulher de qualidades extraordinárias, em cuja casa se reuniam muitas senhoras, em obras de assistência, de estudo e de oração. Paula, cada vez mais amiga de Marcela e de todo o grupo, decide converter-se. Quando o marido morre, tinha Paula 32 anos, muda-se praticamente para o palácio de Marcela, onde o grupo vivia com grande austeridade, que surpreendia a cidade de Roma. Que umas nobres romanas fossem viver naquelas condições causou furor e escândalo violento.



Foi Marcela quem apresentou Paula a S. Jerónimo, chegado a Roma em 382, com os bispos de Salamina e de Antioquia, chamado pelo Papa S. Dâmaso, para rever a tradução latina da Bíblia, participar num concílio e o ajudar nalgumas tarefas. Paula compreendeu o alcance do trabalho de revisão das traduções e foi essa a razão de S. Jerónimo e os dois companheiros se terem hospedado em casa de Paula nos três anos que viveram em Roma.


Em 385, um mês depois de S. Jerónimo regressar à Terra Santa, Paula parte com a filha Eustóquia para seguirem lá uma vida monástica austera. Em Belém, fundam dois mosteiros, um de homens e outro de mulheres, que deixaram uma grande marca espiritual e cultural e foram centros de acolhimento de gente necessitada.


O convento foi completamente destruído pelas hordas de assaltantes que aterrorizavam a Terra Santa, tiveram de fugir, mas voltaram e recomeçaram.


Paula e a filha, além de dominarem o grego e o latim, estudaram hebraico a fundo para colaborarem com S. Jerónimo na tradução e no comentário teológico da Bíblia. Trabalhavam também na execução de cópias manuscritas dos textos, que eram enviadas de Belém para todo o mundo. Ao mesmo tempo, tiveram êxito numa tarefa difícil: embora santo, o grande Jerónimo era um pessimista inveterado, de trato muito azedo com todos, e o conselho delas foi providencial para lhe corrigir o mau génio.



No mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, não podia faltar uma referência a Santa Paula. A pintura é de André Reinoso, século XVII. Em primeiro plano, o túmulo de Luís de Camões, o mais conhecido poeta português.


A amiga Marcela continuou em Roma, trocando cartas com Paula, que lhe contava notícias dos conventos de Belém e não desistia de a tentar convencer a ir ter com elas à Terra Santa.


A filha Blesila casou-se com um nobre, enviuvou passados 7 meses e levou uma vida desleixada até que, pela oração da mãe, se converteu e se juntou ao grupo de cristãs em casa de Marcela. Paulina casou-se com Pamáquio, um senador da estirpe dos Camilli, modelo de patrício cristão. Eustóquia acompanhou a mãe, como se disse, e sucedeu-lhe como abadessa do convento feminino. Rufina morreu de parto, muito nova. O filho Toxotius também se converteu e uma das suas filhas juntou-se ao convento de Belém e acompanhou S. Jerónimo no leito de morte.


Quando Paula morreu, no tal dia 26 de Janeiro de 404, colocaram o corpo na basílica da Natividade, em Belém. Participou no funeral todo o episcopado da Palestina, juntamente com os monges e as monjas dos conventos, muitos cristãos e uma multidão imensa de pobres; contam os relatos que a afluência foi impressionante. Anos depois, a filha Eustóquia foi sepultada ao lado da mãe e, ao lado delas, sepultaram S. Jerónimo, o antigo sábio irrascível mudado em sábio simpático.


A Igreja canonizou Marcela, Paula, Eustóquia, Blesila e Jerónimo. Tão diferentes, tão amigos.

José Maria C.S. André

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Tradição

Deus «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tim 2, 4), quer dizer, de Cristo Jesus. Por isso, é preciso que Cristo seja anunciado a todos os povos e a todos os homens, e que assim a Revelação chegue aos confins do mundo. [...] «Cristo Senhor, em quem toda a revelação do Deus altíssimo se consuma, tendo cumprido e promulgado pessoalmente o Evangelho antes prometido pelos profetas, mandou aos Apóstolos que o pregassem a todos, como fonte de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes, comunicando-lhes assim os dons divinos» (Dei Verbum, 7).

A transmissão do Evangelho, segundo a ordem do Senhor, fez-se de duas maneiras: oralmente, «pelos Apóstolos, que, na sua pregação oral, nos exemplos e nas instituições, transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios, do trato e das obras de Cristo, e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo» (ibidem); por escrito, «por aqueles apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação» (ibidem).

«Para que o Evangelho fosse perenemente conservado íntegro e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram os bispos como seus sucessores, "entregando-lhes o seu próprio ofício de magistério"» (ibidem). Com efeito, «a pregação apostólica, que se exprime de modo especial nos livros inspirados, devia conservar-se, por uma sucessão ininterrupta, até à consumação dos tempos» (Dei Verbum, 8).

Esta transmissão viva, realizada no Espírito Santo, denomina-se Tradição, enquanto distinta da Sagrada Escritura, embora estreitamente a ela ligada. Pela Tradição, «a Igreja, na sua doutrina, na sua vida e no seu culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo aquilo em que acredita» (ibidem). «Afirmações dos santos Padres testemunham a presença vivificadora desta Tradição, cujas riquezas entram na prática e na vida da Igreja crente e orante» (ibidem). Assim, a comunicação que o Pai fez de Si próprio, pelo seu Verbo, no Espírito Santo, continua presente e activa na Igreja.

Catecismo da Igreja Católica §§ 74-79