Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Será que Deus realmente existe?

Separação da terra das águas, Michelangelo, Capela Sistina, Vaticano
Recentemente, apareceu num jornal do nosso país um artigo que era um ensaio filosófico intitulado “Será que Deus existe?”. O ensaio defendia a tese de que Deus não podia existir. 


Sem querer entrar em polémica e respeitando o modo de ver o assunto por parte da autora do ensaio, gostaria de lançar algumas ideias para refletirmos sobre este tema de grande importância na nossa vida. 


Não me proponho dar argumentos filosóficos. Proponho que pensemos sobre esta pergunta e em como dialogar sobre ela com pessoas amigas. Também com aquelas que se dizem ateias ou agnósticas. 


O tema não admite argumentos simplórios. A fé é suficientemente obscura para que a nossa decisão de acreditar seja completamente livre, e é suficientemente clara para que essa decisão seja profundamente razoável. 


Esse claro-escuro presente nesta pergunta faz com que as respostas a este tema não sejam similares a uma demonstração matemática. 


Todos necessitamos reflectir sobre Deus para encontrar um sentido para a nossa vida. A pergunta pela existência de Deus é a mais radical que podemos fazer e aquela que terá maior influência no nosso modo de actuar nesta existência terrena, que todos sabemos ser finita. 


Porque esta pergunta está intimamente relacionada com os grandes enigmas que encontramos na vida. De onde venho? Para onde vou? Porque existe a morte? Porque existe o mal? Qual o caminho para encontrar a felicidade? Que há para além da morte? 


Nenhuma destas perguntas possui uma resposta científica, porque não são perguntas científicas. São as mesmas perguntas de há muitos anos para cá. Desde que o ser humano teve tempo para reflectir. Já Aristóteles afirmava há 2300 anos: “A religião é uma constante na história dos povos porque pertence à própria essência do homem”. 


Mas, podemos dizer que existem “caminhos” de acesso ao conhecimento de Deus (independentes da fé na Revelação judaico-cristã) que nos mostram que acreditar, sem ser evidente, é algo profundamente razoável? 


Sim, existem. E têm como ponto de partida a criação: o mundo material que nos rodeia e o mundo interior que “ferve” dentro de cada um de nós. 


De um modo telegráfico podemos dizer que a partir do movimento e do devir, da contingência, da ordem e da beleza do mundo material, podemos chegar ao conhecimento indireto de um Ser Supremo que é origem e fim do Universo. 


Também a partir da nossa abertura interior à verdade e à beleza, com o sentido do bem moral que todos possuímos, com a liberdade e a voz da nossa consciência, com as ânsias que temos de infinito e de felicidade, detectamos sinais da existência dessa alma espiritual, gérmen de eternidade, que trazemos connosco e que, por muitos motivos, é irredutível à matéria. 



Tanto o mundo que nos rodeia como o nosso mundo interior dão testemunho de que não temos em nós mesmos o primeiro princípio nem o fim último, mas participamos do Ser-em-si que não possui princípio nem fim e a quem os homens, desde tempos imemoriais, chamaram Deus. 


Logo: é profundamente razoável acreditar na existência de Deus.


Pe. Rodrigo Lynce de Faria

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Respirar?

O Papa Francisco tem dedicado as últimas audiências a falar da oração. Vai na trigésima primeira intervenção temática e prometeu continuar. Tem abordado o tema sob muitos pontos de vista, alguns originais.


— «Meditar é uma necessidade de todos. Meditar, por assim dizer, assemelha-se a parar e a dar um respiro à vida» (28-IV-2021).


Todos concordarão que respirar é importante. O que faz pensar é o que o Papa se distancie um pouco deste objectivo tão consensual:


— «No entanto, quando é aceite no contexto cristão, a palavra meditação assume uma especificidade que não deve ser posta de parte».


Alguns destes aspectos peculiares da oração cristã são de tal maneira próprios que não são partilhados por mais nenhuma religião. Na última quarta-feira, o Papa referiu um destes elementos centrais:


— «O cristão entra na meditação pela porta de Jesus Cristo».


Quem participa na Eucaristia ou assiste a alguma cerimónia litúrgica terá reparado que todas as orações ditas pelo celebrante se dirigem a Deus Pai ou ao Espírito Santo. E todas são ditas em nome de Jesus Cristo. Isto significa que o cristão que reza toma o lugar de Cristo ao falar com Deus Pai ou com o Espírito Santo e é por essa identificação que se atreve a interpelar Deus com toda a confiança.


O primeiro passo para rezar de maneira cristã é tomar consciência daquilo que a Igreja chama a nossa «filiação divina», que não é uma dignidade comum a todas as criaturas. O Baptismo transforma-nos em Jesus Cristo e, portanto, em filhos de Deus, tal como Cristo é Filho de Deus Pai. Há uma diferença, claro, mas há sobretudo uma verdade que ultrapassa tudo o que a humanidade poderia alguma vez imaginar: pelo Baptismo, participamos realmente da divindade de Cristo. Não da divindade de Deus Pai ou do Espírito Santo: somos configurados com Cristo, levantados acima da nossa natureza de meras criaturas e tornamo-nos participantes da filiação divina de Jesus.


É este o sentido, por exemplo, deste texto de S. Pedro: «O divino poder [de Cristo] (...) alcançou-nos os preciosos e maiores bens prometidos, para que chegásseis a ser participantes da natureza divina» (II Pe 1, 3-4).


A partir da consciência da nossa filiação divina, a tarefa muda completamente de feição, porque meditar já não é introspecção, mas encontrar-se com Cristo:


— «Quando o cristão reza, não aspira à plena transparência de si, não procura o núcleo mais profundo do seu eu. (...) A oração do cristão é, antes de mais, um encontro com o Outro, com “O” maiúsculo, o encontro transcendente com Deus».


O Papa citou diversas vezes o Catecismo para insistir neste ponto. «o importante é avançar, com o Espírito Santo, no caminho único da oração: Cristo Jesus» (Catecismo da Igreja Católica, 2707).


Outro elemento específico da oração cristã consiste na intensidade do empenho, porque «é um acto total da pessoa: não reza apenas a mente, reza o homem todo, a totalidade da pessoa, assim como não reza só o sentimento. O Catecismo especifica: “A meditação põe em acção o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo”» — diz o Papa.


Afinal, há aqui um paradoxo porque, quando desistimos de nos buscar a nós próprios e procuramos Deus com todas as forças, descobrimos quem somos. Disse-o o Papa nesta quarta-feira: «Para nós cristãos, meditar é um modo de encontrar Jesus. E assim, só assim, de nos encontrarmos a nós mesmos. (...) Nele, encontramo-nos a nós mesmos».

José Maria C.S. André

segunda-feira, 19 de abril de 2021

“A união com o Papa é união com Pedro”

Ama, venera, reza, mortifica-te – cada dia com mais amor – pelo Romano Pontífice, pedra basilar da Igreja, que prolonga entre todos os homens, ao longo dos séculos e até ao fim dos tempos, aquele trabalho de santificação e governo que Jesus confiou a Pedro. (S. Josemaria Escrivá - Forja, 134)

A suprema potestade do Romano Pontífice e a sua infalibilidade, quando fala ex cathedra, não são uma invenção humana, pois baseiam-se na explícita vontade fundacional de Cristo. Que pouco sentido tem enfrentar o governo do Papa com o dos bispos, ou reduzir a validade do Magistério pontifício ao consentimento dos fiéis! Nada mais alheio à Igreja do que o equilíbrio de poderes; não nos servem esquemas humanos, por mais atrativos ou funcionais que sejam. Ninguém na Igreja goza por si mesmo de potestade absoluta, enquanto homem; na Igreja não há outro chefe além de Cristo; e Cristo quis constituir um Vigário seu – o Romano Pontífice – para a sua Esposa peregrina nesta terra. (…)

Contribuímos para tornar mais evidente essa apostolicidade aos olhos de todos, manifestando com requintada fidelidade a união com o Papa, que é união com Pedro. O amor ao Romano Pontífice há de ser em nós uma formosa paixão, porque nele vemos a Cristo. Se tivermos intimidade com o Senhor na nossa oração, caminharemos com um olhar desanuviado que nos permitirá distinguir, mesmo nos acontecimentos que às vezes não compreendemos ou que nos causam pranto ou dor, a ação do Espírito Santo. (S. Josemaria Escrivá - Amar a Igreja; n 13)

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Haverá fé sobre a terra?...

Na última quarta-feira, 14 de Abril, o Papa retomou na audiência aos peregrinos «aquela pergunta dramática de Jesus, que nos faz sempre reflectir: “Quando vier o Filho do Homem, encontrará acaso fé sobre a terra?” (Lc 18, 8), ou só encontrará organizações, um grupo de “empresários da fé”, todos bem organizados, fazendo beneficência, muitas coisas...?».


O panorama mundial empresta realismo a esta pergunta dramática. É verdade que nunca houve tantas conversões e tantas vocações em muitas partes do mundo, mas todos os dias recebemos notícias de crises graves e, sobretudo na Europa, de cristãos que se afastam.


De um ponto de vista sociológico, o maior detonador desta desagregação é o divórcio. Um sujeito abandona a mulher; continua a ser católico mas começa a faltar à Eucaristia dominical; pergunta-se se este ou aquele ponto da doutrina fazem sentido mas não pede ajuda a quem sabe, vai acumulando dúvidas por esclarecer. Até que, como não está disposto a corrigir a situação, deixa suavemente de se sentir ligado à Igreja. Conserva uma noção vaga de Deus, mas já não é um Deus pessoal, é uma hipótese longínqua com quem é impossível falar. A seguir, talvez sem o próprio se dar conta, afunda-se numa derrocada completa e cada vez se convence mais de que não há solução. Nalguns casos, a certo ponto o desvario colectivo alavanca o vazio individual e brota um desejo agressivo e intolerante de refundar a Igreja em bases novas.


Este itinerário sociológico de quem se afasta tem uma certa sequência lógica, porque qualquer queda, sobretudo se é um resvalar gradual, tem uma dinâmica compreensível. Descer é fácil de explicar, especialmente porque a acção perseverante do Demónio empurra a debilidade humana. A mãozinha maléfica do Demónio sabe perfeitamente onde tem de actuar. O Papa Francisco tem-se referido muitas vezes às estratégias do Demónio, mas nesta quarta-feira foi particularmente explícito em relação a um ponto central:


— «Quando o Inimigo, o Maligno, quer combater a Igreja, fá-lo primeiro procurando secar as suas fontes, impedindo-a de rezar».


O Demónio até aceita a Igreja, desde que seja uma Igreja sem Deus, sem oração. Sobretudo nos países economicamente mais desenvolvidos, a sensação de superioridade intelectual alimenta o orgulho de refundar a Igreja sem importar como Cristo a instituiu. Quanto mais a pessoa está longe de Deus, tanto mais o atrevimento com que brotam estas propostas. Quanto mais descristianizado o país, tanto mais ousadas as propostas que de lá vêm.


— «Por exemplo, vemos isto em certos grupos que se põem de acordo para levar a cabo reformas eclesiais, mudanças na vida da Igreja... Têm muitas organizações, meios de comunicação que informam todos... Mas a oração não se vê. Não se reza. “Devemos mudar isto, temos de tomar esta decisão que é um pouco forte...”. (...) Apenas com debate, apenas com os meios de comunicação. Mas onde está a oração? A oração é que abre a porta ao Espírito Santo, que inspira a avançar. Sem oração, as mudanças na Igreja não são mudanças da Igreja, são mudanças de grupo. E quando o Inimigo —como já disse— quer lutar contra a Igreja, primeiro procura secar as suas fontes, impedindo-as de rezar e incitando-as a fazer este tipo de propostas».


O processo é quase sempre gradual. O Demónio prefere amolecer progressivamente a vontade e alimentar o orgulho. Perde pouco tempo a defender os vícios, infiltra-se. Prefere louvar a ignorância de quem se afasta de Deus: quanta ciência! Que inteligência fulgurante! Aqui está a luz do mundo!


Aos poucos, quase sem forçar, deixa-se a oração, essa relação forte e vital com Deus.


Diz o Papa:


— «Por algum tempo parece que tudo pode continuar como habitualmente —por inércia— mas depois de pouco tempo a Igreja compreende que se torna como que um invólucro vazio, que perdeu o seu eixo central, que já não possui a nascente do calor e do amor».


«Sem fé, tudo se desmorona; e, sem a oração, a fé extingue-se. Fé e oração, juntas. Não há outro caminho. Por isso a Igreja, que é casa e escola de comunhão, é casa e escola de fé e de oração».


José Maria C.S. André

Porquê tanta fragilidade?

«Porque é que actualmente parece que as crianças são mais frágeis?». Quem se faz esta pergunta é Leonard Sax no seu livro “The Collapse of Parenting”. Dedica todo um capítulo a responder a esta questão com muitos dados que procedem da sua experiência como médico e psicólogo.

Uma das causas mais importantes dessa fragilidade, diz ele, é a debilidade da relação entre pais e filhos. Se a relação que os pais têm com os seus filhos não se distingue daquela que eles têm com os seus amigos na escola, as crianças ficam frágeis.

Porquê?

Porque uma boa relação pai-filho é sólida e incondicional. Pelo contrário, as relações entre iguais, nessas idades, são frágeis por natureza.

As crianças agora necessitam do amor e aceitação incondicional dos seus pais tanto como há 30 anos. Mas, atenção: não podem obter isto nem dos seus iguais, nem do boletim de notas da escola, nem dos “likes” nas redes sociais.

Sem uma relação sólida com os pais, diz Sax, surge o culto pelo êxito, o meio mais rápido e eficaz para “impressionar” os outros e “triunfar” na vida.

Mas é precisamente este culto que põe os alicerces para que o edifício da autoestima se desmorone inexoravelmente quando aparece um fracasso. E o fracasso – não nos enganemos, nem enganemos os mais novos – chega sempre, mais tarde ou mais cedo.

E a disposição para o superar é uma demonstração de um carácter bem formado. Porque a aceitação do fracasso e o esforço por recomeçar são precisamente o contrário da fragilidade.

Quando as crianças estão seguras da aceitação incondicional dos seus pais, encontram a firmeza que os permite tentar, fracassar e recomeçar.

Pelo contrário, defende Sax, quando valorizam a opinião dos amigos por cima da estima incondicional dos pais, não são capazes de “digerir” um fracasso e, logicamente, tornam-se frágeis.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria