Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

As pirâmides e a «cloud»

A palavra eternidade tem muitas versões pagãs, porque a ânsia de sobrevivência que palpita no coração humano vem à superfície ao menor aceno, mesmo quando uma ideologia tenta enterrá-la e esquecê-la.

Em 1793, sob o impulso da chamada «Salvação Pública», começou a funcionar o «Terror» em França. Em poucos dias, aproximadamente meio milhão de pessoas foram parar à prisão. Muitas foram mortas e a salvação consistiu em destronar o cristianismo e entronizar simbolicamente uma «miss» na catedral de Notre Dame como deusa Razão. Enquanto os revolucionários das várias facções se matavam, o encanto da deusa Razão foi substituído pela religião do «Ser Supremo», com os seus dois dogmas: «O povo francês reconhece o Ser Supremo e a imortalidade da alma». Enquanto o ritmo da guilhotina acelerava e as guerras civis se sucediam, outro Governo inventou o culto Teofilantrópico, que outro Governo substituiu pelo culto Decadário  (Décadi, em francês). Para eliminar a concorrência, prenderam o Papa da época, Pio VI, e levaram-no para França, onde morreu. A notícia da sua morte dizia: «VI e último». Em contrapartida, aquele Governo, supostamente eterno, durou poucos dias e os Cardeais, reunidos em Veneza, elegeram Pio VII para suceder a Pio VI. Na sequência de outra revolução em França, voltaram a prender o Papa, desta vez Pio VII. No entanto, o Regime francês colapsou em 5 anos e o prisioneiro regressou a Roma.

A história destas religiões sumamente efémeras vem a propósito da eternidade, porque foi essa a justificação de tanta turbulência e de tanta morte. Os protagonistas passavam a vida a falar de eternidade. Seriam eternas as promessas de progresso e felicidade, definitivas as conquistas militares, irrevogáveis as glórias da guerra civil.

Nesta época, as areias do Egipto presenciaram um momento de grande impacto quanto à possibilidade de perdurar eternamente. Napoleão tinha sido mandado conquistar o Egipto, porque o Governo o achava demasiado poderoso para o ter perto. O receio era fundado, mas a campanha no Egipto entreteve-o pouco tempo e, em menos de um ano, ele regressava à pátria para derrubar o Governo. Conta a história que, diante das tropas em parada, no Egipto, Napoleão Bonaparte exclamou: «do alto destas pirâmides, 40 séculos nos contemplam!». Um soldado que espreitasse para o cimo das pirâmides não via ninguém, mas a ideia fez furor nos salões culturais da Europa: 40 séculos eram já um selo de eternidade. As pirâmides eram tão descomunalmente pesadas que sobreviviam a tudo. Um tremor de terra podia abrir rachas, a erosão das águas podia arrastar muita pedra, os construtores de casas podiam ir lá buscar material... as pirâmides aguentavam tudo e duravam indefinidamente.

Este ideal de longevidade galvanizou as hostes jacobinas. Em Paris, construíram um Arco do Triunfo tão grande que, hoje, os aviões de acrobacia passam entre as suas colunas. Numa das faces do arco, letras enormes e imortais recordam os tais triunfos (felizmente desactualizados, tais como a ocupação de Portugal pelo exército napoleónico). Em Roma, capital da elegância, o poder jacobino ergueu um pesadíssimo Palácio da Justiça, destinado a fazer sombra à basílica de S. Pedro. Mas as margens húmidas do Tibre não aguentaram o peso, o edifício começou a inclinar-se e teve de ficar pela parte de baixo, que ainda existe. O arquitecto do  imortal edifício suicidou-se, atirando-se do último andar. Em Lisboa, o exemplo mais característico inspirado nas pirâmides do Egipto é o monumento ao Marquês de Pombal. Ainda hoje lá está, nem sempre respeitado pelas pombas. Da alta coluna, escorrem louvores, o primeiro dos quais se lê mal, por estar tão alto: «expulsão dos jesuítas». Na base, um templo pagão com uma Minerva sentada situa o Marquês num Olimpo intemporal designado como universidade.

A arte e os discursos admitem todas as ficções, mas a realidade tem sempre a última palavra. Por isso, chegados ao limiar da eternidade, o Rei D. José e o seu Primeiro Ministro, Marquês de Pombal, compreenderam que o poder absoluto não seria suficiente na nova fase. Três dias antes de morrer, D. José mandou soltar os religiosos presos e mais de 800 presos políticos que apodreciam nas cadeias do reino. Não pediu desculpa, mas disse que os perdoava. Talvez contasse com que esta cedência fosse suficiente para chegar a acordo com Deus.

Mal o Rei morreu, desterraram o Marquês para Pombal. Cometeu-se algum crime? «Foi El-Rei, meu Senhor! Foi El-Rei, meu Senhor, quem ordenou!» – repetia o Marquês sem cessar. Diz a história que o Marquês sempre manteve a profissão de fé católica e que, no final, recluído no solar de Pombal, mandava alimentar centenas de pobres. Quando o Bispo de Coimbra, libertado das masmorras nas vésperas de D. José morrer, passou por Pombal, o Marquês saiu a prestar-lhe homenagem e a pedir-lhe a bênção.

Visão de Jerusalém Celeste
Agora, bastará digitalizarmos a nossa glória e confiá-la eternamente à «cloud», para seremos eternos pelos séculos sem fim? Atenção! Napoleão enganou-se. Do alto daquelas pirâmides, ninguém os contemplava e na «cloud» também não mora ninguém. A eternidade a sério é outra coisa.

José Maria C.S. André
24-VIII-2018
Spe Deus

domingo, 23 de agosto de 2020

Tens de pensar na tua vida e pedir perdão

Com serenidade, sem escrúpulos, tens de pensar na tua vida e pedir perdão e fazer o propósito firme, concreto e bem determinado, de melhorar neste aspecto e naquele outro: nesse pormenor que te custa e naquele que habitualmente não cumpres como deves, e bem o sabes. (Forja, 115)

Enche-te de bons desejos, que são uma coisa santa e que Deus louva. Mas não fiques apenas nisso! Tens que ser uma alma – homem, mulher – de realidades. Para levar a cabo esses bons desejos, precisas de formular propósitos claros, precisos.

– E, depois, meu filho, luta para pô-los em prática, com a ajuda de Deus! (Forja, 116)

Repara na tua conduta com vagar. Verás que estás cheio de erros, que te prejudicam a ti e talvez também aos que te rodeiam.

– Lembra-te, filho, que não são menos importantes os micróbios do que as feras. E tu cultivas esses erros, esses enganos – como se cultivam os micróbios no laboratório –, com a tua falta de humildade, com a tua falta de oração, com a tua falta de cumprimento do dever, com a tua falta de conhecimento próprio... E, depois, esses focos infectam o ambiente.

Precisas de um bom exame diário de consciência, que te conduza a propósitos concretos de melhora, por sentires verdadeira dor das tuas faltas, das tuas omissões e pecados. (Forja, 481)

São Josemaría Escrivá

Bom Domingo do Senhor!

Bem-aventurados que somos porque o Senhor nos deu conhecer a resposta de Pedro que nos narra o Evangelho de hoje (Mt 16, 13-20) e assim com amor e fé também o reconhecemos como o Filho de Deus que habitou entre nós.

Louvado seja o Pai pelo Filho que nos enviou e que é Deus com Ele na unidade do Espírito Santo!

O elixir da vida eterna

É mesmo simples: «Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue tem a vida eterna, e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia» (Jo 6, 54).

Graças a um Papa improvável, esta frase de Jesus marcou profundamente a história da Igreja a partir do início do século XX. Comemora-se a sua festa no dia 21 de Agosto e portanto vem a propósito revisitar os antecedentes.

Para fugir à invasão prussiana, Jan Krawiec e a mulher Margherita była Włoszką abandonaram a sua Polónia (Wielkopolska) e instalaram-se em Itália, perto de Veneza, numa vila chamada Riese. Jan passou a chamar-se Giovanni e traduziu o apelido Krawiec para Sarto (que significa alfaiate em italiano); a tradução fazia todo o sentido, porque Jan Krawiec era mesmo alfaiate de profissão. A família era muito pobre, mas muito feliz e muito unida. Tiveram 10 filhos, um dos quais o pequeno Giuseppe (José). As aventuras dele são as mesmas de tantas crianças pobres: percorria descalço os 7 kms até à escola, mesmo quando nevava e chovia. Quando os seus conterrâneos lhe ergueram uma estátua, não o representaram como Papa, mas como se lembravam dele: um rapaz descalço a caminhar na estrada. Quando a história veio a público, depois de Giuseppe ser eleito Papa, o Vaticano desdramatizou as proezas atléticas da juventude do Papa, explicando que, naquela época, muita rapaziada fazia assim e era divertido. Felizmente, a fibra polaca de Giuseppe aguentou a intempérie e o pequeno cresceu feliz, cheio de saúde e de bom humor, alto e louro como os polacos.

Os resultados académicos foram sempre excelentes, em todas as matérias. Já na primária, quando os negócios agrícolas obrigavam o mestre a faltar, o pequeno Giuseppe tomava conta de toda a escola, com muita autoridade, segundo se diz.

Sentiu-se chamado ao sacerdócio e foi para o seminário. Entretanto, o pai morreu – Giuseppe chegou a tempo de o acompanhar no último momento – e, com a morte do chefe de família, os Sarto ficaram numa situação delicada. Apesar disso, a mãe teve ânimo para aguentar a casa e Giuseppe continuou no seminário.

As etapas seguintes resumem-se brevemente: ordenado padre, enviado para diversos encargos paroquiais, nomeado bispo de Mântua, nomeado Patriarca de Veneza e Cardeal e, de repente, eleito Papa, com o nome de Pio X. É surpreendente que um filho de estrangeiros, de origem tão simples, tenha chegado a Papa no início do século XX e mais surpreendente a revolução que ele desencadeou.

A Eucaristia merece uma reverência tão grande que, durante séculos, os fiéis só se atreviam a comungar em ocasiões especiais e as crianças não se consideravam dignas de receber a Comunhão. De facto, S. Paulo tinha avisado os de Corinto: «Quem comer o Pão ou beber o Cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Examine-se, pois, cada qual a si mesmo e assim coma desse Pão e beba desse Cálice. Pois quem come e bebe sem distinguir o Corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação» (I Cor 11, 27-29). A advertência não podia ser mais severa: «Por isso é que entre vós há muitos enfermos e adoentados, e bastantes faleceram» – diz-lhes S. Paulo (I Cor 11, 30).

Pio X, uma personalidade encantadora, de uma generosidade enorme com os pobres, desafiou a tradição de séculos. Certamente, quem comunga deve estar na graça de Deus, mas a Eucaristia é um alimento imprescindível, porque Jesus disse: «Se não comerdes a Carne do Filho do Homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós» (Jo, 6, 53). Portanto, a solução não é atrasar a Comunhão, o que é preciso é adiantar a Confissão, sem perder mais tempo.

O povo percebeu que se fomentava a Comunhão para robustecer a Igreja, não para tratar a Eucaristia como uma coisa banal. O Santíssimo Sacramento era tão importante para este Papa que só alguns se escandalizaram. A Igreja compreendeu o seu amor pela Eucaristia e canonizou-o, celebrando a sua festa todos os anos no dia 21 de Agosto.

José Maria C.S. André

Formação na fé

«Antes de mais é necessário que cada um entre em si mesmo, procurando com vigilância delicada conservar profundamente arraigada no seu coração a fé, precavendo-se dos perigos e, de modo especial, bem armado sempre contra vários sofismas enganadores. Para melhor pôr a salvo esta virtude, julgamos de sobremaneira útil e extremamente conforme com as circunstâncias dos tempos o esmerado estudo da doutrina cristã, segundo a possibilidade e capacidade de cada qual; empapando a sua inteligência com o maior conhecimento possível daquelas verdades que dizem respeito à religião e pela razão se podem alcançar»

(Leão XIII - Sapientiae christianae, nº 17)