Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

CONTO DE NATAL

Tinha abraçado a vocação ao sacerdócio com toda a convicção, mas agora tinha dúvidas, muitas dúvidas. E não eram, infelizmente, dúvidas sobre o sacerdócio, mas sobre o próprio Deus.

Não percebia porquê, mas agora que se aproximava o dia de Natal olhava para trás e percebia o ano terrível que tinha vivido.
A morte dos seus pais ainda relativamente novos, num acidente; aquele seu irmão, tão novo, com aquela doença incurável; aquele seu amigo de infância que ao fim de tantos anos de dificuldades, depois de nunca ter desistido de lutar, tinha acabado por “vencer na vida” e de repente, por um incêndio fortuito, tinha ficado novamente sem nada.
E o mundo? Que mundo este em que se trucidavam crianças, se decapitavam pessoas, se tratava melhor os animais do que os seres humanos, um mundo em que a barbárie, não só da violência física, mas também a violência verbal e psíquica, se tinha instalado e “dava cartas” em todo o lado.

E Deus? Deus onde parava? Por onde andava?
Sim ele sabia bem, (tinha-o estudado profundamente), que Deus nos tinha criado em liberdade total e por isso não interferia na liberdade de cada um.
Mas, caramba, há um tempo para tudo!
Então Deus podia assistir impávido e sereno à destruição do bem, à destruição da humanidade que Ele mesmo tinha criado à sua imagem e semelhança?
Tudo isto, somado a uma Igreja que a seus olhos parecia não encontrar união, mas parecia antes querer encontrar pontos de divisão, mais as conversas mantidas com tanta gente desiludida e revoltada, levantavam-lhe dúvidas, muitas dúvidas, a que ele não conseguia responder, sobretudo no seu íntimo.
Lembrava-se perfeitamente da Missa que tinha celebrado no dia anterior e como lhe tinha custado.
Na altura da consagração apeteceu-lhe deixar a patena e o cálice no altar e não proferir as palavras da consagração, mas depois lembrou-se que, mesmo que ele não acreditasse, a consagração sempre aconteceria, tal como ensinava a Igreja.

Era dia 24 de Dezembro e estava na sacristia pensando que ainda teria que celebrar à noite a Missa do Galo.
Era fim de tarde e a essa hora já não estava ninguém na igreja.
Foi colocar-se em frente ao sacrário com a cabeça entre as mãos e ali se deixou ficar, sem pensar, nem dizer nada, sem nada fazer.
Ao fim de algum tempo, cansado da posição em que estava e percebendo que o dia já estava a acabar, olhou o sacrário com um olhar ainda de esperança e disse:
Senhor Jesus Cristo, se aí estás, dá-me um sinal, qualquer coisa que me faça sair deste torpor que me afasta de Ti. Eu quero-Te, mas sinto-me cada vez mais longe de Ti.

Saiu da igreja e dirigiu-se para casa, mas em vez de seguir pela estrada normal, decidiu atravessar o pequeno pinhal que ficava entre a igreja e a casa onde vivia.
A luz do crepúsculo provocava sombras estranhas nas árvores, mas isso não lhe interessava minimamente, pois caminhava totalmente absorto nos seus pensamentos sobre Deus e sobre a sua fé.

Pareceu-lhe ouvir um ruído, um gemido, qualquer coisa, talvez um animal ferido.
Parou e pôs-se à escuta.
Ouviu então algo que lhe pareceu um choro de criança, pelo que começou à procura por entre os arbustos, tentando descobrir de onde vinha tal lamento.
Encontrou então deitada no chão da mata, envolvida num pequeno cobertor, uma criança, que chorava lancinantemente.
Aproximou-se e percebeu que, embora já não fosse um recém-nascido, era sem dúvida uma criança nascida há muito pouco tempo.
Retirou com todo o cuidado o cobertor que a envolvia e verificou que apesar das circunstâncias a criança lhe parecia estar bem de saúde.
Tocou-lhe numa mão com o seu dedo para ver a sua reacção, e logo os pequeninos dedos do bebé se agarraram, como desesperados ao seu dedo, com uma força tal que o espantou.
Colocou-o ao colo e trouxe-o para a estrada, enquanto ligava para as emergências explicando o assunto, e pedindo uma ambulância.
Sentou-se num marco na berma da estrada com a criança ao colo e mais uma vez colocou o seu dedo entre aquela pequena mão, que logo o agarrou novamente com toda a força.
Estava assim, embevecido a olhar para a cara do bebé, que entretanto tinha acalmado e dormitava no seu colo com uma expressão muita calma, quando sentiu no seu coração as seguintes palavras:
Vês, meu filho, só tens que fazer isto mesmo! Abandona-te como uma criança, agarra a minha mão com toda a tua força e perceberás que estás ao meu colo, que Eu estou contigo, e que, quaisquer que sejam as tuas dúvidas, eu sou o Senhor teu Deus que te ama, que te chama e que te guia. Hoje é noite de Natal! Quando regressares à igreja, vai junto do presépio e coloca o teu dedo nas mãos da minha imagem deitado nas palhinhas. Acredita, meu filho, que mesmo sem sentires, Eu me agarrarei ao teu dedo e não te deixarei partir, porque te amo e te quero para mim!

Ao longe já se viam as luzes da ambulância e ele iria jurar que se pareciam exactamente com as estrelas que tinha iluminado os pastores naquela Santa Noite!

O seu coração exultou de alegria e exclamou dentro de si:
Meu Senhor e meu Deus! Ó meu Menino Jesus, obrigado pelo teu presente de Natal!!!

Foi com muita relutância que deixou que os bombeiros lhe tirassem dos seus braços aquele seu “Menino Jesus”!

Marinha Grande, 19 de Dezembro de 2016

Joaquim Mexia Alves

Evangelho do dia 20 de dezembro de 2018

Estando Isabel no sexto mês, foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de David; o nome da virgem era Maria. Entrando o anjo onde ela estava, disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça; o Senhor é contigo». Ela, ao ouvir estas palavras, perturbou-se e discorria pensativa que saudação seria esta. O anjo disse-lhe: «Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a Quem porás o nome de Jesus. Será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus Lhe dará o trono de Seu pai David; reinará sobre a casa de Jacob eternamente e o Seu reino não terá fim». Maria disse ao anjo: «Como se fará isso, pois eu não conheço homem?». O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra; por isso mesmo o Santo que há-de nascer de ti será chamado Filho de Deus. Eis que também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês da que se dizia estéril; porque a Deus nada é impossível . Então Maria disse: «Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra». E o anjo afastou-se dela.

Lc 1, 26-38

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Natal: as surpresas que são do agrado de Deus

Locutor: A festa do Natal está próxima; mas há o perigo de errar a festa. Se o Natal se reduzir a uma bela festa tradicional, no centro da qual estamos nós e não o Deus Menino, será uma ocasião perdida. Não ponhamos de lado o Festejado, como sucedeu no primeiro Natal, quando Jesus «veio para o que era Seu, e os Seus não O receberam». Qual é então a festa de Natal que agrada a Deus? Para descobrir os gostos de Deus, precisamos de olhar como foi o primeiro Natal. Foi um Natal cheio de surpresas, obrigando Maria e José a ajustarem as suas vidas; mas a maior das surpresas aparece na noite de Natal: o Filho do Altíssimo é um bebé; o Verbo de Deus, a Palavra divina é um infante, ou seja, «incapaz de falar»; não vieram acolher o Salvador as autoridades do tempo, mas simples pastores que guardavam os rebanhos de noite. Quem o teria imaginado? Mas Natal é celebrar o inédito de Deus, ou melhor, um Deus inédito, que subverte os nossos planos e expetativas. Celebrar o Natal é acolher na terra as surpresas do céu. O Natal deu início a uma nova época onde a vida não se programa, mas se doa, onde se deixa de viver para si mesmo segundo os próprios gostos, a fim de se viver para Deus e com Deus, porque Ele é Deus connosco. Este ano teremos Natal se, como José, dermos espaço ao silêncio; se, como Maria, soubermos dizer a Deus: «Eis-me aqui»; se como os pastores sairmos dos nossos recintos para ir ter com Jesus; se, como Jesus, nos aproximarmos de quem está sozinho. Amados irmãos e irmãs, feliz Natal, cheio das surpresas de Jesus! Estas poderão parecer incómodas, mas são os gostos de Deus.
* * *
Santo Padre:
Cari pellegrini di lingua portoghese, vi saluto tutti con l’augurio di un Santo Natale, portatore delle consolazioni e delle grazie di Dio Bambino, per voi e per la vostra famiglia. E lo sarà certamente, se la vostra famiglia saprà mettere Lui e la sua Legge al centro della vita, divenendo una scuola di fede, preghiera, umanità e gioia vera. A tutti vi benedico di cuore, augurandovi un sereno e felice Anno Nuovo.
* * *
Locutor: Queridos peregrinos de língua portuguesa, saúdo-vos a todos com votos dum Santo Natal, portador das consolações e graças do Deus Menino, para vós e vossa família. E sê-lo-á certamente, se a vossa família souber colocá-Lo, a Ele e à sua Lei, no centro da vida, tornando-se uma escola de fé, de oração, de humanidade e de verdadeira alegria. De coração vos abençoo a todos, desejando-vos um sereno e feliz Ano Novo.

Virgílio, BUCÓLICAS, canto IV

Tradução da IV écloga de Virgílio por Luís Filipe Thomaz a partir do latim, repassada de um messianismo que atesta da esperança universal no Emanuel — o "Deus connosco", a que a antiga liturgia romana aplicava o epíteto de "desideratus cunctarum gentium", o desejado de todas as gentes. Escrita necessariamente antes da morte do autor, em 19 A. C., a écloga — a que Jerôme Carcopino dedicou um detalhado e sábio estudo — fala do nascimento de um menino, que os primeiros cristãos identificaram com Jesus, fazendo, por conseguinte, de Virgílio uma espécie de profeta pagão, como a Sibila.

*****
           
Sicilianas Musas, nossos cantos, um tanto soergamos:
nem a todos deleitam os arbustos, os tamariscos franzinos,
se é aos bosques que cantamos,
que de um cônsul os bosques sejam dinos!
            Eis que na verdade,
do oráculo de Cumas vem chegando a derradeira idade:
dos séculos a grande ordem de novo recomeça;
eis que volta a Virgem; eis que de Saturno o reino já regressa,
e dos altos céus nova linhagem dece!
            Mal nasça o menino com que já fenece
a férrea idade, e de polo a polo
se mostre a áurea estirpe, tu, casta Lucina, o favorece!
Já reina o teu Apolo!
            Em teu consulado, ó Polião, e sob a tua guia,
principiará a glória desta nova era,
e dos grandes meses o transcurso, dia a dia.
Se de nosso crime algum vestígio houvera,
írrito será doravante,
e livre quedará do pavor eterno a esfera.
            Dos deuses receberá vida o nascituro infante,
e aos deuses juntos os heróis verá;
ver-se-á a si a estes mesclado,
e o orbe regerá,
pela virtude paternal pacificado.
            E a ti, menino, como dom primeiro,
hedras trepadeiras e acanto sorridente
bácaro abundante e colcas, juntamente,
sem qualquer lavoura, em profusão
dará o campo inteiro.
            De livre moto, as cabras ao curral trarão
túrgidos de leite os úberes dilatados;
e ao corpulento leão
não voltarão jamais a recear os gados.
            De si o berço se te porá, meigo, em flor;
tombará morta a serpente,
e murcha a erva do veneno enganador;
mas o amomo da Assíria vicejará vulgarmente.
            Quando dos feitos paternos fores ciente,
dos heróis saibas ler o elogio,
e da virtude discernir o vulto,
louros, lentamente,
se porão os campos com o brando estio;
a uva rósea penderá do tojo inculto,
e do roble agreste escorrerá o mel em fio.
            Da prístina fraude algum vestígio quedará, porém, oculto,
forçando a jangada a arrostar o mar ingente,
a cidade a manter em torno o muro,
e o arado a sulcar ainda o solo duro.
            Um novo Tífis haverá então, e novamente,
Argo aparecerá, que dos heróis transfrete a jóia,
pois virão novas guerras no futuro,
e uma vez mais o grão Aquiles será mandado a Tróia.
            Quando a idade firme te tornar, porém, sisudo,
desistirá do mar o próprio marinheiro,
e inútil quedará, sem conteúdo,
a nave talhada do pinheiro,
pois toda a terra produzirá de tudo.
            Não mais o solo padecerá lavoura,
nem tampouco a vinha o golpe da seitoura.
            Soltará da canga aos bois o lavrador robusto,
e não terá mais a lã de se tingir de laivos variados,
pois ao pascer nos prados,
o mesmo anho mudará, venusto,
ora em púrpura suave, ora em amarelo,
as cores do próprio velo.
            Espontâneo vestirá o azarcão de tons profusos
o cordeiro que retouça nos montados.
"Fiai tais séculos" - disseram as Parcas a seus fusos,
conformes como sempre com os fados.
            Das honras mais augustas chegando vem o momento!
Ó cara prole dos deuses, de Júpiter ó maior rebento!
Acerca-te, enxerga asinha:
vacilante, ajoujado ao cárrego do mundo,
as terras, a extensão do mar, o céu profundo,
vê como se alegra tudo com a era já vizinha!
            Oh, que da já longa vida me reste um tempo derradeiro,
e me não falte quanto hei mister de alento,
p'ra de teus feitos lavrar o rol inteiro…
Não me vencerá em carmes o talento
nem do Orfeu trácio, nem de Lino,
ainda que a este inspire o pai divino,
e àquele assista a mãe que o trouxe ao colo:
de Orfeu Caliopeia, de Lino o belo Apolo.
O próprio Pan, com Arcádia por juiz, se comigo se batia,
o próprio Pan, com Arcádia por juiz, vencido se diria.
            Começa, pois, menino, a conhecer pelo sorriso
a mãe que dez meses o fastio suportou mofino;
começa, pequenino,
pois, de feito,
quem jamais conheceu nos pais o riso,
nem da mesa um deus reputa dino,
nem uma deusa do leito.

Evangelho do dia 19 de dezembro de 2018

Houve no tempo de Herodes, rei da Judeia, um sacerdote chamado Zacarias, da turma de Abias; a sua mulher era da descendência de Aarão e chamava-se Isabel. Ambos eram justos diante de Deus, caminhando irrepreensivelmente em todos os mandamentos e preceitos do Senhor. Não tinham filhos, porque Isabel era estéril e ambos se achavam em idade avançada. Sucedeu que, exercendo Zacarias as funções de sacerdote diante de Deus na ordem do seu turno, segundo o costume sacerdotal, tocou-lhe por sorte entrar no templo do Senhor a oferecer o incenso. Toda a multidão do povo estava a fazer oração da parte de fora, à hora do incenso. Apareceu-lhe um anjo do Senhor, de pé ao lado direito do altar do incenso. Zacarias, ao vê-lo, ficou perturbado e o temor o assaltou. Mas o anjo disse-lhe: «Não temas, Zacarias, porque foi ouvida a tua oração; tua mulher Isabel dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. Será para ti motivo de júbilo e de alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento; porque ele será grande diante do Senhor; não beberá vinho nem outra bebida inebriante; será cheio do Espírito Santo desde o ventre da sua mãe; e converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. Irá adiante de Deus com o espírito e a fortaleza de Elias, “a fim de reconduzir os corações dos pais para os filhos”, e os rebeldes à prudência dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto». Zacarias disse ao anjo: «Como hei-de verificar isso? Porque eu sou velho e a minha mulher está avançada em anos». O anjo respondeu-lhe: «Eu sou Gabriel que estou diante de Deus; fui enviado para te falar e te dar esta boa nova. Eis que ficarás mudo e não poderás falar até ao dia em que estas coisas sucedam, visto que não acreditaste nas minhas palavras, que se hão-de cumprir a seu tempo». Entretanto, o povo esperava Zacarias e admirava-se de ver que ele se demorava tanto no templo. Quando saiu, não lhes podia falar, e compreenderam que tinha tido alguma visão no templo, o que lhes dava a entender por acenos; e ficou mudo. Aconteceu que, depois de terem acabado os dias do seu ministério, retirou-se para a sua casa. Alguns dias depois, Isabel, sua mulher, concebeu, e durante cinco meses esteve escondida, dizendo: «Isto é uma graça que me fez o Senhor nos dias em que me olhou para tirar o meu opróbrio de entre os homens».

Lc 1, 5-25