Obrigado, Perdão Ajuda-me

Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Mistério que enche a nossa vida de cristãos

"Chegaremos bem preparados ao domingo da Santíssima Trindade, se – entre outros meios - alimentamos a nossa oração pessoal com os textos litúrgicos da Ascensão e do Pentecostes", aconselhava o B. Álvaro del Portillo.

Neste mês, voltaremos a celebrar, cheios de alegria, a solenidade da Santíssima Trindade, mistério central da nossa fé, que ilumina com o seu esplendor e enche a nossa vida de cristãos. Fomos batizados em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Esta mesma invocação pronuncia o sacerdote, cada vez que nos concede a absolvição sacramental. E na Missa, renovação do Sacrifício que Cristo ofereceu ao Pai pele Espírito Santo, as três Pessoas divinas atuam conjuntamente: uma efusão de amor pelos homens que suscitava no nosso Fundador [S. Josemaria] gratidão e desejos eficazes de corresponder, com a sua entrega pessoal mais completa, à inefável doação que Deus faz de si mesmo na Sagrada Eucaristia, para cada um de nós. Oxalá (...) se repita e se renove esta reação sobrenatural nas nossas almas, ao meditar estas maravilhosas realidades divinas!

Chegaremos bem preparados ao domingo da Santíssima Trindade, se – entre outros meios - alimentamos a nossa oração pessoal com os textos litúrgicos da Ascensão e do Pentecostes. Pela mão da Santíssima Virgem, nossa Mãe – (...) de quem sempre queremos aprender - contemplamos como Jesus Cristo sobe ao Céu para que a sua Santíssima Humanidade ocupe o lugar de glória que Lhe está reservado à direita de Deus Pai. Nosso Senhor parte mas, de acordo com a sua promessa, envia-nos o Consolador, o Espírito Santo, para que habite connosco eternamente. Dispunhamo-nos junto a Nossa Senhora para a vinda do Paráclito, imitando os Apóstolos e as Santas Mulheres (Cfr. At 1, 14). Assim crescerá em nós a familiaridade com o Pai, e com o Filho e com o Espírito Santo, e se tornará mais sólida a necessidade de tratar e distinguir cada uma das três Pessoas divinas. (B. Álvaro del Portillo, Carta, 1-V-1989)

sexta-feira, 14 de maio de 2021

17:17 há 40 anos

Quando os relógios mecânicos eram máquinas complexas, que precisavam de um maquinista para acompanhar o seu funcionamento, ao lado do relógio mecânico instalava-se um relógio de sol, para acertar a hora todos os dias. Na torre sul da sé de Lisboa ainda existe um grande relógio mecânico desses, com o seu relógio de sol ao lado. Além do salário do maquinista, indispensável para manter o relógio em funcionamento, o desengonçado mecanismo consumia uma enorme quantidade de azeite, que era a lubrificação disponível na época.


Nalguns casos —por exemplo no palácio da Pena, em Sintra—, havia um pequeno canhão ao lado do relógio de sol, para anunciar as horas ao longe, com um disparo. O pequeno canhão do palácio da Pena ainda lá está, como memória silenciosa daqueles estrondos que faziam esvoaçar os pássaros à hora certa.


Esta forma de marcar as horas aos ritmos da artilharia é coisa do passado, mas há 40 anos, as 17 horas e 17 minutos de 13 de Maio de 1981 ficaram marcadas com exactidão por quatro disparos, que ecoaram uma e outra vez na praça de S. Pedro, levantando revoadas de pássaros. É difícil assinalar o momento de forma mais inesquecível.


A cidade de Roma sufocava sob uma vaga de calor inusual, a ponto de que a audiência do Papa aos peregrinos não pôde ter lugar ao meio-dia, como habitualmente. Teve que se esperar pelo relativo fresco da tarde. Finalmente, João Paulo II saiu pelo portão da guarda, em pé no papamóvel descapotável, cumprimentando a multidão. Como muitos outros, os pais de uma bebé passam-lha para as mãos (esse bebé é hoje a senhora Sara Bartoli, com quarenta anos) e o Papa inclina-se para a receber. Há quem diga que estes movimentos inesperados do Papa, correspondendo ao entusiasmo do povo, desconcertaram Mehmet Ali Ağca. O certo é que este assassino profissional, atirador de elite, calejado no crime, falhou a pontaria de quatro disparos de uma pistola de guerra, uma Browning Hi-Power de 9 mm de calibre. Uma bala deste calibre não dá hipóteses de sobrevivência e quatro balas a curta distância deveriam eliminar qualquer dúvida.


O que aconteceu às 17:17 daquele dia ainda hoje não se percebe. As balas atravessaram o corpo do Papa de lado a lado num trajecto sinuoso, fazendo inflexões misteriosas como se quisessem respeitar os órgãos vitais. Roçaram neles, um por um, mas sem os atingir.


Rasgaram sulcos profundos de que jorrou abundantemente sangue e caíram à volta da vítima ou perto do automóvel. A quinta bala não partiu porque a Browning encravou. Uma pistola profissional com uma falha mecânica?! Segundo os jornais, a pistola custara £10,000 à época (dezenas de milhar de euros a preços de hoje).


Desconcertado, o atirador supostamente infalível, com 23 anos, no auge da sua forma física, teve uma hesitação de segundos e foi agarrado por um elemento das forças de segurança, com a ajuda de vários populares, incluindo uma freira. As reportagens dos vídeos captam os rostos imóveis da multidão, pesados, calados, de olhos fixos no infinito, como se fossem personagens de cenas diferentes, cada um a olhar na sua direcção, como se não houvesse nada para ver no espaço sem fim.


Uma das balas está hoje em Fátima, como jóia da coroa da imagem de Nossa Senhora. A temível Browning está exposta em Wadowice, na Polónia. Ambas testemunham que Deus não desiste de ter a última palavra.


No dia 27 de Dezembro de 1983, às 17h20, João Paulo II entrou na prisão de alta segurança para falar a sós com Ali Ağca. O Papa tinha-lhe perdoado desde o primeiro momento e foi talvez esse o mistério mais difícil de decifrar para Ali Ağca, pelo contraste entre a violência das balas e a delicadeza comovente do Papa. Em 1987, João Paulo II recebeu a mãe de Ali Ağca e em 1997 é o irmão de Ali Ağca que o visita no Vaticano. No ano 2000 João Paulo II intercedeu junto do Governo italiano para que o libertassem e, depois de o prenderem novamente na Turquia, para cumprir uma pena antiga, por homicídios anteriores, Ali Ağca por lá vive pacatamente. Em entrevistas que deu aos jornais, reconhece que aquela conversa íntima de 22 minutos na prisão foi absolutamente especial e não tenciona revelar nada. No seu livro «Memória e Identidade», ao referir esse encontro, o Papa só diz que não pode contar nada.


Depois de sair da prisão na Turquia, Ali Ağca já viajou pela Europa e já esteve novamente na praça de S. Pedro, sozinho, em homenagem ao Papa. Em entrevistas a jornais ocidentais disse que deixou um ramo de flores no local do atentado e que está contente por João Paulo II ter sobrevivido. Eram 17h17 de há 40 anos.

José Maria C.S. André

quinta-feira, 13 de maio de 2021

A Ascenção

Prosseguindo com a exposição dos artigos do Credo, aprofundemos no mistério da Ascensão do Senhor. Cremos, com efeito, que Jesus Cristo, depois da Ressurreição, subiu ao Céu onde está sentado à direita do Pai [1]. Esta solenidade que celebraremos neste mês – na quinta-feira, dia 9, ou no domingo, dia 12, nos países onde foi transferida – deve ser para to­dos uma paragem, recordando-nos o fim ditoso a que estamos chamados. Esta verdade recor­da-nos ao mesmo tempo um facto histórico e um acontecimento de salvação. Como facto histórico, a Ascensão «marca a entrada definitiva da humanidade de Jesus no domínio celeste de Deus, de onde há de voltar, mas que, entretanto, O oculta aos olhos dos homens» [2]. Agora, está presente na Eucaristia de modo sacramental, mas, no seu ser natural, encontra-se apenas no Céu, de onde virá no fim dos tempos, cheio de glória e majestade, para julgar a todos.

O Evangelista que relata com mais pormenor este acontecimento é S. Lucas. No início dos Atos dos Apóstolos, escreve que o Senhor, depois da Sua Paixão, lhes apareceu vivo [aos Apóstolos e aos outros discípulos], e deu-lhes disso numerosas provas, com as Suas aparições, durante quarenta dias, falando-lhes também a respeito do Reino de Deus [3]. Narra ainda que, durante uma das aparições aos Apóstolos, o Senhor lhes abriu o entendimento para que compreendessem as Escrituras. E disse-lhes: Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia, e que se anuncie, em Seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas [4].

S. Josemaria considerou muitas vezes estas cenas, nas reuniões familiares que costu­mava ter com numerosas pessoas. Numa ocasião, por exemplo, convidava os que o ouviam a pensar no Senhor depois da Ressurreição, quando falava de muitas coisas, de tudo o que os Seus discípulos Lhe perguntavam. Aqui estamos a imitá-Lo um pouco, porque vós e eu somos discípulos do Senhor e queremos trocar impressões [5]. E noutra altura, acrescen­tava: falava com eles, como falamos nós agora, aqui, assim! Isso é a contemplação: convívio com Deus. E a contemplação e o convívio com Deus levam-nos a cuidar das almas, a ter sede de trazer para Cristo os que se afastaram [6].

[1]. Missal Romano, Símbolo Niceno-Constantinopolitano.
[2]. Catecismo da Igreja Católica, n. 665.
[3]. At 1, 3.
[4]. Lc 24, 46-48.
[5]. S. Josemaria, Notas de uma reunião familiar, 29-X-1972.
[6]. S. Josemaria, Notas de uma reunião familiar, 3-XI-1972.

(D. Javier Echevarría, Prelado do Opus Dei na carta do mês de maio de 2013)

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Será que Deus realmente existe?

Separação da terra das águas, Michelangelo, Capela Sistina, Vaticano
Recentemente, apareceu num jornal do nosso país um artigo que era um ensaio filosófico intitulado “Será que Deus existe?”. O ensaio defendia a tese de que Deus não podia existir. 


Sem querer entrar em polémica e respeitando o modo de ver o assunto por parte da autora do ensaio, gostaria de lançar algumas ideias para refletirmos sobre este tema de grande importância na nossa vida. 


Não me proponho dar argumentos filosóficos. Proponho que pensemos sobre esta pergunta e em como dialogar sobre ela com pessoas amigas. Também com aquelas que se dizem ateias ou agnósticas. 


O tema não admite argumentos simplórios. A fé é suficientemente obscura para que a nossa decisão de acreditar seja completamente livre, e é suficientemente clara para que essa decisão seja profundamente razoável. 


Esse claro-escuro presente nesta pergunta faz com que as respostas a este tema não sejam similares a uma demonstração matemática. 


Todos necessitamos reflectir sobre Deus para encontrar um sentido para a nossa vida. A pergunta pela existência de Deus é a mais radical que podemos fazer e aquela que terá maior influência no nosso modo de actuar nesta existência terrena, que todos sabemos ser finita. 


Porque esta pergunta está intimamente relacionada com os grandes enigmas que encontramos na vida. De onde venho? Para onde vou? Porque existe a morte? Porque existe o mal? Qual o caminho para encontrar a felicidade? Que há para além da morte? 


Nenhuma destas perguntas possui uma resposta científica, porque não são perguntas científicas. São as mesmas perguntas de há muitos anos para cá. Desde que o ser humano teve tempo para reflectir. Já Aristóteles afirmava há 2300 anos: “A religião é uma constante na história dos povos porque pertence à própria essência do homem”. 


Mas, podemos dizer que existem “caminhos” de acesso ao conhecimento de Deus (independentes da fé na Revelação judaico-cristã) que nos mostram que acreditar, sem ser evidente, é algo profundamente razoável? 


Sim, existem. E têm como ponto de partida a criação: o mundo material que nos rodeia e o mundo interior que “ferve” dentro de cada um de nós. 


De um modo telegráfico podemos dizer que a partir do movimento e do devir, da contingência, da ordem e da beleza do mundo material, podemos chegar ao conhecimento indireto de um Ser Supremo que é origem e fim do Universo. 


Também a partir da nossa abertura interior à verdade e à beleza, com o sentido do bem moral que todos possuímos, com a liberdade e a voz da nossa consciência, com as ânsias que temos de infinito e de felicidade, detectamos sinais da existência dessa alma espiritual, gérmen de eternidade, que trazemos connosco e que, por muitos motivos, é irredutível à matéria. 



Tanto o mundo que nos rodeia como o nosso mundo interior dão testemunho de que não temos em nós mesmos o primeiro princípio nem o fim último, mas participamos do Ser-em-si que não possui princípio nem fim e a quem os homens, desde tempos imemoriais, chamaram Deus. 


Logo: é profundamente razoável acreditar na existência de Deus.


Pe. Rodrigo Lynce de Faria

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Respirar?

O Papa Francisco tem dedicado as últimas audiências a falar da oração. Vai na trigésima primeira intervenção temática e prometeu continuar. Tem abordado o tema sob muitos pontos de vista, alguns originais.


— «Meditar é uma necessidade de todos. Meditar, por assim dizer, assemelha-se a parar e a dar um respiro à vida» (28-IV-2021).


Todos concordarão que respirar é importante. O que faz pensar é o que o Papa se distancie um pouco deste objectivo tão consensual:


— «No entanto, quando é aceite no contexto cristão, a palavra meditação assume uma especificidade que não deve ser posta de parte».


Alguns destes aspectos peculiares da oração cristã são de tal maneira próprios que não são partilhados por mais nenhuma religião. Na última quarta-feira, o Papa referiu um destes elementos centrais:


— «O cristão entra na meditação pela porta de Jesus Cristo».


Quem participa na Eucaristia ou assiste a alguma cerimónia litúrgica terá reparado que todas as orações ditas pelo celebrante se dirigem a Deus Pai ou ao Espírito Santo. E todas são ditas em nome de Jesus Cristo. Isto significa que o cristão que reza toma o lugar de Cristo ao falar com Deus Pai ou com o Espírito Santo e é por essa identificação que se atreve a interpelar Deus com toda a confiança.


O primeiro passo para rezar de maneira cristã é tomar consciência daquilo que a Igreja chama a nossa «filiação divina», que não é uma dignidade comum a todas as criaturas. O Baptismo transforma-nos em Jesus Cristo e, portanto, em filhos de Deus, tal como Cristo é Filho de Deus Pai. Há uma diferença, claro, mas há sobretudo uma verdade que ultrapassa tudo o que a humanidade poderia alguma vez imaginar: pelo Baptismo, participamos realmente da divindade de Cristo. Não da divindade de Deus Pai ou do Espírito Santo: somos configurados com Cristo, levantados acima da nossa natureza de meras criaturas e tornamo-nos participantes da filiação divina de Jesus.


É este o sentido, por exemplo, deste texto de S. Pedro: «O divino poder [de Cristo] (...) alcançou-nos os preciosos e maiores bens prometidos, para que chegásseis a ser participantes da natureza divina» (II Pe 1, 3-4).


A partir da consciência da nossa filiação divina, a tarefa muda completamente de feição, porque meditar já não é introspecção, mas encontrar-se com Cristo:


— «Quando o cristão reza, não aspira à plena transparência de si, não procura o núcleo mais profundo do seu eu. (...) A oração do cristão é, antes de mais, um encontro com o Outro, com “O” maiúsculo, o encontro transcendente com Deus».


O Papa citou diversas vezes o Catecismo para insistir neste ponto. «o importante é avançar, com o Espírito Santo, no caminho único da oração: Cristo Jesus» (Catecismo da Igreja Católica, 2707).


Outro elemento específico da oração cristã consiste na intensidade do empenho, porque «é um acto total da pessoa: não reza apenas a mente, reza o homem todo, a totalidade da pessoa, assim como não reza só o sentimento. O Catecismo especifica: “A meditação põe em acção o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo”» — diz o Papa.


Afinal, há aqui um paradoxo porque, quando desistimos de nos buscar a nós próprios e procuramos Deus com todas as forças, descobrimos quem somos. Disse-o o Papa nesta quarta-feira: «Para nós cristãos, meditar é um modo de encontrar Jesus. E assim, só assim, de nos encontrarmos a nós mesmos. (...) Nele, encontramo-nos a nós mesmos».

José Maria C.S. André