Reza diante da imagem de Nossa Senhora de la Merced, em Barcelona. Anos mais tarde dirá: “Pouco a pouco vai-se cumprindo o que tanto desejava naqueles anos quarenta, quando ia ajoelhar-me aos pés da Virgem na Basílica de la Merced e não poucas vezes também ante a imagem de Nossa Senhora de Montserrat, na sua Santa Montanha; quando falava então aos meus filhos dessa amadíssima cidade e lhes recordava as palavras de S. João: veritas liberavit vos (Jo 8, 32), a verdade far-vos-á livres”.
Obrigado, Perdão Ajuda-me
As minhas capacidades estão fortemente diminuídas com lapsos de memória e confusão mental. Esta é certamente a vontade do Senhor a Quem eu tudo ofereço. A vós que me leiam rogo orações por todos e por tudo o que eu amo. Bem-haja!
domingo, 22 de outubro de 2017
Bom Domingo do Senhor!
Tenhamos sempre a humildade de saber que nunca seremos capazes de O surpreender como arrogantemente pensaram os fariseus e os herodianos de que nos fala o Evangelho de hoje (Mt 22, 15-21). Jesus Cristo Nosso Senhor a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, sendo Deus tudo sabe e tudo conhece e portanto só um soberbo com uma visão estritamente terrena poderá pensar que O apanha desprevenido.
Louvado seja Jesus Cristo Nosso Senhor!
«Inside information» (acesso a informação qualificada)
Uma esplêndida celebração dos
100 anos do milagre de Fátima foi a iniciativa de Bernardo Motta e da editora
Principia de publicarem uma centena e meia de testemunhos de pessoas que
assistiram ao milagre do sol, em Fátima, no dia 13 de Outubro de 1917. Estes e muitos
outros documentos estão disponíveis em colecções mais completas, mas essas
edições são tão extensas que o público tem dificuldade em as consultar e ocupam
tantos volumes que não cabem na prateleira lá de casa.
Sem ser exaustivo, o livro de
Bernardo Motta é uma síntese essencial sobre o milagre de 13 de Outubro. Não
trata propriamente da mensagem nem das aparições, apenas do milagre. Depois de
uma pequena introdução, interessante, sucedem-se os textos: cartas à família, descrições
de académicos, textos de ortografia rudimentar, depoimentos de crentes e de
cépticos, de jornalistas profissionais e de gente muito simples.
Provavelmente, quem lê esta
centena e meia de relatos fica melhor informado que as próprias testemunhas
oculares, porque cada uma tinha o seu ponto de vista, de local e de
circunstâncias, e a imagem global é ainda mais rica e completa que todas as
histórias pessoais. Algures na introdução, Bernardo Motta diz que quem quiser
saber algo sobre o assunto tem de partir da experiência de quem lá esteve e viu.
Este ponto, parece-me essencial.
As estimativas avaliam a
multidão em várias dezenas de milhares. As fotografias do judeu Judah Ruah (na
altura, a fotografia era uma técnica sofisticada, reservada a poucos) mostram
uma massa humana que se estende até onde a fotografia consegue alcançar. Como
se sabe, além do público que estava em Fátima, o milagre foi observado por
algumas outras pessoas, dispersas num raio de uns 50 quilómetros.
Os pormenores das descrições são
variados, mas os factos principais são claros. Com meses de antecedência, três
crianças deram a notícia de que Nossa Senhora lhes tinha aparecido. Em Julho,
disseram que Nossa Senhora lhes tinha prometido um milagre para o dia 13 de
Outubro. Ninguém imaginou o que poderia ser, apenas que seria uma intervenção patente
de Deus. No dia 13, chovia intensamente, o terreno estava enlameado e coberto
de água. Por volta do meio-dia, uma das crianças pede ao povo que ajoelhe e
feche os guarda-chuvas, o milagre está iminente. Corre a mensagem pela multidão
e muitos ajoelham e fecham os guarda-chuvas; outros, mais prudentes, preferem
manter-se abrigados e não se sujar na lama. Então, de repente, durante uns 8 a
10 minutos, vê-se o sol como um prato luminoso, que se pode fitar sem incómodo,
mudar de cor, rodar no espaço, aproximar-se da Terra acompanhado por uma
sensação de calor mais intenso. A luz não cegava, mas a radiação era forte,
como se o Sol estivesse mais perto da Terra. Três vezes, elevou-se uma pequena
coluna de nuvens do local onde estavam as três crianças, mas nada ardeu nem se
formaram nuvens noutros locais. Ninguém da multidão viu Nossa Senhora, ou S.
José, ou o Menino Jesus. No final, o sol voltou ao normal; os fatos que estavam
encharcados ficaram secos e quem se ajoelhou na lama levantou-se com o fato
limpo. É curioso que certas pessoas que preferiram não fechar o guarda-chuva e não
ajoelhar, no fim estavam ensopadas e salpicadas de lama.
Só encontro umas mil
explicações para o que aconteceu. Pode ter sido uma nuvem de insectos que tapou
o sol a grande altura e reflectiu a sua luz às cores, em direcções variadas;
pode ter sido uma conjunção de massas de ar quente e de massas de ar frio que
formaram lentes de dimensão atmosférica e misturaram diversos arco-íris num
baile alucinante de luz. Pode ter sido de várias maneiras, mas eu só consigo
imaginar umas mil alternativas de explicação.
O que também é verdade é que
nada disto acontece habitualmente. E ninguém consegue prever tais coincidências
meteorológicas ou bio-meteorológicas, muito menos crianças iletradas. Menos ainda,
alguém prevê uma coisa destas com meses de antecedência e anuncia o momento em
que o espectáculo vai agora começar, sem haver um indício.
Para mim, é evidente que as crianças tiveram acesso a
informação qualificada. Aliás, elas não o esconderam. Reconhecem que não foi
dedução científica, foi simplesmente Nossa Senhora que lhe disse que aquilo ia
acontecer.
José Maria C.S. André
22-X-2017
Spe Deus
«Resplandeça sobre nós, Senhor, a luz da tua face!» (Sl 4,7)
Santo António de Lisboa (c. 1195-1231), franciscano, doutor da Igreja
Sermões para o Domingo e as festas dos santos
Sermões para o Domingo e as festas dos santos
Do mesmo modo que essa moeda tem a imagem de César, também a nossa alma é feita à imagem da Santíssima Trindade, como diz o salmo: «Resplandeça sobre nós, Senhor, a luz da tua face!» (Sl 4,7). […] Senhor, a luz da tua face, isto é, a luz da tua graça, que estabelece em nós a tua imagem e nos torna semelhantes a Ti, está impressa em nós, ou seja, está impressa na nossa razão, que é a potência mais elevada da nossa alma, e recebe essa luz como a cera recebe a marca de um sinete. A face de Deus é a nossa razão; pois, da mesma maneira que conhecemos cada um pela sua face, assim conhecemos a Deus pelo espelho da razão. Mas essa razão foi deformada pelo pecado do homem, pois o pecado torna o homem oposto a Deus. A graça de Cristo reparou a nossa razão. É por isso que o apóstolo Paulo diz aos Efésios: «Renovai o vosso espírito» (cf 4,23). O tema da luz, mencionado neste salmo, é, pois, a graça que restaura a imagem de Deus, impressa na nossa natureza. […]
Toda a Trindade marcou o homem à sua semelhança: pela memória, ele parece-se com o Pai; pela inteligência, parece-se com o Filho; pelo amor parece-se com o Espírito Santo. […] Quando foi criado, o homem foi feito «à imagem e semelhança de Deus» (Gn 1,26): sua imagem no conhecimento da verdade; sua semelhança no amor à virtude. A luz da face de Deus é, pois, a graça que nos justifica e revela de novo a imagem criada. Essa luz constitui todo o bem do homem, o seu verdadeiro bem; ela marca-o, tal como a imagem do imperador marca a moeda de prata. Por isso o Senhor acrescenta: «Dai a César o que é de César.» Como se dissesse: da mesma forma que atribuís a César a sua imagem dai também a Deus a vossa alma, ornada e marcada pela luz da sua face.
Toda a Trindade marcou o homem à sua semelhança: pela memória, ele parece-se com o Pai; pela inteligência, parece-se com o Filho; pelo amor parece-se com o Espírito Santo. […] Quando foi criado, o homem foi feito «à imagem e semelhança de Deus» (Gn 1,26): sua imagem no conhecimento da verdade; sua semelhança no amor à virtude. A luz da face de Deus é, pois, a graça que nos justifica e revela de novo a imagem criada. Essa luz constitui todo o bem do homem, o seu verdadeiro bem; ela marca-o, tal como a imagem do imperador marca a moeda de prata. Por isso o Senhor acrescenta: «Dai a César o que é de César.» Como se dissesse: da mesma forma que atribuís a César a sua imagem dai também a Deus a vossa alma, ornada e marcada pela luz da sua face.
sábado, 21 de outubro de 2017
O inferno passou por aqui!
Não basta que um governante não roube, nem mate, porque também por omissão pode faltar gravemente aos seus deveres, se não fizer o que devia ter feito.
Um jornalista perguntou uma vez ao cardeal Lustiger, já falecido, se acreditava na condenação eterna. O então arcebispo de Paris respondeu afirmativamente, como era de esperar de um católico coerente, mas depois, surpreendentemente, explicou que acreditava no inferno porque já o tinha visto! Perplexo, o entrevistador perguntou-lhe onde o vira, ao que o prelado, de origem judia, respondeu: Em Auschwitz, Treblinka, Dachau, etc. Se fosse hoje, o cardeal parisiense poderia acrescentar mais alguns lugares, como Pedrógão Grande, Mação e todas as outras povoações portuguesas que foram pasto das chamas nestes últimos meses.
Depois da tragédia de Pedrógão, todos pensámos: Nunca mais! Não todos, a bem dizer: o primeiro-ministro disse que os fogos iriam continuar, a então ministra da administração interna, a quem corresponde a tutela dessa área da governação, aconselhou resiliência às populações e um seu secretário de Estado até se deu ao luxo de recomendar aos cidadãos uma atitude mais pró-activa… Ante esta indiferença e conformismo governativo, não é muito de espantar que, num só dia, tenha deflagrado meio milhar de incêndios, que causaram a morte a mais de quatro dezenas de pessoas indefesas, destruíram por completo os bens de muitas famílias, dizimaram várias povoações e consumiram extensas zonas de vegetação. Em menos de meio ano, há já mais de uma centena de vidas humanas a lamentar, por manifesta negligência das autoridades, cuja incompetência é apenas comparável à sua descoordenação técnica e ineficácia operacional, não obstante os heroicos esforços dos bombeiros e das populações.
Um atentado terrorista, ou um terramoto, não são previsíveis; um furacão, ou um tsunami, só podem ser detectados com algumas horas de antecedência; mas estes incêndios ocorreram precisamente na época em que todos os anos, infelizmente, acontecem e por isso, mais do que previsíveis, eram certos, se nada se fizesse para os evitar ou extinguir. Também se soube, com antecipação, que este mês de Outubro iria ser excepcionalmente quente, pelo que ninguém – muito menos o governo ou a protecção civil – pode agora alegar qualquer imprevisibilidade, nem o desconhecimento, ou a excepcionalidade, das circunstâncias meteorológicas, aliás comuns a outros países.
Ante a manifesta incompetência do executivo, sempre muito atento às sondagens sobre a sua popularidade, mas alheado das desgraças que afligem o país, o chefe de Estado protagonizou, pelo contrário, uma atitude notável. Não só cancelou todos os seus compromissos protocolares, como se pôs a caminho das zonas mais afectadas, para prestar às populações, ainda em estado de choque e justamente indignadas, um apoio de que urgentemente careciam. Talvez alguns possam pensar que essa manifestação de afecto pelas vítimas dos incêndios é meramente sentimental, mas a verdade é que o presidente da República se expôs a ser incompreendido pelos que tanto sofreram pela incúria do Estado de que ele é, afinal, o máximo representante. Coragem que, ao que parece, faltou ao primeiro-ministro, à demissionária ministra da administração interna ou aos seus secretários de Estado …
Mas o presidente da República não se ficou por uma atitude meramente afectiva: fazendo uso das suas prerrogativas constitucionais, falou à nação; responsabilizou o governo, ao qual exigiu um pedido de desculpas pela sua indesculpável negligência; e comprometeu o parlamento na urgência de uma solução, que seja uma resposta célere e eficaz a esta tragédia. Em termos pessoais e institucionais, o chefe de Estado não podia ter feito mais e, por isso, merece o reconhecimento nacional por este inestimável serviço que prestou a Portugal.
Não é por acaso que, na Bíblia, a condenação eterna é muitas vezes representada pelo flagelo do fogo. Na pregação de Jesus Cristo, é recorrente a comparação do inferno com a geena, a lixeira de Jerusalém onde os detritos eram queimados (cf. Mt 5, 29-30; 10, 28). Tomás de Aquino afirma que a imagem do fogo pode não ser meramente simbólica, na medida em que traduz de forma realista o imenso sofrimento dos condenados.
É significativo que, na parábola do juízo final (Mt 25, 31-46), não são os assassinos, os idólatras, os adúlteros, os avarentos ou os ladrões que são excluídos do céu. Quem são, então, os condenados ao inferno?! Não são os que fizeram o mal, mas os que não fizeram o bem que podiam e deviam ter feito: os que não deram de comer nem de beber aos famintos e sedentos; os que não receberam os peregrinos; os que não vestiram os nus; os que não visitaram os presos, nem os doentes. Não se condenaram pelo mal que praticaram, mas pelo bem a que estavam obrigados e que omitiram.
Foi agora tornada pública a acusação contra o anterior primeiro-ministro socialista, por mais de trinta crimes alegadamente cometidos no exercício das suas funções. Quero crer que o actual chefe do governo não incorre nas supostas culpas daquele seu predecessor e correligionário, de quem foi, por ironia do destino, ministro da administração interna. Mas não basta que um governante não roube, nem seja corrupto: também pode faltar gravemente aos seus deveres públicos por omissão do que devia ter feito e não fez. Se uma tal negligência for responsável pelas mais de cem vítimas mortais já verificadas, é certamente criminosa.
Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada in Observador
(seleção de imagem 'Spe Deus')
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