Pureza

Pureza
Rezemos pela pureza de todos os que se encontram ao serviço de Jesus Cristo e da Sua Igreja, para que livres do pecado sejam bons filhos de Deus
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domingo, 15 de dezembro de 2019

«Tomai ânimo, não temais! Eis o vosso Deus, [que] vem em pessoa retribuir-vos e salvar-vos» (Is 35,4)

Santa Gertrudes de Helfta (1256-1301), monja beneditina 
Exercícios, n°3; SC 127


Voz da alma que se oferece a Deus: «Sou uma órfã sem mãe, sou indigente e pobre. Sem Jesus, não tenho nenhuma consolação; só Ele pode satisfazer a sede da minha alma. Ele é o amigo preferido e único do meu coração, “o Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Ap 19,16). […] O meu corpo e a minha alma estão na sua mão; que Ele faça de mim tudo o que agradar à sua bondade. Quem me concederá tornar-me um ser segundo o seu coração, para que Ele encontre em mim o que desejar, segundo a excelência do seu gosto? Só isso poderá alegrar-me e consolar-me.

«Por favor, Jesus, único amor do meu coração […], amado acima de tudo o que alguma vez foi amado: o desejo do meu coração enlanguesce e suspira por Ti, Tu, que és um dia de Primavera cheio de vida e de flores. Faz chegar esse dia em que eu esteja tão estreitamente unida a Ti que Tu, Sol Verdadeiro, faças nascer as flores e os frutos do meu progresso espiritual. “Espero-te com grande impaciência” (Sl 39,2). […] Por favor, amigo, meu amigo, faz com que se realize o teu desejo e o meu.»

Voz de Cristo: «No meu Espírito Santo, tomar-te-ei como esposa; ligar-te-ei a Mim com uma união inseparável. Sentar-te-ás à minha mesa e encher-te-ei com a ternura do meu amor. Vestir-te-ei com o nobre manto púrpura do meu precioso sangue; coroar-te-ei com o ouro puro da minha morte. Eu próprio satisfarei o teu desejo e assim tornar-te-ei feliz para toda a eternidade.»

domingo, 1 de dezembro de 2019

Bom Domingo do Senhor!

Vigiemos e esperemos a vinda do Senhor de que Ele nos fala no Evangelho de hoje (Mt 24, 37-44). Façamos da nossa espera um hino de alegria pelo mundo que há-de vir.

Anunciamos a Vossa morte, proclamamos a Vossa Ressurreição, vinde Senhor Jesus!

«Velai, pois, orando continuamente, [...] para aparecerdes firmes diante do Filho do Homem»

Santo Aelredo de Rievaulx (1110-1167), monge cisterciense
Sermão para o Advento do Senhor (PL 195, 363; PL 184, 818)

Este tempo do Advento representa as duas vindas do Senhor; em primeiro lugar, a dulcíssima vinda do «mais belo dos filhos dos homens» (Sl 45 (44), 3), do «Desejado de todos os povos» (Ag 2, 8 [Vulgata]), do Filho de Deus que manifestou ao mundo, na carne, visivelmente, a Sua presença, de há muito esperada e desejada ardentemente por todos os Patriarcas — a vinda que O trouxe a este mundo para salvar os pecadores. Mas este tempo relembra-nos também a vinda que aguardamos com uma esperança firme e da qual devemos todos os dias relembrar-nos com lágrimas: aquela que terá lugar quando o próprio Senhor Se manifestar na Sua glória, ou seja, no dia do Juízo, quando ele Se manifestar para julgar. A Sua primeira vinda foi conhecida por muito poucos homens; na segunda, manifestar-Se-á aos justos e aos pecadores como o anuncia o profeta: «E toda a gente há-de ver a salvação de Deus» (Is 40, 5; Lc 3, 6). [...]

Assim, irmãos caríssimos, sigamos o exemplo dos Patriarcas, reavivemos o seu desejo e inflamemos as nossas almas com o amor e o anseio de Cristo. Bem sabeis que a celebração deste tempo foi instituída para renovar em nós este desejo que os antigos tinham pela vinda do Senhor e para que, seguindo o seu exemplo, possamos nós também suspirar pelo Seu regresso. Consideremos todo o bem que o Senhor nos alcançou com a Sua primeira vinda — quanto maiores bens nos alcançará Ele quando regressar! Com este pensamento teremos ainda maior estima pela Sua vinda passada e um maior desejo pelo Seu regresso!

Se quisermos a paz quando Ele vier, esforcemo-nos por acolher com fé e amor a Sua vinda passada; demoremo-nos fielmente nas obras que então nos manifestou e nos ensinou; nutramo-nos, do coração, do amor de Cristo e, por ele, do Seu desejo, para que, logo que chegue o Senhor, o Desejado de todos os povos, possamos levantar os olhos para Ele com toda a confiança.

domingo, 24 de novembro de 2019

«Pilatos disse: "Aqui está o vosso Rei"» (Jo 19,14)

São Gregório de Nissa (c. 335-395), monge e bispo
5.º Sermão da Santa Páscoa (PG 46, 683; Leccionário, p. 367 rev.)

Bendito seja Deus! Festejemos o Filho único, o Criador dos céus, que lá ascendeu após ter descido às profundezas do inferno, e que envolve a terra inteira com os raios da Sua luz. Festejemos o sepultamento do Filho único e a Sua Ressurreição de vencedor, o júbilo do mundo inteiro e a vida de todos os povos. [...]

Tudo isto nos foi obtido assim que o Criador ressurgiu dos mortos, ao rejeitar a ignomínia e transformando, no Seu esplendor divino, o perecível em imperecível. E qual foi a ignomínia rejeitada? Isaías dá-nos a resposta: «Sem figura nem beleza, vimo-Lo sem aspecto atraente, desprezado e abandonado pelos homens» (53, 2-3). E quando ficou Ele sem a Sua glória? Quando carregou aos ombros a madeira da cruz como troféu da Sua vitória sobre o diabo. Assim que Lhe foi posta na cabeça uma coroa de espinhos, a Ele, que coroa os Seus fiéis. Assim que foi revestido de púrpura Aquele que reveste de imortalidade os que renascem da água e do Espírito Santo. Assim que pregaram à madeira o Senhor da vida e da morte. [...]

Aquele, porém, que ficou sem a Sua glória foi transfigurado na luz, e o júbilo do mundo despertou com o Seu corpo. [...] «O Senhor é Rei, vestido de majestade» (Sl 93 (92), 1). De que majestade Se vestiu Ele? De incorruptibilidade, de imortalidade, do chamamento dos Apóstolos, da coroa da Igreja. [...] São Paulo é disso testemunho, ao dizer: «É, de facto, necessário que este ser mortal se revista de imortalidade» (1Cor 15, 53). E o salmista diz também: «O Teu trono, Senhor, está firme desde sempre, e Tu existes desde a eternidade; o Teu reino é um reino para toda a eternidade, e o Teu domínio estende-se por todas as gerações» (Sl 93 (92), 2; 145 (144), 13). E ainda: «O Senhor é Rei: alegre-se a terra e rejubile a multidão das ilhas!» (Sl 97 (96), 1). A Ele a glória e o poder, amen!

domingo, 10 de novembro de 2019

«Ele não é um Deus dos mortos, mas dos vivos»

Teodoro de Mopsuesto (?-428), bispo e teólogo
Comentário sobre o evangelho de João, livro 2


O fundamento da nossa presente condição é Adão; mas o da nossa vida futura é Cristo, nosso Senhor. Tal como Adão foi o primeiro homem mortal e depois, por causa dele, todos os homens se tornaram mortais, assim também Cristo foi o primeiro ressuscitado dos mortos e concedeu o gérmen da ressurreição aos que viriam depois dele. Vimos a esta vida visível através do nascimento corporal e é por isso que somos todos perecíveis; mas, na vida futura, seremos transformados pelo poder do Espírito Santo e, por isso, ressuscitaremos imperecíveis.

Isto só se realizará quando este gérmen de vida se desenvolver; mas, desde agora, Cristo, nosso Senhor, quis transportar-nos a essa altura duma maneira simbólica dando-nos o batismo, esse novo nascimento em Si próprio. Este nascimento espiritual é já a prefiguração da ressurreição e da regeneração que devem realizar-se plenamente em nós quando passarmos para essa nova vida. É por isso que o batismo é chamado também regeneração.

Quando o apóstolo Paulo fala da vida futura, quer dar segurança aos seus ouvintes através destas palavras: «Não só ela [a criação]; também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos no nosso íntimo, aguardando a adopção filial, a libertação do nosso corpo» (Rom 8,23). Pois, se recebemos desde agora as primícias da graça, esperamos acolhê-la em plenitude quando nos for dada a felicidade da ressurreição.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

«Grandes sinais no céu»

São Cirilo de Jerusalém (313-350), bispo de Jerusalém, doutor da Igreja 
Catequeses baptismais, nº 15


O Senhor virá dos céus sobre as nuvens, Ele que para lá subiu sobre as nuvens (cf Act 1,9). Com efeito foi Ele que disse: «Verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu, com grande poder e glória» (Mt 24,30). Mas qual será o verdadeiro sinal da sua vinda, para que as potências inimigas não ousem enganar-nos, simulando-a? «Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem» (Mt 24,30). O sinal verídico e próprio de Cristo é a cruz. O sinal de uma cruz luminosa precede o rei, designando Aquele que anteriormente foi crucificado a fim de que, ao vê-Lo, aqueles que antes O tinham trespassado com cravos e cercado de armadilhas batam no peito: «contemplarão aquele a quem trespassaram; chorarão por Ele como se chora um filho único e lamentá-lo-ão como se lamenta um primogénito» (cf Zac 12,10). […] E dirão: «Escondei-nos da face daquele que está sentado no trono e da cólera do Cordeiro» (cf Ap 6,16). E, cercados de exércitos de anjos, em nenhum lado encontrarão refúgio.

Para os inimigos da cruz, o temor será o sinal. Mas será a alegria para os seus amigos que creram na cruz ou a pregaram ou sofreram por ela. Quem, portanto, terá a felicidade de ser considerado dos amigos de Cristo? Ele não desdenhará dos seus servos, esse rei glorioso, rodeado e guardado por anjos e que Se senta no mesmo trono do Pai (cf Ap 3,21). Pois, para que os eleitos não sejam confundidos com os inimigos, «Ele enviará os seus anjos, com uma trombeta altissonante, para reunir os seus eleitos dos quatro ventos» (Mt 24,31). Ele, que não esqueceu Lot no seu isolamento (cf Gn 19,15; Lc 17,28), como poderia esquecer-Se da multidão dos justos? «Vinde, benditos de meu Pai» (Mt 25,34), dirá Ele àqueles que serão transportados em carros sobre as nuvens e que os anjos terão reunido.

domingo, 3 de novembro de 2019

«Hoje veio a salvação a esta casa»

Recebamos Cristo na Eucaristia como o fez Zaqueu, o bom publicano [...], que se apressou a descer da árvore e, cheio de alegria, acolheu Jesus em sua casa. Mas não se contentou em acolhê-lO com uma alegria efémera, fruto de uma ligação superficial [...]: deu provas disso através de obras virtuosas. Comprometeu-se a indemnizar de imediato todos aqueles que defraudara, e não apenas no valor roubado, mas no quádruplo; além disso, comprometeu-se também a dar aos pobres metade de todos os seus bens – e imediatamente, note-se, sem esperar pelo dia seguinte. [...]

Que nosso Senhor nos conceda a graça de receber o Seu santíssimo corpo e sangue, a Sua alma bendita e a Sua divindade todo-poderosa, tanto na nossa alma como no nosso corpo, com o mesmo ardor, a mesma espontaneidade, a mesma felicidade, a mesma alegria espiritual que teve aquele homem ao recebê-lO em sua casa. E que o fruto das nossas boas obras possa dar testemunho de que O recebemos condignamente, com aquela fé total e o firme propósito de bem viver que se impõem aos que comungam. Então Deus [...] dirá sobre a nossa alma o que disse outrora sobre a de Zaqueu: «Hoje veio a salvação a esta casa».

São Tomás Moro (1478-1535), estadista inglês, mártir
Tratado «Receber o corpo de Nosso Senhor»

domingo, 27 de outubro de 2019

«Dois homens subiram ao templo para orar»

Jean Tauler (c. 1300-1361), dominicano em Estrasburgo 

Sermão 48, para o 11º domingo depois da Trindade

Estes dois homens subiram ao Templo. O Templo é o amoroso fundo interior da nossa alma, no qual a Santíssima Trindade vive tão cheia de amor, trabalha tão nobremente, no qual depositou tão generosamente todo o Seu tesouro, onde Se compraz e Se alegra no gozo da Sua nobre imagem e semelhança (cf. Gn 1,26). Ninguém pode exprimir de maneira perfeita a nobreza e a alta dignidade desse Templo; é nele que temos de entrar para orar. E, para que a oração seja bem feita, tem de haver dois homens a subir [...], o homem exterior e o homem interior. A oração que faz o homem exterior de pouco ou nada serve sem o homem interior. Para avançar, realmente, no caminho da oração verdadeira e bem feita, nada é de maior ajuda e maior utilidade que o precioso corpo eucarístico de Nosso Senhor Jesus Cristo. [...] Meus queridos filhos, deveis sentir-vos extraordinariamente reconhecidos por essa grande graça vos ser agora dada mais frequentemente que antes, e deveis preferi-la a qualquer outro auxílio. [...]

Portanto, um dos dois homens era um fariseu e o Evangelho diz-nos o que lhe aconteceu. O outro era um publicano que se mantinha afastado e, sem ousar levantar os olhos para o céu, dizia: «Ó Deus tem piedade de mim, que sou pecador»; para este, a oração terminou de modo feliz. Na verdade, gostaria de agir como ele e ter sempre em consideração a minha pequenez. Seria, absolutamente, a via mais nobre e útil que poderíamos seguir. Esse caminho traz Deus ao homem, sem cessar e sem intermediários, pois, onde Deus chega com a Sua misericórdia, chega com todo o Seu ser, chega Ele mesmo.

Ora, acontece que os sentimentos desse publicano entram na alma de algumas pessoas que então, conscientes dos seus pecados, querem fugir de Deus e do Santíssimo Sacramento, dizendo que não ousam aproximar-se dele. Não, meus queridos filhos, deveis, pelo contrário, ir com muito mais vontade à comunhão, para serdes perdoados das vossas faltas e dizerdes: «Vem, Senhor, vem depressa, antes que a minha alma morra em pecado; é necessário que venhas rapidamente, antes que ela morra de todo» (cf Jo 4,49).

domingo, 20 de outubro de 2019

«É preciso orar sempre sem desfalecer»

São João Cassiano (c. 360-435), fundador de mosteiro em Marselha 
Conferências, n°9; SC 34


O objectivo último do monge e a perfeição do coração consistem numa perseverança ininterrupta na oração. Tanto quanto é dado à fragilidade humana, trata-se de um esforço em direcção a uma absoluta tranquilidade da alma e a uma perfeita pureza de coração. É por esta razão que devemos afrontar os trabalhos corporais e procurar por todos os meios a verdadeira contrição do coração, com uma constância que não desfaleça.

Para ter o fervor e a pureza que deve ter, a oração exige uma fidelidade total no que respeita aos seguintes aspectos. Em primeiro lugar, uma libertação completa de todas as inquietações relacionadas com este mundo; não pode haver assunto algum ou qualquer interesse que não deva ser totalmente excluído. Do mesmo modo, renunciar à maledicência, à coscuvilhice, à palavra vã e à zombaria. Acima de tudo, suprimir definitivamente as perturbações da cólera e da tristeza. Fazer morrer em si todo o desejo carnal e o apego ao dinheiro. […] Após esta purificação, que assegura a pureza e a simplicidade, há que lançar o fundamento inquebrantável de uma humildade profunda, capaz de sustentar a torre espiritual que se pretende que chegue ao céu. Por fim, para que sobre ela repouse o edifício espiritual das virtudes, é preciso proibir à alma toda a dispersão em divagações e pensamentos fúteis. Então, um coração purificado e livre começa pouco a pouco a elevar-se até à contemplação de Deus e à intuição das realidades espirituais.

domingo, 13 de outubro de 2019

«Caiu aos pés de Jesus com a face em terra e agradeceu-Lhe»

Santa Faustina Kowalska (1905-1938), religiosa
Diário da alma, § 1286, Fátima, Marianos da Imaculada Conceição, 2003, rev.

Graças, meu Deus, por todo o dom e amor
Com que incessantemente me cumulais,
Que me iluminam, como o sol o fulgor,
E por eles o caminho certo me indicais.

Graças Vos dou por me haverdes criado, Senhor,
Por do nada à vida me terdes chamado,
E em minh’alma vossas marcas assinalado,
E tudo trabalho apenas de puro amor.

Graças a Vós, meu Deus, pelo baptismo santo,
Que dentro da família de Deus me enforma,
É graça inconcebível e dom tanto,
Inexprimível, que nossas almas transforma.

Graças Vos dou, Senhor, pela santa confissão,
Pelas fontes de misericórdia inesgotáveis,
Pelas graças em inefável profusão,
Em que as almas, de impuras, se tornam impecáveis.

Graças Vos dou, Jesus, pela sagrada comunhão,
Em que Vós mesmo, alimento, a nós Vos dais;
Como pulsa em meu peito o vosso coração,
Pois que em mim a divina vida aumentais.

Graças, Santo Espírito, pelo crisma, sacramento
Que me arma como vosso cavaleiro,
Dá à alma força para todo o momento,
E me defende e protege do mal inteiro. […]

Graças, Senhor, pelo sacramento da unção,
Que me há-de fortificar nesse último instante,
Para a luta e há-de ajudar à salvação,
A alma fortalecendo na bem-aventurança constante.

Graças, meu Deus, por todas as inspirações
Com que vossa bondade me quer encher,
Por essas interiores iluminações
Que o coração sente, mas não se podem dizer.

Graças, Santíssima Trindade, pelos dons sem conta
Com que me cumulastes a vida sem cessar,
Cresce a gratidão, o fulgor eterno desponta,
Quando a vossa glória pela primeira vez eu cantar.

domingo, 6 de outubro de 2019

A fé dos servos humildes, da serva humilde

Jean-Pierre de Caussade (1675-1751), jesuíta 
Abandono à providência divina, cap. 9, 122


Encontrar Deus tanto nas coisas mais simples e insignificantes como nas maiores é ter uma fé fora do comum, grande e extraordinária. Contentar-se com o momento presente é saborear e adorar a vontade divina em tudo o que se tiver de sofrer ou de fazer, naquilo que compõe o momento presente nas suas sucessões. Graças à vivacidade da sua fé, estas almas simples adoram a Deus igualmente nos estados mais humildes; nada derruba a sua fé, […] nada as espanta, nada as desgosta.

Maria verá fugir os apóstolos, mas manter-se-á firme aos pés da cruz e reconhecerá o seu Filho, mesmo desfigurado pelos escarros e pelas chagas. […] A vida da fé mais não é que seguir a Deus através daquilo que O disfarça, O desfigura, O destrói e, por assim dizer, O aniquila. Eis a vida de Maria, do estábulo ao Calvário: ser fiel a um Deus que todos desconhecem, abandonam e perseguem. De igual modo, as almas de fé atravessam uma sucessão contínua de mortes, de véus, de sombras e de aparências que tornam irreconhecível a vontade de Deus; e seguem-na e amam-na até à morte de cruz, e sabem que há que deixar passar as sombras e correr atrás deste Sol divino. Da aurora ao poente, por mais escuras e espessas que sejam as nuvens que O escondem, este Sol ilumina, aquece e inflama os corações fiéis que O bendizem, O louvam, O contemplam.

domingo, 29 de setembro de 2019

«Deus olha para o coração» (1Sam 16,7)

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África), doutor da Igreja
Discursos sobre os salmos, Sl 85; CCL 39, 1178


Terá o pobre sido recebido pelos anjos unicamente devido ao mérito da sua pobreza? E terá o rico sido enviado para o lugar dos tormentos apenas por culpa da sua riqueza ? Não: é preciso entendermos que foi a humildade que foi premiada no caso do pobre e o orgulho condenado no caso do rico.

Eis a prova de que não foi a riqueza mas o orgulho que levou a que o rico fosse castigado. O pobre foi levado para o seio de Abraão; mas as Escrituras dizem de Abraão que ele tinha muito ouro e prata e que era rico na terra (Gn 13,2). Se todos os ricos são enviados para o lugar dos tormentos, como pôde Abraão receber o pobre no seu seio? Acontece que Abraão, com toda a sua riqueza, era pobre, humilde, respeitador e obedecia a todas as ordens de Deus. Ele tinha a sua riqueza em tão pouca conta que, quando Deus lho pediu, aceitou oferecer em sacrifício o filho a quem destinava essa riqueza (Gn 22,4).

Aprendei, pois, a ser pobres e ter necessidades, quer possuais alguma coisa neste mundo quer não possuais nada. Porque encontramos mendigos cheios de orgulho e ricos que confessam os seus pecados. «Deus resiste aos orgulhosos», estejam eles cobertos de seda ou de trapos, «mas dá a sua graça aos humildes» (Tg 4,6), quer eles possuam, ou não, bens deste mundo. Deus olha para o interior; é aí que avalia, aí que examina.

domingo, 22 de setembro de 2019

A banca do amor

Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897), carmelita, doutora da Igreja 
Carta 142, 6/7/1893, a sua irmã Celina


«Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos», diz o Senhor [Is 55,8]. O mérito não consiste em fazer nem em dar muito, mas antes em receber, em amar muito. […] Está dito que é muito mais agradável dar do que receber [At 20,35], e é verdade, mas quando Jesus quer reservar para Ele a doçura de dar, não seria delicado recusar. Deixemo-lo receber e dar tudo o que quiser, a perfeição consiste em fazer a vontade dele, e a alma que se Lhe entrega inteiramente é chamada pelo próprio Jesus «sua Mãe, sua Irmã» e toda a sua Família [Mt 12,50]. E noutro lugar: «Se alguém Me ama, guardará a minha palavra (isto é, fará a minha vontade) e Meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada» [Jo 14,23] Oh! Celina!… Como é fácil agradar a Jesus, encantar o seu coração: basta amá-lo sem olhar para nós mesmas, sem examinar demasiadamente os próprios defeitos. […]

A tua Teresa não se encontra neste momento nas alturas mas Jesus ensina-lhe a tirar proveito de tudo, do bem e do mal que encontra em si. Ensina-lhe a jogar à banca do amor, ou antes, joga Ele por ela sem lhe dizer como se faz porque isso é assunto dele e não de Teresa; o que ela tem de fazer é abandonar-se, entregar-se sem nada reservar para si, nem mesmo a alegria de saber quanto lhe rende a banca. […]

Com efeito, os directores [espirituais] fazem avançar na perfeição mandando praticar um grande número de actos de virtude, e têm razão, mas o meu director, que é Jesus, não me ensina a contar os meus actos; ensina-me a fazer tudo por amor, a não Lhe recusar nada, a ficar contente quando Ele me dá uma ocasião de Lhe provar que O amo, mas isto faz-se na paz, no abandono, é Jesus que faz tudo e eu não faço nada.

sábado, 21 de setembro de 2019

Evangelho do dia 21 de setembro de 2019

Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus, que estava sentado na banca das cobranças, e disse-lhe: «Segue-Me». E ele, levantando-se, O seguiu. Aconteceu que, estando Jesus sentado à mesa em casa deste homem, vieram muitos publicanos e pecadores, e se sentaram à mesa com Jesus e com os Seus discípulos. Vendo isto, os fariseus diziam aos Seus discípulos: Por que motivo come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores? Jesus, ouvindo isto, disse: «Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os enfermos. Ide, e aprendei o que significa: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores».

Mt 9, 9-13

domingo, 15 de setembro de 2019

Mãe da esperança

Bento XVI 
Encíclica «Spe salvi» § 50

Santa Maria, [...] o velho Simeão falou-Vos da espada que atravessaria o vosso coração (cf. Lc 2,35), do sinal de contradição que vosso Filho haveria de ser neste mundo. Depois, quando a actividade pública de Jesus se iniciou, tivestes de vos pôr de lado, para que pudesse crescer a nova família [...] daqueles que tivessem ouvido e observado a Sua palavra (cf. Lc 11,27s). Apesar de toda a grandeza e alegria do primeiro início da actividade de Jesus, vós, já na Sinagoga de Nazaré, tivestes de experimentar a verdade da palavra sobre o «sinal de contradição» (cf. Lc 4,28s). Assim, vistes o crescente poder da hostilidade e da rejeição que se ia progressivamente afirmando à volta de Jesus até à hora da cruz, quando tivestes de ver o Salvador do mundo, o herdeiro de David, o Filho de Deus morrer como um falido, exposto ao escárnio, entre os malfeitores. 

Acolhestes então as palavras: «Mulher, eis aí o teu filho» (Jo 19,26). Da cruz, recebestes uma nova missão. A partir da cruz ficastes Mãe de uma maneira nova: Mãe de todos aqueles que querem acreditar no vosso Filho Jesus e segui-Lo. A espada da dor trespassou o vosso coração. Tinha morrido a esperança? Ficou o mundo definitivamente sem luz, a vida sem objectivo? Naquela hora, provavelmente, no vosso íntimo tereis ouvido novamente as palavras com que o anjo tinha respondido ao vosso temor no instante da anunciação: «Não temas, Maria!» (Lc 1,30). Quantas vezes o Senhor, o vosso Filho, dissera a mesma coisa aos seus discípulos [...].

Na hora de Nazaré, o anjo também vos tinha dito: «O seu reinado não terá fim» (Lc 1,33). Teria talvez terminado antes de começar? Não; junto da cruz, [...] vós tornastes-vos mãe dos crentes. Nesta fé, [...] caminhastes para a manhã de Páscoa. A alegria da ressurreição tocou o vosso coração e uniu-vos de um novo modo aos discípulos [...]. O «reino» de Jesus era diferente daquele que os homens tinham podido imaginar. Este «reino» iniciava-se naquela hora e nunca mais teria fim. Assim, vós permaneceis no meio dos discípulos como a sua Mãe, como Mãe da esperança.

Evangelho de hoje - Lc 15, 1-32 - O Filho Pródigo

Pai, obrigado,
porque sempre que me afasto de Ti,
levado pelas minhas fraquezas,
e arrependido volto para Ti,
Tu me recebes de braços abertos.
E não Te interessa o “tamanho” das minhas fraquezas,
porque o Teu amor e o teu perdão,
são infinitamente maiores que o meu pecado.
Pai,
obrigado por sempre abrires a porta da Tua casa
aos Teus filhos,
que arrependidos voltam para Ti,
e com eles fazeres a festa do amor,
a festa da alegria,
com Jesus Cristo Nosso Senhor,
na unidade do Espírito Santo.
Amen.

Joaquim Mexia Alves

(Fonte: ‘Apenas oração’
em http://apenasoracao.blogspot.com/2010/09/evangelho-de-hoje-lc-15-1-32-o-filho.html)

«Desperta, tu que dormes; levanta-te de entre os mortos» (Ef 5,14)

Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja 
Comentário ao Evangelho de Lucas, VII, 224s; SC 52


«Irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: “Pai, pequei contra o Céu e contra ti”.» Esta é a nossa primeira confissão ao Criador, ao Senhor da misericórdia, ao Juiz do erro. Apesar de tudo saber, Deus espera a expressão da nossa confissão; porque «confessar com a boca leva a obter a salvação» (Rom 10,10) […].

Eis o que dizia para si mesmo o filho mais novo; mas não basta falar, se não fores ter com o Pai. E onde vais procurá-Lo, onde vais encontrá-Lo? «Levantou-se». Antes de mais, levanta-te, pois estavas sentado e adormecido. Eis o que diz o apóstolo Paulo: «Desperta, tu que dormes; levanta-te de entre os mortos» (Ef 5,14). […] Já de pé, corre à Igreja: aí está o Pai, o Filho, o Espírito Santo. Aquele que te ouve a falar no segredo da alma vem até ti; e quando ainda estás longe, vê-te e acorre ao teu encontro. Ele vê no teu coração; Ele acorre, para que ninguém te demore; e Ele também te abraça […]. Lança-Se-te ao pescoço para te reerguer, a ti, que jazias carregado de pecados no chão, voltado para a terra; vira-te para o céu, para que aí possas procurar o teu Criador. Cristo lança-Se-te ao pescoço para te libertar a nuca do jugo da escravidão e aí suspender o seu jugo de suavidade. […] Ele lança-Se-te ao pescoço quando diz: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos» (Mt 11,28). Tal é a maneira como Ele te estreita em seus braços, se te converteres.

E manda que tragam uma túnica, um anel, sandálias. A túnica é a veste da sabedoria […], a roupa espiritual, o trajo para as bodas. Que outra coisa será o anel, a não ser o selo de uma fé sincera e a marca da verdade? As sandálias, essas são a pregação da Boa Nova.

domingo, 8 de setembro de 2019

Ser seu discípulo

Filoxeno de Mabbug (?-c. 523), bispo da Síria 
Homilia nº 9; SC 44


Escuta a voz de Deus que te impele a sair de ti para seguir a Cristo [...] e serás um discípulo perfeito: «Qualquer de vós que não renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo.» Depois disto, o que poderás dizer, o que poderás responder? Todas as tuas hesitações e interrogações caem por terra perante esta única frase [...] de Cristo, que também diz noutro sítio: «Quem se despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna; [...] se alguém Me servir, o Pai há-de honrá-lo» (Jo 12,25-26).

Disse também aos seus discípulos: «Levantai-vos, vamo-nos daqui!» (Jo 14,31) Com esta frase demonstrou que nem o seu lugar, nem o dos seus discípulos, é deste mundo. A quem iremos nós então, Senhor? «Onde Eu estiver, aí estará também o meu servo» (Jo 6,68;12,26) Se Jesus nos diz: «Levantai-vos, vamo-nos daqui!», quem será insensato bastante para consentir permanecer com os cadáveres nos seus túmulos ou habitar entre os mortos? Assim, de cada vez que o mundo te atrair, lembra-te destas palavras de Cristo: «Levantai-vos, vamo-nos daqui!» [...] De cada vez que queiras sentar-te, instalar-te, comprazer-te em ficar onde estás, lembra-te dessa voz que te impele e diz a ti próprio: «Levanta-te e vamo-nos daqui!»

Porque, seja como for, acabarás por ter de partir. Mas deves fazê-lo como Jesus, deves ir-te porque Ele to disse, não porque as leis da natureza te obriguem contra a tua vontade. Quer queiras, quer não, vais pelo mesmo caminho daqueles que partem. Por isso, parte por causa da palavra do teu Mestre e não pela necessidade desse constrangimento. «Levanta-te e vamo-nos daqui!» Esta é a voz que desperta os sonolentos, a trombeta cujo toque afugenta o torpor da preguiça, a força (e já não só palavra) que amiúde reveste aquele que a ouve dum vigor novo e o impele duma coisa à outra num abrir e fechar de olhos. [...] «Levantai-vos, vamo-nos daqui!», e eis que também Ele parte contigo. Porque tardas? [...] Deus chama-te a partir em sua companhia.

domingo, 1 de setembro de 2019

Seguir a Cristo, ser o último servo

Beato Charles de Foucauld (1858-1916)
eremita e missionário no Saara[

Diz Cristo:] Vede a minha dedicação aos homens para perceberdes como deve ser a vossa. Vede essa humildade para bem do homem e aprendei a abaixar-vos para fazer o bem [...], a tornar-vos pequenos para ganhar os outros, a não receardes descer, perder os vossos direitos, para fazer o bem, a não acreditardes que, descendo, perdeis a capacidade de fazer o bem. Pelo contrário, quando desceis, imitais-Me; ao descer, empregais, por amor aos homens, o meio que Eu próprio empreguei; ao descer, caminhais pelo meu caminho e, por conseguinte, na verdade; e estais na melhor situação para ter a vida e a dar aos outros. [...] Eu ponho-Me ao nível das criaturas pela minha encarnação, ao nível dos pecadores [...] pelo meu batismo: descida, humildade. [...] Descei sempre, humilhai-vos sempre.

Que os que são os primeiros se mantenham sempre no último lugar, pela sua humildade e a sua disposição de espírito, em sentimento de descida e de serviço. Amor aos homens, humildade, último lugar: no último lugar enquanto a vontade divina não vos chamar a outro, porque nessa altura é preciso obedecer. Primeiro que tudo, a obediência, a conformidade com a vontade de Deus. Quando estiverdes no primeiro lugar, mantende-vos no último em espírito, pela humildade; ocupai-o em espírito de serviço, sabendo que só estais nesse lugar para servir os outros e os conduzir à salvação.

domingo, 25 de agosto de 2019

«Hão-de vir do Oriente, do Ocidente, do Norte e do Sul»

São Próspero de Aquitânia (?- c. 460) teólogo leigo
O chamamento de todos os povos, 9

Aqueles que vêm a Deus apoiando-se n'Ele com o desejo de serem salvos são verdadeiramente salvos: é a inspiração divina que os faz conceber esse desejo de salvação; é iluminados por Aquele que os chama que chegam ao conhecimento da verdade. São, com efeito, os filhos da promessa, a recompensa da fé, a descendência espiritual de Abraão: «Sois linhagem escolhida, sacerdócio régio» (1Pe 2,9), há muito anunciados e predestinados à vida eterna. [...] Por intermédio de Isaías, o Senhor deu-nos a conhecer a Sua graça, que faz de todo o homem uma criatura nova: «Pois vou realizar algo de novo, que já está a aparecer: não o notais? Vou abrir um caminho no deserto e fazer correr rios na estepe. Glorificar-Me-ão os animais selvagens, os chacais e as avestruzes, porque hei-de fazer brotar água no deserto e rios na terra árida, para dar de beber ao Meu povo, o Meu eleito, o povo que Eu formei para Mim, e assim hão-de proclamar os Meus louvores». E noutro ponto [...]: «Todo o joelho se dobrará diante de Mim, toda a língua jurará por Mim» (Is 43,19ss.; 45,23).

É impossível que tudo isso não aconteça, porque a providência de Deus nunca falha; os Seus desígnios não mudam; a Sua vontade é dinâmica e as Suas promessas não são erróneas. Portanto, todos os que são designados por estas palavras serão salvos. Com efeito, Ele coloca as Suas palavras na consciência e escreve-as pela Sua mão no coração (cf. Rm 2,15); eles têm acesso ao conhecimento de Deus, não através de um ensinamento humano, mas sob a orientação do Mestre supremo: «Assim, nem o que planta nem o que rega é alguma coisa, mas só Deus, que faz crescer» (1Co 3,7). [...] A todos é permitido ter um coração transformado, um julgamento certo, uma vontade igualmente recta. Em todos estes homens Deus fez nascer o temor, para que fossem instruídos nos Seus mandamentos. [...] Celebram o poder da Sua misericórdia e os milagres que ela realizou: porque Deus os elegeu e fez deles Seus filhos, Seus herdeiros da nova aliança (cf Jr 31,31).