N. Sra. de Fátima

N. Sra. de Fátima
Fátima 2017 centenário das aparições de Nossa Senhora, façamos como Ela nos pediu e rezemos o Rosário diariamente. Ave Maria cheia de graça… ©Ecclesia

domingo, 21 de maio de 2017

O trono de Maria é a Cruz

Pede humildemente ao Senhor que te aumente a Fé. – E depois, com novas luzes apreciarás bem as diferenças entre as sendas do mundo e o teu caminho de apóstolo. (Caminho, 508)

O trono de Maria, como o de seu Filho, é a Cruz. E durante o resto da sua existência, até que subiu ao Céu em corpo e alma, a sua silenciosa presença é o que nos impressiona mais. S. Lucas, que a conhecia bem, anota que Ela está junto dos primeiros discípulos, em oração. Assim termina os seus dias terrenos Aquela que havia de ser louvada pelas criaturas até à eternidade.

Como contrasta a esperança de Nossa Senhora com a nossa impaciência! Com frequência exigimos que Deus nos pague imediatamente o pouco bem que fizemos. Mal aflora a primeira dificuldade, queixamo-nos. Muitas vezes somos incapazes de aguentar o esforço, de manter a esperança, porque nos falta fé: bem-aventurada és tu, porque acreditaste que se cumpririam as coisas que te foram ditas da parte do Senhor. (Amigos de Deus, 286)

São Josemaría Escrivá

São Josemaría Escrivá nesta data em 1937

“Em carne viva. É assim que te encontras. Tudo te faz sofrer, nas potências e nos sentidos. E tudo é tentação para ti… - pobre filho! Sê humilde. Verás como te tiram depressa desse estado. E a dor, transformar-se-á em alegria; a tentação, em segura firmeza. Mas, entretanto, aviva a tua fé; enche-te de esperança; e faz contínuos atos de Amor, embora penses que não passam de simples palavras”, escreve nos seus Apontamentos íntimos durante um período de purificação interior.

Bom Domingo do Senhor!

Deixemos que o Pai e o Senhor façam morada em nós como Ele nos fala no Evangelho de hoje (Jo 14, 15-21) para assim acolhermos o Espírito Santo de d’Eles procede.

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo…

Mais real que a pedra

Correu nestes dias, nos meios de comunicação social, uma polémica muito «século XIX», acerca da natureza das aparições de Fátima. Uns 100 anos antes de Nossa Senhora aparecer em Fátima, estava no auge o esforço de classificação teológica, como se houvesse o intuito de fazer concorrência à matemática. Os manuais de doutrina cristã muito «século XIX» pareciam listas meticulosas de virtudes, de vícios, de graças ...enumerações de tudo! Felizmente, essa época chegou ao fim e não há entusiasmo para repetir a experiência. Fátima, que pertence já ao século XX, fica a anos-luz das alíneas de um catálogo.

Em primeiro lugar, apresenta-se com uma exigência invulgar. Não propõe uma religião anti-stress, em ritmo «Zen», mas fala de realidades extremas, como a vida e a morte, o Inferno e o Paraíso, num desafio sublime: «quereis oferecer-vos a vós mesmos?...», «quereis consolar o vosso Deus?...». Até onde vai o radicalismo do vosso amor?

Em face disto, discutir a classificação, ou as circunstâncias é ficar completamente aquém.

As aparições põem diante de nós um outro mundo, tão real como aquele que respiramos, mas diferente. Os Anjos não têm corpo. No entanto, os Pastorinhos viram e ouviram um Anjo. Em Fátima, em 1917, também outras pessoas, sem terem visto o Anjo ou Nossa Senhora, viram brilhos invulgares, viram os ramos das árvores vergar-se ao peso de um corpo invisível. Como é ver um Anjo? Explicar demasiado só acrescenta palavras à constatação.

Os corpos gloriosos têm igualmente o seu próprio mistério. A Bíblia apresenta-nos as aparições de Jesus ressuscitado aos discípulos e o mistério desses encontros. Algumas vezes, Jesus atravessou as paredes de uma casa fechada. Outras, tinha o aspecto habitual... mas era diferente. Pensaram numa fantasia e Jesus teve de comer com eles para lhes mostrar que era real. Para não parecer talvez um sósia estranho, foi preciso Jesus mostrar-lhes as feridas da crucifixão. Depois de uma pescaria impressionante, os apóstolos reconheceram que era Ele, mas não exactamente como antes, como quando se revê uma pessoa depois de muitos anos. Os dois discípulos de Emaús acompanham-no uma tarde inteira e só ao jantar O reconheceram e – de repente –, quando o reconhecem, desaparece da sua presença. Maria Madalena, dirige a palavra a Jesus junto do sepulcro, mas só percebe com quem está a falar quando Lhe ouve a voz e Jesus a chama pelo nome. O corpo ressuscitado de Jesus ou o corpo de Maria mudaram, mas não deixaram de ser reais.

S. Paulo encontrou uma maneira acertada de falar da ressurreição: semeia-se nesta terra uma semente terrena e encontraremos no Céu uma árvore frondosa. A árvore e a semente são a mesma planta, apesar de não parecerem. Quando ressuscitarmos continuaremos a ser nós próprios, ainda que agora não se consiga imaginar como seremos. Cada um é distinto em bebé, em adolescente, ou na idade adulta, mas é sempre a mesma pessoa. Assim também no Céu.

O real não se esgota no comum e Deus pode alargar a realidade que a vista alcança. Habitualmente, não vemos Anjos, nem vemos Jesus ou os Santos, tal como os Pastorinhos de Fátima também não viam habitualmente senão realidades comuns. No entanto, por momentos, apareceu-lhes o que não costuma ver-se nem ouvir-se.

Nas aparições de Fátima, Nossa Senhora brilha, como uma luz transparente, de uma beleza deslumbrante. Se é tão difícil descrever uma paisagem ou uma fisionomia comum, quanto mais difícil é falar do Céu e de pessoas que ressuscitaram.

Às vezes, proponho-me o desafio descrever aquele grupo escultórico que está no meio das rochas, na Loca do Cabeço, representando o Anjo e os três Pastorinhos. É pedra, bem sei, mas as figuras transparecem uma tensão calma, uma concentração interior que não cabem nas minhas palavras. Onde é que a Maria Amélia Carvalheira foi buscar a inspiração? Só uma escultora genial consegue captar uma realidade tão complexa e «extrair vida» de um bloco de pedra. Depois, tento imaginar a realidade. Porque, a realidade do Anjo e de Nossa Senhora é de ainda outra ordem, nada se lhe compara em brilho, em beleza, ou em importância. Se fosse imaginação, a mensagem de Fátima seria parecida ao relaxamento da música «Zen», mas é mais real que a pedra.
José Maria C.S. André
21-V-2017
Spe Deus

Virtude heróica e santidade

Vêm-me à cabeça as palavras do Senhor recolhidas no Evangelho de São João (5, 17): Meu Pai opera sempre. São palavras pronunciadas por Jesus no decorrer de uma discussão com alguns especialistas em religião que não queriam reconhecer que Deus pode trabalhar no dia de sábado. Um debate ainda aberto e actual, de certo modo, entre os homens - também entre os cristãos - do nosso tempo.

Alguns pensam que Deus, depois da criação, "se retirou" e já não tem nenhum interesse pelos nossos assuntos de cada dia. De acordo com esse modo de pensar, Deus não poderia intervir na trama da nossa vida quotidiana; no entanto, as palavras de Jesus Cristo indicam-nos precisamente o contrário. Um homem aberto à presença de Deus percebe que Deus trabalha sempre e que também actua hoje; por isso, devemos deixar que Ele entre e actue em nós [...].

Conhecendo um pouco da história dos santos, sabendo que nos processos de canonização se procura a virtude "heróica", podemos, quase inevitavelmente, formar um conceito equivocado da santidade porque tendemos a pensar: "Isso não é para mim", "eu não me sinto capaz de praticar virtudes heróicas", "é um ideal alto demais para mim"...

Nesse caso, a santidade estaria reservada para alguns "grandes" cujas imagens vemos nos altares e que são muito diferentes de nós, pecadores comuns. No entanto, seria uma ideia totalmente errada da santidade [...].

Virtude heróica não quer dizer que o santo seja uma espécie de "atleta" da santidade, que consegue fazer uns exercícios inexequíveis para as pessoas normais. Quer dizer, pelo contrário, que na vida de um homem se revela a presença de Deus, e se torna mais patente tudo aquilo que o homem não é capaz de fazer por si mesmo. No fundo, talvez se trate de uma questão terminológica, porque o adjetivo "heróico" foi com frequência mal interpretado. Virtude heróica não significa propriamente que alguém faz coisas grandes por suas forças pessoais, mas que na sua vida aparecem realidades que não foi ele quem fez, porque ele só esteve disponível para deixar que Deus atuasse. Noutras palavras, ser santo não é senão falar com Deus como um amigo fala com o amigo. Isto é a santidade.

Ser santo não significa ser superior aos outros; pelo contrário, o santo pode ser muito fraco e cometer muitos erros na sua vida. A santidade é o contacto profundo com Deus: é fazer-se amigo de Deus, deixar que o Outro trabalhe, o Único que pode realmente fazer com que este mundo seja bom e feliz. [...] Verdadeiramente, todos somos capazes, todos somos chamados a abrir-nos a essa amizade com Deus, a não nos soltarmos da sua mão, a não nos cansarmos de voltar uma vez e outra para o Senhor, falando com Ele como se fala com um amigo e sabendo, com toda a certeza, que o Senhor é o verdadeiro amigo de todos, também dos que não são capazes de fazer por si mesmos coisas grandes.

(Cardeal Joseph Ratzinger em Deixar Deus trabalhar’ no  l’Osservatore Romano, 06.10.2002)

«vós é que O conheceis, porque permanece junto de vós, e está em vós»

Paulo VI (1897-1978), papa de 1963 a 1978
Audiência Geral de 1972/05/17


«O Espírito sopra onde quer», diz Jesus na sua conversa com Nicodemos (Jo 3,8). Não podemos pois traçar, no plano doutrinal e prático, normas restritas no que respeita à intervenção do Espírito Santo na vida dos homens. Ele pode manifestar-Se nas formas mais livres e mais inesperadas: «Ele brinca sobre a superfície da terra» (Prov 8,31). […] Mas, para aqueles que querem captar as ondas sobrenaturais do Espírito Santo, há uma regra, uma exigência que é habitualmente imposta: a vida interior. É dentro da alma que se dá o encontro com este hóspede inexprimível, «doce hóspede da alma», como diz o maravilhoso hino litúrgico de Pentecostes. O homem torna-se «templo do Espírito Santo», rediz São Paulo (1Cor 3,16; 6,19).

O homem de hoje, e também o cristão, incluindo aqueles que são consagrados a Deus, tende a secularizar-se. Mas não pode, não deve nunca esquecer esta exigência básica da vida interior, se quer que a sua vida continue a ser cristã e animada pelo Espírito Santo. O Pentecostes foi precedido por uma novena de recolhimento e de oração. O silêncio interior é necessário para escutar a palavra de Deus, para sentir sua presença, para ouvir o chamamento de Deus.

Hoje, o nosso espírito está muito voltado para o exterior […]; não sabemos meditar, não sabemos orar; não sabemos silenciar todo o barulho que fazem em nós os interesses externos, as imagens, as disposições de ânimo. Não há no coração um espaço tranquilo e sagrado para a chama do Pentecostes. […] A conclusão é óbvia: temos de dar à vida interior o seu lugar próprio no programa da nossa vida, um lugar privilegiado, silencioso, puro; temos de nos reencontrar para que o Espírito vivificante e santificante possa habitar em nós.