N. Sra. de Fátima

N. Sra. de Fátima
Fátima 2017 centenário das aparições de Nossa Senhora, façamos como Ela nos pediu e rezemos o Rosário diariamente. Ave Maria cheia de graça… ©Ecclesia

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Recomeçar de novo!

O convencimento da tua "massa ruim" – o conhecimento de ti próprio – dar-te-á a reação sobrenatural que fará enraizar cada vez mais na tua alma a alegria e a paz perante a humilhação, o desprezo, a calúnia... Depois do "fiat" – Senhor, o que Tu quiseres! –, o teu raciocínio nesses casos deve ser: "Só disseram isso? Vê-se que não me conhecem; de outro modo não teriam ficado por aí". Como estás convencido de que mereces pior tratamento, ficarás grato àquela pessoa, e alegrar-te-ás com o que faria sofrer outro. (Sulco, 268)

Estamos a experimentar constantemente a nossa ineficácia. Mas, às vezes, parece que todas estas coisas se juntam e se nos manifestam com um relevo maior, para que nos apercebamos de quão pouco somos. Que fazer?

Expecta Dominum, espera no Senhor; vive de esperança, sugere-nos a Igreja, com amor e com fé. Viriliter age , porta-te varonilmente. Que importa que sejamos criaturas de lodo, se temos a esperança posta em Deus? E se alguma vez a alma sofre uma queda, um retrocesso – não é necessário que isso aconteça – aplica-se-lhe o remédio, como se procede normalmente com a saúde do corpo, e recomeça-se de novo!

(...) Perante as nossas misérias e os nossos pecados, perante os nossos erros – mesmo que sejam, pela graça de Deus, de pouca monta – recorramos à oração e digamos ao nosso Pai: Senhor, na minha pobreza, na minha fragilidade, neste meu barro de vasilha quebrada, põe-me, Senhor, uns gatos e – com a minha dor e o Teu perdão – serei mais forte e mais gracioso do que dantes! Uma oração consoladora para a repetirmos quando se parta este nosso pobre barro. (Amigos de Deus, 94–95)

São Josemaría Escrivá

São Josemaría Escrivá nesta data em 1931

“Vejo-me Como um pobre passarinho que, habituado a voar apenas de árvore em árvore ou, quando muito, até á varanda de um terceiro andar…, certo dia da sua vida teve brios de chegar até ao telhado de certa casa modesta, que não era propriamente um arranha-céus… Mas eis que uma águia arrebata o nosso pássaro – tomando-o erradamente por uma cria da sua raça – e, entre as suas garras poderosas, o passarinho sobe, sobe muito alto, por cima das montanhas de terra e dos picos nevados, por cima das nuvens brancas e azuis e cor-de-rosa, mais alto ainda, até olhar de frente o sol… E então, soltando o passarinho, a águia diz-lhe: anda, voa… Senhor, que eu não volte a voar pegado à terra!, que seja sempre iluminado pelos raios do divino Sol-Cristo-Eucaristia!, que o meu voo não se interrompa até encontrar o descanso no Teu Coração!”, anota hoje nos seus Apontamentos íntimos.

(Fonte: site de S. Josemaría Escrivá http://www.pt.josemariaescriva.info/)

A "PREOCUPAÇÃO" E O "TRABALHO" DE DEUS

Hoje de manhã, quando estava nas minhas orações matinais vieram ao meu coração, estes dois pensamentos:
Temos um Deus cuja única “preocupação” é a nossa salvação.
Temos um Deus que “trabalha” a tempo inteiro para nós.

Fiquei, logicamente, a pensar nisto.

Realmente, deixando de lado o conceito muito humano de “preocupação” e “trabalho”, a verdade é que podemos afirmar isto mesmo, ou seja, Deus “preocupa-se exclusivamente com a nossa salvação e “trabalha” exclusivamente para isso mesmo!

E como o conceito de tempo, (dias, noites, horas, minutos, etc.), não se aplica a Deus, podemos mesmo afirmar, julgo eu, que esta Sua “preocupação” e “trabalho” é constante e eterna.

E sendo assim, como é, como podemos nós não agradecer e louvar em permanência o nosso Deus, em todos os momentos da nossa vida, fazendo dela uma oferta permanente ao Senhor?
E sendo assim, como é, como podemos nós sequer pensar em prescindir deste Deus que nos ama de tal forma?

Realmente há algum amor maior do que o amor do nosso Deus, que se entrega totalmente e exclusivamente, (humanamente falando), à criatura que criou e ama eternamente?

De tal modo a Sua “preocupação” é total com o homem e a sua salvação, que não hesitou em vir ter com o próprio homem, fazendo-se igual à criatura criada, em todas as coisas, excepto no pecado.

Aliás, sendo o pecado uma rotura com o amor de Deus, o Deus feito homem nunca poderia romper consigo próprio.

Mas é fantástico, extraordinário, percebermos e reconhecermos, que o nosso Deus depois de nos ter criado se dedicou inteiramente a amar-nos, a fazer-nos conhecer o amor, a ensinar-nos o caminho da salvação.

Que posso eu temer deste mundo, se o meu Deus está comigo?

Que posso eu temer das tentações, se o meu Deus está comigo e nunca me abandona?

E aqui está outra coisa extraordinária de Deus: nunca nos abandona!

Podemos renegá-Lo, desprezá-Lo, colocá-Lo fora da nossa vida, mas Ele não deixa de se “preocupar”, de “trabalhar”, de estar connosco, amando-nos e mostrando-nos o caminho da salvação.

Não contente com tudo isto, (perdoem-se-me as expressões humanas), e como para Ele o tempo não existe, faz-se presente à vista, ao toque, e até como alimento, transubstanciando-se todos os dias na humildade, do mais humilde dos alimentos: o Pão.

E nós em vez de O procurarmos para recebermos do Seu amor e Lhe darmos o amor que coloca em nós, vamos apenas e a maior parte das vezes pedindo e pedindo, mais como queixando-nos, do que aceitando as adversidades de um caminho, que sendo difícil, nos leva à meta mais almejada que é a vida eterna na felicidade do gozo de Deus.

Realmente, se Deus nos criou por amor, se nos ama com total dedicação e entrega, (e acreditamos e sabemos que assim é), como poderá Ele não saber do que necessitamos para em cada dia, em cada momento, correspondermos ao Seu amor!

Preocupamo-nos, queixamo-nos, vivemos tristes e acabrunhados, vivemos com medo de tanta coisa, desde espíritos, superstições até horóscopos desfavoráveis, quando afinal nada disso tem qualquer valor, ou pode sequer interferir connosco, se estivermos unidos ao nosso Deus que é vivo e presente nas nossas vidas em todos os momentos.

A nossa vida deve ser então e sempre «Procurar antes o seu Reino, porque tudo o mais nos será dado por acréscimo.» Lc 12,31

Obrigado meu Deus, por cada um e eu próprio sermos a Tua preocupação e trabalho permanentes.
Obrigado por teres criado cada um e eu próprio para Ti e para vivermos e usufruirmos do Teu amor.
Coloca meu Deus, no coração de cada um e no meu coração, essa certeza inabalável de que estás sempre connosco e que “todos os cabelos da nossa cabeça estão contados por Vós”. (Mt 10,30)
Louvado sejas, meu Senhor e meu Deus.

Monte Real 29 de Janeiro de 2010

Joaquim Mexia Alves
http://www.queeaverdade.blogspot.com/

A dignidade do trabalho

Qual é o significado da palavra « decente » aplicada ao trabalho? Significa um trabalho que, em cada sociedade, seja a expressão da dignidade essencial de todo o homem e mulher: um trabalho escolhido livremente, que associe eficazmente os trabalhadores, homens e mulheres, ao desenvolvimento da sua comunidade; um trabalho que, deste modo, permita aos trabalhadores serem respeitados sem qualquer discriminação; um trabalho que consinta satisfazer as necessidades das famílias e dar a escolaridade aos filhos, sem que estes sejam constrangidos a trabalhar; um trabalho que permita aos trabalhadores organizarem-se livremente e fazerem ouvir a sua voz; um trabalho que deixe espaço suficiente para reencontrar as próprias raízes a nível pessoal familiar e espiritual; um trabalho que assegure aos trabalhadores aposentados uma condição decorosa.

Bento XVI - Caritas in veritate [63]

Recomeçar ...

Detalhe retábulo Santuário de Torreciudad
«(…), José era artesão da Galileia, um homem como tantos outros. E que pode esperar da vida um habitante de uma aldeia perdida, como era Nazaré? Apenas trabalho, todos os dias, sempre com o mesmo esforço. E, no fim da jornada, uma casa pobre e pequena, para recuperar as forças e recomeçar o trabalho no dia seguinte».

(São Josemaría Escrivá - Cristo que passa, 40)

Muitos de vós, neste lado do Atlântico ou se preferirem no hemisfério norte, recomeçarão amanhã dia 1 de setembro os seus afazeres profissionais após o gozo de um merecido período de férias.

Aos Pais com filhos em idade escolar, sei que é período complicado do ponto de vista económico, mas a o vosso equilíbrio na selecção do material escolar, o vosso bom senso e uma “ajudinha” com a intercessão da Virgem Santíssima, Nossa Mãe, far-vos-á felizes de verem os vossos filhos reiniciarem ou começarem pela primeira vez o ano escolar.

A todos desejo um ótimo mês de Setembro e que o Senhor por intercessão de Nossa Senhora nos proteja e ajude.

JPR

O Evangelho do dia 31 de agosto de 2017

«Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora virá o vosso Senhor. Sabei que, se o pai de família soubesse a que hora havia de vir o ladrão, vigiaria, sem dúvida, e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso estai vós também preparados, porque virá o Filho do Homem na hora em que menos pensais. «Quem é, pois, o servo fiel e prudente, a quem o seu senhor colocou à frente da sua família para lhe distribuir de comer a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo, a quem o seu senhor, quando vier, achar a proceder assim. Na verdade vos digo que lhe confiará o governo de todos os seus bens. Mas, se aquele servo mau disser no seu coração: “O meu senhor tarda em vir”, e começar a bater nos seus companheiros, a comer e beber com os ébrios, virá o senhor daquele servo no dia em que não o espera, e na hora que não sabe, e mandará açoitá-lo e dar-lhe-á a sorte dos hipócritas; ali haverá choro e ranger de dentes.

Mt 24, 42-51

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Que tal andas de presença de Deus?

Falta-te vida interior, porque não levas à oração as preocupações dos teus e o proselitismo; porque não te esforças por ver claro, por fazer propósitos concretos e por cumpri-los; porque não tens visão sobrenatural no estudo, no trabalho, nas tuas conversas, na tua relação com os outros... – Que tal andas de presença de Deus, consequência e manifestação da tua oração? (Sulco, 447)

Sempre que sentimos no nosso coração desejos de melhorar, de responder mais generosamente ao Senhor, e procuramos um guia, um norte claro para a nossa existência cristã, o Espírito Santo traz à nossa memória as palavras do Evangelho: importa orar sempre e não cessar de o fazer.

A oração é o fundamento de todo o trabalho sobrenatural; com a oração somos omnipotentes; se prescindíssemos deste recurso, nada conseguiríamos.

Eu gostaria que hoje, na nossa meditação, nos persuadíssemos definitivamente da necessidade de nos dispormos a ser almas contemplativas no meio do mundo e do trabalho, com uma conversa contínua com o nosso Deus, a qual não deve esmorecer ao longo do dia. Se pretendemos seguir lealmente os passos do Mestre, este é o único caminho

É muito importante – perdoai a minha insistência – observar os passos do Messias, porque Ele veio mostrar-nos o caminho que nos leva ao Pai: descobriremos, com Ele, como se pode dar relevo sobrenatural às actividades aparentemente mais pequenas; aprenderemos a viver cada instante com vibração de eternidade e compreenderemos com maior profundidade que a criatura precisa desses tempos de conversa íntima com Deus, para privar com Ele na sua intimidade, para invocá-lo, para ouvi-lo ou, simplesmente, para estar com Ele. (Amigos de Deus, 238–239)

São Josemaría Escrivá

QUERER, VER, CRER

Tinham-lhe dito que Ele ia estar ali.
Não sabia muito bem como, mas no fundo do seu coração, queria acreditar que sim, que Ele estaria ali, naquele local e, sobretudo, que ele poderia falar com Ele e pedir-Lhe o que tanto necessitava.

Há muito que andava a pensar na sua vida, na vida que levava, e a conclusão a que chegava é que o abismo se abria inexorável no seu futuro, se não mudasse radicalmente de vida, iria acabar mal, muito mal, e muito, muito sozinho.

Sim, é verdade, que desde a mais tenra idade lhe diziam que Ele estava ali, aliás, que Ele estava em todo o lado, mas muito especialmente, naquele local e naquele preciso sítio.
E durante algum tempo também ele por ali andou, e até acreditou que sim, mas depois tudo se tinha “diluído” numa vida sem sentido, numa vida que, reconhecia agora, a nada levava, não tinha amor, (talvez amores fugazes), não tinha confiança, (embora ele parecesse cheio dela), não tinha esperança, (embora ele colocasse a sua vida numa espécie de sorte).

Entrou no edifício e ficou contente porque estava vazio, sem ninguém.
Já lá tinha entrado com gente, mas os olhares de reprovação que tinha sentido, as palavras murmuradas nas suas costas, pareciam querer impedi-lo de se aproximar dEle.
Curiosamente, tinha parecido ao seu coração, que Ele, lá no sítio onde estava, tinha dito àquela gente para o deixarem passar, para o deixarem chegar “à fala” com Ele, para o chamarem.

Entrou, sentou-se em frente daquela “caixa” resplandecente e reparou numa pequena luz que estava ao lado da “caixa”.
Tinham-lhe dito, quando era menino, que a luz significava que Ele estava ali!
Deixou-se ficar ali, a olhar, a olhar, sem saber o que fazer, sem saber o que dizer.

Ouviu então distintamente, (pelo menos assim lhe pareceu), uma voz que disse: «Que queres que te faça?» Lc 18, 41

Surpreendido, respondeu sem pensar: «Senhor, que eu veja!» Lc 18, 41
E insistiu: «Senhor, que eu Te possa ver!»

Uma calma, uma serenidade, um amor, tomou conta daquele lugar, daquele momento, tomou conta de si mesmo.
No fundo do seu coração nasceu uma certeza, ainda ténue, mas convicta, que tudo ia mudar, que a sua vida não seria mais a mesma, que encontraria sentido nAquele que com ele falava, sem palavras audíveis, mas com amor sensível, isto é, com amor que ele podia sentir verdadeiramente.

Apenas uma frase, tantas vezes ouvida e repetida, veio ao seu pensamento, ao seu coração, e disse-a baixinho, com medo de “estragar” aquele momento: «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!» Mc 9, 24

Sentiu-se profundamente abraçado, num amor indescritível, e ouviu a voz dEle, repassada de ternura: «Vê. A tua fé te salvou.» Lc 18, 43

Monte Real, 30 de Agosto de 2017

Joaquim Mexia Alves

Nota: Esta é uma história que, sem dúvida, retrata a minha vida.

A memória da vocação reaviva a esperança (audiência)

LocutorAo longo do Evangelho, Jesus aparece com um “incendiário” de corações. Daquele seu primeiro encontro com Ele, João e André conservaram gravada na memória a própria hora: «Eram as quatro da tarde». Recordarão para sempre aquele dia da sua vocação, que iluminou e orientou a sua juventude. Como se descobre a vocação? Pode-se descobrir de muitos modos, mas esta página evangélica diz-nos que o primeiro indicador é a alegria do encontro com Jesus. Todas as vocações – ao Matrimónio, à Vida Consagrada, ao Sacerdócio – começam com um encontro com Jesus, que nos dá uma alegria e uma esperança nova e nos leva, mesmo através de provas e dificuldades, a um encontro sempre mais íntimo e à plenitude da alegria. O Senhor não quer atrás d’Ele homens e mulheres contrariados e tristonhos. Tornamo-nos arautos de Jesus, não afinando e brandindo as armas da retórica, mas conservando nos olhos o brilho da verdadeira felicidade. Por isso, o cristão – à semelhança da Virgem Maria – preserva a chama do seu enamoramento. É verdade que há provas na vida, mas o cristão conhece a estrada que conduz àquele fogo sagrado que o incendiou, ao princípio, duma vez para sempre. Não demos ouvidos a quem faz questão de apagar, logo ao nascer, o entusiasmo, dizendo que nenhum empreendimento vale o sacrifício de toda uma vida. Pelo contrário, bem atentos à realidade, cultivemos sãs utopias: Deus quer que sejamos capazes de sonhar como Ele e com Ele. Sonhar um mundo diferente. E, se o sonho se apagar, volta a sonhá-lo de novo readquirindo esperança na memória das origens.
* * *
Santo Padre:
Cari pellegrini di lingua portoghese, benvenuti! Nel salutarvi tutti, specialmente i membri dell’Associazione Chapecoense di Calcio e gli alluni sia del Collegio di San Paolo che del Collegio Pio Brasiliano in Roma, vi auguro di accrescere la sapienza che viene da Dio affinché, resi esperti delle cose di Dio, possiate comunicare agli altri la sua dolcezza e il suo amore. Scenda su di voi e sulle vostre famiglie l’abbondanza delle sue benedizioni.
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LocutorQueridos peregrinos de língua portuguesa, sede bem-vindos! A todos vos saúdo, especialmente aos membros da Associação Chapecoense de Futebol e aos alunos tanto do Colégio de São Paulo como do Colégio Pio Brasileiro de Roma, desejando-vos de prosperar na sabedoria que vem de Deus, a fim de que, tornados peritos das coisas de Deus, possais comunicar aos outros a sua doçura e o seu amor. Desça, sobre vós e vossas famílias, a abundância das suas bênçãos.

São Josemaría Escrivá nesta data em 1934

Celebra a Santa Missa no Santuário do Cerro de los Ángeles em Madrid. Na acção de graças, depois da Missa, recorre de modo particular à Santíssima Virgem. Nesse mesmo dia, anota: “Contigo, Jesus, apesar das minhas misérias, havemos de conseguir”.

Cultivar a reflexão na era digital

Se até há uns anos atrás a dificuldade de muitas pessoas era a falta de informação, hoje em dia o problema é o seu excesso. Vivemos saturados de notícias por todos os lados.

Podemos ter oitenta canais de televisão, mas isso não nos dá a capacidade de ver de modo ponderado mais do que um por vez. Nem parece ser verdade que o zapping constante torne as pessoas mais bem informadas. A televisão é o reino dos sentimentos, não, em geral, do convite ao pensamento perspicaz.

A abundância de canais de informação também não nos permitem tirar a conclusão de que devemos dedicar mais tempo às novas tecnologias para estarmos verdadeiramente informados.

Isso significa que necessitamos cultivar com empenho uma atitude que, se sempre foi essencial, hoje em dia é imprescindível para não cair no perigo do pensamento único e politicamente correcto: a reflexão.

Foi o pensamento débil que deu à luz o pensamento único. E o pensamento débil germinou devido à falta de reflexão, regada por copiosas chuvas de superficialidade.

Como possuir, então, capacidade de reflexão?

Cultivando uns sábios hábitos que desde sempre facilitaram o seu exercício: a temperança e o estudo pessoal.

Sem temperança, uma pessoa deixa-se arrastar pelo mais prazenteiro e não consegue controlar a sua ânsia de estar informado. É a falta de temperança que explica fenómenos de anseio descontrolado e doentio por saber tudo, estar informado de tudo e não desconectar nunca.

O hábito do estudo possui uma estreita relação com a temperança. Uma pessoa não temperada não consegue estudar, ou seja, dirigir virtuosamente o afã de conhecer. Sem a superação da dispersão e da preguiça intelectual não é possível entender a realidade com um mínimo de profundidade.

Como alguém disse, não pensar torna a vida frívola. No entanto, pensar em tudo com profundidade torna-a completamente angustiante.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

‘O Evangelho nos tempos do Facebook’ por Cristian Martini Grimaldi

Facebook, a rede social mais popular do mundo, está equipada com vários instrumentos para a manutenção e o enriquecimento de um status amigável recíproco, como se sabe. Porém, geralmente não nos perguntamos porque as dinâmicas de relacionamento se baseiam exclusivamente em feedbacks positivos (polegares levantados, partilhas) e, ao contrário, não prevêem opções de desaprovação instantânea (N. Spe Deus: entretanto foram criadas opções que correspondem a sentimentos que vão da aprovação à ira, mas que em nada altera o sentido deste artigo). Será possível que os criadores da network se tenham deixado inspirar pelo mais tradicional, mas na realidade atualíssimo, princípio que consiste em "nunca faças aos outros aquilo que não gostarias que te fizessem a ti"?

É possível que as nossas "amizades" sejam consideradas tão frágeis a ponto de sucumbir perante a mera interceptação de um feedback negativo? Porque, por exemplo, recebemos a "notificação" somente quando alguém recebe a nossa ou de outro alguém, mas não quando uma amizade é inesperadamente interrompida?

O sistema concebido desta forma tem realmente as suas boas razões para existir. Razões que se inspiram no consentimento mútuo, a fim de incutir optimismo no uso do instrumento e, por conseguinte, de exercer uma influência cada vez maior e mais positiva sobre todos nós; em síntese, para aumentar o próprio poder económico. Com efeito, o que aconteceria à rede social se de repente todos os participantes começassem a ser notificados publicamente sobre a perda de amigos? Perda, obviamente, decretada de forma unilateral. Com efeito, para estabelecer amizade é necessário ser em dois, para se deixar, ao contrário, a vontade do indivíduo é suficiente. É provável, considerado o uso compulsivo desta plataforma, pois de outro modo surgiria uma confusão colectiva, alimentada por invejas recíprocas, conflitos insolúveis, pequenas rivalidades ocultadas prontas a explodir com uma série de vinganças em cadeia: reacções de ódio manifesto, pedidos de esclarecimento recíproco da parte de amigos em comum, desforras de inimizade em relação a quem subtraiu a amizade ao amigo em comum, e assim por diante.

Felizmente trata-se de violências simbólicas, todavia com consequências reais possivelmente evidentes a curto prazo, considerando que todos, mais cedo ou mais tarde, nos destacamos do virtual e nos encontramos no real. Mas talvez, num incontrolável turbilhão vicioso de desprezos recíprocos - sintetizados por minúsculos (mas potencialmente deveras essenciais) thumbs down (sinal de desaprovação) - se poderia até chegar a abandonar em massa os próprios altares virtuais. Não como forma de protesta em relação às opções de desafeição recíproca acima só imaginadas mas, talvez, precisamente por causa da insustentabilidade psicológica do meio de comunicação.

De facto, ele tornar-se-ia realmente o lugar onde desafogar colectivamente os rancores e ressentimentos que todas as amizades, mesmo se a longo prazo, e talvez com mais razão se a longo prazo, inevitavelmente acarretam.

Resumindo, os programadores do Facebook - um sistema que interconecta centenas de milhões de pessoas no mundo inteiro - bem instruídos pelos administradores e pensadores que criaram e "educaram" este sistema, consideraram oportuno inspirar o coração da sua máquina "amistosa" na mais antiga receita para uma economia sadia: efundir quanto mais possível o optimismo.

Será uma casualidade, mas tudo isto corresponde também ao mais antigo princípio de amor ao próximo que a humanidade conheceu. "O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também vós a eles, porque isto é a Lei e os Profetas" disse Jesus no sermão da montanha (Mt 7, 12). E quem está por detrás do Facebook, para tornar ainda mais eficaz o ensinamento evangélico, pensou bem em não nos fornecer nem sequer instrumentos para se deixar tentar. Quer dizer: longa amizade a todos!

CRISTIAN MARTINI GRIMALDI

(© L'Osservatore Romano - 21 de Janeiro de 2012)

Facebook não é Igreja?

As aparência e os «slogans» que desvirtuam a realidade

“Muitas vezes, deixamo-nos impressionar e condicionar pelas aparências e os ‘slogans’ que desnaturam as coisas. Procuremos ver, para lá do que parece, a centelha de bondade que ali está depositada e que poderá iluminar o nosso juízo

(Bento XVI – Angelus de 11.11.12)

O Evangelho do dia 30 de agosto de 2017

«Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que sois semelhantes aos sepulcros branqueados, que por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de podridão! Assim também vós por fora pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e iniquidade. «Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os túmulos dos justos, e dizeis: “Se nós tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no derramamento do sangue dos profetas!”. Assim dais testemunho contra vós mesmos de que sois filhos daqueles que mataram os profetas, e acabais de encher a medida de vossos pais.

Mt 23, 27-32

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Amar a Cristo...

Senhor Jesus, João cujo martírio hoje recordamos, o novo Elias e Teu percursor, deixou-nos um legado de humildade que nos inspira a tudo Te oferecer, mas nem sempre somos coerentes e somos capazes de nos apagar totalmente para melhor Te servir e ao próximo.

Cristo Redentor, ajuda-nos, Te rogamos, a sermos simples servidores Teus diminuindo-nos para que assim Tu possas brilhar e inspirar na Tua plenitude Divina!

Louvor e glória a Vós Jesus Cristo Senhor e Rei do Universo!

JPR

Desculpar a todos

Só serás bom, se souberes ver as coisas boas e as virtudes dos outros. Por isso, quando tiveres de corrigir, fá-lo com caridade, no momento oportuno, sem humilhar... e com intenção de aprender e de melhorar tu próprio, naquilo que corriges. (Forja, 455)

Uma das suas primeiras manifestações concretiza-se em iniciar a alma nos caminhos da humildade. Quando sinceramente nos consideramos nada; quando compreendemos que, se não tivéssemos o auxílio divino, a mais débil e fraca das criaturas seria melhor do que nós; quando nos vemos capazes de todos os erros e de todos os horrores; quando nos reconhecemos pecadores, embora lutemos com empenho por nos afastarmos de tantas infidelidades, como havemos de pensar mal dos outros? Como se poderá alimentar no coração o fanatismo, a intolerância, o orgulho?

A humildade leva-nos pela mão a tratar o próximo da melhor forma: compreender a todos, conviver com todos, desculpar a todos; não criar divisões nem barreiras; comportarmo-nos – sempre! – como instrumentos de unidade. Não é em vão que existe no fundo do homem uma forte aspiração à paz, à união com os seus semelhantes e ao respeito mútuo pelos direitos da pessoa, de modo que tal aspiração se transforme em fraternidade. Isto reflecte uma nota característica do que há de mais valioso na condição humana: se todos somos filhos de Deus, a fraternidade nem se reduz a uma figura de retórica, nem consiste num ideal ilusório, pois surge como meta difícil, mas real.

(…) Na oração, com a ajuda da graça, a soberba pode transformar-se em humildade. E brota da alma a verdadeira alegria, mesmo quando ainda notamos o barro nas asas, o lodo da pobre miséria, que vai secando. Depois, com a mortificação, cairá esse barro e poderemos voar muito alto, porque nos será favorável o vento da misericórdia de Deus. (Amigos de Deus, 233. 249)

São Josemaría Escrivá

São Josemaría Escrivá nesta data em 1938

Escreve numa carta: “Que estejas muito contente: a tristeza é um inimigo nocivo, que, além disso, nos torna a vida impossível”.

João não pode ter morrido em vão

Prenderam-no e decapitaram-no por confrontar Herodes sobre o adultério que cometia ao viver com a mulher do seu irmão Filipe (cfr. Mt 14, 3-5; Mc 6, 17; Lc 3, 19-20). Em nome da “misericórdia” passar uma esponja e aceitar como válidos perante Deus e a Igreja segundos casamentos de divorciados não só é desrespeitar a palavra do Senhor e o Magistério da Igreja em relação à indissolubilidade do casamento (cfr. Mt 5, 31-31.19, 7-9; Mc 10, 1-12; Lc 16, 18; Gaudium et Spes, 48) como ignorar as palavras do Senhor sobre João Batista (Mt 11, 7-15; Lc 24-30; Jo 5, 35), ou seja, se tal sucedesse a morte de João teria sido inglória e os Sagrados Evangelhos transformados em “jornais velhos” para deitar fora.

Defendamos a família unidos ao Romano Pontífice pedindo ao Divino Espírito Santo que ilumine todos os que têm de decidir pontualmente sobre os pedidos de nulidade de matrimónios.

JPR

"o maior entre os nascidos de mulher"

1. No dia de hoje, 29 de Agosto, a tradição cristã recorda o martírio de São João Batista, "o maior entre os nascidos de mulher", segundo o elogio do próprio Messias (cf. Lc 7, 28). Ele prestou a Deus o testemunho supremo do sangue, imolando a sua existência pela verdade e a justiça; com efeito, foi decapitado por ordem de Herodes, a quem tinha ousado dizer que não era lícito casar com a mulher do seu irmão (cf. Mc 6, 17-29).

2. Recordando o sacrifício de João Batista, na Carta Encíclica Veritatis splendor (cf. n. 91) observei que o martírio constitui "um sinal preclaro da santidade da Igreja" (n. 93). Efetivamente, ele "representa o ápice do testemunho a favor da verdade moral" (Ibidem). Se são relativamente poucas as pessoas chamadas ao sacrifício supremo, há porém "um testemunho coerente que todos os cristãos devem estar prontos a dar em cada dia, mesmo à custa de sofrimentos e de graves sacrifícios" (Ibidem). É verdadeiramente necessário um compromisso, por vezes heróico, para não ceder, até mesmo na vida quotidiana, às dificuldades que levam ao compromisso, e para viver o Evangelho "sine glossa".

3. O exemplo heróico de João Batista faz pensar nos mártires da fé que, ao longo dos séculos, seguiram corajosamente as suas pegadas. De modo especial, voltam-me à mente os numerosos cristãos que, no século passado, foram vítimas do ódio religioso em diversas nações da Europa. Mesmo hoje, nalgumas partes do mundo, os fiéis continuam a ser submetidos a duras provações, em virtude da sua adesão a Cristo e à sua Igreja.

Que estes nossos irmãos e irmãs sintam a plena solidariedade de toda a comunidade eclesial! Confiemo-los à Virgem Santa, Rainha dos mártires, que agora invocamos em conjunto.

(São João Paulo II – Angelus do dia 29 de agosto de 2004)

João Batista morre por Cristo

Lansperge, o Cartuxo (1489-1539), religioso e teólogo 

Sermão sobre a Degolação de São João Batista. Opera omnia, t. 2, pp. 514 ss.

João não viveu para si próprio nem morreu para si próprio. A quantos homens carregados de pecados a sua vida dura e austera não terá levado à conversão? A quantos homens a sua morte não merecida não terá encorajado a suportar as provas? E a nós, donde nos vem hoje a ocasião para darmos fielmente graças a Deus, senão da lembrança de São João Baptista, assassinado pela justiça, ou seja por Cristo? [...]

Sim, João Batista sacrificou de todo o coração a sua vida terrena por amor de Cristo; preferiu menosprezar as ordens do tirano que as de Deus. Este exemplo ensina-nos que nada nos deve ser mais querido que a vontade de Deus. Agradar aos homens não serve de grande coisa; em geral, até prejudica grandemente. [...] Por esta razão, com todos os amigos de Deus, morramos para os nossos pecados e as nossas preocupações, pisemos o nosso amor próprio desviado e deixemos crescer em nós o amor fervoroso a Cristo.

Martírio de S. João Batista

A festa do martírio de São João Batista remonta ao século V, na França; e ao século VI, em Roma. Está ligada à dedicação da igreja construída em Sebaste, na Samaria, no suposto túmulo do Precursor de Jesus. O próprio Jesus apresenta-nos João Batista:

Ao partirem eles, começou Jesus a falar a respeito de João às multidões: "Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Mas que fostes ver? Um homem vestido de roupas finas? Mas os que vestem roupas finas vivem nos palácios dos reis. Então, que fostes ver? Um profeta? Eu vos afirmo que sim, e mais do que um profeta. É dele que está escrito: " eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele preparará o teu caminho diante de ti. Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior do que João, o Batista, e, no entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele ..." (Mat 11:2-11).

O martírio de João Batista liga-se à denúncia profética das injustiças cometidas pelos poderosos, inclusive o luxo da corte, cujo desfecho fatal é a morte do inocente e a opressão dos marginalizados.

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

O Evangelho do dia 29 de agosto de 2017

Porque Herodes tinha mandado prender João, e teve-o a ferros numa prisão por causa de Herodíades, mulher de Filipe, seu irmão, com a qual tinha casado. Porque João dizia a Herodes: «Não te é lícito ter a mulher de teu irmão». Herodíades odiava-o e queria fazê-lo morrer; porém, não podia, porque Herodes, sabendo que João era varão justo e santo, olhava-o com respeito, protegia-o e quando o ouvia ficava muito perplexo, mas escutava-o com agrado. Chegou, porém, um dia oportuno, quando Herodes, no seu aniversário natalício, deu um banquete aos grandes da corte, aos tribunos e aos principais da Galileia. Tendo entrado na sala a filha da mesma Herodíades, dançou e agradou a Herodes e aos seus convidados. O rei disse à jovem: «Pede-me o que quiseres e eu to darei». E jurou-lhe: «Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja metade do meu reino». Ela, tendo saído, perguntou à mãe: «Que hei-de pedir?». Ela respondeu-lhe: «A cabeça de João Batista». Tornando logo a entrar apressadamente junto do rei, fez este pedido: «Quero que me dês imediatamente num prato a cabeça de João Batista». O rei entristeceu-se, mas, por causa do juramento e dos convidados, não quis desgostá-la. Imediatamente mandou um guarda com ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi degolá-lo no cárcere, levou a sua cabeça num prato, deu-a à jovem, e esta deu-a à mãe. Tendo sabido isto os seus discípulos, foram, tomaram o corpo e o depuseram num sepulcro.

Mc 6, 17-29

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Amar a Cristo...

Querido Jesus, obrigado pelo Teu filho e Teu santo de nome Agostinho que hoje festejamos, pela sua belíssima conversão, pelo extraordinário relato da sua vida que nos deixou na sua obra maior Confissões, pelos diferentes textos cheios de amor a Ti e de firmeza de fé.

Faz de nós bons Agostinhos e bons conversos, não deixes que o nosso passado se sobreponha ao amor que Te temos e ajuda-nos a evitar o pecado.

Na Tua infinita misericórdia auxilia-nos a sermos nada, para assim sermos tudo em Ti.

JPR

“Tarde Te amei!” - Santo Agostinho

"Et ecce intus eras et ego foris et ibi te quaerebam, et in ista formosa quae fecisti deformis irruebam..."

1. Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio.
2. Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo…
3. Mas Tu me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez… “Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido. Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu estava”. Em meio à luta, recorri a meu grande amigo Alípio e lhe disse: “Os ignorantes nos arrebatam o céu e nós, com toda a nossa ciência, nos debatemos em nossa carne”. Assim me encontrava, chorando desconsolado, enquanto perguntava a mim mesmo quando deixaria de dizer “Amanhã, amanhã”… Foi então que escutei uma voz que vinha da casa vizinha… Uma voz que dizia: “Pega e lê. Pega e lê!”.
4. Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. Então corri à Bíblia, abri-a e li o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar. Pertencia à carta de São Paulo aos Romanos e dizia assim: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,13s). Aquelas Palavras ressoaram dentro de mim. Pareciam escritas por uma pessoa que me conhecia, que sabia da minha vida.
5. Exalaste Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! Deus… de Quem separar-se é morrer, de Quem aproximar-se é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus… de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus… a Quem esquecer é perecer, a Quem buscar é renascer, a Quem conhecer é possuir. Foi assim que descobri a Deus e me dei conta de que, no fundo, era a Ele, mesmo sem saber, a Quem buscava ardentemente o meu coração.
6. Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo por Tua Paz. “Deus começa a habitar em ti quando tu começas a amá-Lo”. Vi dentro de mim a Luz Imutável, Forte e Brilhante! Quem conhece a Verdade conhece esta Luz. Ó Eterna Verdade! Verdadeira Caridade! Tu és o meu Deus! Por Ti suspiro dia e noite desde que Te conheci. E mostraste-me então Quem eras. E irradiaste sobre mim a Tua Força dando-me o Teu Amor!
7. E agora, Senhor, só amo a Ti! Só sigo a Ti! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!…
8. Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!
Santo Agostinho, Confissões 10, 27-29

Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti

Para que não o imites, copio de uma carta este exemplo de covardia: "Antes de mais, agradeço-lhe muito que se lembre de mim, porque necessito de muitas orações. Mas também lhe agradeço que, ao suplicar ao Senhor que me faça “apóstolo”, não se esforce em pedir-Lhe que me exija a entrega da liberdade". (Sulco, 11)

Precisamente por isso, percebo muito bem aquelas palavras do Bispo de Hipona (Santo Agostinho), que soam como um cântico maravilhoso à liberdade: Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti, porque cada um de nós, tu, eu, temos sempre a possibilidade – a triste desventura  de nos levantarmos contra Deus, de rejeitá-lo – talvez só com a nossa conduta  ou de exclamar: não queremos que reine sobre nós . (...)

Queres pensar – pela minha parte também farei o meu exame  se manténs imutável e firme a tua escolha da Vida? Se, ao ouvires essa voz de Deus, amabilíssima, que te estimula à santidade, respondes livremente que sim? Dirijamos o olhar para o nosso Jesus, quando falava às multidões pelas cidades e campos da Palestina. Não pretende impor-se. Se queres ser perfeito..., diz ao jovem rico. Aquele rapaz rejeitou o convite e o Evangelho conta que abiit tristis ,que se retirou entristecido. Por isso, alguma vez lhe chamei a ave triste: perdeu a alegria, porque se negou a entregar a liberdade a Deus. (Amigos de Deus, 23–24)

São Josemaría Escrivá

São Josemaría Escrivá nesta data em 1974

Em Caracas, perguntaram-lhe como fazer oração: “Tu sabes que o Senhor está no Sacrário, mas também se encontra no centro das nossas almas em graça. Portanto, quando disseres: creio firmemente que estás aqui…, em qualquer sítio onde te encontrares, no autocarro, onde quer que seja, tens a Deus Nosso Senhor em ti mesma, no centro da tua alma; e continuas para a frente na tua oração. Não vou dizer-te mais nada, porque a intimidade com Deus Nosso Senhor deve ser muito pessoal”.

Horror e salvação

Igreja de Nabugongo
A minha primeira visita no Uganda foi a Namugongo, palco de cenas indescritíveis de horror e, ao mesmo tempo, ponto culminante da história do país. A data central foi o dia 3 de Junho de 1886 e por isso o 3 de Junho é a festa nacional.

Poucos anos antes, tinham chegado os exploradores ingleses, depois os missionários protestantes e logo a seguir os missionários católicos. Encontraram uma sociedade organizada e com um certo desenvolvimento económico, aprenderam rapidamente a língua e muita gente se converteu.

A religião tradicional incluía Katonda (o Deus criador e misericordioso) e várias dezenas de Lubaale (espíritos), como o espírito do lago, cujos oráculos chegavam a exigir sacrifícios humanos. Um ditado dizia «Katonda tatta» (Katonda não mata), mas os espíritos fartavam-se de matar e o rei também. Por exemplo, o Kabaka (rei) Mutesa, o mesmo que acolheu os exploradores e os missionários, matou os 60 irmãos logo que subiu ao trono. Existia mesmo um local próprio para as execuções dos membros da corte, com um corpo específico de carrascos.

Cinco anos depois de os missionários católicos chegarem, o Kabaka Mutesa morreu e sucedeu-lhe o Kabaka Mwanga II, com 16 anos. E começaram a morrer cristãos.

Houve muitas razões de conflito com os recém-convertidos da corte. Os feiticeiros insistiam em atribuir aos cristãos os contratempos da pesca, ou da agricultura. Os muçulmanos queriam controlar o país. O primeiro-ministro queria afastar as pessoas que lhe pudessem fazer sombra. Sobretudo, Mwanga era homossexual e estava habituado a abusar de quem encontrava pela frente. Mwanga até apreciava o cristianismo, o que não suportava era que os cristãos não aceitassem promoções que envolviam encargos imorais nem condescendessem como os seus desejos sexuais.

O chefe da casa real, Joseph Mukasa, protegia os pajens dos avanços do Kabaka e pagou por isso. Em geral, os pajens eram os filhos dos principais chefes e jovens escolhidos, de grande valor. Muitos converteram-se e Joseph Mukasa era o catequista do grupo.

Em 1885, com o falso pretexto de impedir uma invasão, Mwanga chacinou um grupo de missionários anglicanos que entraram no Uganda. Os protestos de Joseph Mukasa foram a gota de água: foi mandado decapitar e queimar.

Fotografia de vários mártires católicos com o Bispo,
um ano antes de morrerem: 1. Kiriwawanvu 2. Kaggwa
3. Josef Mukasa 4. Kiriggwajjo 5. Tuzinde 6. Ngondwe
7. Buuzabalyawo 8. Ssebuggwawo 9. Bazzekuketta
10. Ludigo 11. Gonza
12. Kibuuka 13 Charles Lwanga
14. Kiwanuka 15. Sserunkuma 16. Mulumba
17. Baanabakintu 18. Kizito 19. Mugagga 20. Gyaviira
Para substituir Mukasa, foi nomeado o jovem Charles Lwanga, o chefe dos pajens. Nesse mesmo dia, Lwanga recebeu o Baptismo. O rei continuou a queixar-se de que nunca encontrava os pagens quando queria e a vingança foi ainda mais terrível. O Kabaka torturou alguns e convocou toda a corte para mandar os cristãos irem para um lado e os outros ficarem. Todos sabiam perfeitamente o que isso implicava. Lwanga colocou-se imediatamente do lado dos cristãos, seguido por todos os pajens do rei, excepto 5. Os que ainda estavam a receber catequese, foram baptizados à pressa. O martírio prolongou-se ao longo de bastantes dias, com uma crueldade difícil de compreender. Foram esquartejados vivos e queimados de forma a prolongar ao máximo o tempo de vida e o sofrimento, tentando desviá-los da fé. Felizmente, ficaram registos e conservam-se muitos testemunhos sobre cada um deles. Até há fotografias deles, dos missionários, do Kabaka e dos outros personagens desta história.

Charles Lwanga foi o primeiro. Os outros, foram arrastados pelos pés durante alguns quilómetros, até perderem a pele e ficarem com as costelas à vista. Por isso o local se chama hoje Namugongo, porque na língua Luganda se diz «abassajja baabatutte namugongo» (homens arrastados de costas).

Monumento evocativo do martírio
Jamais alguém tinha morrido assim. O comandante da força de execução deparou-se com uma alegria inexplicável e uma calma que nunca tinha visto. Foi perguntar ao Kabaka se aqueles rapazes eram mesmo para matar. Obedeceu, mas mais tarde converteu-se.

O Kabaka Mwanga tinha 18 anos quando os seus 45 pajens morreram, 22 católicos e 23 anglicanos. Vários tinham menos de 20 anos, os mais novos tinham 14 anos.

Os mártires não deixaram uma mensagem de ódio mas de uma fidelidade extraordinária a Deus e ao Kabaka. Embora os missionários tenham sido expulsos, o número de cristãos multiplicou-se.

Peregrinos cristãos a caminho de Nabugongo
O cristianismo do Uganda ficou marcado pelo exemplo dos mártires de Namugongo. Sincero respeito pelas convicções de todos (nomeadamente, ecumenismo entre católicos e protestantes e generosidade com os muçulmanos), fidelidade à fé, fidelidade à moral (nomeadamente em matéria de homossexualidade) e delicadeza e amizade para com todos, sem qualquer exclusão. O chefe dos carrascos e o Kabaka Mwanga acabaram cristãos. Hoje, a população do Uganda é quase toda cristã e a maioria católica. Os protestantes que encontrei têm devoção a Nossa Senhora e aos santos, em particular aos mártires de Namugongo, e reconhecem ao Papa um papel singular.
José Maria C.S. André
Spe Deus
28-VIII-2016