Natal

Natal
Vinde, Senhor Jesus! Estamos ansiosos pela vossa chegada para proclamarmos de novo o nascimento do Filho de Deus Pai

sexta-feira, 14 de abril de 2017

VIA SACRA

posfácio

Chegou ao fim a fantástica e sublime odisseia da Paixão e Morte de Jesus Cristo, meu Salvador.

Por momentos, aos meus olhos e coração humanos, parecem-me excessivos os desígnios de Deus: tanto sofrimento, tamanha dor!

Porque me esqueço da suma gravidade e horrível falta que é o pecado dos homens.

Que outra reparação seria possível ou completa senão a levada a cabo pelo próprio Ofendido?

Que és Deus fica abundantemente provado pelo Amor e Misericórdia infinitas que nesta Paixão se revelam.

Que tenhas querido, com esta Paixão, considerar-me Teu filho e devolvido a Eternidade é o que eu acredito firmemente. Ajuda-me Senhor, a ter sempre presentes as cenas que acabo de meditar para que, a sua lembrança bem viva no meu coração me impeça de Te magoar e ofender.[1]

oratória

vultum tuum

Ajuda-me Senhor, a aceitar a minha morte, como e quando Tu o desejares.

Que eu me prepare, Senhor, todos os dias que me concederes viver, para esse momento solene.

Que me encontres disposto e pronto, a qualquer momento, para corresponder à Tua chamada.

Que possa com supremo júbilo ouvir-te dizer que estarei contigo no Paraíso.

Que seja esse momento o verdadeiro encontro entre amigos verdadeiros dando corpo àquele grito que sinto subir-me do peito:

Vultum Tuum, Domine, requiram![2] [3]
filiação divina

Teu filho, Senhor meu Deus!

Que admiração me causa esta realidade.

Que espanto me invade a ponto de só a minha Fé a manter viva em mim.

Podendo eu o que posso:

Nada!

Sendo eu que sou: 

Nada!

Tendo eu o que tenho:

Nada!

Sabendo eu o que sei:

Nada!

Valendo eu o que valho:

Nada!

Para que me queres Tu, Senhor?!

Que Te pode importar a minha pessoa?

Oh Senhor Deus, Rei dos Reis, Criador e Senhor de todas as coisas!

Como é grande o Teu Coração de Pai visto que nele caibo eu também.

Dou-Vos graças meu Senhor e meu Deus por tão grande favor e peço-te me ajudes a merecê-lo.[4]

in hora mortis meae

Esta cruz tão pesada que por vezes permites carregue os meus ombros, é, bem o sei, um sinal do Teu amor por mim.

Se é verdade, Senhor, que, por vezes, provas mais aqueles que amas, então, estou feliz porque, seguramente, me tens junto ao Teu Coração Amantíssimo.

Não permitas, meu Deus, que me deixe esmagar pelo seu peso que, eu tenho a certeza, é à minha medida e muito menor que o que mereceria.

Mas, não Te esqueças, como sou fraco e pusilânime, como me desvio do caminho e tento libertar-me; sou assim, bem o sabes, e sem a Tua ajuda não conseguirei.

A mim, meu Senhor, só me interessa cumprir a Tua Amabilíssima e Justíssima Vontade sobre todas as coisas, estar pronto para Te ver quando entenderes chamar-me a prestar contas.

Por isso, repito na minha alma o clamor que meu querido irmão Manuel José nos últimos tempos da sua vida terrena elevava para Ti:

In hora mortis meae voca me, et iube me venire ad Te.[5]

Os homens são quase sempre os carpinteiros das suas próprias cruzes. [6]

Esta cruz que tento levar a prumo, desafiando as minhas fraquezas, a minha fraca vontade, a minha fuga à dor, esta cruz, Senhor, é a cruz da minha vida que Tu queres que eu leve.
       
Foi talhada por mim, só por mim: as minhas faltas, os meus desejos de ter e possuir, a minha vontade fraca, os devaneios, a falta de unidade de vida, tudo isso e muito mais fui juntando alheadamente e, o resultado... é este.

E agora! Sim... e agora!

Como conseguirei levá-la?

Como conseguirei levá-la a prumo, bem erguida ao alto?

Como hei-de fazer para não me queixar, não me rebelar contra esta cruz que me pesa...pesa?

Senhora das Dores, olha para este teu filho que, gemendo e chorando neste vale de lágrimas, vai arrastando penosamente a sua pequena cruz, e diz ao teu Divino Filho, que eu..., sou pobre e fraco, pequeno e débil, e que preciso de ajuda.

Com essa ajuda divina que, tenho a certeza, me será concedida, não pelos meus méritos mas pela largueza da Sua misericórdia, poderei então levar esta cruz sem medo ou repugnância e oferecer-lhe o esforço da luta que para tal, sem descanso, travarei.[7]
omnia in bonum
Será assim, Senhor, queres-me mais, desejas mais de mim e por isso permites todas estas coisas que me têm acontecido: a perda de emprego, as dificuldades económicas, a perda da honra e do bom-nome, a injustiça, a doença grave e as suas dores e limitações e, também, as minhas fraquezas, a minha sensualidade, o meu mau humor e todas as debilidades de que me envergonho tanto?

Será assim, Senhor?

Então: Omnia in bonum!

Ajuda-me a aceitar, a fazer boa cara, a ganhar coragem e sair para a frente. [8]

 * * * *


[1] Porto, Quaresma de 1987
[2] Sal. 26
[3] Porto, Semana Santa de 99
[4] Porto, 2000.05.17
[5] Porto, Quaresma de 2001
[6] S. Filipe de Néri, Máximas
[7] Porto, Quaresma de 2005
[8] AMA, Diário, Porto, 09.08.2002 e 01.01.2008

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