Natal

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Vinde, Senhor Jesus! Estamos ansiosos pela vossa chegada para proclamarmos de novo o nascimento do Filho de Deus Pai

domingo, 7 de maio de 2017

Terracina e Bonacina

Terracina, praia italiana ao Sul de Roma, é uma terra de plebeus. Bonacina é uma povoação histórica do Norte de Itália, origem de condes, nobres, marqueses e cavaleiros. Como é que uns plebeus Terracina se transformaram em 1944 nos senhores Bonacina? Como ocorreu esta promoção meteórica?

A história começou um ano antes e foi revelada agora por Alberto Terracina, que sentiu o dever de agradecer.

Os Terracina eram judeus e viviam em Roma. A 16 de Outubro de 1943, as tropas alemãs irromperam no bairro judaico e capturaram uma multidão de pessoas, entre eles todos os familiares do lado da mãe. Todos eles foram deportados: avós, tios, primos, o mais novo tinha 8 meses. Do lado do pai, capturaram a tia e duas filhas adolescentes. Todos desapareceram em Auschwitz. Alberto Terracina, hoje septuagenário, conta: «eu tinha dois anos, o meu irmão Leo tinha quatro. Salvámo-nos porque um de nós estava doente e a família não quis sair de casa; na altura, morávamos fora de Roma. Durante três dias, ficámos escondidos num alçapão em casa de amigos e depois, por iniciativa de Mons. Giovanni Battista Montini (futuro Paulo VI, na época principal colaborador do Papa Pio XII) que conhecia o meu pai, acolheram-nos no edifício da Propaganda Fide, junto à casa pontifícia de Castel Gandolfo, e arranjaram-nos documentação falsa».

Alguns judeus refugiados em Castel Gandolfo
Os Terracina permaneceram em Castel Gandolfo com mais 12000 pessoas até ao dia 10 Fevereiro de 1944. Nesse dia, as fortalezas voadoras americanas e inglesas, confundindo os refugiados com soldados alemães, bombardearam a zona e mataram mais de 500 pessoas. Muitos dos sobreviventes fugiram. Os Terracina ficaram alojados alguns dias no Vaticano, durante os quais receberam documentação falsa e o apelido Terracina se transformou em Bonacina. «A seguir – conta Alberto (Bonacina) – viajámos com outros refugiados, na caixa aberta de um camião. Durante o trajecto, contaram-me os meus pais, passámos, pelo menos, por três postos de controlo alemães, mas escapámos graças aos documentos falsos. No entanto, a certa altura o condutor entrou em pânico e deixou-nos em plena noite gelada na praça central de Todi. Na manhã seguinte, foi uma verdadeira competição de solidariedade entre diversas pessoas da cidade para nos trazerem bebidas quentes e cobertores».

«Depois de um breve acolhimento provisório arranjado pelo pároco de Santa Maria, os Bonacina ficámos a morar em casa de Leopoldo Marri, que tinha uma tabacaria e libertou um dos quartos dos filhos para nos instalar. O meu pai e a minha mãe revelaram-lhe logo a nossa verdadeira identidade, mas o tio Leopoldo – como lhe chamávamos o meu irmão e eu – não nos mandou embora apesar do perigo que corria. Nem lhe passou pela cabeça que os alemães pagavam 10000 liras por adulto e 5000 por cada criança».

Alberto Terracina com a mãe e um soldado aliado
(Todi, Junho de 1944)
Um dia, Alberto adoeceu e os pais tiveram de o levar ao médico, o Dr. Paolo Orsini. «Ao ver que eu estava circuncidado, percebeu imediatamente, mas não disse nada. Só no final da guerra, abraçando os meus pais, lhes revelou que tinha percebido». Por ser médico, se alguém o tivesse denunciado, Orsini tinha sido fuzilado.

Finalmente, em Junho de 1944, Todi foi libertada pelo exército Aliado e os Terracina voltaram a Roma, onde souberam que todo o resto da família tinha morrido. Depois da guerra, mantiveram uma amizade muito próxima com os Marri, em casa de quem tinham vivido. Os contactos com o Dr. Paolo Orsini foram esporádicos, até que ele faleceu em 1964.

Recentemente, Alberto Terracina, achou que não tinha agradecido suficientemente e recorreu à televisão italiana para contactar os parentes de Orsini, conseguindo encontrar alguns sobrinhos. A verdade é que Alberto era muito pequeno na altura e «não me lembro do Dr. Orsini, mas penso nele como um homem de grande humanidade. Um homem justo numa época trágica. Pareceu-me que tinha o dever de dar um abraço pelo menos a alguém da família. Tenho pena de não os ter procurado há mais anos». Gaetano Vallini conta mais pormenores numa reportagem do «Osservatore Romano».

Agora, acerte o relógio: às 16h00 do dia 12 de Maio, o Papa Francisco aterra no aeroporto perto de Fátima.
José Maria C.S. André
07-V-2017
Spe Deus

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