Natal

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Vinde, Senhor Jesus! Estamos ansiosos pela vossa chegada para proclamarmos de novo o nascimento do Filho de Deus Pai

terça-feira, 21 de março de 2017

Bento XVI "Conversas finais"

O Observador faz a pré-publicação de "Conversas Finais", o livro em que o Papa emérito recorda os episódios mais marcantes a da sua vida a Peter Seewald, da Alemanha nazi aos escândalos do Vaticano.

Retirou-se quando ainda estava em plenas funções. Foi o primeiro Papa a fazê-lo desde Gregório XII, em 1415, e tem agora publicadas em livro as suas memórias, mas no formato de entrevista. Peter Seewald é o jornalista que comanda estas “Conversas Finais”, uma série de perguntas e respostas que vão dos tempos de infância à II Guerra Mundial, do sacerdócio ao Vaticano, das exigências do pontificado aos escândalos na Igreja Católica.

Nestes dois excertos que o Observador revela em pré-publicação (o livro chega às lojas no dia 21 de março), Bento XVI, que completa 90 anos a 16 de abril, faz confissões sobre dois períodos distintos da sua vida. No primeiro fala da Alemanha nazi, da família num período de guerra e de como o próprio a viveu; no segundo, recorda controvérsias que atravessaram a estrutura da Igreja Católica enquanto foi Papa.

GUERRA

“Ingressou no Seminário Episcopal de Traunstein na Páscoa de 1939. Poucos meses depois, começou a Segunda Guerra Mundial. Lembra-se ainda do dia 1 de setembro de 1939, aquele em que rebentou a guerra?
Sim, lembro-me bem, porque teve como consequência imediata a transformação do seminário em hospital e, a partir de então, íamos de casa para a escola. Desde a crise austríaca, em 1938, que se sabia que iria haver guerra. Lembro-me por isso ainda muito bem de quando se noticiou que Hitler tinha declarado que, a partir de não sei quantas horas, «iríamos ripostar».

Durante a guerra, o seu pai ia às propriedades agrícolas das redondezas pedir comida.

Ele contou isso muitas vezes. Sabíamos até quem eram os lavradores de quem ele poderia esperar alguma coisa.

Em Traunstein, os alunos católicos eram ameaçados por fanáticos da Juventude Hitleriana, tinham de passar por corredores da morte. Houve ataques ao Seminário Episcopal. Para a criança que era então, as ameaças nazis não eram também sinónimo de muito medo?

Com certeza. Quero dizer, na nossa turma, graças a Deus, não havia ninguém que fosse verdadeiramente nazi. Por isso não precisávamos de ter medo de ser denunciados algures. No geral, contudo, o ambiente era pesado. Sabíamos que a longo prazo queria-se que a Igreja desaparecesse. O sacerdócio tinha de acabar. Para nós era claro: «Nesta sociedade não há futuro para nós». Para mim, pessoalmente, a situação agravou-se com a passagem do desporto a disciplina do Abitur. Chumbávamos se não tivéssemos Desporto. Ao mesmo tempo, tínhamos sempre a convicção profunda de que o nazismo não poderia durar muito tempo. O meu pai tinha tanta certeza disso! Pensávamos que a guerra acabaria depressa, porque achávamos que a França e a Inglaterra eram nitidamente mais fortes do que os nazis. Assim, a esperança de que ela não iria durar eternamente era muito grande. Mas tínhamos medo, sentíamo-nos oprimidos. Quando morreram os primeiros amigos e vimos que estava a chegar a nossa vez, tudo se tornou ainda mais sufocante.

A sua família sabia da existência dos campos de concentração? Falavam sobre isso?
Sabíamos que Dachau existia. O campo foi aberto aquando da chamada tomada de poder. Ficávamos horrorizados sempre que ouvíamos dizer que este ou aquele tinha ido para Dachau. O meu pai era leitor da revista Der Gerade Weg, de Gerlich. Ele sabia que Gerlich tinha sido morto ou abatido em Dachau. Sabíamos que havia coisas horríveis a acontecer. A questão dos judeus não estava tão presente entre nós, porque nem em Aschau, nem em Traunstein havia judeus. Isto é, em Traunstein havia um madeireiro, mas mudou-se no dia seguinte àquele em que lhe partiram as janelas.

Pessoalmente, não conhecíamos nenhum judeu. Porém, quando precisávamos de tecidos para coser, o pai encomendava-os sempre a uma empresa em Augsburg, cujo dono era judeu. Depois de os nazis o terem expropriado e perante a publicidade do novo dono de que tudo ia continuar como dantes, o meu pai disse: «Não compro nada a uma pessoa que tirou algo de outra pessoa». E nunca mais comprou nada àquela empresa.

Quando é que soube – e a sua família – dos gaseamentos em Auschwitz, e noutros lugares, e do assassínio em massa de judeus?
Éramos ouvintes, e ouvintes assíduos, de notícias oriundas do estrangeiro, mas dos gaseamentos não ouvíamos dizer nada. Sabíamos bem que os judeus estavam a ter problemas, tinham sido evacuados, que tínhamos de temer o pior, mas de forma concreta só o soube depois da guerra.

Falava-se disso?
Sim, claro, falávamos. O meu pai sempre apelidou Hitler de criminoso, mas essa era toda uma dimensão nova e inimaginável que fez com que tudo parecesse ainda muito mais terrível.

Após a saída da divisão encarregada da bateria de defesa antiaérea, a 10 de setembro de 1944, Vossa Santidade foi para um campo de trabalho do Reichsarbeitsdienst em Burgenland. Descreveu-o nas suas memórias. Onde é que ficava exatamente?
Ficava no município de Deutsch Jahrndorf, situado no triângulo da Eslováquia, da Hungria e da Áustria, muito perto de Pressburg. De onde estávamos víamos a cidadela de Pressburg, ou seja Bratislava. Mesmo ao nosso lado ficava a fronteira húngara. Também tínhamos de trabalhar na colheita de pimentos. Alojaram-nos em cinco ou seis barracas primitivas, de acordo com a altura. Os mais altos ficavam na Barraca 1, eu estava na Barraca 4 ou 5. Na altura as pessoas ainda não eram tão altas e eu passava por uma pessoa de estatura média. Éramos cerca de 15 em cada barraca e dormíamos em beliches.

Todos os dias tinham de sair para construir uma «trincheira no Sudeste»?
Nos primeiros 15 dias, talvez até três semanas, foi só treino. Depois a guerra aproximou-se. De manhãzinha, cada um tinha de escolher uma bicicleta de entre uma quantidade delas. Tínhamos de ser rápidos para conseguir uma. Por vezes também não tínhamos sorte e ficávamos com uma pior. Íamos de bicicleta até ao local das operações e, depois, era só cavar.

Com a famosa pá de que falou.
Eu era, no entanto, um mau escavador. Havia alguns que eram valentes, como rapazes do campo, que conseguiam fazê-lo bem. Comigo, em todo o caso, o Führer não ficou a ganhar.

Em meados de dezembro de 1944, recebeu a instrução militar básica em Traunstein. Um dos seus camaradas contou que receberam ordem para fazer uma marcha de 40 km com máscaras de gás. Ao contrário de Vossa Santidade, que superou bem a prova, vários sucumbiram.
Quarenta quilómetros é um exagero, creio que foram 30. Embora tivéssemos a máscara de gás connosco, muitas vezes não a púnhamos. Eu fui sempre bom a andar, porque para irmos para a escola tínhamos de andar a pé de Hufschlag até Traunstein.

A partir de meados de janeiro de 1945 – tinha então 17 anos –, foi transferido para guarnições, sempre diferentes, na zona à volta de Traunstein. No início de fevereiro de 1945 foi dispensado do serviço. O que é que teve?
Não foi nenhuma doença grave. Tive um panarício, uma infeção num dedo. Todo o polegar ficou terrivelmente supurado e doía-me imenso. O médico, que era, mais propriamente, veterinário (ri), cortou-o sem anestesia. Fez um mau trabalho, já que a infeção não melhorou. Talvez o gesto fosse bem-intencionado e até tenha sido positivo para mim. Seja como for, o certo é que me deu dispensa do serviço.

Nunca esteve em combate. No final de abril, princípio de maio, conta nas suas memórias: «Decidi ir para casa». Parece uma afirmação bastante categórica. Tratou-se, na realidade, de uma deserção punível com pena de morte. Tinha consciência disso?
Agora, a posteriori, fico espantado ao recordar como foi possível eu ter fugido. Sabia que havia sentinelas, que éramos logo abatidos e que uma história dessas, na verdade, só podia acabar mal. Porque é que, apesar disso, fui tão tranquilo para casa, na verdade, já não sei dizer, isto é, não consigo explicar como fui tão ingénuo em tudo isso.

Qual foi a reação do seu pai? Afinal de contas, era um desertor.
O meu pai e toda a família acolheram-me logo com alegria. Como já contei, quando cheguei a casa, estavam duas irmãs do Instituto da Beatíssima Virgem Maria sentadas à mesa a estudar um mapa. Ao verem-me entrar de uniforme, comentaram: «Ah, Graças a Deus temos aqui um soldado; agora estamos protegidos» (riso). O que elas não sabiam era que sucedia precisamente o contrário.

De repente, apareceram agentes das SS em sua casa, mas sem consequências. Apesar de o seu pai os ter insultado violentamente. Pouco antes do fim da guerra, foi feito prisioneiro por soldados do Exército Americano. Só teve tempo de pegar num bloco de notas ou, pelo menos, numa coisa qualquer para escrever…
Um caderno, um verdadeiro caderno.

O que escreveu durante o cativeiro?
Tudo. Anotei situações, mas também escrevi autênticas dissertações sobre temas que eu sabia que antigamente saíam nos exames de Abitur. Tentei ainda fazer poemas gregos e assim. Nada de valioso, portanto, apenas o reflexo dos meus dias.

Alguns dos seus colegas ficaram traumatizados pelas experiências terríveis que viveram durante o cativeiro. Esteve num campo, em Ulm, para 50 000 prisioneiros. Como é que foi?
Foi muito difícil. Primeiro, durante dois dias não comemos nada. Só ao terceiro dia é que nos deram uma ração americana. Foi aí que pela primeira vez vi pastilha elástica. Chegados ao nosso destino, ficámos sempre ao ar livre. Nos primeiros 15 dias, correu tudo bem, porque estava bom tempo.

Quer isso dizer que dormiam em cima de um tapete ao relento?
Eu deitava-me diretamente no chão, não havia tapete nenhum.

Sem cobertor?
Sem cobertor. Com o tempo quente, não há problema.

Não era o pino do verão; era maio, junho… Afinal, Vossa Santidade é bem mais robusta do que se pensa.
(Ri.) Quando somos novos e esperamos que não dure eternamente…

E quando veio a chuva?
Foi terrível. Tinham-se formado algumas comunidades em torno das tendas, mas eu não pertencia a nenhuma. O «chefe» da nossa unidade depois integrou-me numa. Mas fizeram-me perceber de forma tão clara que eu não era bem-vindo que saí. Por fim, um sargento que tinha uma tenda alemã muito pequena (as tendas alemãs eram de facto muito pequenas), muito simpático, disse-me: «Vamos nós, os dois, viver em comunidade numa tenda». Mais tarde, apareceu um outro camarada que trazia uma tenda maior, checa, e aí ficámos mais bem instalados. Ele foi libertado antes de mim e deixou-me levá-la para casa. Esteve depois em Hufschlag e levou-a de volta…

Partiu a pé de Munique em direção a casa, com a tenda na bagagem?
Sim, sim (ri)… Mas o pior era a fome. Por dia, recebíamos apenas uma tigela cheia de comida. Além disso, o roubo era generalizado. Quando fizemos os dois a nossa gruta para a tenda – entrincheirámo-nos nela –, escavei um pequeno buraco no qual punha pão. Adormecia e, quando voltava a acordar, o pão tinha desaparecido. Em todo o caso, passámos muita fome. Mas mais importante do que isso eram, para mim, os grupos que havia e que organizavam apresentações e afins. Isso fez com que a situação não fosse tão má para mim.

A decisão de seguir o sacerdócio foi amadurecendo durante o cativeiro. A leitura da biografia de Hildegard von Bingen, A Luz Viva, de Wilhelm Hünermann, que já tinha lido aos 14 anos, teve alguma influência nessa decisão?
O meu irmão é que nos lia esse livro, à noite, em casa. Eu diria que não foi determinante para a minha vocação sacerdotal, mas foi uma leitura estruturante, que nos ajudou. Mais tarde, tentei pelo menos ficar a conhecê-la minimamente. A figura acompanhou-me sempre, deu-me que pensar; foi-me sempre querida. Contudo, nunca cheguei a empreender o estudo mais aprofundado que me tinha proposto fazer.

Qual foi a reação da sua mãe à vocação sacerdotal? Pronunciou-se decididamente sobre o assunto? Como por exemplo a mãe de Dom Bosco, que também disse: «Se um dia tiveres dúvidas relativamente à tua vocação, despe a sotaina. Mais vale um camponês pobre do que um mau padre».
Ah, bonito. Isso também corresponderia à opinião da minha mãe, embora ela não o tenha dito dessa maneira. Ficou contente por o meu irmão e eu seguirmos essa via. No entanto, também achava que, se não fosse essa a nossa vocação, era preferível abandoná-la. Assim, para ela esse foi sempre um motivo de alegria. Porém, uma alegria contida, porque ela sabia que também poderia correr mal.”

OMISSÕES E PROBLEMAS


“Santo Padre, nomeou um protestante para presidente do Conselho Pontifício para as Ciências. Foi consigo que, pela primeira vez, um professor muçulmano passou a ensinar o Corão na Universidade Gregoriana. Sob a sua direção, foi instituído o Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, que constitui a base organizadora da Missão da Modernidade. Para outras comunidades, como por exemplo a dos anglicanos, Vossa Santidade criou a possibilidade de poderem viver a sua tradição no seio da Igreja Católica. No quadro desta conversa, só podemos abordar uma pequena parte da multitude de decisões e acontecimentos do seu pontificado. Quero, por isso, analisar sobretudo os assuntos que os seus críticos invocam como argumento contra, e não a favor, do seu desempenho no cargo. Uma das acusações que lhe feita é a de que esteve muito pouco propenso a fazer mudanças.

Primeiro, é preciso dizer que começar um pontificado com 78 anos não permite ambicionar grandes mudanças, mudanças de longo prazo que depois o próprio não tem força para levar a cabo. Já falei nisso. Há que fazer o que em cada momento é possível fazer. Segundo, de que falamos quando referimos grandes mudanças? O que é importante é que a fé se mantenha atual. Esta é para mim a missão central. Tudo o resto são questões administrativas que não tinham, necessariamente, de ser resolvidas no meu tempo.

Não achou que fosse também necessário impulsionar a modernização da Igreja Católica?
Depende do que se entende por «impulsionar a modernização». A questão não é o quê e quem é moderno. De facto, o que é importante é não só anunciar a fé de formas que sejam verdadeiras e boas, mas também voltar a compreender e a exprimir essas formas na atualidade – assumindo assim um novo estilo de vida. E isso também acontece através da Providência Divina, do Espírito Santo e das ordens religiosas recentes. Nelas, a vida da Igreja assume novas formas.

Se comparar, por exemplo, as nossas irmãs aqui, no Monastero, que pertencem à comunidade Memores Domini, com as irmãs de outrora, podemos constatar um grande impulso na modernização, simplesmente porque onde está ativa e viva, onde não vive em negação, mas na alegria, a fé encontra também novas formas.

É isto que me enche de alegria: ver como a fé assume novas formas nos movimentos recentes, dando à Igreja um rosto novo. Isto é notório sobretudo nas Jornadas Mundiais da Juventude. Nelas não se encontram quaisquer pessoas, pessoas que estejam atrasadas em relação ao seu tempo, mas jovens que sentem que precisam de outra coisa que não seja a fraseologia habitual e que, ali, realmente se entusiasmam. Há uma nova geração que se está a formar nestas iniciativas lan- çadas por João Paulo II, nas quais a Igreja adquire um rosto novo e jovem.

Cedo exigiu que a Igreja abandonasse alguns bens para que o seu verdadeiro Bem pudesse surtir efeito. A esta palavra de ordem não se deveriam ter seguido sinais e ações mais evidentes no seu pontificado?Talvez, mas é muito difícil. É preciso começar sempre por nós próprios. O Vaticano tem demais? 
Não sei. Temos de fazer muito pelos países mais pobres que precisam da nossa ajuda. Há a Amazónia, África, etc. O dinheiro deve existir sobretudo para ser dado, para servir. Mas, para o podermos dar, de alguma maneira ele tem de entrar. Assim, não sei ao certo do que nos poderíamos ter realmente desfeito. Creio que cada igreja local se deve colocar esta questão, a começar pela da Alemanha.

Aquilo a que estamos a assistir com o Papa Francisco é também um pôr em causa aspetos institucionais da Igreja que já não se coadunam com o nosso tempo.
O IOR [Istituto per le Opere di Religione, o Banco do Vaticano] foi para mim, desde o início, um grande ponto de interrogação e tentei reformá-lo. É um processo lento, porque é preciso familiarizarmo-nos antes com o assunto. Era importante tirá-lo das mãos daqueles a quem tinha sido confiado. Era preciso encontrar uma nova direção e, por muitos motivos, considerou-se que a decisão certa seria não nomear um italiano para o dirigir. Posso dizer que encontrei no barão Freyberg uma ótima solução.

Foi ideia sua?
Sim, para além da legislação que foi criada sob a minha supervisão para, por exemplo, impedir a lavagem de dinheiro. Internacionalmente, é muito apreciado. Em todo o caso, contribui bastante para a reforma do IOR. Ainda reforcei as duas comissões internacionais que, neste caso, exercem o controlo. E elas verificaram que foram feitos progressos consideráveis. Trabalhei no silêncio tanto na legislação como nos aspetos concretos. Penso que agora é possível continuar a trabalhar a partir do que já foi feito.

Durante o seu pontificado vieram a lume factos que durante muito tempo tinham sido encobertos.
Quis claramente fazer mais do que podia. Quando ouviram a nona estação da Via Sacra [A propósito da qual o cardeal falou sobre a sujidade na Igreja], muitos disseram: «Ah, o Papa, agora, vai intervir!». E bem que eu quis, mas é tão difícil chegar lá! Problemas estruturais e pessoais misturam-se e, com intervenções precipitadas, podemos estragar mais do que concertar. É por isso que temos de atuar devagar e com cautela.

Após a sua renúncia, tornou-se público que destituiu centenas de sacerdotes em todo o mundo por abusos.
Quando esse caso começou, de acordo com o direito integrante do Código da Igreja [O Codex Iuris Canonici], em matéria penal e processual penal, só era possível a suspensão. No entanto, do ponto de vista do direito americano, essa medida não era de todo suficiente, porque os visados continuariam a ser sacerdotes. Em conjunto com os bispos americanos decidimos depois que só a redução ao laicado desses sacerdotes é que deixaria claro que os tínhamos punido e que eles tinham sido destituídos do ofício eclesiástico.

Ainda se está a referir ao tempo em que era prefeito.
Sim, sim, claro. Procedi à alteração do direito em matéria penal, que em si era muito deficiente, sobretudo para fortalecer a proteção às vítimas e, assim, poder intervir mais rapidamente. Os processos arrastam-se indefinidamente e quando, passados dez anos, se consegue finalmente punir um, é tarde de mais.

A destituição de cerca de 400 sacerdotes…
Ocorreu quando eu era Papa, mas graças ao direito que tínhamos criado antes.

Sobre o caso Williamson também falámos pormenorizadamente no livro A Luz do Mundo. Uma última pergunta sobre este caso: exatamente quando é que foi informado sobre os problemas?
Em qualquer caso, só o fui depois de tudo ter acontecido. Não compreendo como é que, sendo o caso tão conhecido, nenhum de nós deu por ele. Para mim é incompreensível, inconcebível.

O seu secretário de Estado, o cardeal Bertone, teria podido pedir-lhe que suspendesse o decreto.
Sim, claro.

Não teria havido nenhum problema.
Evidentemente. Aliás, não creio que ele o soubesse; não acredito.

O caso Williamson pode de certa forma ser visto como uma viragem no pontificado. Também é esta a sua opinião?
Na altura houve uma batalha propagandística gigante contra mim. Quem estava contra mim teve finalmente o pretexto para dizer «ele é incapaz, não é o homem certo para o lugar». Foi por conseguinte uma hora negra e um tempo difícil, mas as pessoas acabaram por compreender que eu não tinha sido realmente informado.

É verdade que não houve consequências pessoais?
Não. Houve uma, na medida em que reorganizei por completo a Comissão Ecclesia Dei – a comissão que era responsável nesse caso –, porque a conclusão que tirei do caso foi que ela não funcionava bem.

Foi demasiado brando nesse caso?
Considero que só a comissão teve culpa e reestruturei-a completamente.


No seu livro Attacco a Ratzinger, publicado antes do caso Vatileaks, os autores italianos Andrea Tornielli e Paolo Rodari concluem que houve contra o Papa Bento conluios, campanhas mediáticas e ataques por parte de círculos anticatólicos. Também sentiu em determinados projetos resistência no seio da Cúria?

Não, não diria isso. Seja como for, as pessoas decisivas, os prefeitos e presidentes, apoiaram-me todos.

O seu cardeal secretário de Estado, Tarcisio Bertone, em particular, foi fortemente criticado. Bertone não era diplomata. Segundo as críticas, se a Secretaria de Estado tivesse sido dirigida por alguém mais profissional, muitas das falhas e omissões que depois pesaram contra Vossa Santidade nem sequer teriam acontecido. Porque é que não escolheu outra pessoa para exercer um cargo tão importante?
Porque não tinha nenhuma razão para o fazer. É certo que Bertone não era diplomata, mas era assistente religioso, bispo e teólogo, bem como professor e jurista canónico. Como canonista, também ensinou Direito Internacional e entendia dos aspetos jurídicos do serviço. Acontece que desde o início houve de alguns lados um forte preconceito contra ele. É claro que essas pessoas aproveitaram todas as oportunidades para o confirmar. Talvez ele tenha cometido erros, demasiadas viagens e assim, mas quem é que, na verdade, não erra? Para mim, ele é e continua a ser um homem de fé que procurou servir bem a Igreja. De resto, em relação a problemas específicos, estão em curso investigações judiciais. Há que aguardar os resultados.

É verdade que, num encontro consigo, vários cardeais, entre os quais o cardeal Schönborn, exigiram a substituição de Bertone? A resposta terá sido supostamente: «Bertone fica – basta!»?
Não, isso não aconteceu.

Tal como o seu santo onomástico, São Bento, também se confrontou com um «corvo» (assim foi chamado o seu mordomo Paolo Gabriele), o ladrão de documentos confidenciais vindo do seu círculo mais próximo. Até que ponto o afetou essa história?
De todo o modo, não ao ponto de me levar a algum tipo de desespero ou profunda tristeza. Para mim, é simplesmente incompreensível, mesmo quando vejo a pessoa; não consigo compreender como é que se pode querer algo assim; o que é que se pode esperar de uma ação dessas. Não consigo descortinar essa psicologia.

Há quem ache que isto também pôde acontecer por causa da sua excessiva credulidade.
Sim, bom, não fui eu quem o escolheu. Eu nem sequer o conhecia. Ele passou pelo crivo do sistema, passou todas as provas e em tudo parecia ser o homem certo.

Consta que, no geral, o conhecimento da natureza humana não é o seu ponto forte.
(Ri.) Sim, reconheço que assim é. Em contrapartida, sou muito cauteloso e prudente, porque experimentei muitas vezes os limites do conhecimento da natureza humana noutros e em mim.

Como é que encarou o lado jurídico do caso?
Para mim era importante que também no Vaticano a independência da justiça fosse salvaguardada; que não fosse o monarca a dizer «agora, encarrego-me eu próprio do assunto». Num Estado de Direito, a justiça tem de seguir o seu próprio caminho. Depois, o monarca pode ser clemente, mas isso já é outra coisa.

A 6 de outubro de 2012 o seu antigo mordomo foi condenado a 18 meses de prisão por roubo agravado. E começou a cumprir a pena a 25 de outubro, no Vaticano. A 22 de dezembro foi visitá-lo, perdoou-lhe e remitiu-lhe o resto da pena. Gabriele foi libertado nesse mesmo dia. O que é que ele lhe disse quando o foi visitar?
Estava chocado consigo próprio. Não quero analisar a sua personalidade. É uma mistura estranha entre o que lhe atribuem e o que ele se atribui a si próprio. Compreendeu que não deveria tê-lo feito e que estava no caminho errado.

Especulou-se sobre se é possível um mordomo, sozinho, levar a cabo uma ação desta envergadura. O que acha?
A entrega dos documentos, fê-la certamente sozinho; mais ninguém tinha acesso.

Mas, se calhar, ele foi incentivado a fazer o que fez por companheiros, amigos.
Pode ter sido, mas não sei. Em todo o caso não encontraram indícios disso.

Para esclarecer o caso, Vossa Santidade instituiu uma comissão própria e independente. Não ficou chocado ao ver tanta inveja, ciúme, carreirismo e intrigas no Vaticano?
Bom, não é novidade. Devo dizer expressamente que, embora tudo isso exista, o Vaticano no seu todo não é só isso. Há imensas pessoas realmente boas, que se entregam por completo, de manhã à noite, ao seu trabalho. Conheço tantas pessoas boas que sou levado a dizer que, tudo bem, é preciso aceitar que estas coisas também existem. Numa instituição com muitos milhares de pessoas, é impossível só haver pessoas boas.

Temos de admitir que esse lado existe, com toda a tristeza que isso implica, mas não podemos deixar de ter presente o outro lado. Comove-me ver quantas pessoas encontro, aqui, que do fundo do seu coração querem realmente fazer algo por Deus, pela Igreja e pelos outros, e estão presentes. Quantas pessoas verdadeiramente bondosas e íntegras encontrei aqui! Um aspeto equilibra o outro e digo: o mundo é mesmo assim! Sabemo-lo pelo Senhor! Os peixes maus também estão na rede.

Para fechar este capítulo: o seu sucessor falou de um lobby gay no Vaticano, de um grupo homossexual, que era um problema. Também era esta a sua opinião?
De facto, informaram-me da existência de um grupo, que entretanto desfizemos. Do relatório da comissão de três cardeais constava justamente que tinha sido identificado um pequeno grupo de quatro, talvez cinco pessoas, e desfizemos esse grupo. Se há, outra vez, grupos que se estão a formar, não sei, mas, seja como for, não se pode dizer que esses casos abundem no Vaticano.

O caso Vatileaks fez com que ficasse cansado das suas funções?
Não, até porque penso que é algo que pode acontecer sempre e, sobretudo, não podemos, como eu já disse, ir embora na altura da tempestade; antes pelo contrário, é nessa altura que se tem de ficar e resistir.”

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