N. Sra. de Fátima

N. Sra. de Fátima
Fátima 2017 centenário das aparições de Nossa Senhora, façamos como Ela nos pediu e rezemos o Rosário diariamente. Ave Maria cheia de graça… ©Ecclesia

sábado, 19 de novembro de 2016

Um burburinho dos diabos

Não foi só na Nova Zelândia que a terra tremeu esta semana. Também nas antípodas, neste país que já foi de brandos costumes e agora é de unicidades ideológicas e serôdios corporativismos, se registou um violento sismo mediático, com o epicentro nas controversas declarações da Dra. Maria José Vilaça. Em entrevista à revista Família Cristã, a presidente da Associação dos Psicólogos Católicos disse: “Eu aceito o meu filho, amo-o se calhar até mais, porque sei que ele vive de uma forma que eu sei que não é natural e que o faz sofrer. É como ter um filho toxicodependente, não vou dizer que é bom”.
O que é, ou não, natural tem muito que se lhe diga. Sem entrar no fundo da questão, pode-se dizer que é natural o que se observa na generalidade das pessoas e que, por isso, se atribui à natureza humana. Ora, no mundo inteiro, cerca de 97% da humanidade sente-se atraída pelo sexo oposto: pode-se dizer portanto que, em termos sociológicos, essa é a tendência mais natural, sem que o seu contrário seja anormal. Neste sentido, o celibato, que contraria uma inclinação generalizada, não é tão natural quanto o casamento, sem que por isso seja nenhuma anormalidade. Ser superdotado também não é natural, embora seja, como é óbvio, excelente.
A comparação entre a tendência homossexual e a toxicodependência não foi feliz: não são, de facto, realidades equiparáveis. Porém, o discurso não versava sobre a bondade ou maldade da tendência homossexual, que à psicologia não compete ajuizar, mas à ética e à teologia moral. Pelo contrário, incidia sobre as consequências dessa ocorrência para os pais, como a própria psicóloga depois esclareceu: “O que [eu] disse é que, perante um filho que tem um comportamento com o qual os pais não concordam, [estes] devem na mesma acolhê-lo e amá-lo. A toxicodependência é apenas exemplo de comportamento que, por vezes, leva os pais a rejeitar o filho. Não é uma comparação sobre a homossexualidade, mas sobre a atitude diante dela”.
É pena que esta atitude de aceitação e de caridade para com os homossexuais, nomeadamente os que vivem com os pais, e para com todos os seres humanos, tenha passado despercebida aos que não tardaram em apedrejar publicamente a presidente da Associação dos Psicólogos Católicos. Ora Maria José Vilaça, seguindo aliás o Papa Francisco, como compete a qualquer católico coerente, para todos exigiu acolhimento e amor.
A propósito, esclareça-se que a Igreja não reprova a tendência homossexual, nem muito menos as pessoas – algumas, por certo, católicas – que, por vezes contra a sua vontade e com grande sofrimento, se reconhecem nessa situação. O que a Igreja reprova são os comportamentos contrários ao que, segundo a Bíblia, entende ser o recto uso da sexualidade humana, sejam esses actos praticados por um homem ou uma mulher, uma pessoa solteira ou casada, com tendência homossexual ou heterossexual. Não faria sentido que, aos homossexuais, não se exigisse o que a todos os cristãos se pede: na realidade, isso seria até uma sua injusta discriminação. O Evangelho é igualmente exigente para todos os fiéis: nomeadamente os que optam pelo celibato, apesar da inclinação natural para a actividade sexual; ou os que se comprometem à fidelidade para sempre, no matrimónio monogâmico, não obstante a natural atracção por outros eventuais parceiros. Por isso, quando Cristo enunciou os princípios a que se obrigam os cristãos quando casam, muitos concluíram que, assim sendo, mais valia não casar! (Mt 19, 10).
Entre as muitas reacções suscitadas pelas polémicas declarações da presidente da Associação dos Psicólogos Católicos, surpreendeu, pela positiva, o sensato comentário de quem, identificando-se como homossexual, teve a coragem de criticar os que, a coberto dessa mesma tendência, deram indícios de uma mentalidade perigosamente autoritária e de uma exagerada susceptibilidade em relação a qualquer discurso que não exalte o seu estilo de vida, ou não aplauda os seus pontos de vista.
Com efeito, a este propósito, José Leote escreveu: “assistimos a um fenómeno curioso e preocupante que, infelizmente, se tem vindo a acentuar nos últimos tempos: quem expressa uma opinião contrária à nossa é necessariamente homofóbico. Por outras palavras, queremos rotular de homofóbica toda a pessoa que discorda de nós, que tem uma opinião diversa sobre a homossexualidade, mesmo que não incite ao ódio contra quem quer que seja. Ou seja, pretendemos coartar a liberdade de expressão aos outros, que aos quatro ventos reclamamos para nós. Muitos de entre nós chamam os sacerdotes de pedófilos, fazendo uma generalização infundada e abusiva; chama os fiéis disto e daquilo, a Igreja daqueloutro e aqueloutro ainda. Todos e todas se arrogam o direito a fazer e dizer as maiores barbaridades em nome da liberdade individual e de expressão, mas quando alguém discorda de nós: Aqui d’el-rei que é ‘homofóbico/a’!”
A crítica não podia ser mais certeira, porque a radicalização e intolerância do discurso de alguns homossexuais gera violência, também contra os próprios, tantas vezes vítimas de cruéis agressões. É justa e necessária a fundamentada denúncia de casos de verdadeira homofobia, ou de injustificada discriminação, porque não têm possível justificação legal ou moral. Mas, o recurso arbitrário a essa acusação incentiva os autos-de-fé e os julgamentos sumários na praça pública. Os ataques de alguns homossexuais, certamente poucos, à liberdade de pensamento e de expressão, à liberdade religiosa e de opinião, aos direitos humanos, aos valores e aos princípios da democracia, não favorecem, numa sociedade livre e democrática, a sua compreensão e aceitação. Por isso, é de esperar que a Ordem dos Psicólogos Portugueses não dê provimento às queixas contra a liberdade de expressão dos seus profissionais porque, nesse caso, poder-se-ia converter numa odiosa ordem de polícias do pensamento…
Num seu posterior esclarecimento, Maria José Vilaça, com serenidade e bonomia, reconheceu que, como reacção a esta sua entrevista, gerou-se um certo “burburinho”… Na verdade não foi um burburinho, mas – diga-se sem ofensa para ninguém – um ‘burburão’ dos diabos!
P. Gonçalo Portocarrero de Almada in OBSERVADOR (seleção de imagem 'Spe Deus')

Homilia Consistório

A passagem do Evangelho que acabamos de ouvir (cf. Lc 6, 27-36) faz parte do que muitos chamam «o discurso da planície». Depois da instituição dos Doze, Jesus desceu com os seus discípulos para um local plano, onde uma multidão estava à sua espera para O escutar e ser curada por Ele. A vocação dos Apóstolos aparece associada com este «pôr-se a caminho» rumo à planície, para encontrar uma multidão que se sentia – como diz o texto do Evangelho – «atormentada» (Lc 6, 18). A escolha deles, em vez de os fazer permanecer lá no alto, no cimo da montanha, leva-os para o seio da multidão, coloca-os no meio das suas tribulações, ao nível da sua vida. Assim o Senhor revela, a eles e a nós, que o verdadeiro cume se alcança na planície, e esta lembra-nos que o cume se situa num horizonte e, especialmente, num convite: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36).

Um convite acompanhado por quatro imperativos – poderíamos dizer quatro exortações – que o Senhor lhes dirige, para moldar a sua vocação na existência concreta do dia-a-dia. São quatro ações que darão forma, encarnarão e tornarão palpável o caminho do discípulo. Poderíamos dizer que são quatro etapas da mistagogia da misericórdia: amai, fazei o bem, abençoai e rezai. Penso que, sobre estes aspetos, é possível estarmos todos de acordo, parecendo-nos mesmo razoáveis. São quatro ações que facilmente realizamos com os nossos amigos, com as pessoas mais ou menos chegadas, próximas na estima, nos gostos, nos costumes.

O problema surge quando Jesus nos apresenta os destinatários destas ações, e fá-lo com muita clareza, sem divagações nem eufemismos. Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai aqueles que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam (cf. Lc 6, 27-28).

Estas ações, não nos vem espontaneamente a vontade de as fazer a pessoas que aparecem a nossos olhos como um adversário, como um inimigo. Ao vê-las, a nossa atitude primária e instintiva é desqualificá-las, desacreditá-las, amaldiçoá-las; em muitos casos, procuramos «demonizá-las» a fim de ter uma justificação «santa» para nos livrarmos delas. Ao contrário Jesus, referindo-Se ao inimigo, a quem te odeia, amaldiçoa ou difama, diz-nos: ama-o, faz-lhe bem, abençoa-o e reza por ele.

Estamos perante uma das caraterísticas mais específicas da mensagem de Jesus, onde se esconde a sua força e o seu segredo; daí dimana a fonte da nossa alegria, a força da nossa missão e o anúncio da Boa Nova. O inimigo é alguém que devo amar. No coração de Deus, não há inimigos; Deus tem apenas filhos. Nós erguemos muros, construímos barreiras e classificamos as pessoas. Deus tem filhos, e não foi para Se livrar deles que os quis. O amor de Deus tem o sabor da fidelidade às pessoas, porque é um amor entranhado, um amor materno/paterno que não as deixa ao abandono, mesmo quando erraram. O nosso Pai não espera pelo momento em que formos bons, para amar o mundo; para nos amar, não espera pelo momento em que formos menos injustos, ou mesmo perfeitos; ama-nos porque escolheu amar-nos, ama-nos porque nos deu o estatuto de filhos. Amou-nos mesmo quando éramos seus inimigos (cf. Rm 5, 10). O amor incondicional do Pai para com todos foi, e é, uma verdadeira exigência de conversão para o nosso pobre coração, que tende a julgar, dividir, contrapor e condenar. Saber que Deus continua a amar mesmo quem O rejeita, é uma fonte ilimitada de confiança e estímulo para a missão. Nenhuma mão, por mais suja que esteja, pode impedir a Deus de colocar nela a Vida que nos deseja oferecer.

A nossa época carateriza-se por problemáticas e interrogativos fortes à escala mundial. Tocou-nos atravessar um tempo em que ressurgem, à maneira duma epidemia nas nossas sociedades, a polarização e a exclusão como única forma possível de resolver os conflitos. Vemos, por exemplo, como rapidamente quem vive ao nosso lado não só possui a condição de desconhecido, imigrante ou refugiado, mas torna-se uma ameaça, adquire a condição de inimigo. Inimigo, porque vem duma terra distante, ou porque tem outros costumes. Inimigo pela cor da sua pele, pela sua língua ou a sua condição social; inimigo, porque pensa de maneira diferente e mesmo porque tem outra fé. Inimigo, porque... E, sem nos darmos conta, esta lógica instala-se no nosso modo de viver, agir e proceder. Consequentemente, tudo e todos começam a ter sabor de inimizade. Pouco a pouco as diferenças transformam-se em sintomas de hostilidade, ameaça e violência. Quantas feridas se alargam devido a esta epidemia de inimizade e violência, que se imprime na carne de muitos que não têm voz, porque o seu clamor foi esmorecendo até ficar reduzido ao silêncio por causa desta patologia da indiferença! Quantas situações de precariedade e sofrimento são disseminadas através deste crescimento da inimizade entre os povos, entre nós! Sim, entre nós, dentro das nossas comunidades, dos nossos presbitérios, das nossas reuniões. O vírus da polarização e da inimizade permeia as nossas maneiras de pensar, sentir e agir. Não sendo imunes a isto, devemos estar atentos para que tal conduta não ocupe o nosso coração, pois iria contra a riqueza e a universalidade da Igreja que podemos constatar palpavelmente neste Colégio Cardinalício. Vimos de terras distantes, temos costumes, cor da pele, línguas e condições sociais distintas; pensamos de forma diferente e também celebramos a fé com vários ritos. E nada de tudo isto nos torna inimigos; pelo contrário, é uma das nossas maiores riquezas.

Amados irmãos, Jesus não cessa de «descer do monte», não cessa de querer inserir-nos na encruzilhada da nossa história para anunciarmos o Evangelho da Misericórdia. Jesus continua a chamar-nos e a enviar-nos à «planície» dos nossos povos, continua a convidar-nos a gastar a nossa vida apoiando a esperança do nosso povo, como sinais de reconciliação. Como Igreja, continuamos a ser convidados a abrir os nossos olhos para vermos as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da sua dignidade, provados na sua dignidade.
Amado irmão neo-cardeal, o caminho para o céu começa na planície, no dia-a-dia da vida repartida e compartilhada, duma vida gasta e doada: na doação diária e silenciosa do que somos. O nosso cume é esta qualidade do amor; a nossa meta e aspiração é procurar na planície da vida, juntamente com o povo de Deus, transformar-nos em pessoas capazes de perdão e reconciliação.

Amado irmão, aquilo que hoje se te pede é que guardes no teu coração e no coração da Igreja este convite a ser misericordioso como o Pai, sabendo que «se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 49).

O Evangelho de Domingo dia 20 de novembro de 2016

O povo estava a observar. Os príncipes dos sacerdotes com o povo O escarneciam, dizendo: «Salvou os outros, salve-Se a Si mesmo, se é o Cristo, o escolhido de Deus». Também O insultavam os soldados que, aproximando-se d'Ele e oferecendo-Lhe vinagre, diziam: «Se és o rei dos Judeus, salva-Te a Ti mesmo!». Estava também por cima da Sua cabeça uma inscrição: «Este é o Rei dos Judeus». Um daqueles ladrões que estavam suspensos da cruz, blasfemava contra Ele, dizendo: «Se és o Cristo, salva-Te a Ti mesmo e a nós». O outro, porém, tomando a palavra, repreendia-o, dizendo: «Nem tu temes a Deus, estando no mesmo suplício? Quanto a nós fez-se justiça, porque recebemos o castigo que mereciam as nossas ações, mas Este não fez nenhum mal». E dizia a Jesus: «Senhor, lembra-Te de mim, quando entrares no Teu reino». Jesus disse-lhe: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no paraíso».

Lc 23, 35-43

O Evangelho do dia 19 de novembro de 2016

Aproximaram-se depois alguns saduceus, que negam a ressurreição, e fizeram-Lhe a seguinte pergunta: «Mestre, Moisés deixou-nos escrito: “Se morrer o irmão de algum homem, tendo mulher, e não deixar filhos, case-se com ela o seu irmão, para dar descendência ao irmão”. Ora, havia sete irmãos. O primeiro casou, e morreu sem filhos. Casou também o segundo com a viúva, e morreu sem filhos. Casou depois com ela o terceiro. E assim sucessivamente todos os sete; e morreram sem deixar filhos. Morreu enfim também a mulher. Na ressurreição, de qual deles será ela mulher, pois que o foi de todos os sete?». Jesus disse-lhes: «Os filhos deste mundo casam e são dados em casamento, mas os que forem julgados dignos do mundo futuro e da ressurreição dos mortos, não desposarão mulheres, nem as mulheres homens, porque não poderão jamais morrer; porquanto são semelhantes aos anjos e são filhos de Deus, visto serem filhos da ressurreição. Que os mortos hajam de ressuscitar, o mostrou também Moisés no episódio da sarça, quando chamou ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacob. Ora Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos são vivos». Alguns dos escribas disseram-Lhe: «Mestre, falaste bem». Dali em diante, não se atreveram mais a interrogá-l'O.

Lc 20, 27-40