Natal

Natal
Vinde, Senhor Jesus! Estamos ansiosos pela vossa chegada para proclamarmos de novo o nascimento do Filho de Deus Pai

domingo, 2 de outubro de 2016

Homilia do Santo Padre em Baku, Azerbeijão

Hoje a Palavra de Deus apresenta-nos dois aspetos essenciais da vida cristã: a  e o serviço. A propósito da fé, temos dois pedidos particulares dirigidos ao Senhor.

O primeiro é do profeta Habacuc, suplicando a Deus para intervir restabelecendo a justiça e a paz que os homens romperam com a violência, lutas e contendas: «Até quando, Senhor – diz ele –, pedirei socorro, sem que me escutes?» (Hab 1, 2). Em resposta, Deus não intervém diretamente, não resolve bruscamente a situação, nem Se torna presente com a força. Pelo contrário, convida a aguardar com paciência, sem nunca perder a esperança; sobretudo sublinha a importância da fé: porque o homem viverá pela sua fé (cf. Hab 2, 4). Do mesmo modo procede Deus também connosco: não subscreve os nossos desejos que pretenderiam mudar imediata e continuamente o mundo e os outros, mas visa antes de tudo curar o coração: o meu coração, o teu coração, o coração de cada um. Deus muda o mundo, mudando os nossos corações, mas isto não o pode fazer sem nós; com efeito, o Senhor deseja que Lhe abramos a porta do coração, para poder entrar na nossa vida. E esta abertura a Ele, esta confiança n’Ele é precisamente «o poder vitorioso que venceu o mundo: a nossa fé» (1 Jo 5, 4). Porque, quando Deus encontra um coração aberto e confiante, nele pode realizar maravilhas.

Mas ter fé – uma fé viva – não é fácil e, daí, o segundo pedido; o pedido que, no Evangelho, os Apóstolos dirigem ao Senhor: «Aumenta a nossa fé!» (Lc 17, 5). É uma boa petição, uma súplica que poderíamos também nós dirigir a Deus todos os dias. Mas a resposta divina é surpreendente e, também neste caso, devolve-nos o pedido feito: «Se tivésseis fé...» É Ele que nos pede para ter fé; porque a fé, que é um dom de Deus e sempre se deve pedir, tem de ser, por sua vez, cultivada também por nós. Não é uma força mágica que desce do céu, não é um «dote» pessoal que se recebe duma vez para sempre, nem mesmo um superpoder que serviria para resolver os problemas da vida. Com efeito, uma fé útil para satisfazer as nossas necessidades seria uma fé egoísta, completamente centrada em nós. A fé não deve ser confundida com estar bem ou sentir-se bem, com sentir-se consolado no íntimo, porque temos um pouco de paz no coração. A fé é o fio de ouro que nos liga ao Senhor, a pura alegria de estar com Ele, de estar unido a Ele; é o dom que vale a vida inteira, mas que só dá fruto, se fizermos a nossa parte.

E qual é a nossa parte? Jesus faz-nos compreender que é o serviço. De facto no Evangelho, logo depois das palavras sobre a força da fé, o Senhor fala do serviço. Fé e serviço não se podem separar; antes, pelo contrário, estão intimamente ligados, atados entre si. Para explicar isto, gostaria de usar uma imagem que vos é muito familiar: a de um lindo tapete. Os vossos tapetes são verdadeiras obras de arte e provêm duma tradição muito antiga. Também a vida cristã de cada um vem de longe, é um dom que recebemos na Igreja e que provém do coração de Deus, nosso Pai, que deseja fazer de cada um de nós uma obra-prima da criação e da história. Cada tapete, como bem sabeis, deve ser tecido segundo a teia e a tecedura; só com esta estrutura é que o conjunto resulta bem composto e harmonioso. O mesmo se passa com a vida cristã: tem de ser pacientemente tecida cada dia, entrelaçando entre si uma teia e uma tecedura bem definida: a teia da fé e a tecedura do serviço. Quando se enlaça a fé com o serviço, o coração permanece aberto e jovem, e dilata-se ao fazer o bem. Então a fé, como diz Jesus no Evangelho, torna-se poderosa e faz maravilhas. Se caminha por tal estrada, então amadurece e torna-se forte, desde que permaneça sempre unida ao serviço.

Mas que é o serviço? Poderíamos pensar que consistisse apenas em ser fiéis aos próprios deveres ou na prática de qualquer obra boa. Mas, para Jesus, é muito mais. No Evangelho de hoje, pede-nos, mesmo com palavras muito fortes e radicais, uma disponibilidade total, uma vida totalmente disponível, sem olhar a cálculos nem conveniências. Porque é tão exigente Jesus? Porque Ele nos amou assim, fazendo-Se nosso servo «até ao extremo» (Jo 13, 1), tendo vindo «para servir e dar a sua vida» (Mc 10, 45). E isto acontece ainda agora todas as vezes que celebramos a Eucaristia: o Senhor vem estar no meio de nós e, por mais que nos proponhamos de O servir e amar, é sempre Ele que nos precede, servindo-nos e amando-nos imensamente mais de quanto possamos imaginar e merecer. Dá-nos a sua própria vida; e convida-nos a imitá-Lo, dizendo: «Se alguém Me serve, que Me siga» (Jo 12, 26).

Portanto, não somos chamados a servir apenas para ter uma recompensa, mas para imitar Deus, que Se fez servo por nosso amor. Nem somos chamados a servir de vez em quando, mas a viver servindo. Então o serviço é um estilo de vida; mais ainda, resume em si todo o estilo cristão de vida: servir a Deus na adoração e na oração; estar abertos e disponíveis; amar concretamente o próximo; trabalhar com ardor pelo bem comum.

E não faltam, aos crentes, também as tentações, que afastam do estilo de serviço e acabam por tornar a vida inútil. Onde não há serviço, a vida é inútil. Também aqui podemos pôr em evidência duas delas. Uma é deixar o coração entibiar-se. Um coração tíbio fecha-se numa vida preguiçosa e sufoca o fogo do amor. Quem é tíbio vive para satisfazer as suas próprias comodidades, que não bastam jamais e, por isso, nunca está contente; pouco a pouco acaba por se contentar com uma vida medíocre. O tíbio reserva, para Deus e os outros, uma determinada «percentagem» do seu tempo e do seu coração, sem nunca exagerar, antes procurando poupar. Assim a sua vida perde o sabor: torna-se como um chá que era verdadeiramente bom, mas, quando fica frio, não se pode beber. Estou certo, porém, de que vós, fixando os exemplos daqueles que vos precederam na fé, não deixareis entibiar o coração. A Igreja inteira, que por vós nutre uma simpatia especial, tem os olhos postos em vós e vos encoraja: sois um rebanho pequeno mas muito precioso aos olhos de Deus.

Mas há uma segunda tentação, na qual se pode cair, não por ser passivo, mas porque se é «demasiado ativo»: a tentação de pensar como donos, trabalhar apenas para ganhar crédito e tornar-se alguém. Então o serviço torna-se um meio e não um fim, porque o fim passou a ser o prestígio; depois, vem o poder, o desejo de ser grande. Mas Jesus lembra a todos nós: «Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo» (Mt 20, 26). É assim que se edifica e embeleza a Igreja. Retomo a imagem do tapete, aplicando-a à vossa bela comunidade: cada um de vós é como um esplêndido fio de seda, mas os vários fios só criam uma composição bonita se estiverem bem entrelaçados uns com os outros; sozinhos, não servem. Permanecei sempre unidos, vivendo humildemente em caridade e alegria; o Senhor, que cria a harmonia nas diferenças, vos guardará.

Assim nos ajude a intercessão da Virgem Imaculada e dos Santos, especialmente de Santa Teresa de Calcutá, cujos frutos de fé e serviço estão presentes no meio de vós. Acolhamos uma das suas palavras estupendas que resume a mensagem de hoje: «O fruto da fé é o amor. O fruto do amor é o serviço. O fruto do serviço é a paz» (O caminho simples, Introdução).

Bom Domingo do Senhor!

Imitemos em oração permanente os Apóstolos como nos fala o Evangelho de hoje (Lc 17, 5-10) e peçamos ao Senhor que nos aumente a nossa fé hoje e sempre.

Que o Senhor nos conceda a graça de um dia podermos dizer como Paulo «não sou eu quem vive; é Cristo que vive em mim» (Gal 2, 20).

Obrigado Senhor!

S. Josemaria comentou, em várias ocasiões, que sempre ressoavam na sua alma os sinos da igreja de Nossa Senhora dos Anjos, que tornavam muito atual – até à sua partida para o céu – o dever de fazer o Opus Dei com a força do ano de 1928 e, a seguir, de 1930. Peço ao Senhor que se enraíze, na nossa atuação, esta mesma responsabilidade, porque cada uma e cada um é a continuidade.
Mas uma vez mais se cumpriu a parábola da pequena semente: e temos de encher-nos de agradecimento a Nosso Senhor. Passou o tempo e o Senhor confirmou-nos na fé, concedendo-nos tanto e mais do que víamos então. Perante esta realidade maravilhosa em todo o mundo – realidade que é como um exército em ordem de batalha para a paz, para o bem, para a alegria, para a glória de Deus –, perante esta obra divina de homens e de mulheres em tão diferentes situações, de leigos e de sacerdotes, com uma expansão encantadora, que encontrará necessaria­mente pontos de aflição, porque estamos sempre a começar, temos que baixar a cabeça, amorosamente, dirigir-nos a Deus e dar-Lhe graças. E dirigir-nos também à nossa Mãe do Céu, que esteve presente, desde o primeiro momento, em todo o caminho da Obra [1].
Ainda soam na minha alma as considerações de S. Josemaria. Lembro-me como se fosse ontem destas palavras, pronunciadas como uma oração cheia de amor a Jesus Cristo presente na Eucaristia, no oratório da sede central da Obra dedicado ao Pentecostes. Servem-nos também agora, ao começar este novo ano do Opus Dei, para nos cumularem novamente de esperança, porque o Senhor, que fomentou a Obra, continua a mantê-la ativa e fecunda ao longo dos anos, com a tua resposta e a minha.
Como S. Josemaria naquele aniversário do ano de 1962, também hoje nos maravilhamos diante do que vemos já feito nesta pequenina parte da Igreja: a Obra. É Ele quem a faz crescer, tornando mais uma vez realidade – como aconteceu frequentemente na História da Igreja – a parábola do grão de mostarda: a mais pequena de todas as sementes, mas, depois de crescer, torna-se a maior planta da horta e transforma-se num arbusto, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos [2].
Tal como em 1928, agora, e sempre, é evidente a desproporção entre os nossos meios e os frutos que Deus suscita. O Seu poder salvífico não diminuiu, mas espera de cada uma e de cada um de nós, bem como das pessoas que se acolhem à sombra desta árvore frondosa, uma correspondência generosa, a maior de que sejamos capazes, com a Sua ajuda.
Nasce na nossa alma o louvor e a ação de graças a Deus.Obrigado, Senhor! Porque esta fornada de pão maravilhoso já está a espalhar o bom aroma de Cristo (2 Cor 2, 15) no mundo inteiro: obrigado por estes milhares de almas que glorificam a Deus em toda a Terra. Porque todos são Teus [3].
[1] S. Josemaria, Meditação, 2-X-1962 (AGP, biblioteca, P09, p. 57).
[2] Mt 13, 32.
[3] S. Josemaria, Meditação, 2-X-1962 (AGP, biblioteca, P09, p. 59).

(D. Javier Echevarría excerto da carta do mês de outubro de 2016)
© Prælatura Sanctæ Crucis et Operis Dei

A fé dos servos humildes, da serva humilde

Jean-Pierre de Caussade (1675-1751), jesuíta 
Abandono à providência divina, cap. 9, 122


Encontrar Deus tanto nas coisas mais simples e insignificantes como nas maiores é ter uma fé fora do comum, grande e extraordinária. Contentar-se com o momento presente é saborear e adorar a vontade divina em tudo o que se tiver de sofrer ou de fazer, naquilo que compõe o momento presente nas suas sucessões. Graças à vivacidade da sua fé, estas almas simples adoram a Deus igualmente nos estados mais humildes; nada derruba a sua fé, […] nada as espanta, nada as desgosta.

Maria verá fugir os apóstolos, mas manter-se-á firme aos pés da cruz e reconhecerá o seu Filho, mesmo desfigurado pelos escarros e pelas chagas. […] A vida da fé mais não é que seguir a Deus através daquilo que O disfarça, O desfigura, O destrói e, por assim dizer, O aniquila. Eis a vida de Maria, do estábulo ao Calvário: ser fiel a um Deus que todos desconhecem, abandonam e perseguem. De igual modo, as almas de fé atravessam uma sucessão contínua de mortes, de véus, de sombras e de aparências que tornam irreconhecível a vontade de Deus; e seguem-na e amam-na até à morte de cruz, e sabem que há que deixar passar as sombras e correr atrás deste Sol divino. Da aurora ao poente, por mais escuras e espessas que sejam as nuvens que O escondem, este Sol ilumina, aquece e inflama os corações fiéis que O bendizem, O louvam, O contemplam.