N. Sra. de Fátima

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Fátima 2017 centenário das aparições de Nossa Senhora, façamos como Ela nos pediu e rezemos o Rosário diariamente. Ave Maria cheia de graça… ©Ecclesia

sábado, 10 de dezembro de 2016

Medicina (a)moral

A cena repete-se: vou ao médico, mas o médico não vem até mim.Olho para ele, digo-lhe o que tenho; ele não me olha, não tira os olhos do ecrã, tecla a minha informação no sistema, no tal big data. Não conhece o big data, caro leitor? É uma medusa de algoritmos que gere biliões de dados pessoais. É pretensamente infalível na previsão do futuro. Sublinho o pretensamente: o big data deu como certa a vitória de Hillary Clinton. Ou seja, o big data é só a mais recente utopia positivista de uma longa lista de narcisos científicos. A razão que leva uma pessoa a esconder a sua intenção de voto é a mesma razão que conduz ao anseio por um médico empático: somos seres frágeis, temos medo, precisamos de uma estrutura moral para encaixar os factos. Não somos, caro leitor, um mero amontoado de tecidos orgânicos irrigados por fluidos, movidos por milhares de reações químicas e espezinhados por bactérias devidamente espezinhadas por químicos recomendados pelo big data.

Não, não estou a defender o regresso à intimidade do médico de aldeia, esse amigo que conhecia de memória todo o historial médico da família. O meu ponto é que não pode haver médicos sem juízo moral. O médico até pode pendurar o estetoscópio no pescoço do algoritmo, mas não pode fazer o mesmo com a consciência. A suspensão da intuição moral, que o leva a ser brilhante no tratamento das debilidades mecânicas do coração enquanto órgão, transforma-o num cego quando o assunto é o coração humano enquanto metáfora emocional. Um bom médico é alguém que faz a ponte entre o órgão e a metáfora, entre o mundo da possibilidade material da ciência e o mundo da consciência, entre o positivismo empirista ancorado à natureza e o juízo moral que olha para Deus. Se o caro leitor é daqueles que acham que Deus não existe, por favor não se amofine: troque “Deus” por “imperativo categórico” e continue a ler.

Naquela tensão entre matéria e moral, o big data está a levar a medicina para a desumanidade positivista. Exemplos? Nos EUA alguns médicos exigem que colegas antieutanásia pratiquem a eutanásia, alegando que esta é uma prática reconhecida pelo Estado, logo todos têm de a cumprir. Repare, caro leitor, como a agenda fraturante acaba sempre na velha intolerância autoritária. Se já é necessário nestas questões fraturantes, o juízo moral do médico será ainda mais decisivo no futuro próximo. A atual descoberta da unidade básica da vida (gene) é idêntica à descoberta da unidade básica da matéria (átomo): é uma bênção e uma maldição. Onde estão os limites éticos à engenharia genética no homem? Esta questão não pode ser respondida pela ciência, o método científico é amoral e lida apenas com possibilidades materiais. A ciência só nos diz se é possível encomendar um filho geneticamente melhorado, não nos diz se é legítimo fazer essa eugenia, não nos diz se é legítimo conceber um filho ex nihilo. A medicina, como ciência, tem de ser amoral. O médico, como pessoa, tem de ser um ente moral. É por isso que precisamos de médicos à moda antiga, daqueles que liam literatura e filosofia e não apenas os abstracts dos journals.

Henrique Raposo in Expresso Semanal de 10.12.2016 AQUI (seleção de imagem ‘Spe Deus’)

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