N. Sra. de Fátima

N. Sra. de Fátima
Fátima 2017 centenário das aparições de Nossa Senhora, façamos como Ela nos pediu e rezemos o Rosário diariamente. Ave Maria cheia de graça… ©Ecclesia

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Com a Virgem morena de Guadalupe


«Meus filhos, durante este mês (…) fui como romeiro a “Torreciudad”, descalço, para honrar Nossa Senhora. Também fui a Fátima, novamente descalço, para honrar Nossa Senhora com espírito de penitência. Agora vim ao México fazer esta novena a Nossa Senhora (…). E creio que posso dizer que a amo tanto como os mexicanos».

Assim explicará o Fundador do Opus Dei o motivo principal da sua primeira viagem à América em 1970. Cerca das três da madrugada do dia 15 de Maio, aterra o avião que o traz à capital azteca.

- «Demorei vinte e um anos a vir a estas terras».

Refere-se o Padre à data da chegada dos seus filhos ao continente americano. Agora, Deus oferece-lhe a oportunidade de presenciar como Deus abençoou o Opus Dei.

O Padre, D. Álvaro del Portillo, e o Pe. Javier Echevarría descem a escada do avião. São recebidos com emoção por um grupo de homens que de há muito se encontram nesta terra.

Guadalupe não é apenas um santuário visitado por quase trinta milhões de pessoas por ano: é a fé de todo o povo unido à Virgem morena. O dia 12 de Dezembro, comemoração de uma das aparições, é festa nacional. Desde a véspera, pessoas de toda a República e mexicanos que vivem no estrangeiro passam a noite às portas da Basílica para serem os primeiros a saudar Nossa Senhora.

Esta devoção remonta a 1531. No sábado 9 de Dezembro, antes de amanhecer, passava no sopé do monte Tepeyac um índio convertido, pobre e humilde. Era Juan Diego, que ia à primeira Missa da Missão. De repente ouviu um cântico suave, como de um bando de pássaros. E ao olhar para o cume vê uma nuvem branca no meio do arco-íris. Uma alegria inexplicável dá-lhe “asas aos pés” e sente-se chamado para o cume do monte. Sobe e vê uma Senhora muito bela cuja presença ilumina os cactos, os espinheiros e as pedras. E fala-lhe na sua língua habitual:

- «Meu filho, Juan Diego, a quem amo ternamente como a uma criancinha frágil, para onde vais?


- À Missa, minha Senhora.
- Meu filho muito querido, Eu sou a sempre Virgem Maria, mãe do Deus verdadeiro, e é meu desejo que se construa um templo neste lugar, onde como tua piedosa Mãe e dos teus semelhantes, mostrarei a minha clemência amorosa e a compaixão que tenho pelos nativos e por todos aqueles que me amam e me procuram, e por todos os que solicitarem o meu amparo e recorrerem a mim nos seus trabalhos e aflições, e onde ouvirei as suas lágrimas e rogos para lhes dar consolo e alívio. Vais dizer ao Bispo que eu te envio para que me edifique um templo»

Juan Diego vai ao Paço de Frei Juan de Zumárraga, primeiro Bispo do México. Mas tem pouca sorte com a sua embaixada e regressa, cabisbaixo, para dar contas à Senhora. Ela anima-o. Tem de insistir. E o Bispo pede-lhe uma prova. Tem que demonstrar que viu, efectivamente, algo de sobrenatural. A Virgem diz que volte na manhã seguinte. Dar-lhe-á um sinal.


Mas a manhã do dia 12, terça-feira, encontra um Juan Diego caminhando, desalentado à procura de um frade. O seu tio, Juan Bernardino, está a morrer. Nem sequer passa pelo alto do monte para não se demorar porque o tempo é pouco para levar assistência ao moribundo. E a Virgem vai ao seu encontro na base da encosta.

«Meu filho, nada te aflija. Não estou eu aqui que sou a tua Mãe? Não estás tu sob o meu amparo? Não sou eu vida e saúde? Não estás no meu regaço e sob a minha protecção? Tens necessidade de outra coisa? Não tenhas medo porque o teu tio já está curado».

A Virgem pede-lhe que, antes de ir a casa do Bispo, suba ao monte e apanhe as rosas que encontrar lá no alto.

Nunca há flores lá no cimo em Dezembro. Mas nesse dia, Juan Diego encontra um jardim e enche a manta índia que lhe serve de capa. Rapidamente chega à presença do Bispo, que o olha assombrado: pensou que não voltaria. E ao abrir o poncho, caem as rosas no chão e fica desenhada na tela a imagem da Virgem de Guadalupe tal como hoje se venera no México. Sobre o tecido feito de palma silvestre brilham as cores e as formas de uma linda mulher de cabelo negro, semblante sereno e de tez morena. Uma túnica rosada e bordada a ouro cobre-a totalmente. O manto é de cor verde mar. Usa coroa real e tem a cabeça inclinada para a direita, com os olhos baixos. Todo o sol do México emerge por de trás como que a protegê-la: cento e vinte e um raios. Um anjo de asas abertas sustenta alegremente o leve peso etéreo da imagem.

Pintores de grande prestígio vieram chamados pelo Vice-Rei, Marquês de Mancera, e pelo Bispo Zumárraga, para indagar sobre a pintura. Entre eles, Juan Salguero, Tomás Conrado, López de Avalos, Alonso de Zárate. Todos são unânimes em afirmar a inexplicável textura e qualidade da tela. O avesso do tecido é muito áspero e a trama muito grossa. O lado da pintura é macio como a seda. As cores e a técnica da pintura permanecem intactas com o decorrer do tempo.

Neste século começou-se a realizar-se um estudo científico; contudo, o mistério permanece, mesmo à luz dos conhecimentos técnicos e científicos de alta precisão. O sábio Richard Kühn, Prémio Nobel de Química, confirmou que a policromia da Virgem de Guadalupe não provém de corantes de origem animal ou vegetal.

Os doutores Callahan e Brant da NASA, fizeram uma análise muito aprofundada com alta tecnologia e, mediante raios infra-vermelhos, verificaram que a pintura não foi feita com esboço prévio nem com pinceladas. A imagem foi pintada directamente. E, finalmente o doutor Aste Tonsmann referiu, apoiando-se na digitalização de imagens fotográficas, que encontrou figuras humanas de tamanho infinitesimal na íris dos olhos da Virgem. Figuras que formam uma cena equivalente ao episódio relatado em náhuatl por António Valenciano no Nican Mopohua do século XVI.

O Padre, ao chegar ao México, tinha comentado:

«Quando for à Villa tereis que me tirar de lá com uma grua».

E repete a mesma coisa ao Arcebispo, Cardeal Miranda, quando o vai visitar. E o Cardeal, que o tinha convidado muitas vezes a atravessar o Atlântico para visitar a Virgem, responde sorridente:
- “Pois não serei eu quem mandarei buscar a grua”.

Está encantado por ter no seu país o Fundador da Obra, e quando o cumprimenta com um abraço, diz:
- «Finalmente conseguimos! Finalmente conseguimos!».

No Sábado, 16 de Maio, o Padre começa as suas visitas à Virgem morena, que se vão prolongar durante nove dias. Acompanham-no Mons. Álvaro del Portillo, o Pe. Javier Echevarría e mais três pessoas. Um grupo pequeno que se aproxima, discretamente, da Basílica. Acabam de soar as seis horas da tarde. O Padre entra, apressadamente, com a juventude e o ânimo de quem tem desde sempre, um encontro gratíssimo e importante. Chega ao altar-mor e ajoelha-se. Permanecerá ali muito tempo a rezar comos olhos postos na Virgem.

Ouve-se, à distância, um relógio com badaladas metálicas. Mons. Álvaro del Portillo aproxima-se do Fundador: «Padre, já aqui estamos há duas horas e estamos rodeados de gente do Opus Dei…».

Enquanto fazia a sua oração, foram chegando as suas filhas e filhos mexicanos. A Basílica encheu-se de caras conhecidas e rezam, todos em uníssono, por aquilo que o Padre está a colocar aos pés da Virgem.

Nos dias seguintes ocupa uma galeria alta localizada sobre o presbitério, à direita da imagem, de onde a pode ver com intimidade. Passa ali várias horas com a Senhora.

Durante os quarenta dias de permanência no México, o Padre verá mais de vinte mil pessoas de toda a América. Numa tertúlia, alguém lhe perguntou o que se deve dizer àqueles que se esquecem da Virgem.

- «Ouviram aquelas palavras de Deus quando, para manifestar o seu carinho, diz: mas, é possível que alguma mãe se esqueça dos seus filhos? Ainda que isso acontecesse, eu, pelo contrário, nunca me esquecerei do amor que vos tenho. Pois também os filhos não se podem esquecer da Mãe».

O índio, por temperamento, é reservado, silencioso. Pode seguir com interesse uma conversa mas ficar calado. Junto do Padre o comportamento é diferente: os camponeses mexicanos do Valle de Amilpas falam com ele, riem-se, manifestam a simplicidade e o afecto do seu coração.

E porque os vê e compreende a língua do seu coração, assume os problemas humanos e sociais referentes ao estado de pobreza dos camponeses. Fala de projectos de habitações condignas, para os camponeses da zona vizinha de Montefalco; interessa-se pela formação que recebem os nativos nesta grande escola profissional que representou um esforço gigantesco; preocupa-se com as famílias das nativas que frequentam escolas do Opus Dei em toda a zona do México.

«Estamos preocupados com o vosso desenvolvimento, de que possam sair desta situação, de modo a não terem dificuldades económicas… Vamos procurar também que os vossos filhos adquiram cultura: verão, com a ajuda de todos o conseguiremos, e que –os que tenham talento e desejos de estudar – cheguem muito alto (…). E, como o faremos? Como quem faz um favor? Não (…) isso não! Não tenho dito que todos somos iguais?».

No dia 16 de Junho reúne-se em Jaltepec, a cinquenta quilómetros de Guadalajara, no estado de Jalisco, com sacerdotes do Opus Dei que trabalham no México e com outros muitos que participam dos meios de formação da Obra.

«Estou muito contente no México, entre outras coisas porque aqui encontrei um anticlericalismo sadio, como aquele de que eu costumo falar. É bem verdade que o têm como fruto de uma grande perseguição contra a Igreja, mas, graças a Deus, isso já passou: confio que saberão manter sempre o equilíbrio que agora têm.

Não quis vir aqui sem que as autoridades o soubessem (…) e dos vossos governantes só recebi atenções».

Conversará com estes sacerdotes dos temas que devem ocupar o coração dos ministros de Cristo: do trabalho com as almas, da dedicação total, da sua entrega incondicional e do serviço constante.

«Todo o nosso coração é para Cristo e – através de Cristo – para todas as criaturas, sem excepções».

Fala-lhes de humildade: essa virtude torna o homem grande apesar dos seus erros: da extraordinária vocação a que foram chamados por Deus desde toda a eternidade. Da ajuda de uns aos outros. Dessa fraternidade que distingue, inconfundivelmente, os filhos de Deus.

“Não estais sozinhos. Nenhum de vós se pode sentir só. E, ainda menos se vamos a Jesus por Maria, porque é uma Mãe que nunca nos abandonará».

Passa o tempo, entre perguntas e respostas rápidas, o bom humor do Padre e a alegria espontânea que produz a sua presença. O sol forte do meio da manhã sente-se e uma bruma suave desce sobre as águas da vizinha lagoa de Chapala.

No dia 22 de Junho, véspera do regresso a Roma, o Padre está reunido com um grupo dos seus filhos. Alguém toca uma guitarra:
- «Padre, é uma antiga canção popular. Dizem que é um bocado “piegas”, mas eu gosto dela. O princípio é um pouco lento:
«Quero cantar-te, mulher, minha mais bela canção, porque és tu o meu amor, rainha do meu coração…»
(em castelhano: Quiero cantarte mujer, mi mas bonita canción porque eres tú mi querer, reina de mi corazón…).(clik para ouvir “Maria Elena” em mp3).

«Porque não vamos todos à “Villa” cantar esses versos à Virgem e fazer-lhe uma serenata?».

O assentimento é unânime. Às 8h30 da noite, estão todos na Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe.

Meia hora antes, a Igreja começa a esvaziar-se dos peregrinos. Mas, em vez de o recinto ficar numa penumbra isolada, hoje enche-se totalmente com uma concorrência entusiasta. Os encarregados do “mariachi” chegam com as suas guitarras e escolhem o lugar apropriado. A “Villa” está completamente cheia. Chega o Padre, e os porteiros fecham as entradas. Uma vez mais, como no primeiro dia, o Fundador ajoelha-se diante da Virgem da América. Depois entoa a Salve-Rainha, que todos cantam: as suas filhas e os seus filhos reunidos numa despedida imprevista. Fica no altar-mor, rodeado por sacerdotes. Há-os de mais idade, com cabelos embranquecidos pelo trabalho e pelo tempo, e outros muito jovens, todos unidos num mesmo afecto. As guitarras rompem o silêncio.
«O meu coração é teu, ó sol do meu amar».
(em castelhano – «Tuyo es mi corazón, oh sol de mi querer»)

Depois entoam «La Morenita» (clik para ouvir “La Morenita” em mp3) e, assim por diante, uma e outra canção. A emoção cresce, porque ali está uma grande parte da alma do México; reuniram-se junto do Padre todos os que percorreram este caminho de fidelidade a Cristo que é o Opus Dei.

Ao começar a terceira canção, o Padre levanta-se e sai da Basílica, enquanto continua a ouvir-se outra canção à Virgem: «Obrigado, por te ter conhecido!...»(clik para ouvir “Gracias” em mp3). e apagam-se as luzes. Os carros regressam à cidade enquanto cai uma chuva miúda, quase imperceptível. Dir-se-ia que o céu mexicano também manifesta a emoção simples e íntima deste adeus.

No dia seguinte, um avião levará Mons. Escrivá de Balaguer a caminho de Roma. Lá longe em Montefalco, junto às velhas paredes da Igreja, ficam umas árvores que plantou antes de partir. Passados anos, quando o tempo as tiver feito crescer, a sua sombra dará paz ao caminhante.

Próximo de Jaltepec, o quadro que representa a Guadalupana a dar uma flor ao índio Juan Diego, ouve um pedido do Fundador:
- «Gostaria de morrer assim: olhando para a Virgem e que ela me entregasse uma flor…».
E, depois de um silêncio, acrescenta:

- «Sim, gostaria de morrer diante deste quadro, com a Virgem a dar-me uma rosa».

Ana Sastre Tempo de caminhar, (trad. port., Lisboa, Diel), p. 523-529

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